Este site foi criado com o intuito de divulgar os feitos mais marcantes no decurso da história mundial

sábado, 30 de abril de 2016

Vídeo nº 3 - Biografia de Maulana Rumi (1207-1273)

Apresentamos em seguida o nosso terceiro vídeo do canal "Os Carreiros da História". Desta feita, optamos por abordar a vida e obra de Maulana Rumi (1207-1273), poeta e místico sufi que marcou uma era dourada na História da Literatura Oriental.
Agradecemos, mais uma vez, à Ilídia Serra pelo empenho e disponibilidade revelados nas gravações que temos vindo a publicar no Youtube.




domingo, 24 de abril de 2016

Curiosidades Históricas (VIII - XIV)



Curiosidade Histórica VIII - Wallada, a Princesa Muçulmana da Tentação

Wallada bint al-Mustakfi era filha de Muhammad III al-Mustakfi, califa efémero de Córdoba, e da escrava cristã Amin'am. Teria nascido em 994 naquela importante urbe islâmica. Em 1024, o seu pai chegaria ao trono por via da usurpação, tendo assassinado o seu antecessor Abderramão V, mas também ele acabaria por padecer do mesmo destino dois anos depois.
Como o seu pai não deixou qualquer descendência masculina, Wallada herdou os seus bens e abriu inclusive um palácio em Córdoba onde tratou da educação das raparigas provenientes de boas famílias. Também aí criou um salão literário que agregaria a presença de poetas e intelectuais do seu tempo. A princesa Wallada daria cartas na poesia, deixando-nos alguns versos de amor e sátira que perpetuam a sua sensibilidade cultural.
Do ponto de vista fisionómico, Wallada personificaria todo um cânone de beleza que não passou despercebido nos cronistas da época. De acordo com as descrições apuradas, teria cabelos loiros, pele clara, olhos azuis, sendo ainda culta, inteligente e orgulhosa. Atrevida, muitas vezes exibiu o seu rosto atraente, partindo corações dos seus admiradores e motivando igualmente críticas dos religiosos mais conservadores que a apelidaram de perversa.
Esta mulher escaldante nutriu uma grande paixão pelo poeta Ibn Zaydún, tendo chegado a manter uma relação secreta com este, dado o facto de ele pertencer à linhagem rival dos Omíadas - os Banu Yahwar. Desta relação, conservaram-se 8 ou 9 poemas que confirmariam os seus desejos de reencontro, mas que também incluiriam algumas reprovações dolorosas mútuas. A relação terá sido rompida, quando Ibn Zaydún se envolveu com uma escrava negra de Wallada.
Wallada manteve depois uma relação com o vizir Ibn Abdus que tratou de a proteger até ao final da sua vida, embora a princesa nunca tivesse contraído casamento durante a sua vida.
Wallada morreu em 26 de Março de 1091, contando já com mais de 80 anos...
Aqui deixamos, em jeito de memória, um pequeno poema da sua autoria (embora traduzido em espanhol):


"Cuando caiga la tarde, espera mi visita,
pues veo que la noche es quien mejor encubre los secretos;
siento un amor por ti, que si los astros lo sintiesen
no brillaría el sol, ni la luna saldría
y las estrellas no emprenderían su viaje nocturno".



 Legenda Imagem - Retrato Proposto da Princesa Wallada de Córdoba. 




Curiosidade Histórica IX - Bandarra, o Profeta Messiânico

Gonçalo Anes Bandarra nasceu no ano de 1500 em Trancoso. Teria sido um vulgar sapateiro, não fossem as suas trovas messiânicas a singularizá-lo para a eternidade.
Bandarra detinha elevados conhecimentos sobre as escrituras do Antigo Testamento, e as suas interpretações teológicas incomodaram a Inquisição que o condenou mesmo a participar na procissão do auto-de-fé de 1541, além de lhe ser vedada doravante qualquer espécie de alusão aos textos bíblicos. Em causa, estariam ainda eventuais conotações do autor com o judaísmo, além de que as suas trovas gozavam de considerável popularidade entre os cristãos novos.
Nas suas trovas, foram desenvolvidos os mitos do milenarismo português, e à posteriori, do próprio sebastianismo. De facto, Bandarra narrava a vinda dum "Encoberto" que, de certa forma, contribuiria para a restauração da glória de Portugal enquanto reino universal. Apesar de Bandarra ter falecido, em condições de pobreza, no ano de 1556, isto é, dois anos depois do nascimento de D. Sebastião (1558), a verdade é que a figura do Encoberto viria a ficar mais tarde associada a este rei que desapareceria em 1578 na Batalha de Alcácer Quibir. Houve outros que associariam esta figura veiculada ao Messias que estaria por vir, ideia que agradava bastante aos judeus perseguidos na Península Ibérica.
Naturalmente, as trovas de Bandarra (mesmo com o seu autor já morto) continuaram a ser repudiadas pelo Santo Ofício que as incluiria no catálogo de livros proibidos.
De seguida, publicamos algumas trovas separadas da sua autoria.


"Faço trovas mui inteiras,
Versos muito bem medidos,
Que hão de vir a ser cumpridos
Lá nas eras derradeiras"

"Augurai, gentes vindouras,
Que o Rei, que daqui há de ir,
Vos há de tornar a vir
Passadas trinta tesouras".

"Este sonho que sonhei
É verdade muito certa,
Que lá da Ilha encoberta
Vos há de vir este Rei".

"Vosso grande capitão,
Ó povo errado e perverso,
Já caminha com o erço,
E vós dormindo no chão"

"Dará fruto em tudo santo,
Ninguém ousará negá-lo,
O choro será regalo
E será gostoso o pranto".

"Em dois sítios me achareis,
Por desgraça ou por ventura:
Os ossos na sepultura,
A alma nestes papéis".







Curiosidade Histórica X - Uma Cidade Medieval Polaca

Nowa Nieszawa foi o nome de uma localidade polaca implantada na margem oeste do rio Vístula que conheceria uma elevada prosperidade durante a primeira metade do século XV. No entanto, esta comunidade não resistiria às incidências do conflito terrível que viria a opor forças polacas e prussianas contra o excessivo poderio da Ordem Teutónica. Em 1454, os habitantes prussianos da cidade rival de Torun, que haviam findado com o anterior domínio teutónico, exigiram ao rei polaco Casimiro IV a destruição de Nieszawa, como contrapartida necessária para viabilizar a integração da confederação prussiana no reino medieval polaco e formalizar assim uma aliança contra um inimigo que partilhavam em comum. O soberano terá cedido à exigência. No ano de 1464, Nieszawa já se encontrava praticamente em ruínas, restando apenas o seu castelo.
Durante a sua existência, Nowa Nieszawa albergaria essencialmente construções civis de madeira ou de pau a pique (taipa de mão), contudo as estruturas municipais e religiosas, consideradas mais importantes, seriam revestidas de tijolo. Nos anos compreendidos entre 1427-1430, o rei polaco ordenaria ainda a construção, também em tijolo, do castelo de Dybów, situado nos arredores da cidade.
Em termos económicos, Nieszawa conseguiu um significativo desenvolvimento mediante a transacção de diversas mercadorias, tais como o grão, o peixe, o azeite e a cerveja. O rio Vístula favorecia igualmente o acesso estratégico ao Mar Báltico que se achava repleto de recursos. A concorrência no plano comercial era então enorme e fez com que esta localidade fosse profundamente odiada pela vizinha cidade (inicialmente teutónica e posteriormente "prussiana") de Torun, resultando mesmo num conflito que assumiria uma natureza política e belicista.
Na vertente social, a localidade em análise foi ainda uma porta de entrada para vários refugiados que escapavam da opressão asfixiante do Estado Teutónico. Nieszawa era habitada por cavaleiros, religiosos e camponeses (tal como qualquer outra comunidade medieval), mas distinguia-se em particular por congregar sociedades multi-culturais tais como alemães, ingleses, checos, holandeses e ainda uma comunidade judaica.
Depois de destruída, a localidade de Nieszawa reemergiria mais tarde a 30 km a este do lugar onde residiam as suas origens medievais.
As reconstituições digitais que se seguem desta cidade medieval polaca do século XV são da autoria de J. Zakrzewski, S. Rzeznik, P. Wroniecki, T. Mełnicki e M. Jaworski (www.medievalists.net), todos eles responsáveis pelo estudo.










Curiosidade Histórica XI - O Desastre de Badajoz (1169)

D. Afonso Henriques e Geraldo Sem Pavor estavam em alta nos finais da década de 1160, devido aos méritos belicistas que haviam alcançado no âmbito da Reconquista Portuguesa.
O rei português, além do estatuto de fundador da nacionalidade, tinha conquistado aos muçulmanos urbes importantes tais como Santarém ou Lisboa (1147), enquanto Geraldo, e o seu grupo de salteadores, tomaram por iniciativa própria Évora (1165) bem como outras praças alentejanas (como por exemplo: Serpa ou Juromenha). O cenário parecia ser então promissor até porque Geraldo acumularia novos êxitos na região da Estremadura, tomando Cáceres, Trujillo (1165) e Montánchez (1166) aos muçulmanos.
Em Maio de 1169, o primeiro rei de Portugal contava já com cerca de 60 anos de idade. Nessa altura, D. Afonso Henriques teve conhecimento duma nova investida de Geraldo Sem Pavor que estaria prestes a tomar Badajoz aos árabes. O rei mouro bem como os seus guerreiros estavam entrincheirados na alcáçova, resistindo com bravura às investidas dos soldados portugueses. D. Afonso Henriques decidiu ir em auxílio de Geraldo, de modo a conquistar rapidamente esta praça. As forças portuguesas eram igualmente comandadas por Fernando Afonso (filho ilegítimo de D. Afonso Henriques que, mais tarde, viria a ser Grão-Mestre da Ordem do Hospital) e D. Pêro Pais da Maia (Alferes-mor do reino).
No entanto, os muçulmanos, mesmo que sufocados pela asfixiante pressão portuguesa, recusaram o cenário de rendição e mantiveram-se assim aquartelados nas fortalezas da alcáçova. Por outro lado, as tropas portuguesas cairiam na desorganização e até na indisciplina (registou-se a ocorrência de orgias e de noites repletas de bebedeiras). O rei português teve igualmente conhecimento da ocorrência de rixas entre os próprios cavaleiros portugueses. Muitos encontravam-se então alcoolizados. No entanto, o pior ainda estava para acontecer...
Ao fim de três ou quatro dias, as tropas do rei leonês D. Fernando II (genro de D. Afonso Henriques) irromperiam surpreendentemente pela cidade, surgindo em auxílio dos mouros cercados. Esta acção deve-se ao facto daquele monarca cristão ter assinado um pacto de defesa mútua com o califa de Sevilha. Além de mais, Badajoz ficaria na margem esquerda do Guadiana, reclamada como área de influência leonesa.
Neste âmbito, as forças leonesas, devidamente coordenadas, varreram os contingentes portugueses que se achavam completamente desorganizados.
Na sua tentativa de fuga, D. Afonso Henriques embateria com o seu cavalo contra uma das portas da muralha da cidade, ficando com mazelas graves, nomeadamente numa perna (talvez fracturada devido à queda).
Detido pelas forças leonesas, foi presente ao rei D. Fernando II que o tratou com respeito e lhe disponibilizou assistência médica. O rei português só seria libertado mediante o pagamento de um resgate em dinheiro e a cedência das praças de Trujillo, Cáceres e Montánchez (anteriormente conquistadas por Geraldo Sem Pavor).
A carreira militar de D. Afonso Henriques tinha ficado seriamente comprometida. O rei português nunca mais recuperou totalmente da lesão profunda que havia sofrido em Badajoz, algo que o impediria de retornar à sua anterior preponderância militar.
Diminuído fisicamente, o "Conquistador" viveria, ainda assim, até ao ano de 1185.



Legenda - Túmulo de D. Afonso Henriques na Igreja de Santa Cruz em Coimbra. 




Curiosidade Histórica XII - O Massacre de Judeus em Lisboa (1506)
 
Nos finais do século XV, a Península Ibérica testemunhou um cenário de total intolerância religiosa. Em 1492, os judeus e os muçulmanos tinham sido expulsos de Espanha por parte dos reis católicos. Entre os anos de 1496-1497 (durante o reinado de D. Manuel I), acabaria por acontecer o mesmo em Portugal. O Tribunal do Santo Ofício (ou Inquisição) seria estabelecido no nosso país em 1536 para punir os desvios à fé católica.
Pelo meio, um episódio em 1506 espelharia o lado mais negro de todo este processo. Os relatos existentes sobre o acontecimento que passaremos a narrar baseiam-se nas descrições então fornecidas por Damião de Góis e Garcia de Resende.
Tudo começou no âmbito de uma eucaristia realizada no Convento de São Domingos de Lisboa, quando um dos crentes jurou ter visto no altar o rosto de Cristo iluminado, "prodígio" que foi encarado como uma bênção divina por parte da multidão de fiéis que, por seu turno, ansiava por um sinal promissor numa conjuntura bastante adversa. No entanto, um cristão-novo (judeu recém-convertido ao cristianismo por imposição legal) que assistia igualmente à missa, contestou tal interpretação e tentou justificar o acontecimento através de um mero reflexo de luz (alimentado talvez por uma candeia acesa do convento) que havia então incidido sobre o crucifixo de Jesus, projectando uma ilusão de óptica. Furiosa com a sua versão apresentada, a turba de fiéis espancou-o até à morte.
Desde logo, dois frades do referido convento dominicano incitaram a uma perseguição sangrenta contra os hereges, prometendo aos participantes a absolvição dos pecados cometidos nos últimos 100 dias. Ao todo, mais de 500 cristãos aderiram a este repto clerical, incluindo marinheiros holandeses, alemães e zelandeses que se achavam, naquele momento, na capital do reino. É possível que o número dos fanáticos perseguidores tivesse ainda aumentado nos dias posteriores.
Os judeus ou cristãos novos seriam o bode-expiatório. A eles se imputava a responsabilidade de todos os males terrenos, nomeadamente a peste, a fome e a seca que assolavam na altura a região.
Durante três dias (19-21 de Abril; na Semana Santa), inúmeras famílias de judeus ou de cristãos novos foram assassinadas nas ruas lisboetas. Outras foram torturadas e queimadas vivas nas fogueiras improvisadas junto à ribeira do Rio Tejo e ao Rossio. Homens, mulheres e crianças padeceram da forma mais aterradora só porque alegadamente tinham diferentes convicções religiosas. Além destas execuções em massa, os perseguidores não hesitaram em entrar nas suas moradias, furtando vários bens (nomeadamente objectos de ouro e prata).
Naquela altura, a corte de D. Manuel estava estabelecida em Abrantes (de modo a fugir à peste que se vislumbrava em Lisboa), mas tentou reagir logo que teve conhecimento das hediondas incidências. Um primeiro grupo de alcaides e magistrados tentou serenar os ânimos na capital, mas dada a sua desvantagem numérica para travar a "insurreição colectiva", tiveram que se retirar para sua própria segurança. A normalidade só foi reposta com a chegada das tropas reais. Alguns dos perseguidores foram presos e enforcados, e os dois frades dominicanos instigadores da chacina seriam queimados na fogueira.
Garcia de Resende estima que 4 mil judeus teriam morrido no decurso daqueles três dias negros. No entanto, a historiografia moderna sugere que o número de vítimas do massacre teria sido bem inferior àquele que foi estimado inicialmente (situando-se talvez na ordem das centenas). Independentemente das estatísticas propostas, este foi um dos episódios mais negros da História de Portugal. E o rastilho de todo este enredo tinha começado com uma simples opinião...



Legenda - Memorial em Lisboa às vítimas do massacre judaico (19-21 de Abril de 1506). 
Foto: Blogue Crónicas Portuguesas




Curiosidade Histórica XIII - A Cidade Portuguesa de Mazagão

Quando em 1415 os portugueses conquistaram Ceuta, iniciariam todo um processo de expansão territorial que resultaria subsequentemente na conquista de diversas praças no norte de África aos muçulmanos. Praças como Arzila, Tânger, Alcácer Ceguer, Safim, Mogador e Azamor foram então tomadas ou ocupadas, em nome da fé cristã, pelas forças portuguesas.
Mas neste pequeno artigo iremos abordar em concreto a história da praça-forte de Mazagão, hoje denominada como El Jadida, que se situava a 90 km a sudoeste da actual cidade de Casablanca. Dentro deste contexto, Mazagão foi uma das principais possessões territoriais portuguesas, tendo conservado esse estatuto entre os inícios do século XVI e 1769 (isto é, quase três séculos!). Ao longo deste período, as guarnições portuguesas resistiram com valentia e heroísmo a poderosos cercos movidos pelas numerosas tropas berberes. Após a retirada portuguesa em 1769, a localidade ficaria abandonada durante meio século até ser finalmente reabilitada pelo sultão Moulay Abderrahmane.
Mazagão, terra então fundada pelos portugueses (e não conquistada pelas armas ao contrário de muitas outras), seria construída obedecendo aos arquétipos da própria arquitectura militar portuguesa do Renascimento. A vila, então localizada na costa ocidental africana, serviria ainda de entreposto comercial e marítimo nas rotas marítimas dirigidas à Índia, o que lhe conferia importância estratégica. De acordo com uma descrição contida na Direcção Geral do Património Cultural (DGPC), "a fortaleza de Mazagão apresentava a forma de um quadrilátero irregular, rematado por quatro frentes abaluartadas (...) duas das faces estavam viradas à costa e duas ao eixo terrestre, facto que traduz o carácter iminentemente militar e defensivo da construção". Além disso, o "fosso da fortaleza permitia a entrada de embarcações através do sistema de comportas (...), e no interior da praça, localizavam-se vários equipamentos de assistência como o hospital, a vedoria, os celeiros, o palácio do governador, os armazéns, a cisterna, o chafariz, igrejas e ermidas".
Da sua primitiva construção em inícios do século XVI, apenas permanecem hoje como testemunhos da duradoura presença portuguesa, uma antiga fortificação com as suas muralhas e baluartes, um primitivo castelo, uma cisterna e uma Igreja de Nossa Senhora da Assunção erigida em estilo manuelino. A localidade é assim fruto do intercâmbio entre as culturas europeia e marroquina, facto que motivou em 2004 a classificação de Património Mundial por parte da UNESCO.
Esta foi a história da Cidade Portuguesa de Mazagão, glorificada pela sua originalidade que rodeou a sua construção militar e disposição urbanística. 







Fotos: Visão sobre a "praça fortificada de Mazagão" (site Património Cultural - DGPC) e imagem da célebre cisterna manuelina (site - VortexMag).
Leiam mais em: http://www.patrimoniocultural.pt/pt/patrimonio/patrimonio-mundial/origem-portuguesa/cidade-portuguesa-de-mazagao-el-jadida/




Curiosidade Histórica XIV - Os Escaldos

A civilização viking assumia uma vocação especial para a arte militar e para a sua fascinante construção naval (daí o célebre "drakkar", embarcação que percorreria oceanos e rios de difícil navegação independentemente do seu caudal).
No entanto, e ao contrário do que muitos possam julgar, existia um núcleo de intelectuais que, além de combater, também se dedicavam à escrita. Eram os célebres "escaldos", indivíduos que, durante a Idade Média, redigiam poemas ou narravam histórias/sagas. Graças aos seus raros conhecimentos, esta pequena "elite" de poetas e cronistas usufruía da presença regular em cortes escandinavas e islandesas. Naturalmente, muitos deles dedicaram "panegíricos" aos seus reis, exaltando os seus feitos alcançados em batalha.
Como meros exemplos de escaldos, teríamos Egill Skallagrímsson, Bersi Skáldtorfuson, Gunnlaugr Illugason, ou Óttarr svarti. Entre os anos de 800 e 1200, estariam documentados mais de 300 escaldos.




quarta-feira, 13 de abril de 2016

Vídeo nº 2 - Massacre Judaico de Lisboa (1506)

Apresentamos hoje o segundo vídeo do nosso canal "Os Carreiros da História". Desta feita, optamos por abordar o massacre de judeus ou cristãos-novos na cidade de Lisboa, entre os dias 19 e 21 de Abril de 1506.
Infelizmente, as condições atmosféricas, no momento da gravação, não foram as melhores, fazendo-se sentir um vento forte que dificulta agora a audição do vídeo, pelo que sugerimos a sintonização do volume de som para um nível mais alto. Por isso, decidimos igualmente colocar textos laterais de modo a favorecer a compreensão da temática abordada.
Feita esta pequena ressalva, esperamos que apreciem o vídeo.
Agradecemos, mais uma vez, o afinco de Ilídia Serra no momento das gravações.





sábado, 26 de março de 2016

Maulana Rumi, o Inigualável Mestre Sufi



Contexto

Omar Khayyam (1048-1131) não foi o único génio proveniente da Pérsia Medieval. No início do século XIII, nasceria naquela região mais uma intelectualidade ímpar. O seu nome era Maulana Jalaluddin Rumi.
Tal como Omar Khayyam, Rumi deixou igualmente um legado brilhante na poesia através das suas reflexões e sentimentos profundos. No entanto, a obra de Maulana Rumi é dotada de uma particularidade, visto que ele dedicaria, muito do seu tempo, ao estudo da teologia e do mundo espiritual. Além disso, e apesar de ambos partilharem uma origem persa, a verdade é que Rumi teve a necessidade de partir cedo rumo à Anatólia, onde viveria os momentos centrais da sua vida.
Os poemas de Rumi alcançariam uma grande difusão em várias regiões do Oriente – Irão, Afeganistão, Tadjiquistão, Turquia…
A sua obra é hoje praticamente conhecida em todos os continentes, e o seu prestígio é indubitavelmente reconhecido pelos grandes círculos intelectuais modernos.





Imagem nº 1 - A civilização medieval islâmica deixou-nos nomes de grandes poetas, matemáticos, filósofos e cientistas.
Retirada de: http://www.islamawareness.net/Maths/science_and_math.html




Juventude e o início da sua “carreira teológica”

Rumi nasceu em 30 de Setembro de 1207, na região de Balj (actual Afeganistão). A sua mãe era Mumina Khatun, enquanto o seu pai era Bahaduddin Walad. Este último exercia o papel de teólogo, jurista e místico, conservando alguma influência no meio popular. Todavia, as invasões violentas dos mongóis (1215-1220) perpetradas na extensa região da Ásia Central, forçaram esta família e um grupo de discípulos a procurarem outras paragens mais seguras localizadas a oeste. A sua caravana percorreria várias terras muçulmanas (Bagdade, Meca, Medina, Alepo, Damasco, Malatya, Erzincan, Sivas, Kayseri e Nidge) até que, por fim, os viajantes se instalariam permanentemente em Konya (cidade que corresponde hoje a uma região central da “Turquia Asiática”). Durante este longo trajecto, e apesar da sua idade menor, o nosso biografado teve a oportunidade de trocar as primeiras impressões com um leque de eruditos. Um deles terá sido o poeta persa sufi Farid al-din Attar que, em Nishapur, lhe confiou uma cópia da sua obra “Asrar Nameh” (“Livro dos Segredos"), além de prever a ascensão espiritual da criança nos tempos vindouros.
Em Konya, destino final do seu percurso, a sua família foi recebida com respeito, tal como muitas outras que haviam chegado a esta terra da Anatólia com o intuito de escaparem às derradeiras depredações mongóis que tinham varrido várias cidades orientais da Pérsia.
Naturalmente influenciado pelas práticas de seu pai, Rumi aderiria ao Sufismo (modo de adoração peculiar na religião islâmica que assume uma natureza mística, contemplativa e ascética), tentando adquirir vários conhecimentos sobre o mundo espiritual. Ele seria ainda discípulo de Sayyed Burhan ud-Din Muhaqqiq Termazi, amigo próximo de Bahaduddin, pai de Rumi, que forneceria, durante nove anos, vários ensinamentos ao jovem.
No ano de 1231, o então honrado místico Bahaduddin Walad acabaria por falecer, transmitindo a “liderança dos assuntos espirituais” ao seu filho que, na altura, contava com 24 anos. Dentro deste contexto, Maulana Rumi assumirá o papel de mestre/professor religioso e, deste modo, pregará eloquentemente nas mesquitas de Konya.




 

Imagem nº 2  - Rumi, Mestre Sufi, reunido com os seus seguidores.
 Retirada da Página do Wikipédia




Amadurecimento, Influências e Obra

Entre os anos de 1240 e 1244, Rumi fundou então um círculo importante de seguidores em Konya. Algumas fontes salientam que, naquela época, já contaria com cerca de 10 mil crentes ou estudantes na sua madrasa ou escola teológica, nomeadamente pedreiros, merceeiros, tecelões, chapeleiros, carpinteiros, alfaiates, encadernadores, etc.
A sua comunidade sufi dedicar-se-ia à aprendizagem espiritual, à meditação e ainda a inúmeras práticas de altruísmo dirigidas aos mais pobres.
No ano de 1244, Rumi conhece o dervixe Shams-e-Tabrizi que provinha de uma estadia curta em Bagdade. Este encontro inesperado acabaria por mudar a vida de Rumi para sempre. Desde logo, Rumi nutriria uma grande afeição por Shams, e inspirado por este, abraçaria finalmente a arte da poesia, versando o seu amor pela Humanidade. Estas duas personalidades marcariam inclusive uma era na história do Sufismo. No entanto, em 1248, Shams desaparece misteriosamente sem deixar rasto. Suspeita-se que terá sido assassinado por discípulos de Rumi que sentiam inveja da sua excessiva proximidade para com o mestre.
Apesar de não ter assumido certezas absolutas quanto ao destino de Shams, Rumi muito sofreu com o seu desaparecimento. O nosso biografado viajou, durante dois anos, rumo a paragens distanciadas (por exemplo: Damasco), na ilusão de reencontrar o seu amigo, caso este ainda estivesse vivo. Aceitando, por fim, a dura realidade de que poderia nunca mais voltar a ver Shams, Rumi iria dedicar-lhe, em jeito de homenagem, a sua famosa obra poética Diwan-e Shams-e Tabrizi, escrita em língua persa e que incluiria rubaiatas (estrofes de quatro versos) e ghazals (odes). O seu novo livro iria conter cerca de 45 mil versos!
Rumi regressaria novamente a Konya para continuar a ministrar os ensinamentos sufis. A ele se atribui a criação da dança espiritual dos dervixes giróvagos (ao som de flautas e tambores), o que granjeou prestígio à Orden Mevleví nos séculos posteriores. Aliás, o Sufismo preconizava expressões musicais e movimentos associados como forma de consolidar uma relação directa, íntima e contínua com Deus.
Entretanto, Rumi desenvolveria uma nova grande amizade, desta feita, com Husamedín Chelebi, sendo que este último o incentivaria a redigir um trabalho místico. Aceitando o desafio que lhe foi proposto, o nosso biografado compôs uma obra determinante – o “Masnavi”. Enquanto Rumi pronunciava oralmente os seus pensamentos (inseridos especialmente na vertente espiritual), Husamedín anotava-os cuidadosamente, gerando assim uma colectânea marcante do Sufismo composta por seis volumes.





Imagem nº 3 - Retrato de Maulana Rumi, sábio que daria cartas na Poesia e Teologia Sufi.




A Morte de um Génio

No dia 17 de Dezembro de 1273, Maulana Rumi deixaria este mundo que tão amava, sucumbindo a uma enfermidade. Seria enterrado em Konya, terra que prontamente o acolheu quando a sua família fugia da Pérsia então fustigada pelas investidas mongóis. A sua tumba é, ainda nos dias de hoje, visitada por muitos sufis, muçulmanos e uma infinidade de admiradores que não olvidaram o seu legado.
A obra de Rumi seria posteriormente traduzida para diversos idiomas (russo, alemão, turco, árabe, francês, italiano, espanhol) e inspiraria inclusive muitos artistas. A sua popularidade ultrapassou fronteiras nacionais e étnicas. Os seus versos ensinam-nos que o amor é o sentimento mais belo que deve ser cultivado pela Humanidade, e que o caminho até Deus se faz através da simplicidade, da bondade e da pureza.






Imagem nº 4 - O túmulo de Maulana Rumi num Mausoléu situado em Konya (actual Turquia).
Retirada da Página do Wikipédia




Poemas da autoria de Maulana Rumi (1207-1273)



“Se queres a Lua,
Não te escondas da noite.
Se queres uma rosa,
Não fujas dos espinhos.
Se queres amor,
Não te escondas de ti mesmo”.



“Faltam-te pés para viajar?
Viaja dentro de ti mesmo,
E reflecte, como a mina de rubis,
Os raios de Sol para fora de ti.
A viagem conduzirá a teu ser,
Transmutará teu pó em ouro puro”.



“Não professo religião alguma,
A minha religião é o amor,
Cada coração é meu templo”.



“Ontem eu era inteligente,
Queria mudar o mundo.
Hoje eu sou sábio,
Estou a mudar a mim mesmo”.



“Não temos nada além do amor,
Não temos antes, princípio nem fim,
A alma grita e geme dentro de nós:
- Louco, é assim o amor.
Colhe-me, colhe-me, colhe-me!”.



“Não se lamente.
O que se perde
Retorna de outra forma”




Imagem nº 5 - Mais um poema da autoria de Rumi sobre a natureza humana e o aperfeiçoamento espiritual.





Imagem nº 6 - "A Vida é um balanço entre segurar e deixar partir" - Rumi.




Notas-Extra:


1. Rumi deixou descendência. Sabemos que Veled (também conhecido como Walad) foi o seu filho mais velho.

2. O seu apelido de “Rumi” poderá estar relacionado com o facto da sua terra de residência - Konya - se situar, na altura, no Sultanato de Rum (região que, durante muito tempo, tinha sido bizantina ou romana, antes de ser conquistada definitivamente pelos turcos seljúcidas). Já em relação ao seu primeiro nome, optamos pela designação de "Maulana", mas também existem notas biográficas que se referem a ele como "Mevlana", "Mawlana" ou "Moulana".

3. O dervixe é um religioso muçulmano que segue uma vida pobreza e austeridade. A sua acção enquadra-se nas práticas do Islamismo Sufista.

4. De acordo com uma notícia da BBC, Rumi era o poeta mais “vendido” nos Estados Unidos da América no decurso dos últimos anos. A sua obra causou igualmente um grande impacto no Ocidente.



Referências Consultadas
:

sexta-feira, 11 de março de 2016

Vídeo Temático nº 1 - Biografia de Omar Khayyam

Este foi o primeiro vídeo temático do nosso novo canal do Youtube - Os Carreiros da História.
Abordamos a vida, obra e legado de Omar Khayyam (1048-1131) - poeta, matemático, astrónomo e filósofo que viveu na Pérsia Medieval, nos tempos do Império Seljúcida. Um génio ao qual rendemos a mais sincera homenagem.
Mais uma vez, prestamos agradecimento à nossa amiga Ilídia Serra pelas filmagens e "adornamento" em termos de design.






Vídeo de apresentação do nosso canal de Youtube - "Os Carreiros da História"

Introduzimos, a partir de hoje, uma nova faceta no nosso projecto. A fim de permitir uma interacção mais dinâmica e produtiva com os nossos seguidores, criamos um Canal no Youtube destinado a abordar conteúdos históricos que determinaram a evolução da humanidade. 
Com base nos critérios de rigor, qualidade e isenção, procuraremos trazer as temáticas mais apelativas, de modo a alcançarmos uma maior visibilidade.
Contamos com o vosso apoio! Sem vocês desse lado, nada disto seria possível.






Nota-extra: Agradecemos à nossa amiga Ilídia Serra todo o seu empenho na realização das gravações e no tratamento do respectivo design.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Sidarta Gautama, a luz da consciência do mundo oriental


Nota Introdutória

À primeira vista, o nome do biografado poderá parecer desconhecido ao leitor, mas estamos certamente perante uma das personalidades mais influentes e marcantes da História Mundial. Conhecido popularmente como “Buda”, Sidarta Gautama foi um príncipe da região do Nepal que se dedicaria ao “universo espiritual”, revelando diversos ensinamentos éticos, filosóficos e religiosos.
Actualmente, muitos são os investigadores que duvidam dos feitos que lhe foram imputados, outros chegam inclusive a colocar em causa a sua existência histórica. Neste artigo, propusemo-nos em citar elementos integrantes das biografias tradicionais. Cabe ao leitor, independentemente das suas convicções religiosas, retirar as suas próprias conclusões. Trataremos com imparcialidade e isenção a história de Buda, sintetizando o seu glorioso percurso que o eternizaria nas memórias da Humanidade.




Imagem nº 1 - Uma criança medita diante de uma estrutura representativa de Buda (Sidarta Gautama) situada em Bagan (Myanmar).
Foto da autoria de Joel Santos




Nascimento e Juventude num círculo principesco


É uma missão inglória determinar, com precisão ou rigor, o ano de nascimento de Buda. De acordo com alguns estudos, existem teorias que propõem datações para os séculos VII ou VI a. C. As datas mais conhecidas são as de 623 a. C. e 563 a. C., embora correspondam a meras suposições cronológicas. Quanto ao local do nascimento, registamos um maior consenso entre as fontes primárias. Apontam estas que a sua cidade de berço terá sido Lumbini (actual Nepal; muito perto da fronteira com o Norte da Índia) que, na época, estava integrada no Principado de Kapilavastu. O pai de Buda era o rei Suddhodana, líder do clã Shakya, e a sua mãe era a rainha Maha Maya. 
O então recém-nascido iria chamar-se Sidarta Gautama. A etimologia inerente a estes seus dois nomes é, no mínimo, curiosa. Sidarta quer dizer “aquele que atinge os seus objectivos” enquanto que o vocábulo Gautama alude a um “condutor de gado”. O nosso biografado iria demonstrar, mais tarde, que estava à altura desta atribuição nominal que antevia prodígios e façanhas nunca antes testemunhados. 
Sidarta foi educado pela sua tia Maha Pajapati (irmã mais nova da sua mãe). A criança foi mentalmente preparada para aceitar as mordomias e as responsabilidades de um príncipe. Por isso, tinha três palácios ao seu dispor. O seu pai Suddhodana queria que o seu filho fosse digno de lhe suceder ao trono, tomando precauções para impedir que Sidarta Gautama optasse por outro estilo de vida, já que existiam anciões naquele tempo que previam uma futura santidade do jovem. Dentro deste contexto, o rei Suddhodana tentou poupar o seu filho aos sofrimentos humanos, procurando evitar que este pudesse seguir alguma das tendências religiosas da época. 
Por intermédio de seu pai, Sidarta iria casar-se com uma prima chamada Yashodhara. Tinham ambos 16 anos na altura. Deste matrimónio, resultaria o nascimento de um filho chamado Rahula. 
Sidarta Gautama viveria 29 anos no seu meio principesco, ignorando por completo a penosa realidade exterior. Foi assim até que a curiosidade o fez despertar, e aí sentiu finalmente um desprezo pelos bens materiais.





Imagem nº 2 - Casamento de Sidarta Gautama com Yashodhara, contando ambos com 16 anos na altura. Deste matrimónio, sairia um filho (Rahula).
Pintura Indiana retirada de:seguindopassoshistoria.blogspot.com




A adesão ao ascetismo


Aos 29 anos, Sidarta decidiu sair recorrentemente do seu palácio de forma a conhecer melhor o mundo que o rodeava. O seu pai tentava ocultar as verdades mais duras a Sidarta, e por isso, efectuou esforços ou diligências no sentido de evitar que o seu filho pudesse visionar pessoas doentes, moribundas ou em estado de sofrimento. No entanto, as suas tentativas foram em vão.
Nos seus encontros exteriores à vida palaciana, Sidarta deparou-se com homens doentes e até cadáveres em decomposição, além de ascetas que procuravam a perfeição espiritual. Estas visões deixariam em si uma marca muito profunda. Se até então tinha vivido num ciclo de fantasia e ingenuidade, o jovem constataria agora os processos inerentes ao envelhecimento e morte humana que antes desconhecia. Diante deste contexto inesperado, o príncipe começou mesmo a acreditar que o ascetismo seria o único caminho possível para resistir à doença, à velhice e até à morte. Dentro deste contexto, Sidarta deixará o conforto e a luxúria material dos seus palácios e tomará a vida de um mendicante.
Inicia o seu percurso ascético em Rajagaha, terra onde pedirá esmolas. Aí será reconhecido pelos homens do rei Bimbisara, o qual estava disposto a oferecer-lhe o trono, mas Sidarta não se sentia tentado pelo poder, e por isso, declinou a oferta, prometendo em contrapartida que visitaria este reino, depois de alcançar a “iluminação” (isto é, a suprema consciência/harmonia espiritual).
Após ter deixado Rajagaha, conheceria dois professores eremitas que, a título individual, lhe cederam diversos ensinamentos: Alara Kalama e Udaka Ramaputta. Através destas experiências, Sidarta terá conseguido alcançar elevados níveis de consciência meditativa, mas ainda assim almejava aprimorar mais as suas capacidades, e por isso, recusou suceder a estes dois professores que lhe convidaram também a tomar os seus lugares.
Posteriormente, Sidarta irá juntar-se a um grupo de cinco companheiros, encabeçados por Kaundinya, que abraçavam práticas yogicas de extrema austeridade. No entender de todos eles, a busca pela suprema “iluminação” não era compatível com a presença de bens materiais, e os sacrifícios chegavam ao ponto de hipotecar a própria alimentação diária. Durante cerca de seis anos, Sidarta irá aceitar a fome, ingerindo apenas uma folha por dia. Um dia, Buda quase se afogaria num rio devido às fraquezas do seu corpo. Através dessa experiência perigosa que lhe poderia ter custado a vida, Sidarta finalmente reconheceu que o caminho para a “iluminação” não poderia ser tão radical ou penoso. E aí lembrou-se de ter observado o seu pai, durante a sua infância, a arar o campo. Além disso, uma jovem rapariga compadeceu-se do seu estado, tendo acabado por lhe oferecer leite e uma porção de arroz, de modo a recompor as suas energias. Em breve, alcançaria um novo estado – o jhana, onde se sentiria mais abençoado e feliz.
A partir de então, Buda tentará seguir o Caminho do Meio, imbuído de maior moderação e afastado dos extremismos da auto-mortificação. Kaundinya e os outros seus companheiros acabaram por abandoná-lo porque achavam que ele se tinha tornado num indisciplinado, visto que então havia renegado as fórmulas radicais de ascetismo.
Entretanto, o nosso biografado decidiu um dia sentar-se debaixo de uma árvore (uma figueira de Bodhi) em Bodh Gaya (Norte da Índia) e jurou a si mesmo nunca mais se levantar até encontrar a verdade. Com 35 anos, e após 49 dias de meditação, Sidarta Gautama teria atingido nesse lugar a “iluminação espiritual”. É a partir desta altura que receberá a denominação de “Buda”, isto é, termo que significa aquele que é “desperto, iluminado, o que compreendeu, o que sabe”. De acordo com as narrações tradicionais, o nosso biografado teria assimilado as causas do sofrimento e os caminhos necessários para solucionar as adversidades da vida. Daí nascerão as célebres “Quatro Nobre Verdades” que perfilariam a doutrina budista, a saber:

1. A nobre verdade do sofrimento (Dukkha). “A vida é um sofrimento”. Por exemplo, o nascimento e o envelhecimento são sofrimento. A enfermidade, a lamentação, a ilusão, o desespero e a angústia também são dores que atingem constantemente o ser humano.

2. A nobre verdade sobre a origem do sofrimento (Samudaya). O orgulho, o prazer e o desejo/cobiça de bens materiais causam o sofrimento humano.

3. A nobre verdade sobre a cessação do sofrimento (Nirodha). O sofrimento só desaparece quando os desejos materiais e demais formas de apego forem prontamente abandonados.

4. A nobre verdade do caminho para a cessação do sofrimento (Magga). Tudo passa pelo entendimento, pensamento, linguagem, acções, esforços, modo de vida, atenção e concentração correctos (o célebre “nobre caminho óctuplo”). As seis perfeições budistas incluiriam a generosidade, a paciência, a ética, o esforço entusiástico, a concentração e a sabedoria.


De acordo com o entendimento de Sidarta, todos aqueles que tivessem em especial consideração estas “quatro verdades” poderiam alcançar o Nirvana, estado perfeito de harmonia mental, onde não haveria lugar a qualquer sentimento negativo de inveja, orgulho, ódio, ignorância ou aflição. Aí não existiria qualquer identidade pessoal ou limites de mente, contudo a paz espiritual seria total. Este novo conjunto de princípios preconizava ainda a não-violência (ahimsa) e o não-eu (anatman).





Imagem nº 3 - Sidarta Gautama alcança a iluminação espiritual junto à árvore ou figueira de Bodhi (Norte da Índia), tendo resistido às tentações exteriores.





Imagem nº 4 - Templo Budista de Borobudur (Java, Indonésia).
Foto da autoria de Joel Santos




Ensinamento da sua Doutrina (Darma) até ao final da vida

Buda demonstrou inicialmente alguma relutância em partilhar os seus ensinamentos com as comunidades, visto que temia ser incompreendido. No entanto, e talvez motivado pelo Brahma Sahampati, teria mudado de ideias, iniciando uma peregrinação pela região da Índia durante 45 anos. Logo granjeou uma elevada aceitação popular, com muitos professores de outras linhas religiosas a aceitarem a sua doutrina. Todavia, nem tudo seria um mar de rosas, visto que os brâmanes, membros da casta sacerdotal hindu e preconizadores de uma religião bem enraizada naquela área geográfica, não aceitaram de bom grado o aparecimento de uma nova corrente, e por isso, tentaram dificultar a sua projecção.
De acordo com as fontes tradicionais, Sidarta morreu com 80 anos de idade na Cidade de Kushinagar (actual Índia). A data de 483 a. C. é atribuída por alguns estudiosos para o seu falecimento, embora tal proposta suscite escassa fundamentação. O seu corpo seria cremado pelos seus amigos. Devido à “santidade” a que foi votado, as suas cinzas foram repartidas por vários governantes, tornando-se assim em relíquias de adoração. Dois ou três séculos depois, surgiriam as primeiras fontes que relatariam a sua vida e descreveriam os seus ensinamentos. Surgiriam novos mosteiros, e a religião budista atrairia a devoção de inúmeras multidões no Oriente (continente asiático).
Em suma, a vida de Sidarta Gautama compreendeu passagens pelas regiões do actual Nepal e da Índia (pelas áreas nortenhas e centrais). Ninguém pode negar que esta personalidade ampliou o conhecimento sobre a consciência humana, promovendo o bem e a purificação da mente. A sua religião tolerante foi bem aceite pela estrutura social dominante das regiões envolventes que lamentavam as restricções até então impostas pelos brâmanes. Muitos mestres seguiriam e difundiriam as palavras deste sábio nos séculos vindouros. Daí se aceitar que além do Buda Shakyamuni (nome diferenciador atribuído a Sidarta, e certamente relacionado com a tribo Shakya de onde era originário), existiram também outros budas no passado que elevaram o conhecimento desta doutrina a novos campos da mente e espiritualidade humanas.






Imagem nº 5 - Escultura de Buda Shakyamuni na China. (Huehang)



Pensamentos Alegadamente Atribuídos a Sidarta Gautama (Supremo Buda)


"A paz vem de dentro de você mesmo. Não a procure à sua volta".

"Persistir na raiva é como apanhar um pedaço de carvão quente com a intenção de o atirar em alguém. É sempre quem levanta a pedra que se queima".

"O segredo da saúde mental e corporal está em não se lamentar pelo passado, não se preocupar com o futuro, nem se adiantar aos problemas, mas viver sábia e seriamente o presente".

"Existem três classes de pessoas que são infelizes: a que não sabe e não pergunta, a que sabe e não ensina e a que ensina e não faz".

"Somos o que pensamos. Tudo o que somos surge com nossos pensamentos. Com nossos pensamentos, fazemos o nosso mundo".




 

 Imagem nº 6 - A vida de Buda exibida em panorama numa ilustração extraída dum livro presumivelmente existente em Myanmar.




Referências Consultadas: 



    Notas-extra:

    1. O seu nome também aparece vulgarmente nos meios de pesquisa como Siddhartha Gautama.

    2. Aparentemente Buda nunca fez qualquer referência directa à existência (ou não) de um Deus Supremo e Criador, ou até mesmo a uma eventual reencarnação das “almas” (embora os budistas veiculem a hipótese de um "renascimento" que assume uma conotação e natureza distintas). No entanto, este é um ponto que continua a ser alvo de inúmeros debates. Aceita-se que, nos primeiros tempos, o legado do budismo teria sido essencialmente ético e moral em detrimento da componente religiosa que terá sido apenas aprimorada e detalhada mais tarde.

    3. Segundo o conteúdo das fontes tradicionais dos séculos posteriores, e durante o processo de iluminação ocorrido junto à figueira de Bodh Gaya, Buda terá sido testado pelas artimanhas da “divindade” indiana Mara, tendo resistido às suas “investidas”.

    4. No que diz respeito às fontes tradicionais, as mais importantes são:Buddhacarita, o Lalitavistara Sūtra, o Mahāvastu e o Nidānakathā. Os primeiros testemunhos são posteriores à sua existência. No entanto, tornam-se indispensáveis para a recolha de dados biográficos.

    5. O portefólio fotográfico de Joel Santos sobre as tradições orientais é, no mínimo, fascinante e sensacional. Aconselho vivamente a visualização da sua obra.