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terça-feira, 24 de julho de 2018

Nelson Mandela, o homem, a causa e a luta (a epopeia contada por Jack Lang)


"Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar".  

(Nelson Mandela, 1918-2013)



Nota introdutória: Apresentamos neste artigo uma recensão crítica de uma obra biográfica sobre Nelson Mandela que havia então sido escrita por Jack Lang. A autora do texto que apresentamos em seguida é Mariana Henriques, licenciada em Ciência da Informação pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que assim teve a oportunidade de analisar o trajecto de vida deste homem ímpar então exibido naquele livro. 


Apresentação geral do autor da obra


A obra “Nelson Mandela – Uma Lição de Vida” da autoria de Jack Lang apresenta-nos a história de uma célebre personalidade que se evidenciou no combate ao regime do Apartheid, o qual vigorou na África do Sul em meados e até inclusive na segunda metade do século XX.
Este livro espelha a luta da população negra contra a discriminação racial a que estavam sujeitos perante a asfixiante supremacia dos homens brancos. Nelson Mandela (1918-2013) foi a voz desse povo humilde e oprimido que tentava libertar-se da tirania, exploração e injustiça. O seu exemplo de vida foi determinante para que fosse concretizado o sonho de uma sociedade sul-africana livre e democrática, onde todas as pessoas pudessem usufruir dos mesmos direitos e conviver mutuamente. Dentro deste contexto, a obra insere-se na temática da liberdade, retratando um processo lento, e por vezes, bastante penoso que permitiu à África do Sul alcançar os princípios civilizacionais modernos. 
O autor deste livro é Jack Lang (nascido em 1939) que, durante a sua carreira profissional, foi professor de Direito Público, membro e presidente da Comissão de Negócios Estrangeiros na Assembleia Nacional Francesa, Ministro da Cultura (entre os anos de 1981 e 1986 e, de novo, entre 1988 e 1992) e deputado no Parlamento Europeu. Este político francês confessou na sua obra que, durante a primeira vez em que assumiu a pasta da Cultura, mobilizou os meios artísticos franceses e internacionais com a finalidade de promover a causa dos negros sul-africanos. Neste âmbito, podemos observar que o autor conheceu bem de perto a realidade tenebrosa que chegou a verificar-se na África de Sul, tendo desempenhado esforços no sentido de apoiar os resistentes daquele regime nefasto que vigorava impunemente. 
No que diz respeito à estrutura da obra, podemos afirmar que esta se encontra constituída por: capa, folha de rosto, índice geral, prefácio (da autoria de Nadine Gordimer - escritora laureada com o Prémio Nobel da Literatura em 1991), prólogo, cinco actos/capítulos , anexos. Os primeiros quatro capítulos estão associados a quatro figuras míticas (Antígona, Espártaco, Prometeu, Próspero) que, por seu turno, ilustram o percurso dramático de Nelson Mandela até à conquista da liberdade. No quinto e último ato, temos referência ao “rei Nelson”, fundador de um país livre que soube extrair a mais importante lição da tragédia. Ao nível das ilustrações, encontramos fotografias a preto e branco e a cores em páginas não numeradas que se situam a meio da obra. Assim sendo, temos imagens de Nelson Mandela a discursar, a receber o Prémio Nobel da Paz em Oslo (1993), o seu juramento enquanto novo Presidente da África do Sul (1994), entre outras fotografias.
No que concerne ao paratexto, ressalvamos o facto de a capa exibir o rosto sorridente de Nelson Mandela acompanhada pelo título, autor da obra, editora e redator do prefácio. Na folha de rosto voltamos a ter acesso aos mesmos elementos embora seja ainda acrescentada a autoria da tradução (Francisco Agarez) bem como o local e a data da produção desta nova edição portuguesa que se sucede à anterior e original versão francesa. A lombada é preenchida por um fundo acastanhado, ressaltando, mais uma vez, aos olhos do leitor o título, o autor da obra e a respetiva editora. Na contracapa encontramos uma breve descrição produzida pelo autor Jack Lang, sintetizada em três pequenos parágrafos onde é engrandecida a personalidade e o afinco de Nelson Mandela no combate às injustiças cometidas contra os negros, bem como é revelado o seu amor pela tolerância e democracia. Apesar de o livro não dispor de posfácio, bibliografia e glossário, a verdade é que o mesmo contém algumas notas de fim utilizadas para citar as origens das informações reportadas ao longo desta biografia. 




Imagem nº 1 - Jack Lang foi Ministro da Cultura de François Mitterrand. Foi responsável pela elaboração da biografia - "Nelson Mandela - Uma Lição de Vida".




A Estrutura Mitológica da Obra

A obra de Jack Lang começa com um breve prefácio (p. 9-11) da autoria da Prémio Nobel da Literatura – Nadine Gordimer (1923-2014). Esta conceituada escritora recordou, numa clara alusão a Nélson Mandela, “as condições interiores que o homem teve de ultrapassar e resolver para cumprir o seu primeiro objetivo: combater a opressão de um ser humano por outro”.  Nadine compara a vida de Madiba a um drama, onde ele teve de encarnar o destino daqueles que o antecederam e foram investidos de missões idênticas. 
Dentro deste contexto, no primeiro acto do livro de Jack Lang  (p.25-66), Nélson Mandela será equiparado a Antígona, personagem da obra do dramaturgo grego Sófocles, visto que, à semelhança desta figura mitológica, cumprira inicialmente as leis da nação, mas um dia teve de as violar, por considerá-las aberrantes e maquiavélicas, representando estas um elevado prejuízo ético e moral ao seu povo.
No segundo acto ou capítulo (p.67-99), Nélson Mandela deixa praticamente de lado os seus serviços de advocacia (sector onde se destacara durante a sua carreira profissional), para se tornar chefe dum bando de revoltosos contra as forças do regime, assumindo assim os traços do célebre gladiador Espártaco que, na Idade Antiga, encabeçara uma revolta servil contra a exploração e opressão promovidas por Roma. 
Por seu turno, o terceiro acto (p. 101-141) apresenta-nos o calvário do biografado que passou 27 anos em cativeiro, depois de ter afrontado corajosamente o regime do Apartheid. Tal como Prometeu, vulto mitológico que defendia os interesses da Humanidade e que, segundo a lenda, foi agrilhoado a um rochedo por ter desejado entregar aos homens o fogo libertador (o qual teria sido roubado aos deuses helénicos, gerando assim a ira de Zeus que o castigaria), também Madiba sofreria um terrível martírio por ter cometido o “pecado” de abraçar a liberdade e repudiar a tirania, contrariando as directivas superiores ou estatais.
No quarto acto (p. 143-186), Mandela é um homem renascido e assume o papel triunfante de Próspero, benfeitor dos homens e vencedor de Calibã, evitando uma guerra civil e o caos no seu país. 
Por fim, no derradeiro ato (p. 187-211) – isto, é o quinto – Nélson já não é equiparado a nenhuma personagem lendária, mas é sim caracterizado como o “rei fundador” de um país finalmente livre e igualitário para assim personificar uma nação “arco-íris”.  
Expostas estas originais comparações que acompanham o livro de Jack Lang e que realçam o percurso heróico de Nélson Mandela, é altura então de abordarmos, de forma sucinta, a narração biográfica que a obra de Jack Lang imprime a respeito desta personalidade que marcou uma era na História Mundial.




Imagem nº 2 - O percurso de Nelson Mandela motivou comparações por parte de Jack Lang com algumas figuras mitológicas do Período Antigo.




Nélson Mandela, a sua formação

Nélson Mandela, sob o nome original de Rohhaba, nasceu na pequena vila de Mvezo (região do Transkei, África do Sul) a 18 de Julho de 1918. Era filho de um importante conselheiro que servia o rei tribal de Thembu. Nascera assim no seio do clã “Madiba”. Durante a sua juventude, interessou-se particularmente pelas histórias e lendas dos povos negros antepassados que teriam chegado a viver em harmonia naquela região, antes da chegada dos colonizadores. Em 1930, teve conhecimento da morte do seu pai, ficando por algum tempo sob supervisão educativa do soberano thembu – Jongintaba.
Em termos de formação escolar, o biografado realizaria os seus primeiros estudos em Qunu, onde uma professora decidiu atribuir-lhe o nome cristão de Nélson que seria certamente mais pronunciável do que o seu complexo nome de nascimento. Mandela frequentaria ainda o colégio de Clarkebury que era, na altura, o melhor estabelecimento de ensino para os africanos da região do Transkei. De acordo com as descrições da época, ele era inicialmente um aluno aplicado, embora não brilhante. Mesmo assim, conseguiria evoluir ao ponto de ingressar na Universidade de Fort Hare. No entanto, seria expulso devido ao seu envolvimento num protesto estudantil. Quando regressa ao palacete do dignatário tribal e seu tutor, é recebido com uma enorme reprimenda por parte deste que ameaça impingir-lhe um casamento com uma mulher por si escolhida, caso não ponderasse voltar atrás na sua insubordinação universitária. Encurralado, Nélson Mandela não hesitaria em fugir para Joanesburgo, à procura de iniciar uma carreira profissional que lhe permitiria a sua própria subsistência. Estávamos no ano de 1941. Naquela conceituada cidade, começará por ser vigilante noturno numa sede de minas de ouro, mas é um ofício que exercerá por muito pouco tempo. Depois, e por intermédio de Walter Sisulu (um agente imobiliário que acaba de conhecer e com o qual manterá uma amizade para a vida), conseguirá entrar numa importante sociedade de advogados da cidade que era liderada por três judeus Lazar Sidelsky, Witkin e Eidelman. Como Mandela não havia terminado ainda os seus estudos, teve então de se contentar em redigir apenas contratos destinados aos negros, nomeadamente relacionados com processos de empréstimos e de hipotecas. No decurso da experiência vivida nesse escritório, o novo funcionário nunca seria discriminado pela sua cor, apesar de auferir um ordenado simbólico de duas libras por mês. 
Em 1943, Mandela matricula-se na nobre e antiga Universidade de Wittwatersrand, onde estudaria até 1949 com o intuito de conquistar os novos galões de advogado. No ano de 1944, conheceu Evelyn Mase, prima de Walter Sisulu, por quem se apaixonaria e contrairia matrimónio. Quando se conheceram, Evelyn aparentava ser uma mulher empenhada e trabalhadora que tinha vindo para Joanesburgo estudar Enfermagem. No entanto, era alérgica à política, factor que explicaria mais tarde o divórcio (ocorrido então em 1958). Mesmo assim, é de realçar o facto de o casal ter gerado quatro filhos (dois rapazes e duas raparigas). 





Imagem nº 2 - Nelson Mandela demonstrou um interesse imediato pela área da advocacia. Foi aí que se aperceberia do regime legal injusto que vigorava no seu país.
Retirada do Jornal Inglês The Telegraph



A resistência ao regime

Nos seus primeiros 25 ou 30 anos de vida, Mandela deparou-se gradualmente com a realidade social que girava em seu torno e que radicava em inúmeros preconceitos raciais. Podemos dar alguns exemplos desse atormentante cenário que era vivido na África do Sul e que piorou bastante entre as décadas de 1940 e 1980. O regime do Apartheid codificou, sob a forma de leis injustas, a superioridade total do homem branco face a mestiços, indianos e negros. Por outras palavras, os melhores cargos estavam reservados aos brancos, os únicos que poderiam desempenhar funções administrativas no Estado. Todavia, vigoravam outras imposições que eram ainda mais humilhantes para os negros. Estes não poderiam almoçar nas cantinas reservadas aos brancos, eram muitas vezes expulsos de espaços públicos, tinham acesso condicionado (mediante apresentação dum passe) aos autocarros, era-lhes vedada a utilização de casas de banho públicas e muitos eram ainda relegados para os dormitórios das minas ou para os bairros de lata. Por outro lado, seriam proibidos os casamentos inter-raciais (lei de 1949) e foram igualmente estabelecidos bantustões (mini-estados negros que acolheriam grandes deportações de africanos). O Apartheid promovia um sistema legal racista, e não hesitava em reagir com mão-de-ferro perante qualquer rebelião sucedida. O regime contava ainda com dois aliados “involuntários” – a religião cristã (a promessa bíblica do Paraíso noutra vida era a terapia ideal para que a esmagadora maioria da população se submetesse aos sacrifícios do presente) e a passividade internacional (apesar de muitos países censurarem as transgressões verificadas na África do Sul, a verdade é que não desejavam intrometer-se nos assuntos duma nação alheia).
Os grupos políticos opositores ao regime ditatorial sul-africano eram essencialmente dois: o Partido Comunista e o ANC (Congresso Nacional Africano – fundado em 1912). Apesar de Mandela ter admirado o activismo de muitos militantes comunistas e de até ter mantido conversações secretas com estes, a verdade é que ele não subscreveria as teorias de Karl Marx. Por isso, acabou por aderir ao ANC. No seio dessa facção política, testemunhou inicialmente muita apatia e inclusive falta de coragem de alguns dos seus representantes. A sua entrada no partido foi uma lufada de ar fresco para a causa da igualdade inter-racial. Assim sendo, e mediante a sua crescente influência, Nélson convenceu o ANC a enveredar por um programa de acções mais radicais e eficazes (por exemplo, através da convocatória de greves ou de manifestações massivas), dado que as anteriores tentativas de diálogo e de pressão se tinham traduzido em resultados quase nulos. 
Em 1952, Mandela promoverá, juntamente com outros líderes da resistência ao regime, uma campanha de desobediência civil contra seis leis injustas  que haviam sido promulgadas. Será condenado a uma pena de nove meses de trabalhos forçados, embora suspensa por dois anos. Por essa altura, fundará em parceria com Oliver Tambo, a primeira sociedade de advogados negros na África do Sul. 
Todavia, Nélson seria alvo de interdição política – isto é, vítima duma nova norma promovida ardilosamente pelo Apartheid (o “ban”) que consistia, através dum decreto do Ministro da Justiça, no banimento definitivo de um cidadão da actividade política, sendo que a decisão não era sequer passível de defesa ou recurso. Em caso de desrespeito desta exclusão deliberada, o visado poderia ser detido por tempo indeterminável e sem direito a qualquer julgamento. Curiosamente, e apesar de ter sido vítima desta manobra legal maquiavélica, Mandela não desistirá de lutar pelos seus ideais políticos, mantendo a mesma postura que iria culminar, pouco tempo depois, num cativeiro prolongado.
No ano de 1955, o biografado será novamente detido por algum tempo, recaindo sobre ele a acusação de traição. A sentença conhecida, apenas em 1961, iliba-o por falta de provas. Pelo meio, Mandela contrai o seu segundo casamento com Winnie Madikizela (ocorrerá em 1958), uma assistente social que o apoiará incondicionalmente na sua luta política e que lhe dará duas filhas. O casal iria divorciar-se apenas em 1996. 
Por outro lado, em 21 de Março de 1960, a polícia estatal disparou perante uma população desarmada que protestava em Shaperville, causando 69 mortos, incluindo mulheres e crianças. O regime sul-africano decretou estado de emergência e ilegalizou o ANC e o Congresso Pan-Africano a 8 de Abril. O cenário tornara-se tenso e irrespirável. 
Com o partido na clandestinidade, Mandela e os seus companheiros de luta irão promover uma série de explosões a 16 de Dezembro de 1961, que não causarão mortes (excepto a de um detonador) embora tenham gerado estragos materiais de monta. No momento em que este ataque ocorre, Nélson já tinha sido incumbido de liderar o recém-criado braço armado do ANC – “Spear of the Nation” (“A Lança da Nação”).
Em Janeiro de 1962, e sob uma falsa identidade, deixa secretamente a África do Sul, e viaja pelo continente africano e chega igualmente a visitar Inglaterra, onde obtém apoio para a sua causa. Nas suas passagens por Marrocos e Etiópia, receberá formação militar para que pudesse assim comandar com distinção o pequeno exército que o ANC havia montado para resistir à perseguição do regime e que actuaria sob forma de guerrilha. Poucos meses depois retornaria à África do Sul, onde seria, em breve, identificado e detido quando se deparara com uma barreira policial na estrada em que seguia.





Imagem nº 3 - Nelson Mandela foi obrigado a adoptar tácticas mais duras para enfrentar a repressão do Apartheid contra os negros.
Retirada do Jornal Inglês The Telegraph



Julgamento e Cativeiro 

Mandela seria acusado de ter deixado a nação sem qualquer permissão e de ter incitado os operários à greve, acabando por ser condenado a cinco anos de prisão. Mas o pesadelo não terminaria por aqui. O regime descobriria entretanto uma fazenda secreta em Rivonia, onde se achavam os planos e os segredos dos activistas do ANC e do Partido Comunista. As autoridades desvendaram igualmente a organização do braço armado que supostamente seria tutelado por Mandela. Este seria, juntamente com mais alguns arguidos, acusado de sabotagem e de promover um golpe de estado, o que poderia originar a sua condenação à forca. 
Durante o julgamento de Rivonia (1963-1964), Nélson defender-se-á com bravura, não hesitando em denunciar um sistema legal injusto, e discursando, em simultâneo, que estava disposto a morrer pelos ideais duma sociedade livre e democrática, em que todos pudessem viver com harmonia e com as mesmas oportunidades. Apesar de poupado à pena de morte, Nélson seria condenado a prisão perpétua juntamente com outros seis arguidos (incluindo Walter Sisulu). Começariam então 27 anos sombrios de cativeiro, passados maioritariamente em Robben Island (ilha inóspita localizada perto da Cidade do Cabo), onde teve de suportar inúmeros trabalhos forçados e as injúrias dos guardas que o vigiavam . 




Imagem nº 4 - Durante vinte e sete anos de cativeiro, Nelson Mandela foi sujeito a trabalhos forçados e a vários insultos por parte de guardas mais severos. Primeiro, esteve durante vários anos detido em Robben Island, e depois, ainda seria transportado para uma cadeia em Tokai, Cidade do Cabo. O seu espírito de sacrifício aliado à nobreza da causa sensibilizaria rapidamente o mundo. Muitas personalidades começaram a exigir a sua libertação e um novo paradigma na África do Sul.




A Libertação e o Triunfo da sua Causa

Finalmente, a 11 de Fevereiro de 1990, poucos dias depois da legalização do ANC, do Partido Comunista e do Congresso Pan-Africano (por iniciativa do Presidente Willem de Klerk ), Mandela seria libertado, recomeçando as conversações para acabar de vez com o Apartheid que estava já, na altura, obsoleto e “cercado” pela comunidade internacional. Em 1991, Mandela torna-se presidente do ANC, substituindo o seu amigo Oliver Tambo. No ano de 1993, receberia juntamente com o presidente sul-africano De Klerk o Prémio Nobel da Paz. A história na África do Sul estava a ser reescrita. Os novos sistemas legislativos pautavam-se agora pela modernidade, eliminando os últimos resquícios de eventuais códigos raciais.
Em 10 de Maio de 1994, Nélson Mandela tornou-se no Primeiro Presidente da África do Sul  a ser democraticamente eleito, cumprindo as suas funções com dignidade e amor ao seu povo, não excluindo ninguém pela sua raça ou pelas convicções religiosas/partidárias. Em 1998, casou-se com a conhecida dama moçambicana Graça Machel, a sua terceira mulher. Contava na altura com 80 anos. Durante a década de 90, criou ainda fundações destinadas a apoiar causas nobres .
Agora no topo e venerado por todos (negros, mestiços, brancos…), Nélson jamais recorreria a qualquer forma de vingança pelos vexames a que foi sujeito. A sua retribuição consistiria na tolerância e no respeito pelo próximo.  
Apesar de tal não ser retratado no livro de Jack Lang (publicado em França em 2004, e com a edição portuguesa a ser de 2005), Nélson Mandela morreria na sua casa em Joanesburgo a 5 de Dezembro de 2013 (contava então com 95 anos de idade), deixando um legado incontornável que valorizaria a liberdade em detrimento da opressão. Afinal, a longa luta que levara ao cabo da sua vida foi recompensada pelo descanso final vitorioso.
Depois da obra retratar detalhadamente a vida de Nélson Mandela, seguem-se por fim os anexos (p. 215-230) que são compostos por três documentos, a saber: a “Declaração de Nélson Mandela no banco dos réus, em sua defesa, na abertura do julgamento de Rivonia”, o “Discurso de Aceitação do Prémio Nobel” e o “Discurso de Nelson Mandela perante a multidão que se concentrou na Cidade do Cabo, no dia da sua libertação”.





Imagem nº 5 - Após o calvário, seguiu-se a bonança. Mandela seria libertado numa conjuntura mais estável. O Apartheid estava descredibilizado. A sua reintegração social e política foi essencial para a recriação de um Estado mais justo e igualitário. Sentou-se com homens negros e brancos. Não procurou vinganças, desejou sim criar pontes e harmonia para um futuro mais risonho na África do Sul. Seria mesmo Presidente da África do Sul entre 1994 e 1999.



Análise crítica e recomendação da obra

A partir da leitura da obra de Jack Lang, os leitores ficam a conhecer de forma mais detalhada o lado humano e fraterno de Nelson Mandela bem como a sua visão política e social. Este homem humilde conseguiria transmitir os seus nobres ideais através de uma postura convicta e eloquente. Apesar de ter permanecido vinte e sete anos em cativeiro (onde foi submetido a trabalhos forçados), Madiba acabaria por testemunhar o triunfo da integridade dos negros sul-africanos, os quais haviam suportado infindáveis sofrimentos nos tempos brumosos do Apartheid. Além disso, Mandela renunciou a qualquer cenário de vingança face aos homens brancos (estes tinham sempre constituído uma minoria) porque era fiel aos valores da justiça e da igualdade humana, sendo que estes princípios superiores se configuravam alheios à natureza racial ou étnica das comunidades. 
A obra contém algumas virtudes que a tornam recomendável para os jovens que demonstram um particular interesse pelas temáticas da liberdade, dignidade humana, paz e nobreza da arte política . O facto da biografia se associar a quatro personagens de conotação dramática torna o livro ainda mais original visto que reflete igualmente os sacrifícios históricos e/ou mitológicos que foram necessários em todo este percurso complexo que, por fim, culminaria na implantação da liberdade nas civilizações modernas. 
Todavia a obra também apresenta alguns pontos mais discutíveis. A leitura do livro acaba, às vezes, por ser algo pesada, isto é, de difícil interpretação, visto que o autor recorre a um vocabulário nem sempre acessível. Em certos trechos, a informação acaba por não ser tão esclarecedora devido à ausência de potenciais elementos informativos complementares. Por fim, o autor comete exageros narrativos ao recuar e avançar demasiado no tempo, não seguindo uma ordem cronológica ou linear dos acontecimentos que deveria ser aconselhável numa biografia. 
Não obstante, a obra não deixa de ser interessante e pedagógica porque é transmitido um modelo de conduta que deve ser seguido por todos aqueles que venham assumir funções políticas ou sociais de elevada importância. E claro o seu modelo singular é digno da personalidade que se pretende homenagear. Aliás, para quem deseje conhecer este herói mundial, esta é mesmo uma das leituras obrigatórias.


Referência Bibliográfica:

  • LANG, Jack – Nélson Mandela. Uma Lição de Vida. Trad. Francisco Agarez. 1ª Edição portuguesa. Lisboa: Editorial Bizâncio, 2005.

Artigo/Trabalho da autoria de Mariana Henriques
Licenciada em Ciência da Informação
Faculdade de Letras da Universidade do Porto


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Avempace, o exímio precursor da Filosofia no al-Andalus


Contextualização Introdutória


Avempace, como reza a denominação latinizada, foi talvez o primeiro filósofo de inequívoca categoria a revelar-se no Al-Andalus. Nascido no reino taifa de Saragoça por volta de 1085, não demorou muito a deixar influenciar-se pelo pensamento de autores helénicos tais como Platão ou Aristóteles (aliás, terá traduzido algumas obras deste último, além de ter efectuado comentários). 
Com o nome árabe de Ibn Bâjja (ou Ibn Bajjah), este erudito abriu novas luzes em vários campos do conhecimento tais como a filosofia, a medicina, a matemática, a astronomia, a botânica e até a própria música. Por outras palavras, assumiria uma vocação intelectual digna de um verdadeiro polímata. 
No entanto, e como já havíamos referido, seria certamente na área da filosofia onde o seu contributo seria mais evidente e até mesmo decisivo. De acordo com Josép Puig Montada, investigador de filologia da Universidade Complutense de Madrid, o desenvolvimento inicial das matérias filosóficas no seio das sociedades muçulmanas corresponderam a um processo moroso ou lento. Por outras palavras, até ao tempo de Avempace, a filosofia não tinha gerado elevado interesse dentro das constelações intelectuais islâmicas, tendo florescido apenas timidamente em regiões periféricas. Ibn Sina (ou Avicena; 980-1037) fora talvez uma das principais excepções desse séquito intelectual de genialidades muçulmanas, mas até esse erudito desenvolveria a sua obra e o seu pensamento filosófico nas zonas periféricas da extensa Pérsia. 
No Al-Andalus, o cenário não tinha sido até então muito diferente, visto que o credo sunita e os ensinamentos legais da escola maliquita haviam prevalecido vincadamente até então. A filosofia encontrava-se ali praticamente no esquecimento ou num estado de letargia, salvando-se apenas modestas excepções refugiadas nos trabalhos descontinuados de alguns estudiosos. Com o aparecimento de Avempace (c. 1085-1139), um novo ciclo, bem mais luminoso, iria ser então proporcionado, contrastando assim com um passado pouco produtivo em termos de reflexões sobre o próprio pensamento humano. A Filosofia haveria de libertar-se daquele penoso enclave em que se achava, começando a cultivar o conhecimento no seio das elites culturais muçulmanas.
Mas quem fora Avempace? Em que contexto vivera? E que conhecimentos nos legou? 




Imagem nº 1 - Até meados do século XI, a filosofia não tinha cativado ainda grandes seguidores no al-Andalus e em muitas outras regiões do Mundo Árabe. Era assim considerada uma ciência pouco atractiva. Nomes como Avempace ou Averroes iriam mais tarde instaurar um novo paradigma.



A Vida de Avempace (Ibn Bâjja)


Sobre a vida de Avempace, restam-nos poucos factos concretos e alguns exercícios especulativos. A ausência de registos escritos em torno das suas vivências constitui certamente uma realidade que não podemos ignorar, tornando quase impossível traçar com rigor o seu percurso biográfico.
Sabemos que nascera por volta de 1085 no reino taifa de Saragoça, o qual se encontrava nas mãos da dinastia dos Banû Hûd. Talvez descendente de uma modesta família de prateiros, Avempace não herdaria um contexto político favorável. Yusuf al-Mutaman Ibn Hud tinha reinado anteriormente entre 1081-1085, não hesitando em favorecer as artes, as ciências e a cultura muçulmana. No entanto, os tempos de esplendor da Saragoça muçulmana estavam prestes a terminar. O seu sucessor al-Musta'in II testemunhará a chegada dos almorávidas que, a troco de obediência a Marraquexe e da reunificação dos reinos taifas, procurarão travar ou até inverter o avanço cristão na Península Ibérica. É verdade que o reino taifa de Saragoça permanecerá ainda independente por algum tempo, fruto das boas relações de al-Musta’in II com os novos protagonistas. Ainda assim, a pressão intensificava-se, cada vez mais, sobre o seu reino fronteiriço. Em 1110, o sultão da taifa de Saragoça tomba na batalha de Valtierra, onde fora derrotado pelas forças do destemido rei D. Afonso I de Aragão. 
É possível que Avempace tenha estado ao serviço de al-Muta’in II e até do seu sucessor Abdelmalik Imad al-Dawla que apenas reinaria por poucos meses. Entretanto, os almorávidas haveriam finalmente de se apossar da taifa sobrevivente à fusão já levada a cabo no al-Andalus. Ibn al-Hach ou Ibn al-Hayy (1110-1115) seria, por conseguinte, o novo governador, não descurando a sua faceta guerreira e desafiando assim o principal inimigo dos interesses muçulmanos naquela região oriental da Península Ibérica – o rei Afonso I de Aragão, “o Batalhador”.
O falecimento de Ibn al-Hayy abrirá as portas do poder a Ibn Tifilwit (1115-1117), e será durante o curto reinado deste último que encontraremos finalmente informações mais concretas a respeito de Avempace. Sabemos que o notável filósofo seria nomeado vizir pelo novo soberano almorávida. O seu pensamento heterodoxo não foi aqui obstáculo para a sua promoção social, algo que constituiria uma raridade, tendo em conta a linha de pensamento conservadora dos almorávidas. E a retribuição não se fez esperar – fazendo jus aos seus dotes poéticos (que também os tinha), Avempace compôs panegíricos dirigidos ao novo senhor de Saragoça. Neste ambiente de amizade recíproca, Ibn Tifilwit e Avempace desfrutaram dos prazeres do vinho e da música. Mas este período de maior notoriedade atribuída ao intelectual de Saragoça tinha os dias contados. Numa visita, alegadamente diplomática, ao Castelo de Rueda (ou às adjacências deste), onde se havia refugiado o anterior governador deposto pelos almorávidas - Abdemalik Imâd ad-Dawla, Avempace não seria muito bem recebido, tendo o vizir de Saragoça ficado encarcerado por alguns meses [1]. No inverno de 1117, o governador almorávida Ibn Tifilwit falece, o que motivou Avempace a redigir algumas elegias em sua memória. 
Pouco tempo depois, em 18 de Dezembro de 1118, Afonso I de Aragão consegue finalmente apoderar-se de Saragoça, aproveitando o vazio de poder que então se vislumbrara. Não sabemos se Avempace ainda se achava na cidade ou se já havia abandonado a mesma. Aliás, entre 1118 e 1136, existe um interregno na biografia deste filósofo, sobrando apenas especulações.
Supostamente, terá percorrido doravante as regiões de Játiva (ou Xátiba), Almeria, Granada e Orão. Neste momento de maior indefinição histórica em relação à sua vida, decidimos, uma vez mais, socorrermo-nos dos apontamentos do filólogo - Josép Puig Montada. 
Dentro deste contexto, Ibn Bâjja teria procurado abrigo em Játiva, mais concretamente na corte de Abû Isḥ'âq Ibrahîm ibn Yûsuf Ibn Tâshufîn, conhecido como Ibn Tâ'yâsht. Acredita-se que as relações com aquele soberano e seus respectivos conselheiros não terão sido as mais profícuas, e Avempace teria sido novamente preso em data indeterminada. Esta situação menos favorável do nosso biografado poderá ter-se devido à influência de inimigos que ali conquistara naquela corte. Por um lado, sabemos que o físico Abu l-'Alâ' Zuhr, pai do médico Abû Marwân 'Abd Malik bn Abîl-Al-Zuhr (este cientista notabilizou-se rapidamente ao serviço do governador de Játiva), nutria um ódio de estimação por Avempace. Como se não bastasse, na corte de Játiva, pontificava igualmente o poeta Abû Naṣr al-Fatḥ Ibn Muḥammad Ibn Khaqân que não só dedicou uma antologia ao senhor de Játiva (denominada “Qalâ'id al-iqyân”), como não hesitou em colocar intencionalmente Avempace nos últimos lugares, talvez em sinal de descrédito. 
Apesar das sucessivas agruras, Ibn Bâjja terá permanecido ao serviço dos almorávidas até ao resto da sua vida, tendo alegadamente exercido, de novo, o posto de vizir (talvez já em Fez) na corte de Yaḥyà ibn Yûsuf Ibn Tâshufîn, irmão do sultão magrebino Sultan ‛Alî Ibn Yûsuf Ibn Tâshufîn. Mas continuamos a saber muito pouco sobre os seus feitos, as suas deslocações e as suas relações com outros protagonistas políticos e culturais do al-Andalus. 
Em 1136, temos finalmente notícias mais credíveis com Avempace a encontrar-se em Sevilha, onde estaria com o seu grande discípulo - Abû l-Ḥasan Ibn al-Imâm, também ele natural de Saragoça, e com o qual trocara, ao longo da sua vida, correspondência de natureza filosófica. 
No ano de 1139, acabaria por falecer em Fez, já em pleno solo marroquino. Julga-se que a sua morte fora provocada por envenenamento através de um ardil promovido por algum dos seus inimigos. 
Se a sua vida inspira muitas interrogações derivadas da escassez de testemunhos documentais, a sua vasta obra ajuda-nos, pelo menos, a conhecer a sua visão sobre o homem e o mundo que o rodeava. 




Imagem nº 2 - Avempace (1085-1139) foi vizir em Saragoça e talvez ainda em Fez. Ao longo da sua vida, contraiu um número considerável de inimizades. Ainda assim, a sua intelectualidade seria apreciada por muitos.
Retirada do Site Pinterest





Imagem nº 3 - O Palácio de Aljaferia em Saragoça foi utilizado pelos reis taifas e sucessores almorávidas. Um ambiente que certamente Avempace conheceu bem.




O Legado de Avempace

Avempace terá sido responsável pela produção de mais de 40 obras, tendo a maior parte destas não resistido até aos nossos dias. Ainda assim, os seus trabalhos mais importantes seriam: “O Regime do Solitário”, “O Tratado da União do Intelecto com o Homem” e a “Carta do Adeus”.
Do ponto de vista filosófico, Avempace foi precursor de um pensamento filosófico puro, traduzido num racionalismo que se inspiraria, em parte, na lógica aristotélica. 
Aceitando o princípio de que o homem seria um animal racional, o erudito muçulmano categoriza três estratos de evolução humana. Num primeiro nível, estariam presentes todos aqueles que integravam a “grande massa”, isto é, os que apenas sabem das coisas materiais, singulares, submetidas ao espaço e ao transcorrer do tempo. Num segundo nível, identifica os “homens da ciência”, aqueles que, através da razão, definem as leis e teorias universais, baseando-se na análise das coisas singulares materiais. Por fim, num terceiro e derradeiro nível, dom apenas ao alcance de um punhado de indivíduos, encontraremos os seres humanos, libertos do espaço, tempo e substâncias materiais e completamente direccionados para os seres espirituais e as dinâmicas inteligíveis puras que seriam ministradas pelo Intelecto Agente, fonte da supra-racionalidade e intermediário entre Deus e o Mundo Material. Por outras palavras, o fim dos homens seria a união total com Deus através de uma dupla dimensão cognoscitiva-intelectual e mística. Como podemos constatar, este seu pensamento não diferia muito daquele que já tinha sido apregoado por Avicena e al-Farabi que haviam proclamado o “Intelecto Agente” como o Primeiro Motor do Universo, fonte do conhecimento científico e místico. Esta derradeira ideia causou certamente torrentes de controvérsia junto das linhas mais conservadoras do Islão (o sábio foi inclusivamente acusado de heresia pelos seus mais acérrimos inimigos), visto que Avempace propõe um caminho ascético e místico/esotérico (com alusões ao célebre “regime do solitário” e aos referidos “sábios-solitários”, os quais procurariam seguir uma vida à margem das sociedades corruptas) no qual o ser humano estaria em união absoluta com Deus já nesta vida, colocando assim em causa a imortalidade da outra vida, bem como a individualidade pessoal daqueles que faleciam e rumavam para o além. Conclusões que certamente não agradaram às hostes menos tolerantes do seu tempo. 
Inspirado ainda pela visão social de Platão, Avempace sonhava com uma comunidade na qual imperasse a justiça e a saúde, contrastando assim com as actuais sociedades civis flageladas pela corrupção, e procurando, por conseguinte, a instauração de uma nova realidade regida pela verdade, virtude e amor entre os homens. E quem poderiam ser os promotores dessa nova ordem mais justa? Os mencionados sábios-solitários que estariam no mais alto nível de evolução humana. Inicialmente afastados das sociedades corrompidas, poderiam ser estes que, após um ambiente de solidão relativa, começariam a esboçar o modelo e o gérmen de uma sociedade ideal que substituiria as sociedades imperfeitas. Dentro deste contexto, nessa futura sociedade virtuosa reinaria a felicidade e a paz, e nem sequer seriam necessários médicos corporais (sem vícios, deixariam de existir as enfermidades; e todos aí já saberiam como utilizar as plantas medicinais em caso de fraqueza física), de alma (o espírito estaria em comunhão harmoniosa com o Criador) e sociais (não seriam necessários juízes ou tribunais pois todo o mal estaria irradiado).
Avempace teria assim defendido uma espécie de “Sufismo Intelectual” (designação ousada atribuída por alguns historiadores apenas para efeitos comparativos) em que a razão e a própria fé não se contradizem, mas antes se complementam, conhecendo a mesma origem e conduzindo ao mesmo fim – a descoberta da Verdade. 
No entender de Ibn Bajjah, todas as ciências eram boas porque pertenciam ao conhecimento sublime do homem e à sua alma intelectual. Aliás, o homem distinguia-se dos demais seres pela sua capacidade de reflexão, e por isso, a ciência só poderia ser proveitosa para a sua causa.
A Avempace é-lhe ainda atribuído o grande mérito de ter sido o primeiro filósofo que deu a conhecer certas obras de Aristóteles no Al-Andalus, fazendo com que este começasse a ocupar uma parte influente no pensamento ocidental. Ao difundir e debater o pensamento de consagrados autores helénicos, o nosso erudito acabaria por abrir novos horizontes para uma disciplina até então modestamente desenvolvida pelos povos localizados naquele território e nas suas periferias. 
A aceitação do seu pensamento perduraria por alguns séculos, visto que as suas concepções filosóficas inspiraram outros notáveis eruditos, sendo eles cristãos, muçulmanos ou judeus. As obras de Ibn Bâjja seriam, por exemplo, citadas por grandes eruditos tais como Ibn Tufayl, Averroes, Alberto Magno, Alexandre de Hales, Maimónides, Raimundo Lulio, etc.
Durante a sua vida, julga-se que Avempace também chegara a desempenhar o ofício de médico, cenário que o motivou a deter elevados conhecimentos sobre botânica. A medicina medieval irá essencialmente basear-se no conhecimento existente sobre as propriedades das plantas e ervas, tentando descortinar os benefícios que estas poderiam representar para o ser humano. Neste contexto, Avempace produziu, em colaboração com Abu-l-Hasan Sufyan al-Andalusi, o “Livro das Experiências” (infelizmente desaparecido) e compôs alguns tratados, demonstrando assim interesse pelas características curativas das plantas, as quais se assumiriam, na época, como verdadeiros medicamentos. Numa primeira parte da sua obra, teria procurado expor as características gerais do reino vegetal, enquanto que, numa parte posterior, tentou enunciar as diferenças essenciais e específicas que existem entre as plantas, propondo mesmo uma classificação das mesmas. Aqui deixou alguns exemplos concretos que enriqueceram os catálogos dos botânicos medievais, fossem eles latinos ou árabes.
Sabemos que Avempace teria ainda estudado os ensinamentos de Hipócrates e Galeno, estando igualmente atento aos trabalhos recentes de médicos ocidentais e orientais (tais como Ibn Wafid e al-Razi). Efectivamente, este erudito procurara ser um médico devidamente informado e actualizado, ministrando os tratamentos que julgava ser mais adequados aos seus pacientes na época em questão. 
Na área da astronomia, Avempace escreveu o tratado “Nubad jasira 'ala al-handasa wa-l-hay'a” ("Fragmentos simples sobre geometria e astronomia"), tendo efectuado com rigor uma análise crítica e detalhada à proposta cosmológica de Ptolomeu. Neste capítulo em concreto, o erudito de Saragoça propôs a elaboração de um sistema astronómico sem epiciclos mas com esferas excêntricas. 
No universo da Matemática, terá demonstrado algum interesse pelas noções geométricas. 
Por fim, Avempace demonstraria ainda dotes para o canto e poesia. A ele se atribui um tratado de música e a composição de algumas canções populares. Garcia Gómez, reconhecido investigador arabista, vai mais longe ao inferir que Ibn Bajja foi o criador do zéjel, estilo tradicional da própria poesia árabe que concernia na recitação de um dialecto coloquial, muitas vezes expresso num estribilho de dois versos.
Em jeito de balanço final, Avempace foi alvo das mais diversas opiniões: desde os elogios sem limite até aos maiores desprezos e insultos. Acusado de ser heterodoxo e invejado por médicos (como os Ibn Zuhr, dos quais já havíamos falado) e poetas, chegamos a uma conclusão – os homens afinal também se podem medir pela talha ou pelas credenciais dos seus inimigos, e neste caso em concreto, Avempace só poderia ter sido um pensador de elevado gabarito capaz de desencadear ódios em outras personalidades, também culturalmente bastante relevantes, no panorama do Al-Andalus. 



Afirmações presentes nas suas obras:


“A Sabedoria é o estado mais perfeito das formas espirituais humanas e não se trata de um estado qualquer senão da perfeição mais absoluta” 

“Todo o saber, como diz Aristóteles, é bom e belo. Apesar disso, alguns saberes são mais nobres do que outros… A ciência da alma supera o resto das ciências, físicas e matemáticas em todos os graus da nobreza. Aliás, toda a ciência precisa da ciência da alma, visto que não nos podemos deter nos princípios de uma ciência dada, sem que nos detenhamos antes na alma e a conheçamos com precisão”.

“O homem se não pensa, seus actos serão animais e não participará em absoluto da Humanidade mais que do feito de ser sujeito corporal cujo aspecto externo é de um homem”.

“Aquele que obedece a Deus e faz o que lhe agrada, ele lhe premiará com o Intelecto e colocará ante ele uma luz que o guie. E quem desobedecer a Deus e realizar actos que não o agradem, será privado do Intelecto e permanecerá nas trevas da ignorância”.

“Todo aquele que prefere a sua materialidade a qualquer coisa da sua espiritualidade não poderá alcançar o fim último. Portanto, não haverá um só homem material que seja feliz, enquanto que todo o homem feliz será espiritual”.

“Quando as formas alcançam o [fim] último, alcança-se aquela perfeição motriz, libertam-se de todo e se liberta aquele entendimento a que pertence esta ideia, alcançando algo totalmente imaterial e imóvel. Em nós aparece um entendimento que adquirimos mas que na sua mesma existência é intelecto e somente se faz intelecto em nós, quando chega a ser uma ideia perfeita”.





Imagem nº 4 - Avempace acreditava que o homem poderia estar inserido em três estados diferentes: o corpóreo, o da virtude e o intelectual. Na sua opinião, o conhecimento advinha do Intelecto Agente, fonte divina de toda a sabedoria, contudo para alcançar este derradeiro fim, era necessária a união total com Deus através de uma contemplação solitária e mística.
Retirada de: https://nambiquarablog.wordpress.com/avempace/





Imagem nº 5 - Enquanto médico, Avempace demonstrou grandes conhecimentos na área da botânica, estando assim a par das propriedades curativas das plantas.



Nota de rodapé [1] - Outra teoria, embora menos veiculada (e talvez pouco credível), sugere que teria sido o próprio Ibn Tifilwit a prendê-lo em Saragoça, cedendo aos interesses de alguns detractores do filósofo que já ali residiam naquela cidade e que, na corte, haviam feito de tudo para conspirar contra ele. Contudo, esta derradeira versão do aprisionamento em Saragoça a mando do governador, como disséramos, parece não fazer muito sentido visto que está excluída dos principais registos biográficos sobre Avempace. É sim verosímil que tenha sido detido no âmbito da missão diplomática ao derradeiro governador da dinastia dos Banû Hûd - Abdemalik.



Referências Consultadas:


domingo, 12 de março de 2017

Ilha da Páscoa e a sua História esculpida pelo Mistério


Contexto Geográfico, Administrativo e Climático

A Ilha da Páscoa, assim baptizada posteriormente pelos navegadores europeus (aquando da sua descoberta), situa-se no Oceano Pacífico, mantendo um distanciamento de mais de 3700 km face à costa do Chile, nação que detém hoje o seu domínio administrativo. 
Considerada igualmente uma ilha da Polinésia Oriental, possui uma limitada área de 163,6 km², residindo no seu território apenas 5 800 habitantes (segundo dados estatísticos de 2012), sendo que a maior parte esmagadora destes vive na capital Hanga Roa. 
Do ponto de vista económico, a Ilha da Páscoa denota sérios problemas de auto-suficiência. Por um lado, é de realçar o seu isolamento geográfico, o que não favorece o intercâmbio comercial e o crescimento económico. Além disso, a ilha de pendor vulcânico é ainda um alvo vulnerável dos climas intempestivos – embora seja quente na generalidade do ano, acaba por ser visada por intensas rajadas de vento e aragens álgidas que não só evitam o desenvolvimento promissor de determinados frutos (como por ex: o coco – muito presente nas restantes ilhas da Polinésia), como fazem com que o Oceano, então frio no seu redor, não propicie a consubstanciação de recifes de coral, cenário que, por seu turno, não viabiliza a presença abundante de peixes na área marítima envolvente. Por outro lado, a água da chuva infiltra-se facilmente no solo vulcânico da ilha, o que torna difícil o seu aproveitamento por parte dos habitantes.
Hoje, a pequena ilha depende naturalmente do apoio proveniente do Chile, mas também do próprio turismo, pois a sua história invulgar desperta em qualquer mortal uma curiosidade que se apodera do espírito, incitando-o à aventura e à redescoberta de uma pequena terra que outrora fora alvo de um culto singular, traduzido na criação de elegantes estátuas – os moais – cuja interpretação histórica ainda não gerou sequer consenso entre os investigadores, adensando assim o mistério em torno da sua construção. 





Imagem nº 1 – Os “moais” – gigantescas esculturas – são o principal cartão-de-visita da Ilha da Páscoa.
Fotografia da autoria de Marko Stavric Photography / Getty Images





Mapa nº 1 - A Ilha da Páscoa situa-se a meio do Oceano Pacífico (parte sul), estando a uma distância enorme da costa chilena. A sua denominação deve-se ao facto do explorador holandês Jacob Roggeveen ter descoberto a ilha num domingo de Páscoa (5 de Abril de 1722). Na ilha, existem três vulcões importantes (Rano Aroi, Rano Kau, Rano Raraku), embora nenhum deles tenha entrado em erupção, desde que se implantou a presença humana.




O Advento dos Rapanui

À semelhança da colonização medieval verificada no Havai, ilha igualmente isolada no Oceano Pacífico (embora situada mais a norte e numa área ainda mais central do oceano) e sobre a qual havíamos já dedicado um artigo, também não existem muitas informações precisas em torno do povoamento primitivo da Ilha da Páscoa, embora subsistam teorias que não deixaremos de apresentar aqui.
Dentro deste contexto, debate-se se a ilha teria sido, numa primeira fase, ocupada entre os séculos IV e V, contudo esta primeira proposta cronológica de ocupação indígena está longe de ser partilhada por todos os investigadores e historiadores.
Mais credíveis parecem ser os estudos que apontam para uma presença humana na Praia de Anakena que seria anterior ao ano de 900 d. C. – esta teoria é reforçada por datações radio-carbónicas extraídas através de amostras de carvão e ossos de golfinhos – que serviriam de alimento para seres humanos. Ainda a reforçar esta linha de ideias, subsiste o argumento de que as restantes ilhas da Polinésia Oriental (Ilhas Cook, Ilhas da Sociedade, Ilhas Marquesas, Austrais, Tuamotu, Havai, Nova Zelândia e Pitcairn) haviam sido colonizadas entre 600 e 800 d. C. 
Na pior das eventualidades, e caso esta última teoria (embora a rotulemos como muito válida) não se tenha verificado em termos práticos, podemos, pelo menos, inferir que a ilha da Páscoa teria sido colonizada, o mais tardar, até ao ano de 1200 d. C.
Os novos ocupantes da ilha seguiriam os padrões generalizados da cultura polinésia, utilizando inclusive dialectos associados. Parece estar portanto descartada a hipótese dos primeiros colonizadores da ilha serem provenientes de uma civilização indígena avançada da América do Sul. Os testes de ADN realizados em 12 esqueletos antigos que se achavam enterrados na ilha confirmam que os seus portadores de outrora detinham uma “mandíbula oscilante”, característica bastante comum entre as sociedades polinésias. Por isso, os primeiros indígenas que arribariam à Ilha da Páscoa seriam muito provavelmente oriundos de outras ilhas da Polinésia, embora aqueles tivessem, ainda assim, que empreender uma larga e penosa viagem em alto mar, dado o inequívoco isolamento geográfico daquele pequeno espaço insular. Aliás, tal como no caso histórico do Havai, é de vincar uma vez mais a audácia dos navegadores polinésios que, através das suas embarcações frágeis, não hesitaram em desafiar novamente o vasto oceano que era até então pouco conhecido. 
Exposto isto, o povo nativo que vivia na Ilha da Páscoa, antes da chegada dos navegadores europeus no século XVIII, ficaria conhecido pela designação de Rapanui (ou Rapa Nui).
Esta comunidade primitiva detinha o seu próprio dialecto (embora, como disséramos, não muito desconectado da tradição expressionista das tribos polinésias), destacando-se aqui o seu sistema glífico – designado de Rongorongo - o qual poderá ter constituído uma versão ancestral da língua rapanui. Todavia, a sua decifração ainda hoje permanece como um mistério por desvendar. Alguns eruditos, baseando-se em relatos orais contemporâneos  dos anciões rapanui, julgam que aquelas escrituras poderiam estar associadas a hinos religiosos, façanhas e relatos de personagens importantes, e ainda, a genealogias históricas. No entanto, a sua interpretação está longe de ser acessível, até mesmo para os sábios e especialistas que se têm debruçado, em particular, sobre este ponto em concreto. Devemos ainda realçar que estes glifos poderiam ser gravados em objectos de madeira ou até sobre as próprias pedras e rochas que ali jaziam.
Por outro lado, registamos também a presença de gravações rupestres incrustadas sobre as rochas, plasmando desenhos de peixes, aves, tartarugas, embarcações, figuras humanas com grandes olhos, o homem-pássaro, o deus Makemake, etc. Supostamente, existiram ainda pinturas murais similares dentro das habitações dos rapanui mais abastados ou influentes.
Em termos de estrutura social, o ariki era o rei da tribo, embora este estatuto também pudesse designar a rainha, os príncipes e até os próprios nobres. Esta elite detinha um elevado poder político e reivindicava ainda uma vocação mágica e sobrenatural - a mana - que fazia crescer os frutos e os animais na terra e no mar, permitindo a prosperidade e estabilidade da comunidade. A hierarquia real obedeceria aos critérios de primogenitura. Nos tempos áureos dos rapanui, é provável que tivessem existido - chefes militares, polícias (embora rudimentares), professores, sacerdotes, construtores de casas, escultores, agricultores, pescadores, pequenos artesãos, etc. 
No plano religioso e mitológico, os ilhéus prestariam culto a variados deuses, seguindo assim uma vocação politeísta, tal como era apanágio de muitas civilizações polinésias e ameríndias.  De acordo com as suas antigas histórias, encontramos referência a Hotu Matu'a, personagem mítica (ou soberano lendário) que os rapanui julgam ter sido o primeiro colonizador da Ilha da Páscoa. Também o culto de Tangata manu (assunção mitológica do homem-pássaro) fora visível, atribuindo-se a sua iniciativa ao deus supremo e criador da humanidade - Makemake. 
Do ponto de vista económico, já elencámos algumas das lacunas que fariam a ilha padecer dos recursos necessários. Ainda assim, o povo rapanui introduziu plantações de batata-doce e porongo (cabaça) na ilha, cenário que poderá ter sido provocado por esporádicos contactos encetados com tribos da América do Sul. A terem existido tais permutas civilizacionais, é provável que as mesmas tivessem decorrido entre os anos de 1200 e 1300.
Os autóctones cultivariam ainda inhame, taro, banana e cana-de-açúcar. As galinhas, talvez trazidas pelos primeiros colonos, seriam o seu único animal doméstico. Recorreriam a instrumentos modestos como arpões, anzóis, enxós de pedra e limas de coral para assegurar a sua sobrevivência num ambiente geográfico e climático pouco convidativo. Adoptaram alguns sistemas de irrigação e poços de compostagem, e procuraram empilhar pedregulhos de forma a barrar as recorrentes rajadas de vento que prejudicavam os intentos agrícolas. Além disso, também se dedicavam à caça de aves, à recolha de moluscos e à própria pesca (nomeadamente do atum), embora estas operações fossem, muitas vezes, inglórias, dada a reduzida biodiversidade no panorama insular.





Imagem nº 2 - A presença de petroglifos (sinais esboçados nas rochas) e o respectivo culto ao homem-pássaro jazente nos ilhéus observados mesmo junto à costa da Ilha da Páscoa. O deus Makemake era a figura suprema da religião rapanui, embora existissem outras divindades e heróis venerados. 
Foto da autoria de Robin Atherton




O expoente máximo da arte rapanui – os "moais"

Como qualquer civilização, a comunidade rapanui desenvolveu as suas próprias expressões culturais. Através de cânticos em coro e objectos de som rudimentares, recriaram a sua própria criatividade musical. Apesar de serem uma sociedade indígena, lograram ainda confeccionar mantilhas de penas, tecidos de casca, enxós, etc. 
No entanto, a expressão por excelência da sua arte prende-se com a sua vocação para a escultura. Ao todo, existem hoje na pequena Ilha da Páscoa 887 moais (outros asseguram que até poderão ser mais do que 900!), estátuas altivas de madeira ou formatadas em pedra/rocha que visam retratar alegadas figuras humanas ou deidades. Julga-se que terão sido maioritariamente erguidas entre 1250 e 1500 d. C. (poderão existir algumas excepções de moais mais antigos), embora a sua simbologia seja ainda hoje motivo de debates entre os profissionais da história e da arqueologia.
De acordo com os especialistas, é provável que os Rapanui tivessem erigido tais monumentos de forma a homenagearem os seus líderes mortos. Repare-se que as esculturas foram erguidas de costas para o mar, encontrando-se viradas para o interior da ilha onde ficavam as aldeias. Esta disposição poderá indiciar um apelo aos senhores ancestrais de Rapa Nui para que zelassem pela protecção do seu povo face às inúmeras adversidades. 
Outra explicação possível radica na possibilidade dos moais terem servido como pára-raios da ilha, visto que a incidência de chuvas e trovoadas seria considerável. O pukao, espécie de chapéu, feito a partir de uma pedra vulcânica avermelhada e porosa, presente nas estátuas mais próximas à costa, teria servido como condutor de electricidade, ajudando a preservar aquelas esculturas.
Por outro lado, perduram ainda moais com presumível conotação religiosa, estando associados a construções cerimoniais ou funerárias (“ahu”). O caso mais flagrante na ilha parece prender-se com o centro ritual de Vinapu, onde as estruturas parecem obedecer a um formato semelhante a variadas construções incaicas situadas em Cusco. Alguns investigadores esboçaram mesmo a possibilidade de um contacto entre aquela civilização ameríndia e os nativos da Ilha da Páscoa, talvez ainda no reinado de Túpac Yupanqui (imperador inca que governou entre 1471 e 1493).
Como casos mais particulares encontramos também os moais de Ahu Akivi que presumivelmente seguiriam uma orientação astronómica e que haviam sido erguidos durante o século XVI.
Segundo o historiador Rainer Sousa, é possível que alguns moais tivessem servido ainda "para demarcar terras ou vincar a liderança política de algum líder que tenha vivido na ilha".
Em termos de dimensões, os moais compreenderiam uma altura média de 4,5 metros, embora algumas estátuas tenham atingido excepcionalmente os 10 metros! No que diz respeito ao peso estandarte, este rondaria as 5 toneladas, mas poderiam existir casos de moais que pesassem bem mais do que 10 toneladas (pelo menos, conhecemos o caso de um moai que atingiria o peso de 27 toneladas!). Aliás, no que diz respeito ao peso, os números poderiam ser completamente variáveis.
Em jeito de curiosidade, os moais Ahu Tongariki são os mais conhecidos da ilha, visto que assumem uma localização relevante junto à costa. Ao todo, são 15 estátuas erguidas, o que revela o esforço do empreendimento indígena. Apesar de terem sido em parte derrubados por conflitos civis entre os nativos e por um tsunami posterior (já no século XX), a verdade é que foram reabilitados durante a década de 1990.






Imagem nº 3 - Os moais Ahu Tongariki: 15 estátuas gigantes viradas para o interior da ilha, estando de costas para o mar. 





Imagem nº 4 - Os moais impressionam pela sua grandeza e comprovam os dons escultóricos do povo rapanui.
Foto da autoria de Frank Kehren






Imagem nº 5 - Um moai que alberga no seu cimo um pukao - espécie de cilindro avermelhado. Não se sabe ao certo qual seria o seu significado. Seria uma espécie de chapéu, cocar, peruca ou turbante que os indígenas mais eminentes da tribo utilizariam para se evidenciarem socialmente? 
Alegadamente, o pukao era feito a partir de pedras extraídas da cratera ou do cone de escória de Puna Pau, e o seu processo de talhamento poderia levar dois ou três meses.





Imagem nº 6 - Os moais encontram-se dispersos pela ilha, tanto junto ao litoral como no seu interior. Muitos apelidam, mais tarde, a Ilha da Páscoa como a "Ilha das Estátuas". 





O declínio do povo Rapanui

Quando os europeus arribaram à ilha no século XVIII, a tribo Rapanui parecia viver num estado bastante precário, encontrando-se num inequívoco retrocesso social. A ilha estava, cada vez mais, depauperada de recursos, tornando assim mais crítica a sua auto-sustentabilidade. 
A sobre-exploração da ilha, motivada pela limitação de bens essenciais e por uma população em expressão crescente (visível em séculos precedentes), poderá ter originado uma grave crise económica e até mesmo conflitos internos. Esta teoria é, pelo menos, adoptada por Jared Diamond na sua obra “Collapse” (2005). De acordo com esta linha de raciocínio, a desflorestação da ilha (devido à necessidade constante de madeira) e o condicionamento em torno das fontes de alimento (a biodiversidade era reduzida e as cultivações seriam precárias devido ao clima vigente) podem explicar a decadência dos Rapa Nui. Além disso, este povo tinha despendido tantas energias e materiais ao erguer os seus célebres “moais”. 
O desmatamento excessivo provocou ainda a erosão do solo e a ausência de madeira para a construção de novas habitações bem como de pequenos barcos que seriam utilizados na pesca.
Também algumas plantas insulares teriam desaparecido. Das 48 que supostamente existiriam outrora, apenas passariam a restar 22, aquando da chegada europeia. De acordo com relatos ancestrais, teria inclusive ali existido uma das maiores palmeiras do mundo – a “Palmeira Rapa Nui”, a qual não resistiria talvez à exacerbada exploração tribal. 
Esta realidade seria assim presenciada por Jacob Roggeveen, o primeiro europeu a chegar, embora que acidentalmente, à Ilha da Páscoa a 5 de Abril de 1722. O navegador holandês teria permanecido na ilha durante alguns dias, estimando que a população nativa rondaria entre os 2 e os 3 mil habitantes (embora este número terá sido bem superior nos séculos anteriores). Em 1770, seria a vez do espanhol Felipe González de Ahedo arribar ao território, demonstrando a sua intenção de anexar a ilha aos domínios espanhóis. Também o inglês James Cook e o francês Jean-François de Galaup se deparariam com a ilha em 1774 e 1786 respectivamente. 
Os séculos XVIII e XIX revelar-se-iam ainda mais nefastos para estes nativos. Tal como já se havia sucedido com as sociedades ameríndias, os contactos com os europeus e com os seus súbditos colonizadores da América traduziram-se em vários dissabores. Por um lado, os rapanui foram vítimas de algumas doenças trazidas pelos europeus (como por exemplo, a temível varíola), enquanto que, por outro, passaram a ser um alvo vulnerável por parte de todos aqueles que se dedicavam ao tráfico esclavagista. Além disso, é provável que entre os séculos XVII e XVIII tivessem rebentado conflitos internos entre a própria tribo Rapanui, devido à falta de recursos para satisfazer as suas necessidades. A violenta guerra travada entre os vários clãs ocasionou mesmo a destruição de vários moais, os quais seriam reconstruídos ou reparados mais tarde. Em tempos passados, adoptaram-se também práticas de sacrifícios humanos e canibalismo, de forma a agradar ao deus supremo Makemake.
A ilha acabaria por ser anexada pelo Chile em 1888 através da iniciativa do comandante Policarpo Toro Hurtado. Aquando desta efeméride, apenas viveriam ali pouco mais de uma centena de nativos (101 ou 111, de acordo com testemunhos cronológicos ligeiramente separados), um número alarmante que confirmava o declínio demográfico, social e económico dos rapanui. Na altura, as autoridades chilenas firmariam um acordo com Atamu Tekena, o líder da tribo. Em troca da sua autonomia, os ilhéus estariam agora mais a salvo de eventuais ataques por parte de esclavagistas europeus e americanos (sobretudo peruanos). Em 1966, os habitantes da ilha passaram a ter finalmente direito à cidadania chilena. Actualmente, e apesar das adversidades registadas ao longo dos últimos cinco séculos e do facto da maior parte dos habitantes se expressar hoje em espanhol, a verdade é que cerca de 60% da população residente na Ilha da Páscoa (recorde-se que, ao todo, são mais de 5 mil os habitantes da ilha) é descendente daquele povo aborígene, cujas tradições se mantêm ainda vivas, motivando o entusiasmo de todos aqueles que tencionam conhecer a produção cultural original patente naquele território. E claro, os seus moais embelezam ainda mais o seu legado, perpetuando-o para a eternidade.






Imagem nº 7 - Teatralização recente que visava imitar as tradições da comunidade rapanui.
Direitos da Foto - OREALC/UNESCO Santiago / Foter / CC BY-NC-SA





Imagem nº 8 - Uma sessão de dança tradicional rapanui. Este povo sempre manifestou um orgulho especial pelo seu passado, pelas suas tradições e pelos seus antigos líderes.




Referências Consultadas: