Este site foi criado com o intuito de divulgar os feitos mais marcantes no decurso da história mundial

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Balduíno IV, o jovem rei leproso de Jerusalém


Um Contexto Atribulado


A Segunda Cruzada (1147-1149) conduzida pelos reis Luís VII de França e Conrado III do Império Sacro Romano Germânico havia sido um fracasso completo, com um cerco que satiricamente só durou praticamente uma semana em torno de Damasco. A descoordenação foi tremenda até ao ponto da expedição não ter procurado sequer punir Zengi, o atabeg de Mossul e Alepo responsável pela queda do condado cristão de Edessa em 1144, motivo pelo qual se pregou a Segunda Cruzada. Desde então, o espírito de jihad começou a crescer. Depois de Zengi, veio seu filho Nur ad-Din, mas também em breve, surgiria Saladino, um dos sultões mais bem sucedidos de sempre na História do Islão. A situação dos estados cristãos do Levante/Palestina já era bem distinta daquela em que se evidenciaram grandes nomes da estratégia militar como Godofredo de Bulhão, Balduíno I, Boemundo de Taranto, Raimundo de St. Gilles, entre outros responsáveis pela criação e expansão dos domínios latinos no Oriente. A realidade a partir de meados e da segunda metade do século XII, remete-nos para as intrigas internas na luta pelo poder em Jerusalém. Os barões divergiam constantemente, a ideia de estabilidade correspondia a um cenário meramente virtual. O ascendente estava agora do lado da facção muçulmana. A última vitória cristã (a qual constituiu um momento isolado) de digno registo tinha acontecido no reinado de Balduíno III que, em 1153, tomou a cidade portuária de Ascalona, empreendimento militar em que também terá participado o templário português D. Gualdim Pais. Mas depois os desaires acentuaram-se com Amalrico I que promoveu algumas invasões ao Egipto (1163-1169) sem lograr uma única conquista determinante, apesar da destruição e dos saques que terão ocorrido. Aliás, seria neste palco de guerra que Saladino começou a dar as suas primeiras grandes provas juntamente com o seu tio Shirkuh. Dada a decadência da dinastia fatímida, e após a morte do último califa, Saladino apoderou-se do Egipto, tornando-se então no novo sultão, o que decerto desagradou ao até então seu mestre Nur ad-Din que o havia incumbido de apenas travar a invasão cruzada ao Egipto. A relação entre ambos será tensa no final. Entretanto, Nur ad-Din falece em 1174, e Saladino, graças ao prestígio que já possuiria, também acabará por se apoderar gradualmente da Síria. Ao tornar-se senhor deste império aiúbida (Síria e Egipto), Saladino tornava-se num soberano poderoso, tendo ao seu dispor armadas que poderiam atingir os 100 mil homens. Além disso, promovia uma união mais estabilizada no Islão, podendo agora tirar proveito do declínio das forças cristãs no Levante.
Foi realmente neste contexto inglório que Balduíno IV teve de se mover, desenvolvendo todo o tipo de esforços para procurar evitar aquilo que aparentava ser inevitável - a queda da Cidade Santa - Jerusalém, a qual havia sido conquistada em 1099 pelos cruzados de Godofredo de Bulhão e que agora estava em iminente perigo de cair em mãos muçulmanas.



Imagem nº 1 - Juntamente com o seu tio Shirkuh, Saladino foi bem sucedido nas campanhas do Egipto derrotando os cruzados invasores. Devido ao desaparecimento iminente da dinastia fatímida, tornar-se-ia sultão do Egipto, e com o falecimento de Nur-ad-Din, apoderou-se aos poucos da Síria, criando o império aiúbida, o que o oficilizaria como o soberano mais poderoso do Levante. Saladino foi igualmente um génio na vertente militar, além de exibir uma postura cavaleiresca, mesmo diante dos seus adversários.



Mapa nº 1 - O Império Aiúbida (1171-1246), a vermelho, incorporava vários territórios o que sufocaria as possessões litorais dos Estados Cruzados do Levante, estas representadas a cor verde.
Retirado do Wikipédia (autor colectivo - Arab League)



Os primeiros anos e a ascensão ao trono da Cidade Santa


Balduíno nasceu em 1161 em Jerusalém. Era filho de Amalrico I, rei de Jerusalém, e de sua esposa Inês de Courtenay. Aos 9 anos de idade, Balduíno viria a ser educado por Guilherme de Tiro (será arcebispo de Tiro a partir de 1175), historiador que nos deixaria um vasto e notável testemunho sobre aquele período que vivenciara. Foi este mesmo tutor que desvendou que a criança sofria de lepra, o que motivou a procura de médicos, cristãos e até muçulmanos, e de tratamentos para curar ou atenuar o avanço gradual da doença. Todavia, tais esforços de pouco ou nada valeram, pois Balduíno jamais se livraria daquela terrível doença, a qual em breve lhe iria ceifar todas as energias, causando-lhe uma morte lenta e dolorosa. O príncipe não iria viver muitos anos, embora ainda tivesse tempo para marcar a sua própria página na história.
De acordo com o historiador Carlos de Ayala Martínez, Balduíno era um jovem voluntário, culto e cuidadosamente educado pelo seu preceptor Guilherme, arcebispo de Tiro desde 1175. 
A morte de Amalrico I, rei de Jerusalém, em 1174, abriu as portas de sucessão a Balduíno que tinha, na altura, 13 anos de idade. Foi coroado como Balduíno IV. Todavia, nos primeiros tempos houve lugar a dois pequenos períodos de regência em que Miles de Plancy (este acabaria assassinado) e Raimundo III de Tripoli procuraram auxiliar o ainda jovem adolescente nos assuntos do reino. 





Imagem nº 2 - Guilherme de Tiro, enquanto tutor, descobre os primeiros sintomas de lepra no jovem Balduíno de 9 anos, depois deste ter brigado com outras crianças.
Gravura contida num manuscrito medieval da Estoire d'Eracles (século XIII).



O reinado do jovem leproso


Balduíno IV sabia que a doença não lhe permitiria usufruir dum reinado duradouro, pelo que uma das suas prioridades passou por assegurar uma sucessão segura, procurando casar a sua irmã Sibila, de forma a que pudesse ser sucedido por um sobrinho. Dentro deste contexto, Sibila contrairá o seu primeiro matrimónio com Guilherme de Montferrat, conde de Jaffa e Ascalona, do qual resultará o nascimento dum filho - também ele herdeiro do nome "Balduíno" (seria o quinto com esta designação). É claro que a sucessão seria assegurada, mas o futuro Balduíno V teria um governo bastante precoce, e nem o seu futuro padrasto Guido de Lusignan (com quem Sibila se casaria pela segunda vez) estaria ao nível exigido dos acontecimentos, revelando uma visão política desastrosa, factos que não impedirão a queda do reino cristão de Jerusalém em 1187 face às tropas da nova estrela que se reerguia no Oriente - o sultão aiúbida Saladino.
Voltando ao reinado de Balduíno IV (1174-1185), não podemos ignorar os esforços deste em construir novas fortalezas e reestruturar outros edifícios defensivos. Para alcançar esta finalidade, dispôs do fundamental auxílio dos templários. Aliás, mesmo com o agravamento dos sintomas da doença, a verdade é que Balduíno sempre intentara demonstrar carácter e discernimento no decurso do seu governo. Como prova disso, ele procurou rodear-se duma boa equipa de conselheiros, onde estavam presentes o leal arcebispo Guilherme de Tiro (seu anterior educador) e o seu primo, o Conde de Tripoli e ex-regente de Jerusalém - Raimundo III. Mesmo assim, as intrigas cortesãs continuavam a existir, o que desgastou mais o seu estado de saúde.



Os conflitos diante do sultão Saladino


O crescimento militar das hostes lideradas por Saladino preocupavam a corte cristã de Jerusalém, pelo que Balduíno IV decidiu romper as tréguas com o sultão aiúbida que haviam sido firmadas pelo seu anterior regente Raimundo de Tripoli. Os avanços de Saladino (já dono do Egipto) na Síria eram claros. Balduíno optou pois por promover raides junto a Damasco, o que obrigou o sultão a abandonar o cerco a Alepo e a recuar para uma posição defensiva. Hoje é unânime concluir que esta decisão fora tomada com sabedoria, pois o rei de Jerusalém sabia que não tinha elementos suficientes para proceder a um ataque frontal em Alepo contra o poderoso exército de Saladino, mas poderia fazê-lo recuar diante daquela cidade que ainda não lhe tinha caído nas mãos, através duma provocadora ofensiva contra Damasco, cidade basilar que já era controlada por Saladino desde 1174. Em 1176, Balduíno programou novas incursões no vale de Bekaa, Síria e Líbano, e as suas forças travaram inclusive um ataque dum sobrinho de Saladino. Não se tratavam pois de campanhas de grande envergadura (os cristãos do Levante nem dispunham de meios militares para tal naquela altura), mas eram suficientes para incomodar o sultão aiúbida. No palco belicista, o jovem leproso Balduíno ostentava uma maturidade inegável, e talvez essa característica individual tenha constituído o principal motivo para a sobrevivência, embora que precária, dos territórios cruzados durante o seu reinado que perduraria até 1185.
Além destas operações, o rei de Jerusalém procurou uma parceria com o Império Bizantino de forma a encetar uma invasão ao Egipto, onde Saladino assentava o seu nevrálgico poder. A campanha seria comprometida com o adoecimento e consequente falecimento de Guilherme de Montferrat (marido da sua irmã Sibila), o que igualmente terá contribuído para o agravamento do estado de saúde de Balduíno que teve de colocar de lado tais planos tão ambiciosos. Novamente, se abordou a possibilidade duma nova regência, até que Balduíno apresentasse algumas melhorias. O Conde Filipe da Flandres que veio em peregrinação com o seu próprio destacamento militar, e que até era primo do rei leproso de Jerusalém, recusou a regência. Todavia, a morte de Guilherme de Montferrat deixaria Sibila viúva, o que constituiria uma excelente oportunidade para quem desejasse aceder ao poder em Jerusalém, após o falecimento de Balduíno IV que ocorreria inevitavelmente em breve. Há disputas e mau-estar entre os barões dos estados cruzados.
Como se não bastasse, a descoordenação entre os cristãos era outra realidade inegável. Em Outubro de 1177, o conde da Flandres pegou numa parte considerável das forças e lançou uma campanha contra o castelo muçulmano de Harim. A ele também se juntaram Raimundo III, conde de Tripoli e anterior regente do reino de Jerusalém, e Boemundo III, príncipe de Antioquia. Aproveitando um potencial cenário de enfraquecimento militar na Cidade Santa, Saladino planeou, a partir do Egipto, uma invasão ao reino de Jerusalém. Era a sua primeira tentativa de recuperar o controlo muçulmano sobre a Cidade Santa, quando esta predispunha naquele momento de limitadas forças.



A Batalha de Montgisard (1177)



Saladino julgava que o rei leproso de Jerusalém, reduzido ao seu leito de doente crónico, não seria uma ameaça aos seus planos. O sultão procede à invasão com uma armada de 26 000 homens que transportava a sua própria bagagem de assédio militar, e empreende os seus primeiros ataques em Ramla, Lydda e Arsuf.
Talvez subestimando a capacidade de reacção do adversário, autoriza que os seus efectivos pudessem combater e pilhar por uma área considerável. Todavia, Saladino, que viria a marcar mais tarde o seu nome numa página de ouro em que só estariam incluídos os grandes estrategas militares do Medievo, tinha acabado de cometer um erro crasso - consentindo aquilo que se traduziria numa exagerada dispersão e consequente desorganização das suas tropas.
Por seu turno, as forças cristãs que assentavam em 375 cavaleiros (80 seriam templários), e em poucos milhares de soldados de infantaria (talvez menos do que 4 mil infantes; aliás houve mesmo membros da burguesia urgentemente integrados neste destacamento). À frente deste pequeno exército estava Balduíno IV, um rei que teve forçosamente de deixar os seus aposentos, nos quais procurava recuperar o fôlego absorvido pela lepra, para sair a cavalo, situação em que tirou proveito das suas escassas energias e, por conseguinte, reuniu a força possível para ir de encontro ao poderoso inimigo. Muitos julgavam que o rei ("meio morto" por causa da evolução da lepra) não iria aguentar as incidências da batalha e que provavelmente tombaria devido à exigência desgastante da campanha. Com Balduíno, estavam outros barões: Reinaldo de Chatillon (um cristão fanático que viria a dedicar-se à cruel pirataria),  Balduíno de  Ibelin e seu irmão Balian de Ibelin, Reginaldo de Sídon e Joscelin III de Edessa, além da presença do grão-mestre templário - Odo de Saint Amand.
Saladino subestimara estas movimentações, acreditando que as forças cristãs eram insuficientes para o travarem, e por isso, o sultão continua a marcha em direcção a Jerusalém, prevendo que esta lhe caísse com maior ou menor dificuldade. Grave erro, do qual Saladino teria aprendido uma enorme lição, para que no futuro, pudesse ser considerado um dos soberanos mais vitoriosos de sempre. Logicamente, as forças muçulmanas encontram-se dispersas quando estão já próximas da cidade de Ramla, sendo que havia uma colina denominada de Montgisard, onde as tropas de Balduíno se concentraram para lançar um ataque surpresa contras as forças muçulmanas.
A partir do topo da colina, o exército cristão ficou aterrorizado ao avistar o poderoso exército de Saladino que ia ao seu encontro. A desmoralização começou a apoderar-se das hostes cristãs, mas Balduíno, apercebendo-se da situação desesperante, tomou um passe em frente, e mesmo com a sua agravada doença, desceu do cavalo e pediu ao Bispo de Belém para que erguesse a relíquia da Vera Cruz (a cruz onde se julga que Jesus Cristo havia sido crucificado) diante de todos. O rei prostrou-se com dificuldade no chão diante da relíquia sagrada, orando emocionadamente a Deus para que este lhes concedesse a vitória. Levantando-se depois da meditação, Balduíno exortou as suas tropas, que encorajadas pelo seu jovem rei, aplaudiram a sua nobreza e consentiram em lançar uma intensa carga sobre o inimigo. As forças muçulmanas, embora em número bastante superior, estavam desorganizadas ou fragmentadas. O impacto intempestivo da carga cristã causou pânico nos contingentes muçulmanos que não tiveram definitivamente qualquer possibilidade de se reagrupar ou reorganizar, o que era essencial para imprimirem uma coesão necessária. Como se não bastasse, o trem ou bagagem de armamento transportada pelos muçulmanos acabaria por ficar atolada num rio da região, onde os terrenos lamacentos ou pantanosos impediram que os invasores recorressem às ferramentas aí contidas.
Saladino procurou reagrupar a sua guarda-pessoal de mamelucos enquanto seu sobrinho Taqi ad-Din liderava o ataque que seria praticamente aniquilado pelos cristãos. Taqi ad-Din consegue sobreviver às incidências, mas o seu filho, que o acompanhava, acaba por tombar em combate. Muitos elementos da guarda-pessoal de Saladino deram corajosamente a sua vida pela do sultão que só conseguiu escapar com recurso a um camelo de corrida.
Por seu turno, as fontes tendem a elevar a coragem de Balduíno que teria liderado a carga cristã com as mãos enfaixadas, de forma a cobrir as suas feridas. Por um lado, é difícil imaginar que um soberano, cujo corpo se encontrava em estado avançado de hanseníase agressiva, pudesse ter forças para comandar o ataque, mas por outro, a ter acontecido, e embora o risco tivesse sido enorme, a verdade é que o seu exemplo terá motivado os soldados restantes.
As tropas cristãs perseguiram as forças de Saladino até ao anoitecer, e depois retiraram-se rumo a Ascalona. Por seu turno, a armada destroçada do sultão egípcio teve de enfrentar um retorno penoso que se prolongou por 10 dias carregados de intensas chuvas. Como se não bastasse, os beduínos do deserto não hesitaram em atacá-los de forma a pilhar os bens que ainda podiam transportar com eles. De acordo com as crónicas, apenas um décimo da força de Saladino conseguiu sobreviver (dos 27 mil inicialmente estimados, entre 2 500 a 3 000 soldados terão conseguido escapar), contudo alertamos que esta previsão pode ser encarada como exagerada, e é possível que tivessem até existido mais sobreviventes, contudo é inegável que o número de baixas das forças muçulmanas foi inegavelmente elevado. No que diz respeito às tropas de Balduíno, é possível que o número de baixas rondasse o um milhar (num total de cerca de 4 mil efectivos que incorporavam o seu exército, ou até menos do que isso).
A Batalha de Montgisard foi apenas fundamental para que Balduíno IV, no decurso do seu reinado, conservasse intactos o reino cristão de Jerusalém e demais possessões latinas do Levante. Dez anos depois, em 1187, Saladino aplicaria, devido à sua genialidade militar, uma estrondosa derrota às forças do futuro rei de Jerusalém Guido de Lusignan na Batalha de Hattin, o que se traduziria na queda de várias terras controladas pelos cristãos, entre as quais Jerusalém.




Imagem nº 2 - Balduíno decide deixar o seu leito de doente, reúne as poucas forças disponíveis e marcha em direcção ao inimigo, tentando interceptá-lo antes da chegada a Jerusalém. 





Imagem nº 3 - O enfrentamento final das tropas em Montgisard. Dum lado, o jovem rei leproso e corajoso Balduíno, do outro, Saladino, o sultão mais poderoso do seu tempo.
Quadro da autoria de Charles Philippe Larivière (1798-1876)



Imagem nº 4 - A carga final das tropas cristãs que aproveitam a desorganização das forças muçulmanas. Na gravura, veja-se o Bispo de Belém a transportar a Vera Cruz, de forma a motivar os soldados a combater pela causa religiosa.
Retirada de: http://www.deviantart.com/art/Battle-of-Montgisard-168630488, (Giacobino).






O Sofrimento e Morte do Rei


A vitória em Montgisard afastou por alguns anos, não muitos como já referimos, o sultão egípcio de tentar uma nova invasão à Terra Santa. Todavia, a saúde de Balduíno sairia mais debilitada após aquele intensivo e desgastante confronto. Seria uma questão de tempo até perder os olhos e o uso dos seus membros, o que parece acontecer definitivamente em 1183. A lepra corroía impiedosamente o corpo das suas vítimas, causando dores inimagináveis aos seus portadores.
Balduíno desejava abdicar: terá escrito a Luís VII, rei de França, pedindo que este enviasse um barão conceituado que substituísse a sua "mão fraca" que poderia estimular uma nova ousadia por parte dos muçulmanos que estavam sempre atentos à situação dos acontecimentos. Todavia, esta solicitação não terá sido atendida como Balduíno desejara. Procurou então arranjar um casamento entre sua irmã e "viúva" Sibila (Guilherme de Montferrat já havia falecido) com o duque Hugo de Borgonha, mas novamente a intenção não foi concretizada. Aquela acabaria sim por contrair um novo matrimónio com Guido de Lusignan, um homem nada consensual entre os barões do reino e que estava longe de possuir uma visão política adequada às necessidades do reino. Balduíno preferiu, contra a sua vontade, reinar até ao fim, enquanto a doença o devorava interiormente, além da angústia que deveria sentir com estas tensões internas que pareciam comprometer o futuro e a viabilidade dos estados cristãos no Levante.
Em 1183, Balduíno, mesmo incapacitado, foi transportado numa maca para o campo de batalha, procurando resgatar os nobres aprisionados que tinham sido alvo dum ataque surpresa por parte dos muçulmanos. Nesse mesmo ano, opta por nomear como rei associado o seu sobrinho Balduíno V (filho de Sibila no seu primeiro casamento com Guilherme de Montferrat) que só contava com 5 anos de idade, embora o rei leproso confiasse a Raimundo III de Tripoli a regência até que a criança alcançasse a maioridade. Esta decisão não foi bem digerida por Guido de Lusignan que se sentia excluído do trono. Ainda em 1183, Balduíno, devido ao seu estado deteriorante, não consegue evitar que Saladino se apodere finalmente de Alepo, o que permitirá a este último tornar-se senhor indiscutível da Síria.
No dia 16 de Março de 1185, Balduíno, com apenas 24 anos de idade, libertou o último fôlego de sofrimento, o qual se havia intensificado nos últimos 2 anos que o deixaram praticamente imobilizado. A lepra acabou, desde cedo, por anunciar a sua morte a breve-médio prazo, mas a dignidade e a sua bravura mereceram inclusive o respeito do seu rival Saladino. Balduíno IV nunca havia utilizado a sua doença para fugir às responsabilidades enquanto soberano, nem mesmo quando já não dispunha de energias... O seu corpo seria sepultado na Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém.
O seu falecimento gerou, a breve prazo, graves problemas de sucessão. A ainda criança Balduíno V, oficialmente já co-rei desde 1183 (embora com o apoio dum regente), falece em 1186 com apenas 9 anos de idade. É sucedido por Guido de Lusignan (ou Guy de Lusignan), um rei sem visão estratégica, que ainda não soube impor a sua autoridade sobre o súbdito Reinaldo de Chatillon, o qual se dedicou a vários actos de pirataria contra caravanas muçulmanas, principal motivo que originou a quebra das tréguas firmadas recentemente entre cristãos e muçulmanos, e uma nova invasão por parte de Saladino em 1187, esta totalmente bem sucedida.
Os derradeiros anos antes da Batalha de Hattin e da consequente queda da Cidade Santa, testemunharão no lado cristão, como menciona Carlos de Ayala Martínez, "as funestas consequências da luta partidária num contexto da progressiva perda da autoridade do monarca". A arrogância de algumas linhagens nobiliárquicas, obcecadas pelas parcelas e fontes do poder, acabariam por minar as bases de coesão do reino de Jerusalém. 




Imagem nº 5 - Balduíno IV, tal como mais tarde Ricardo Coração de Leão, seriam os únicos reis que conseguiriam enfrentar com mestria e bravura o temível e prestigiante sultão do Egipto - Saladino.
Retirada de: http://king-baldwin.livejournal.com/, (artista - HAL).




Imagem nº 6 - No filme "Kingdom of the Heaven", procurou recriar-se o vulto do rei leproso aquando do seu sepultamento.




Referências Consultadas:


quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Descobertas arqueológicas prometem mudar radicalmente a história dos Açores


Os potenciais achados pré-portugueses no Arquipélago


"Em certo tempo, o Infante D. Henrique, desejando descobrir logares desconhecidos no Oceano occidental, com o intuito de reconhecer se existiam Ilhas ou Terras firmes além das descriptas por Ptolomeu, mandou caravelas em busca destas terras. Partiram e viram terra ao ocidente tresentas léguas além do cabo - Finis Terrae - e, vendo que eram Ilhas, entraram na primeira, acharam-na desabitada e andando encontraram muitos muitos milhafres ou açores, e outras aves; e passando à segunda, que hoje se chama a Ilha de S. Miguel, que igualmente estava desabitada, acharam muitas aves e milhafres, assim como abundantes nascentes d'agus quentes sulfureas. D'ali viram outra ilha que na actualidade se chama Ilha Terceira, a qual à semelhança da ilha de S. Miguel, estava cheia d'arvores, aves e muitos açores"

Cronista Diogo Gomes de Sintra, 1460



No decurso das décadas de 1420 ou 1430, atribuiu-se a descoberta das primeiras ilhas açorianas a Diogo Silves e Gonçalo Velho respectivamente, embora subsistam dúvidas quanto à real primazia do descobrimento português. É ainda de ressalvar que este processo só terminaria na década de 1450, com a inclusão das ilhas mais ocidentais e consequentemente distanciadas - Flores e Corvo. Todavia, em relação ao estado do arquipélago que haviam descoberto parece haver unanimidade - o cenário totalmente desertificado saltou à vista dos exploradores. Não havia registos da presença humana naquelas ilhas, excepto os açores e milhafres que por aí nidificavam. Por isso, não há dúvidas que quando os portugueses lá chegaram durante a primeira metade do século XV, não haveria qualquer povoação a residir naquelas ilhas.
Todavia, desde cedo, caiu-se na tentação de afirmar que a história dos Açores só começou realmente com a chegada dos portugueses ao arquipélago, algures perdido e dispersado até então no seio do enorme Oceano Atlântico. Contudo, as descobertas recentes remetem-nos para uma ocupação anterior à chegada dos portugueses, colocando assim em causa a visão tradicional. 
Naturalmente, a descoberta duma pia esculpida numa rocha na Grota do Medo (Ilha Terceira), já devidamente analisada por um laboratório norte-americano, promete gerar intensos debates sobre esta problemática nos próximos tempos. De acordo com a datação proposta, a dita peça arqueológica contaria com cerca de 950 anos de existência e remontaria, pelo menos, ao século XI (senão mesmo até antes). Félix Rodrigues, Professor da Universidade dos Açores, já não duvida da importância deste achado, classificando-o como prova duma ocupação pré-portuguesa, salientando ainda que a pia jamais poderia ter sido ali colocada, pois estava presa ao aglomerado rochoso.
Curiosamente, e como nota adicional, seria interessante relembrar que os primeiros (ou primitivos) lavabos conhecidos na História Mundial remontam à Idade Antiga com a sua utilização por parte de cartagineses, romanos e gregos. Na Idade Média, acentuou-se a sua utilização nos lugares de culto cristãos. Só a partir do século XV, é que as pias começam a ser adaptadas frequentemente como peças de mobiliário doméstico.



Félix Rodrigues diz que a estrutura pode até ter mais do que 950 anos, porque "a amostra representa apenas a data em que a pia foi fraturada e não forçosamente a data em que a pia foi construída"

Imagem nº 1 - Na Grota do Medo, apurou-se a descoberta da mencionada pia esculpida em rocha. Félix Rodrigues acredita que poderemos estar perante um complexo megalítico.



Mas esta não foi a primeira nem a única polémica sobre a antiguidade histórica dos Açores. No século XVI, o cronista Damião de Góis descreve a existência duma antiga estátua equestre na ilha do Corvo, a noroeste do cume do vulcão:

"Uma estátua de pedra posta sobre uma laje, que era um homem em cima de um cavalo em osso, e o homem vestido de uma capa de bedém, sem barrete, com uma mão na crina do cavalo, e o braço direito estendido, e os dedos da mão encolhidos, salvo o dedo segundo, a que os latinos chamam índex, com que apontava contra o poente.
Esta imagem, que toda saía maciça da mesma laje, mandou el-rei D. Manuel tirar pelo natural, por um seu criado debuxador, que se chamava Duarte D'Armas; e depois que viu o debuxo, mandou um homem engenhoso, natural da cidade do Porto, que andara muito em França e Itália, que fosse a esta ilha, para, com aparelhos que levou, tirar aquela antigualha; o qual quando dela tornou, disse a el-rei que a achara desfeita de uma tormenta, que fizera o inverno passado. Mas a verdade foi que a quebraram por mau azo; e trouxeram pedaços dela, a saber: a cabeça do homem e o braço direito com a mão, e uma perna, e a cabeça do cavalo, e uma mão que estava dobrada, e levantada, e um pedaço de uma perna; o que tudo esteve na guarda-roupa de el-rei alguns dias, mas o que depois se fez destas coisas, ou onde puseram, eu não o pude saber"

Este relato concreto (e já posterior à descoberta do arquipélago) de Damião de Góis nunca foi oficialmente creditado pela historiografia nacional, o que levantou dúvidas quanto à sua veracidade. Mas dadas as mais recentes prospecções arqueológicas, sentimo-nos na obrigação moral de incluir este testemunho na compilação de todos os indícios sobre a presença humana nos Açores antes da chegada dos navegantes portugueses nas décadas iniciais do século XV.



Imagem nº 2 - Aquando da sua descoberta, a ilha do Corvo teria possivelmente uma sinistra estátua equestre, segundo nos conta Damião de Góis. Esta eventualidade nunca foi corroborada até então pela historiografia nacional.


Mas outros indícios surgiram entretanto - a alegada descoberta em 1749 de moedas fenícias ou cartaginesas na Ilha do Corvo que remontariam talvez ao século IV a. C., também não constituíram, na altura, motivo suficiente para se reconsiderar uma nova teoria sobre uma eventual pré-ocupação.



Moedas fenícias - Açores
Imagem nº 3 - Mero exemplo duma Moeda presumivelmente fenícia (frente e verso), talvez aparentando semelhanças com aquelas que terão sido encontradas no século XVIII na ilha do Corvo.


Também inscrições detectadas numa falésia localizada nas Quatro Ribeiras (Ilha Terceira) motivaram sérias discussões, pois poderão tratar-se de escritos rupestres da Idade Antiga (de novo surge a possibilidade de estarmos a referir-mo-nos a fenícios ou cartagineses).
Ainda recentemente, estiveram igualmente em voga as 140 pirâmides de Madalena do Pico, sendo que se recolheram nas sondagens arqueológicas artefactos aparentemente antigos: anzóis, pontas de metal, ossos, conchas, pesos de redes de pesca, utensílios feitos de basalto, carvões e fragmentos de peças de cerâmica. Todas as pirâmides foram construídas a partir de pedras basálticas de origem vulcânica. Algumas chegam a ter 13 metros de altura e detêm inclusive câmaras no seu interior. O arqueólogo Nuno Ribeiro acredita que estas estruturas poderiam obedecer às mesmas orientações de outras pirâmides, com eventuais motivações astronómicas e disposição de rituais funerários.


Uma das 140 pirâmides estudadas pelos arqueólogos na Madalena do Pico. Foram todas construídas em pedras basálticas de origem vulcânica conhecidas por biscoitos. Algumas chegam a ter 13 metros de altura (o equivalente a um prédio de habitação de quatro andares) e câmaras no seu interior.

Imagem nº 4 - As 140 pirâmides de Madalena do Pico (Açores) continuam a originar várias dores de cabeça aos investigadores. Tradicionalmente datadas entre os séculos XVII-XIX com fins de limpeza de terrenos agrícolas, as sondagens arqueológicas indiciam agora uma maior antiguidade e um funcionalismo distinto daquelas. 
Direitos da Foto: Associação Portuguesa de Investigação Arqueológica (APIA)



É evidente que no século XIV a potencial existência destas terras começou a ser veiculada a partir de várias lendas que circularam durante o período medieval: até houve portulanos, atlas e cartas desenvolvidos a partir das navegações encetadas por genoveses, florentinos e venezianos (entre outros), os quais começavam a colaborar para um melhor conhecimento da cartografia, ainda que deficiente e imprecisa, do mundo em que estavam então contidos.
As descobertas sobre este enigma poderão não ficar por aqui, e novidades sobre novas peças ancestrais poderão ser conhecidas nos próximos tempos.



Conclusões a retirar


Não é logicamente uma missão acessível procurar teorizar sobre as origens e a configuração deste pré-povoamento, dada a localização dos Açores, arquipélago praticamente situado no meio do extenso Oceano Atlântico. Como é que seria possível a existência duma civilização anterior à chegada dos portugueses, se os meios navais antigos e medievais utilizados, salvo raras excepções (que destacaremos já de seguida), não eram ainda suficientes para encetar uma aventura desta dimensão ou envergadura rumo ao lendário desconhecido?
Propomo-nos a reflectir e a formular potenciais cenários, mas é evidente, que estaremos sempre a entrar num campo essencialmente especulativo.
Dentro deste contexto, Fenícios e Cartagineses, civilizações com tremenda vocação comercial, evidenciaram-se no Mar Mediterrâneo e fundaram as suas colónias na Idade Antiga, e até é possível que se tivessem interessado pela exploração do Oceano Atlântico. Se chegaram efectivamente aos Açores, numa expedição isolada, é claramente discutível se aí teriam permanecido por muito tempo. Talvez se tivesse tratado duma colónia temporária que seria abandonada dada a elevada e inglória distância (e os riscos daí adjacentes) a que a mesma se encontrava das bases civilizacionais. Além disso, e apesar de alguma potencialidade ao nível da produção cerealífera e das plantas tintureiras (como mais tarde, os portugueses testemunhariam) este arquipélago que consistia em pouco mais do que um punhado de pequenas ilhas talvez não fosse bastante apetecível ou rentável do ponto de vista económico para justificar uma exploração contínua de extremo risco e tremendos custos.
Também há-que considerar a hipótese da pirataria (encetada por embarcações cristãs e muçulmanas), visto que há a possibilidade de barcos terem encalhado ou aportado nos Açores devido aos ventos e tempestades que se faziam sentir no oceano, deixando assim as suas ligeiras marcas naquele território.
Por fim, mais duas teses que podem explanar uma eventual ocupação pré-portuguesa. Os normandos ou vikings demonstraram uma actividade intensa na Alta Idade Média, alcançando o seu clímax por volta do ano 1000, quando chegaram ao continente americano, mais concretamente, a território que pertence ao actual Canadá, onde fundaram 3 colónias. Com o seu desenvolvido barco - o dracar, os vikings explorariam de forma ímpar vários pontos do mundo, demonstrando um espírito aventureiro único. Se chegaram aos Açores, não o sabemos, mas se a pia, citada em cima, remontar factualmente ao século XI, então foi esculpida ou, pelo menos, utilizada poucas décadas depois da chegada viking ao continente americano. Também é sobejamente conhecida a arte viking em monumentos megalíticos. Tal como nas colónias criadas no Canadá, e caso tivessem realmente estado nos Açores, não é de estranhar igualmente uma presença, apenas temporária, em espaços longínquos, cujo controlo à distância era quase impossível de manter.
A última, mas não menos importante hipótese poderá remeter-nos para um estabelecimento tribal, à semelhança do que acontecera com o arquipélago das Canárias, sendo que aquele povoamento primitivo "açoriano", a ter realmente existido, deverá ter sido extinto talvez alguns séculos antes da chegada dos portugueses. Como se trataria porventura duma fixação indígena selvática e não muito desenvolvida, entende-se que, ao contrário de outras grandes civilizações, não tivessem deixado sequer ruínas de importantes edifícios. Porém, esta teoria pode ter um entrave que necessita de ser explicado - como é que os indígenas alcançariam este arquipélago localizado no meio do Oceano Atlântico? As suas modestas canoas não seriam, a nosso ver, suficientes para percorrer mais de 2 000 km no seio dum oceano incerto e fustigante. 
Neste momento, é certo que as investigações prosseguem, e da nossa parte, prometeremos continuar a dedicar muita atenção a este tema. Todavia, algo já poderemos concluir, a presença humana no arquipélago é anterior à chegada dos portugueses, mas essa porção remota da história açoriana ainda contém diversas pontas soltas, e por isso, não podemos extrair conclusões exactas sobre como se revestiu essa ocupação pré-portuguesa, pelo que tudo ainda é muito vago, apesar das teorias que procuramos lançar neste artigo.



Imagem nº 5 - O arquipélago dos Açores oculta, no seu interior e ao longo da sua paisagem, vários mistérios sobre a sua história. Afinal, os açores e demais aves não terão sido os únicos "habitantes" daquelas ilhas ao longo dos tempos.



Referências Consultadas:

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

William Marshal, Conde de Pembroke e Cavaleiro por excelência


Contexto

A história de William Marshall é digna de ser recordada no período medieval. Foi um cavaleiro que deu provas da sua categoria e lealdade nos mais diversos palcos a que foi submetido. Apresentou provas da sua habilidade militar em diversos torneios nobiliárquicos, onde o risco de morte tinha de ser levado em conta. No plano político, serviria 4 ou 5 reis ingleses, o que elevou claramente o seu prestígio. O seu contributo foi essencial numa época em que a instabilidade e a insurreição interna no seio do reino inglês constituíram uma realidade muito frequente.



O seu início de vida atribulado e a aventura pela Normandia


William nascia em 1147 e era o 4º filho de John FitzGilbert, um marechal da corte do rei Estêvão. Ao contrário do que se possa julgar, e apesar da sua indiscutível ascendência nobre, o nosso biografado não advinha dum meio excentricamente abastado, visto que a influência política e o património possuído estavam longe de ser gigantescos ou impressionantes. Alegadamente este terá sido o motivo pelo qual a sua família, e nomeadamente o seu pai, se rebelaram contra o rei Estêvão, naquele período de guerra civil e anarquia, tomando assim o partido de Matilde na disputa pelo trono inglês. Estêvão reagiu energicamente, colocando John numa situação delicada, sendo que este enviou o seu filho (na altura com 5 anos!) como refém de forma a conseguir uma trégua com o rei inglês contestado. O acordo estipulado visaria a rendição do pequeno castelo de Newbury por parte de John FitzGilbert que assim o teria de entregar ao soberano inglês, em troca da libertação posterior do seu filho. Mas o pai de William rapidamente rompeu o acordo, referindo presumivelmente que não teria problemas em fazer mais e melhores filhos. Esta postura irreflectida colocou em causa a vida de William, mas o rei Estêvão decidiu poupar a criança porque parecia admirar a sua inocência.
Com 12 anos contados em 1159, e já em total liberdade, rumará à Normandia (no actual Norte de França, embora no final do século XI e no decurso do século XII tivessem existido vários momentos em que fora considerada um feudo da Inglaterra), mais concretamente para casa do primo da sua mãe - William de Tancarville, mordomo da Normandia. Aí começa a envolver-se em torneios com outros cavaleiros. É evidente que a brutalidade poderia deixar os participantes em mau estado ou até levar à sua morte, mas foi através desta experiência que o jovem William começou a preparar-se para as acções intensas e desgastantes de combate. Assimilou depressa a arte da guerra, rubricando performances invejáveis em vários torneios então realizados. Assim, ele juntava algum dinheiro e alcançava o respeito da comunidade, e logo praticando aquilo que ele mais apreciava. Todavia, William sofreria uma grande decepção que o obrigaria a deixar, pelo menos por agora, esta vida que provavelmente ele tão adorava, para se mostrar finalmente ao mundo. O assassinato do seu tio, o conde Patrick de Salisbury (ao qual também havia servido), que ocorreria em França em 1168, no âmbito duma rebelião da família Lusignan, deixou William revoltado que, em vão, tentou protegê-lo por via do combate, mas acabou ferido e capturado. Todavia, como havia sido partidário da rainha Leonor da Aquitânia (além desta ter ficado impressionada com a sua bravura e lealdade), teve a sorte daquela prestigiada senhora lhe pagar o seu resgate, abrindo-lhe automaticamente as portas de acesso à corte e comitiva reais. O próximo capítulo seria passado ao serviço do rei Henrique II de Inglaterra, ou melhor, ser-lhe-ia atribuída a missão concreta e prioritária de zelar pelo jovem filho deste, também ele designado de Henrique.




Imagem nº 1 - William Marshal participou em vários torneios na Normandia.
Fonte original da imagem(?) - Georges Duby. Guillaume le Maréchal ou le meilleur chevalier du monde, chapitre IV, in Féodalité. Gallimard, 1996. Collection Quarto. Première publication: 1984. Sébastien Nadot, Rompez Les lances ! Chevaliers et tournois au Moyen Âge, éditions AUTREMENT, Paris




Ao serviço de Henrique II e do seu filho Henrique, o Jovem


Em 1170, Henrique II coroou o seu filho Henrique como rei. Este último, dada a sua juventude, privilegiava antes os torneios em detrimento das questões políticas. Despendia muito dinheiro para encontrar o caminho para a glória. E assim sendo, partilhava da mesma preferência já evidenciada por William, sendo que este demonstrou a disposição de conceder-lhe os ensinamentos da cavalaria medieval. Desenvolveu-se uma grande relação de respeito e proximidade entre os dois, sendo que o jovem rei Henrique pediu a William que o ordenasse cavaleiro. Todavia, as lutas pelo poder entre o rei Henrique II e o já coroado príncipe Henrique colocaram William numa situação ingrata, pois devia máxima lealdade a ambos. Nesta altura, o nosso biografado não evitará desconfianças e inimigos na corte. Por conseguinte, chegaria a ser acusado de ter dormido com a mulher de Henrique, o jovem rei, além de outros o criticarem por se concentrar mais na participação nos reputados torneios do que no dever de proteger o dito príncipe. Ele refutou prontamente tais insinuações ou acusações, mas em vão, pois seria afastado da corte.
Sem servir agora a ninguém, William voltou a frequentar torneios reputados e recebeu inclusive propostas lucrativas da parte de homens poderosos como o Conde da Flandres e o Duque da Burgúndia. Devido ao facto de ser um dos melhores do mundo nesses torneios cavaleirescos, ninguém ficava indiferente perante a habilidade e versatilidade do cavaleiro. Todavia, chegariam em breve novas notícias da corte inglesa.
Em 1183, sucede-se uma nova querela entre Henrique II e o seu filho, e William volta a ter uma oportunidade de reingressar nos assuntos da corte real. Paradoxalmente, no meio desta escaramuça, o cavaleiro solicitou a Henrique II que lhe cedesse permissão para servir o seu filho (talvez por ter mantido com este uma ligação mais próxima) contra ele, o que até foi curiosamente autorizado pelo rei, até porque este acreditava que William poderia ser uma influência positiva junto do seu filho, podendo até demovê-lo da revolta que estava a encetar. Contudo, a história seguiria um rumo diferente daquilo que muitos na altura previam. Henrique, o Jovem, com 28 anos, faleceria devido a doença (talvez disenteria), ainda no ano de 1183, causando um grande desgosto a seu pai Henrique II e ao seu leal servidor e amigo William.





Imagem nº 2 - William Marshal seria um exímio cavaleiro que deixaria a sua marca no seu tempo.




A Peregrinação de William à Terra Santa


No leito de morte, o príncipe Henrique terá pedido a William que concretizasse o voto de cruzada que havia feito, objectivo que não poderia agora cumprir dado o seu estado de desaparecimento iminente. Além disso, requereu ao seu mestre e, em simultâneo, seu leal servidor, a necessidade de levar o seu manto (confeccionado com uma cruz de cruzado que teria sido entregue ao jovem rei para o cumprimento do voto que afinal o destino não lhe permitira viabilizar) até ao Santo Sepulcro em Jerusalém.
Em nome da honra e pelo zelo de salvação por Henrique, William partiu em cruzada para a Terra Santa, onde de acordo, com algumas fontes, terá permanecido por dois anos (1183-1185, 1184-1186 ou 1185-1187?). Infelizmente, os detalhes desta aventura (financiada por Henrique II, pai do jovem rei falecido), talvez mais pessoal do que uma jornada com finalidade colectiva, repousam nas páginas perdidas da História, pois infelizmente, muito pouco ou mesmo nada se sabe sobre esta sua viagem. É provável que tenha visitado Jerusalém e os lugares santos, onde pediria pelo acolhimento divino da alma do jovem Henrique, além de ter evidenciado alguma aproximação à causa dos templários, não estando excluída a possibilidade de ter colaborado com aquela famosa organização militar de cavaleiros. O que podemos adiantar é que terá regressado à Europa nas vésperas da Batalha de Hattin, pelo que os anos de 1186 ou até de 1187 se afiguram como os mais prováveis para a sua viagem de retorno a Inglaterra. Se consideramos todo este raciocínio como verdadeiro, então William havia exercido a sua vocação guerreira no decurso dos reinados de Balduíno IV (o rei leproso) e Balduíno V. A morte deste último em 1186 abriu as portas a Guido (ou Guy) de Lusignan, casado com Sibilla, que assumiria o trono da Cidade Santa, com resultados trágicos no plano político. E esta pode ter sido uma das razões possivelmente invocadas para que William tivesse regressado. Aliás, tinha sido a casa de Lusignan, com o envolvimento do mencionado Guido e de seus irmãos, que havia sido directamente responsável pela rebelião, emboscada e consequente morte do seu tio em França, episódio que, ocorrido na sua juventude, o marcaria negativamente para sempre. Assim sendo, é possível que William Marshal não se revisse no novo responsável político de Jerusalém, o qual estava conectado então com o assassinato do seu tio. Todavia, é notório que nos escasseiam informações exactas que permitam confirmar esta eventualidade. Aliás, a passagem de William pelo Oriente é a parte menos conhecida da sua vida, pelo que é difícil caracterizar a sua actuação nesse palco de guerra tremendamente exigente. Mesmo assim, não subsistem grandes dúvidas quanto à sua participação nesta aventura, visto que algumas técnicas de construção praticamente exclusivas das fortificações levantinas seriam posteriormente aplicadas no Castelo de Pembroke, o qual seria, mais tarde, confiado a William Marshal.





Knight by jeckham.deviantart.com on @deviantART

Imagem nº 3 - William Marshal teria possivelmente colaborado com os templários na Terra Santa.
Encontrado em jeckham.deviantart.com



O regresso e os serviços prestados a Henrique II, Ricardo I, João Sem Terra e Henrique III


De regresso a Inglaterra, Henrique II recebeu-o com respeito e gratidão, promovendo-o a conselheiro e abrindo-lhe caminho para um bom casamento que seria contraído com Isabel de Clare, herdeira de vastas terras no sul de Gales e Irlanda. Com este matrimónio (o qual seria posteriormente confirmado e viabilizado pelo rei sucessor - Ricardo Coração de Leão), William acabaria por se tornar Conde de Pembroke. Todo este cenário permitiu-lhe um enriquecimento frenético. Ao contrário de muitos dos casamentos medievais, os quais eram arranjados/combinados, William e Isabel de Clare mantiveram uma séria relação de amor até às suas mortes.
Entretanto, novas brigas rebentavam entre o rei e os seus filhos. Agora era Ricardo (mais tarde ganharia o epíteto de Coração de Leão) que encabeçava a revolta. Numa das vezes, William teve de fazer mira contra o filho do rei (acertando no seu cavalo), de forma a garantir que Henrique II conseguisse retirar-se em segurança. É claro que esta acção de William poderia, no futuro, custar-lhe bastante caro, pois Henrique II não iria durar muito mais tempo, e Ricardo seria o futuro rei de Inglaterra, o qual poderia procurar ajustar contas por causa deste incidente.
Em 1189, o rei Henrique II falece, e alguns dos amigos de William começam a temer pela vida dele, mas Ricardo, apesar de o ter confrontado com aquele momento, respeitava bastante a lealdade (e William tinha tomado aquela atitude apenas para proteger a vida de Henrique II no decurso duma rebelião, além de alegar que tinha acertado propositadamente no cavalo e não directamente em Ricardo), e assim sendo, não hesitou em depositar confiança em William que o ajudaria agora nos assuntos do reino. Aliás, ele integraria o recém-criado conselho de regência em Inglaterra quando o rei Ricardo Coração de Leão partira, em 1190, para o Levante, no âmbito da Terceira Cruzada (1189-1192). Seria ainda responsável pelo pagamento do resgate quando o soberano inglês fora detido na Áustria/Império Sacro-Romano Germânico (já na viagem de regresso), demonstrando assim a sua inequívoca lealdade. Entretanto, em 1199, Ricardo é abatido por uma flecha enquanto cercava um castelo inimigo em Châlus (França).
Sucede-lhe seu irmão (e também filho do já referido Henrique II), João Sem Terra, cujo reinado se pautou por vários e intermináveis falhanços. João demonstrava uma clara hostilidade e desconfiança para com os barões do reino, incluindo William, o qual sentiu desconforto pelo constante isolamento e até paranóia do  novo rei inglês. O nosso conceituado cavaleiro e conde de Pembroke foi inacreditavelmente quase visto como um traidor. Em jeito de consequência de todo este braço de ferro, rebenta em 1211 uma grave crise entre o próprio rei e os barões, e William, talvez esquecendo todas as acusações injustas que lhe haviam sido feitas e pelo dever de lealdade máxima ao rei, foi um dos poucos nobres que veio em auxílio de João, de forma a encontrar uma solução para o problema. No ano de 1215, o rei inglês assina contra a sua vontade a Magna Carta, documento histórico e inédito que faria com que o soberano deixasse de estar acima da lei, mas sim sujeita a ela. Mas João quis depois anular este compromisso, causando uma rebelião civil (1215-1257). Os rebeldes chegaram ao ponto de convidar o príncipe Luís de França (futuro Luís VIII) para a sua causa. Pelo meio, em Outubro de 1216, João falece num estado de descrédito total, embora algumas das suas últimas palavras tivessem sido dirigidas, segundo se consta, a William, elogiando a serventia sincera deste nobre. Afinal e apesar deste cavaleiro não ter apreciado a forma antipática e até desrespeitosa como João se posicionava diante dos outros membros da alta nobreza, a verdade é que William procurou ser neutro, não desejando integrar ou estimular qualquer movimento revoltoso. A sua postura diplomática foi respeitada por ambos os lados do conflito e o seu prestígio, na altura, já era enorme. Por isso mesmo, e após a morte de João Sem Terra, foi-lhe confiada a educação do filho deste último - Henrique, na altura com 9 anos. Seria o futuro Henrique III.
A situação em Inglaterra era caótica no ano de 1217. As forças rebeldes apoiadas pelo futuro rei de França (Luís VIII) controlavam uma considerável parte do reino. E é aqui que o papel de William, já na casa dos 70 anos, será vital, tanto no plano diplomático como militar. Devido ao seu comportamento e gestos cavaleirescos, conseguirá atrair o apoio de barões neutros e até convencer alguns dos nobres rebeldes a aderir à defesa do reino contra uma potencial e atormentadora invasão francesa de grande escala. Mas a sua glória militar ficaria definitivamente reservada para a batalha de Lincoln (20 de Maio de 1217), onde com a sua idade avançada, liderou a carga contra as forças francesas que procuravam sitiar o castelo local, impondo-lhes uma grande derrota. Esta sua vitória representou um claro rombo nas intenções francesas, cujo cenário de invasão terminaria com derrotas a nível naval ainda nesse mesmo ano, nomeadamente nas batalhas Batalha de Dover e de Sandwich. Foi firmado posteriormente um tratado de paz em que William demonstrara o seu lado estadista, sendo mesmo algo generoso nos termos fixados em relação a Luís e aos rebeldes que o apoiavam. Nestes dois ou três anos exigentes e decisivos de regência, o reputado barão reassumiria ainda os compromissos teóricos da Magna Carta.
A 24 de Maio de 1219, William fecharia os olhos para a eternidade em Caversham, sendo que antes de perecer tomaria o voto de cavaleiro templário. Antes de falecer, terá relembrado no seu leito de morte que havia vencido, pelo menos, 500 cavaleiros em todos os torneios que havia participado, estatística curiosa que o tornava seguramente num verdadeiro e incontestável campeão.
É consensual que o percurso de William Marshal fora excepcional, equiparando-o a um dos melhores cavaleiros de sempre da Idade Média. A sua lealdade poderá ter sido decisiva em variadas situações (por exemplo: a sua acção foi decisiva de forma a que o rei João não fosse destronado). Após a sua passagem pela Normandia, ele serviria as casas de Henrique II, Henrique - o Jovem, Ricardo Coração de Leão, João Sem Terra e Henrique III. Ele demonstrara sensatez e inteligência nos mais diversos palcos onde fora protagonista, e isso seria fundamental para a sua sobrevivência no restrito círculo cortesão, onde convivera com reis de péssimo temperamento, e onde a intriga, a inveja e as desconfianças de potenciais traições eram bastante frequentes.





Imagem nº 4 - A efígie de William Marshal na Igreja do Templo (Londres). 




Imagem nº 5 - Túmulos (?) de quatro membros da Família Marshal na Igreja do Templo (Londres). Ainda hoje se discute se realmente por debaixo das efígies não estariam os restos mortais das vítimas retratadas. Por isso, não podemos apurar com certeza se estamos perante 4 enterramentos, ou se apenas contemplamos meras efígies com carácter meramente simbólico.




Referências Consultadas:


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Os Jardins Suspensos da Babilónia (séc. VI a. C.)

Apesar de ter sido considerado uma das sete Maravilhas do Mundo Antigo, ainda não há sequer provas que atestem definitivamente a existência inequívoca dos Jardins Suspensos da Babilónia.
De acordo com a tradição (a qual assegura a realização desta monumental obra arquitectónica e paisagística), os jardins foram construídos sob as ordens do poderoso rei da Babilónia - Nabucodonosor II (reina entre 605 a.C. e 562 a. C.), o qual havia conquistado vários territórios, nomeadamente a Palestina e Jerusalém, além de dotar o seu reinado de várias extravagâncias - canais, aquedutos, reservatórios, novos e grandiosos templos e estruturas militares defensivas, bem como outros edifícios diversos considerados avançados para o seu tempo. Foi ainda o soberano que destruiu o Templo de Jerusalém, deportando muitos judeus para o cativeiro na Babilónia.
É neste contexto de autoritarismo político, com inegáveis sucessos no plano militar, e duma tendência construtora, no âmbito económico, que farão com que Nabucodonosor tivesse projectado a criação dos Jardins Suspensos da Babilónia, um sonho ambicioso e opulento jamais visto até então na história da Humanidade.
Infelizmente, a quase inexistência de registos para este período tão remoto não nos permite sequer adiantar razoáveis informações sobre a configuração destes presumíveis jardins (cuja existência ainda motiva discussões, como já referimos), excepto as idealizações de alguns possíveis retratos bastante posteriores, os quais até iremos expor em baixo como imagens meramente exemplificativas.
O que se calcula é que Nabucodonosor desejava agraciar a sua esposa Amytis (a qual sentia saudades das florestas, montanhas e campos do reino da Média, de onde era natural), oferecendo-lhe um presente irrecusável, uns jardins que integrariam toda uma paisagem singular. É ainda possível que esta estrutura grandiosa se localizasse junto ao palácio real, assegurando o esplendor e exibindo um claro sinal de poder naquela região. Todavia, é evidente que as problemáticas inerentes à localização e datação do fantástico monumento ainda estão muito longe de gerar consensos, e por isso, nenhuma hipótese pode ser descartada. No século IV a. C., e de  acordo com a tradição veiculada, os jardins (a terem realmente existido) já estariam praticamente arruinados. Mesmo assim, o historiador grego Estrabão (séc. I a. C.) não deixou de fazer referência à sua passada existência. De acordo com este testemunho (embora já bem posterior ao período de apogeu do dito espaço), o jardim era composto por terraços abobadados levantados uns acima dos outros, repousando sobre pilares cúbicos. Ainda de acordo com Estrabão, estes terraços eram escavados e preenchidos com terra para permitir o plantio de árvores de grande porte. Os mentores deste plano teriam recorrido ainda a tijolos cozidos e a asfalto para erguerem os pilares, abóbadas e terraços. Muito provavelmente, a manutenção dos jardins era assegurada através de água bombeada a partir do rio Eufrates.



Imagens Criativas sobre os eventuais Jardins Suspensos da Babilónia




Retirada de: http://www.genizahvirtual.com/2013/05/jardins-suspensos-da-babilonia-seriam.html





Retirada de: http://www.historiazine.com/2013/06/as-sete-maravilhas-do-mundo-antigo.html





Retirada de: http://edukalife.blogspot.pt/2013/02/17-hanging-gardens-of-babylon.html





Retirada de: http://www.cliografia.com/2013/05/10/os-jardins-suspensos-da-babilonia-nao-estavam-na-babilonia/





Retirada de: http://renatatilli.com.br/blog/?attachment_id=4509, (Gameshastra, 2011).





Autor do Quadro: Martin Heemskerck (séc. XVI).




Retirada de: http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/middleeast/iraq/10039773/Hanging-gardens-of-Babylon-were-not-in-Babylon.html



Notas adicionais:


1- Como pouco ou quase nada sabemos sobre este monumento, surgiu ainda recentemente uma teoria da autoria de Stephanie Dalley, o qual acredita que os jardins não foram erguidos na Babilónia por Nabucodonosor II, mas sim em Nínive pelo poderoso governante assírio Senaqueribe. Todavia, a ausência de provas concretas e irrefutáveis não permite qualquer conclusão definitiva ou segura, pelo que esta questão ainda é alvo de diversos debates na comunidade científica.

2- A religião professada na antiga Babilónia era politeísta, e a sua divindade suprema era Marduk, ao qual Nabucodonosor procurou agradar com a construção de novos templos.



Referências Consultadas:


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

10 Castelos Medievais de topo...


Neste artigo, apresentaremos 10 fortificações medievais que se destacaram pela sua história, imponência ou ainda pelo meio paisagístico onde estão integradas. A antiguidade reveste de glória estes espaços históricos, hoje merecedores dum intenso fluxo turístico.
Esta lista foi apurada, após uma pesquisa extensiva nos meios electrónicos, realizada nos últimos dias. É evidente que não se encontram aqui todos os grandes castelos medievais, mas este leque de fortalezas dignifica, sem dúvida, o legado medieval que afinal não pode ser desvalorizado pelos historiógrafos. 




1- KRAK DES CHEVALIERS
(Castelo Cruzado)


Trata-se dum imponente castelo situado numa inclinação geográfica que estaria integrada outrora no Estado Cruzado de Tripoli, condado cristão que vigorou entre 1102-1109 e 1289. Especula-se que anteriormente teria existido no seu lugar uma primitiva fortificação controlada por emires muçulmanos, antes da concretização da Primeira Cruzada (1095-1102). Em 1142, o castelo teria sido entregue aos hospitalários que assegurariam a sua defesa, manutenção e alargamento das suas dimensões. Nos seus tempos áureos, teria condições internas para albergar uma guarnição de 2000 soldados. Contava com algumas torres imponentes e duas linhas defensivas. Este castelo merece praticamente o epíteto de inexpugnável, pois resistira com sucesso aos duros assédios das poderosas tropas de Nur-ad-Din e Saladino. Apenas em 1271, a fortificação se renderia perante o implacável sultão mameluco Bairbairs e seu temível exército, mas este último resultado também se justifica pelo facto da guarnição de hospitalários se encontrar bastante reduzida, numa altura em que escasseavam os reforços vindos do Ocidente.
Este castelo hoje localiza-se a 65 km da cidade moderna de Homs na Síria.




Imagem nº 1 - O Krak des Chevaliers foi um castelo que pertenceu à Ordem do Hospital no tempo das Cruzadas e que vigorou nos séculos XII e XIII.




Imagem nº 2 - A paisagem envolvente ao Castelo que até se encontra bem preservado.
(Carregar em cima para visualizar melhor)




2- BODIAM CASTLE
(Castelo Inglês)



Localizado no sul de Inglaterra (East Sussex), o Bodiam Castle foi erguido em 1385, no âmbito da Guerra dos Cem Anos, com o intuito de proteger a Inglaterra dum potencial ataque ou invasão francesa. O principal mentor terá sido o cavaleiro Sir Edward Dalyngrigge, o qual obteve a permissão do rei Ricardo II. O castelo, de formato quadrangular, insere-se numa paisagem aquática artificial, contudo o mesmo nunca logrou as proezas militares doutros grandes castelos (como por exemplo, o anterior que abordamos), pois a memória não regista qualquer resistência desta fortaleza a um cerco medieval temível. É curioso constatar que esta estrutura não possuía grandes estruturas defensivas, mas a sua imponência representava um claro sinal de poder.



1.jpg

Imagem nº 3 - Um pequeno largo artificial contorna castelo, o que poderia contribuir parcialmente para a sua defesa.
Retirado do Wikipédia, foto de Antony McCallum





Imagem nº 4 - Vista aérea sobre o Castelo de Bodiam
Retirada do Wikipédia, foto de Phil Laycock (geograph.org.uk)




3- CASTELO DE MALBORK
(Castelo teutónico, e depois polaco)



Fundado em 1406 (embora o início do seu longo processo de construção possa remontar ao século XIII)  pela Ordem dos Cavaleiros Teutónicos, o Castelo de Malbork é considerado Património Mundial da UNESCO, para além de usufruir do estatuto de maior edifício de tijolos (nomeadamente avermelhados) conhecido na Europa. A sua enorme área envolvente permitia albergar no seu interior habitações de criados, zonas de serviço, armazéns de armamento... 
A fortificação é banhada pelo rio Nogat e, através do seu posicionamento estratégico, controlava os navios mercantes que aí transitavam, onde o interesse pelo âmbar era bastante evidente. Além disso, é possível que tivesse constituído inicialmente um ponto de partida de expedições contra povos do leste europeu que ainda seguissem práticas pagãs.
Em 1410, o Castelo viveu o seu momento alto no plano militar, com as forças teutónicas, que haviam sido praticamente dizimadas na batalha recente de Grunwald pela coligação polaco-lituana, a resistirem agora a um duro cerco de dois meses, onde a fortaleza constituiu o alvo incessante dos canhões polacos. De acordo com alguns autores, a coragem exibida Heinrich von Plauen (que viria a ser grão-mestre da Ordem Teutónica), aliada à estrutura imponente do castelo, foram factores decisivos que evitaram o aniquilamento da Ordem dos Cavaleiros Teutónicos. 
Todavia, entre 1457-1466, o edifício acabaria por ingressar no domínio polaco, no decurso do reinado de Casimiro IV, e chegaria inclusive a ser uma das residências habitualmente usufruídas pelos soberanos polacos. No século XVIII cairia nas mãos dos soldados prussianos, mas hoje integra o património da Polónia.





Imagem nº 5 - O Castelo de Malbok é constituído por um número incontável de tijolos.
Retirada de: http://www.janpol.com/gdansk__a_city_embedded_in_amber__pt.php




4 - Eilean Donan Castle
(Castelo Escocês)



Situado na ilhota de Eilean Donan, o castelo situa-se num meio paisagístico singular e único a nível mundial. Embora o lugar tivesse sido habitado ainda no século VI, a verdade é que só no século XIII é que foi construído o castelo que, no futuro, seria alvo de algumas reedificações, o que terá deturpado o seu formato primitivo. A fortaleza simboliza o período da Escócia feudal, e encontra-se banhada pelo lago ou braço de mar - Loch Alsh.





Imagem nº 6 - O castelo escocês e o seu meio envolvente são motivos suficientes para atrair um grande fluxo turístico.
Retirada de: http://bul-mamma.com/po-darjavi/shotlandiya/





Imagem nº 7 - A conjugação de cores vividas permite a obtenção dum cenário paisagístico ideal.
Retirada de: http://scotlandluxurytours.com/?p=248




5 - CASTELO DE MARGAT
(Castelo cruzado)



O Castelo de Margat pertencia ao Principado Cristão de Antioquia (estado cruzado então fruto das vitórias da Primeira Cruzada), embora actualmente se localize nas proximidades da cidade portuária de Baniyas (Síria). Esta fortificação foi a segunda maior de sempre dos cruzados no Levante, em termos de tamanho e poder, apenas superada pela primeira da nossa lista - o Krak des Chevaliers, fortaleza também ela controlada pelos hospitalários. 
Nos inícios do século XII, o castelo de Margat, cujas origens exactas se desconhecem, teria sido conquistado por Tancredo, regente de Antioquia, que a fez incorporar no Principado. Até 1185, as defesas desta fortaleza foram reforçadas. Devido às elevadas despesas de manutenção, o castelo foi vendido à Ordem dos Hospitalários em 1186. Este instituto religioso-militar tratou de promover uma nova campanha de ampliação das fortificações, tornando-se a fortaleza na sede da Ordem na Síria. Foram concebidas 14 torres que a tornariam, cada vez mais, impenetrável.
Em 1188, e depois de ter abandonado o cerco malogrado sobre o Krak de Chevaliers, Saladino também ponderou avançar sobre Margat, mas de acordo com o cronista árabe Abu'l-Filda, ele terá reconhecido que Magat era praticamente inexpugnável, o que o dissuadiu de tentar sequer a conquista. Estes dois castelos que acabamos de citar foram das poucas fortificações que permaneceram nas mãos dos cristãos após as inúmeras conquistas de Saladino, motivado pela vitória estrondosa em Hattin (1187) em que dizimou o melhor exército cristão disponível na Terra Santa. Os hospitalários puderam assim manter o controlo sobre o espaço envolvente, e auferiram grandes lucros com os peregrinos e viajantes de passagem. No início do século XIII, realizaram-se aí sessões entre os membros da ordem na altura liderados pelo polémico grão-mestre da Ordem - D. Afonso de Portugal (filho ilegítimo de D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal), o qual exerceu este prestigiado cargo entre 1202 e 1206. 
Entre 1269-1270, o castelo resistiu a um assalto promovido pelo sultão Baibars. Em 1281, a façanha da guarnição foi maior quando um exército de 7 000 muçulmanos procurou apoderar-se da fortaleza, quando os hospitalários contavam apenas com poucas centenas de efectivos, mas após uma surtida, os muçulmanos optaram pela retirada. Todavia, em 1285 a guarnição rende-se diante do sultão mameluco Qalawun. A partir daí, Margat (ou Marqab para os muçulmanos) tornou-se sede do distrito homónimo da província mameluca de Tripoli e a sua manutenção foi financiada pelo sultão. Mantiveram-se as torres de vigia e postos de observação.
O Castelo situava-se em cima dum afloramento rochoso, e do alto das suas muralhas, avistava-se ainda o Mar Mediterrâneo.





Imagem nº  8 - O Castelo de Margat, outrora sede da Ordem dos Hospitalários na Síria.
Retirada de: https://www.flickr.com/photos/oubai-hunter/4410826963/, (foto da autoria de Oubai Shaban)




6- SPIS CASTLE
(Castelo Húngaro, depois Eslovaco)



Erguida no século XII, esta fortificação integrada na altura no reino húngaro, teria como objectivo conter as constantes depredações dos mongóis no leste e centro da Europa. Situada em cima dum monte, é considerada uma das maiores fortalezas da região central europeia. Em 1241, é um dos poucos castelos que consegue resistir a um ataque devastador e implacável dos tártaros.
Este castelo românico de pedra contava ainda com dois palácios e três basílicas, além duma imponente muralha exterior. Acrescentou-se ainda uma capela gótica nos finais do século XV, além doutras reformulações essenciais na fortaleza.
Apenas em 1945, passaria para as mãos da Checoslováquia, e depois, para a Eslováquia.





Imagem nº 9 - O Castelo que impôs respeito aos temíveis mongóis.
Retirada de: http://emergefilmsolutions.com/ghostly-film-location-spis-castle-ruins-slovakia




7 - Lichtenstein Castle
(Castelo Germânico)


Esta fortaleza domina a paisagem do vale de Echaz, nas proximidades de Baden-Württemberg. A sua longa história terá começado por volta de 1200. Devido a dois conflitos internos no Império Germânico, o castelo ficou em ruínas. Foi reconstruído, no século XIX, através da visão de  Wilhelm I, duque de Urach, conde de Württemberg, o qual era ainda coleccionador de armas históricas e obras de arte (quadros). O projecto (que se traduziu num estilo neo-gótico) foi da autoria do arquitecto Carl Alexander Heideloff.





Imagem nº 10 - O Castelo Lichtenstein domina o vale de Echaz.
Retirada de: http://max.distractify.com/people/amazing/castles/?v=1





Imagem nº 11 - A fortaleza foi reconstruída no século XIX.
Retirada de Wikipédia (foto da autoria de Christian Bobadilla)




8 - DUNNOTTAR CASTLE
(Castelo escocês)



Erguida no topo duma falésia ou penhasco junto ao Mar do Norte, esta estrutura remonta aos séculos XIII-XIV, embora seja possível a existência duma fortificação anterior. O castelo terá merecido a visita ou breve passagem de várias personalidades conceituadas da história, nomeadamente William Wallace, Maria, rainha dos escoceses e o futuro rei de Inglaterra - Carlos II. No período medieval, era um ponto de referência na resistência aos ataques dos inimigos vikings e ingleses. A fortaleza ficou ainda conhecida por ter resistido em 1651, com evidente sucesso, a um assédio de 8 meses por parte das forças de Cromwell, salvando assim as jóias e a honra da coroa escocesa.




Imagem nº 12- No cimo duma respeitável falésia, o Castelo de Dunnottar usufrui duma clara altivez.
Retirada de: http://www.minube.pt/fotos/sitio-preferido/98587/6043811, (foto Jéssica Infante).




9 - CASTELO DE ALMOUROL
(Castelo Português)



O castelo foi construído (ou refundado) em 1171 a mando do Mestre da Ordem do Templo em Portugal - D. Gualdim Pais, um dos cavaleiros portugueses mais notáveis da era medieval, herói na mítica Batalha de Ourique (1139) e que faria posteriormente o seu voto de cruzada, rumando à Terra Santa, onde participaria no cerco e consequente conquista da praça muçulmana de Ascalona (1153), campanha dirigida por Balduíno III, rei de Jerusalém, que apoderava-se agora duma cidade portuária estratégica, não obstante o número elevado de baixas registadas no destacamento templário (inclusive o grão-mestre da Ordem do Templo - Bernard de Tremelay havia tombado em combate). Mário Barroca defende a tese (também por nós partilhada) de que este conceituado templário português terá visitado muitas das fortificações da Palestina durante a sua aventura (que perdurou entre 1151/1152-1156/1157), inspirando-se em vários detalhes e transportando alguns modelos que desejou aplicar no reino de Portugal (por exemplo: parece ter sido o caso do alambor no Castelo de Tomar).
O castelo de Almourol situa-se numa ilhota do Tejo (pertence ao concelho de Vila Nova da Barquinha), e durante séculos, controlou o comércio de vários produtos, nomeadamente azeite, trigo, carne de porco, frutas e madeira, que eram assim cambiados entre várias localidades daquela região. Inicialmente, pertencente à Ordem dos Templários, foi depois transmitido, com a extinção daquela, à Ordem de Cristo, já no reinado de D. Dinis (1279-1325). A fortificação, com planta quadrangular, contava com muralhas, torres adossadas e uma torre de menagem que alcançaria um maior destaque.





Imagem nº 13 - O Castelo de Almourol enquadra-se no âmbito da Reconquista Portuguesa.
Retirada de: http://lisbonsecrets.com/pt/lisbon-tours/tour-templario/




10 - CASTILLO DE TABERNAS
(Castelo árabe do al-Andalus, reino de Granada)




Construído na província de Almería no século XI, sob dominação muçulmana, este castelo também se ergue no cimo duma colina. Foi um dos principais castelos do reino mourisco de Granada. A praça de Almeria e o Castelo de Tabernas só se renderiam aos cristãos no ano de 1489, e três anos depois o reino de Granada também acabaria por ser conquistado integralmente pelos reis católicos de Espanha (Isabel de Castela e Fernando de Aragão).





Imagem nº 14 - O Castelo muçulmano de Tabernas.
Retirada de: http://www.spainonline.com/es/visorfoto.asp?IdFoto=4258&IdPoblacion=83&IdContenido=2544


Referências Consultadas:

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

As incongruências da nova teoria de Michael Paulkovich

Recentemente, saiu no conceituado jornal britânico Daily Mail uma reportagem sobre as conclusões duma investigação levada a cabo pelo historiador Michael Paulkovich, alegando o mesmo que nos 126 textos históricos antigos que analisou, não encontrou qualquer menção a Jesus Cristo, e por isso concluiu que o Messias dos Cristãos foi uma figura mítica totalmente forjada para alimentar uma falsa crença.
Todavia, e apesar de não estar a par do estudo deste autor (o que confesso ser uma clara falha da nossa parte), esta conclusão parece-nos bastante precipitada e desprovida até do ponto de vista científico. 
Assim sendo, apresentamos os seguintes argumentos que indiciam (ou até provam!) a existência de Jesus de Nazaré (e para evitar discussões teológicas, não vamos citar os evangelhos, porque isso depende da perspectiva ou convicção pessoais de cada um):


  • Tácito (56-117 d. C.), historiador romano conceituado e de orientação religiosa pagã, refere-se à execução de Jesus Cristo pelo procurador Pôncio Pilatos, e ainda cita perseguições ferozes no seu tempo aos cristãos. A obra de Tácito é tida como bastante credível.
  • Flávio Josefo (37-100 d. C.), historiador judeu que nasceu poucos anos depois da crucificação de Jesus Cristo, recordando este como um homem sábio e capaz de feitos admiráveis.
  • Suetónio (69-122 d.C.), historiador romano oficial da corte de Adriano que é duro com os cristãos, acusando-os de seguirem uma superstição perigosa e maligna inspirados em Cristo. 
  • Talo (séc. I d. C.) foi um historiador samaritano que também se terá referido a Jesus de Nazaré, de acordo com citações dispersas de autores posteriores, mas a obra de Talo perdeu-se com o avançar do tempo, e por isso, não é possível conhecer exactamente o seu conteúdo nem propor uma datação específica para os seus textos primitivos.
  • Mara Bar-Serapião (séc. I d. C.), filósofo estoico sírio, o qual numa carta sua redigida por volta do ano 70 d. C., censurou os atenienses de condenaram Sócrates à morte, os habitantes de Samos de queimarem Pitágoras e os judeus de lograrem a execução do seu sábio rei - Jesus. Todas elas decisões desastrosas no entender deste erudito porque as três personalidades em questão revelavam um conhecimento vasto, enriquecedor ou até invulgar.
  • Referências nos talmudes judaicos que se referem a actos de magia de Jesus e sua condenação/execução posterior.
  • A existência de códices gregos e egípcios (gnósticos) datados para os séculos III e IV d. C. que também se referem a esta personalidade mundial.
  • O Cristianismo só conheceu uma expansão tremenda nos tempos posteriores à execução de Jesus de Nazaré. É muito provável que durante a sua existência, a sua influência ainda só se concentrasse essencialmente na Judeia/Médio Oriente, antes da mesma progredir rumo ao Ocidente. Nos primeiros tempos, foram muitos os que tentaram abafar o Cristianismo que constituía uma ameaça à ideologia e ao paganismo romanos.
  • A escassez de documentos para a época duma determinada personalidade não é suficiente para determinar a inexistência dos factos, sobretudo quando estamos a abordar uma época bastante antiga (estamos a falar de acontecimentos ocorridos há 2 mil anos!), onde o analfabetismo era quase total (por isso, os registos escritos eram quase nulos, e nem havia a preocupação generalizada de arquivar os documentos e demais testemunhos; e aqueles manuscritos ou códices que terão existido, a maior parte esmagadora desses raros exemplares sumiu nos dois milénios subsequentes). Além disso, Jesus terá conseguido captar a admiração das classes populares, pobres e analfabetas, e não os poderosos líderes e principais escribas do seu tempo, o que pode justificar perfeitamente a falta de testemunhos redigidos que se lhe referem.
  • Embora ainda não provada cientificamente, está reclamada a potencial descoberta do arqueólogo e historiador Ronald Stewart que garante ter achado moedas clandestinas para o séc. I d. C. (logo após a morte de Jesus), onde se cunhavam (à mão) imagens da vida de Cristo. A primeira moeda oficialmente reconhecida que cunhou Jesus ainda é, até ver, grega e surgiu apenas nos finais do séc. VII d. C. Para além desta investigação, também existem outras introspecções arqueológicas em curso que poderão trazer mais novidades em breve sobre este período remoto, as quais prometem abrir mais luzes sobre o conhecimento até então adquirido.



Em suma, Michael Paulkovich poderá ter motivos para estranhar que a difusão dos feitos de Jesus não tivesse sido tão elevada no seu tempo, mas isso não é, de modo algum, suficiente para invalidar a sua existência, porque há claramente testemunhos (parciais ou imparciais, cristãos ou não-cristãos) que se, não são exactamente da época da personalidade, são imediatamente posteriores, numa altura em que o Cristianismo clandestino se expandia, mesmo com as perseguições terríveis que eram promovidas pelo Império Romano. Seria apenas em 313 d. C., com o édito de Milão do imperador Constantino, que a crença cristã passaria a ser tolerada no Império, podendo assim a Igreja firmar o novo ciclo legal da sua história. Até esta data, os coliseus encheram-se de vários mártires que eram devorados pelos leões famintos, ou torturados ou crucificados de forma horrenda pelos romanos, de forma a intimidar e dissuadir todos aqueles que seguiam a prática cristã que tinha de ser abafada e eliminada de todas as formas possíveis e imaginárias.
Evidentemente, o carácter transcendental da vida de Jesus Cristo motiva várias interpretações dependendo das convicções de cada um (as quais devem ser prontamente respeitadas!) e aqui é evidente que poderá haver um choque entre a crença religiosa e o rigor científico (entre o Jesus messiânico e o Jesus historico), mas não foi essa questão que abordamos aqui, pois reconhecemos que é um ponto sensível que dá azo à múltiplas reflexões, mediante a visão subjectiva de cada um.
O que este artigo procurou vincar é que Michael Paulkovich, o qual deve ser evidentemente respeitado enquanto historiador e autor de vários artigos e estudos, não terá grandes argumentos para solidificar a conclusão que agora apresenta, pois efectivamente há fontes antigas que mesmo assim foram preservadas ao fim de quase 2 milénios que se referem a Jesus Cristo. Se, mesmo assim, pelo seu prisma de observação, concluirmos que Jesus de Nazaré então não existiu, então que acontecimentos poderemos nós dar então como certos há dois mil anos atrás?




Imagem nº 1 - A vida de Jesus Cristo ainda motiva várias discussões entre historiadores e arqueólogos. Na obra "No Meek Messiah", Paulkovich chegou a uma conclusão polémica, a qual promete alimentar ainda mais toda esta temática.



Referências Consultadas: