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sábado, 16 de março de 2019

Curiosidades Históricas XV-XXI


Curiosidade Histórica XV - O "Seppuku" do Primeiro Samurai


Os samurais encaravam a morte como uma certeza iminente, e inspirando-se no Código de Honra do "Bushido", deveriam demonstrar uma lealdade inequívoca e incondicional ao seu Senhor Feudal, estando preparados para dar a sua vida a qualquer momento pela causa do seu clã. A fuga era vista como um caminho de covardia na ideologia destes guerreiros nipónicos. Por isso, quando estavam cercados ou encurralados pelo inimigo tinham duas hipóteses: ou lutavam até à morte (quase inevitável) ou suicidavam-se (de forma a não serem capturados e executados de forma humilhante pelos adversários).
De acordo com as fontes hoje conhecidas, o primeiro grande samurai a ter cometido tal procedimento foi Minamoto Yorisama em 1180.
Não conseguindo travar a perseguição do exército do clã Taira, refugiou-se, por fim, no templo de Byōdō-in (Uji, Quioto) juntamente com alguns dos seus homens e o príncipe Príncipe Mochihito (apoiado pelo clã Minamoto).
Cercados por todos os lados e por um exército superior, Minamoto Yorisama (1106-1180) escreveu um pequeno poema de despedida deste mundo (era costume muitos samurais saberem ler e escrever, o "Bushido" incentivava-os a isso) e depois suicidou-se para não ser capturado e/ou executado pelos Taira, no âmbito das Guerras Genpei (1180-1185).
Este seu procedimento extremo iria inspirar muitos combatentes japoneses nos séculos posteriores que recusariam assim a fuga e a rendição nos cenários mais adversos. A morte era inevitável, logo a honra militar na "hora do adeus" era essencial, no entender dos samurais. 
Os kamikazes japoneses da Segunda Guerra Mundial (1938-1945) iriam também seguir, por várias ocasiões, esta tradição, embora a hegemonia samurai tivesse terminado já anteriormente em 1868. 
A lealdade e a fidelidade a uma causa foi algo que indubitavelmente acompanhou toda uma cultura social do País do Sol Nascente. 
Em jeito de curiosidade, este era o teor do poema de despedida de Minamoto Yorisama antes de cometer o seu "seppuku": 

埋もれ木の/花咲くことも/なかりしに/身のなる果てぞ/悲しかりける

"Como uma árvore fóssil, De onde não colhemos flores, Triste tem sido a minha vida, Não predestinou frutas para produzir"





Gravura: O acto de "seppuku" (suicídio de honra) cometido por um samurai. 
(Xilogravura "Ukiyo-e" do período Edo 1850-1860).

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Curiosidade Histórica XVI - O Triunfo da Barbárie (A Queda de Bagdade - 1258)


Em 1251, subia ao trono mongol "Mongke Khan", neto de Genghis Khan que havia sido o primeiro grande edificador de um autêntico império oriental.
Após inúmeras conquistas violentas, os mongóis acabariam por chegar aos antigos redutos persas. E em breve, visariam várias regiões que hoje correspondem a territórios do Irão e do Iraque.
Hulegu (ou Hulagu) Khan, irmão de Mongke, liderava um exército de 150 mil homens, o qual acamparia nas imediações de Bagdade, cidade que seria o seu próximo alvo aliciante. 
No mês de Novembro de 1257, Hulegu procurou negociar uma rendição pacífica, mas al-Mustasim, califa abássida, recusou tais termos. O príncipe de Bagdade enviou inclusivamente uma força de 20 mil homens para confrontar os invasores no exterior das muralhas. Mas a sortida não corre bem. Os mongóis deram imediatamente cabo das barragens e dos diques, inundando de água o campo de batalha e limitando os movimentos das forças abássidas (muitos dos seus soldados morreram até afogados). No momento oportuno, a cavalaria pesada mongol interveio e dizimou o inimigo. Imediatamente, os soldados de Hulegu se apoderaram dos subúrbios (arrabaldes) ocidentais da cidade. No dia 30 de Janeiro de 1258, os mongóis iniciaram os bombardeamentos sobre Bagdade, recorrendo a explosivos chineses e a novas catapultas modernas capazes de disparar mísseis flamejantes. Construíram igualmente uma paliçada. 
No dia 6 de Fevereiro, os mongóis conseguem um grande avanço ao tomarem a muralha oriental de Bagdade. A restante guarnição abássida bem como alguns civis procuraram conter e até inverter o rumo dos acontecimentos, mas não havia nada a fazer dado o poderio do inimigo.
A 10 de Fevereiro, Bagdade apresenta a sua rendição, mas o pior estava ainda por acontecer.
O califa e os seus correctores foram feitos prisioneiros. Os restantes membros da guarnição de Bagdade que haviam lutado com coragem e sobrevivido até então foram prontamente executados. 
No dia 13 de Fevereiro, começaria um dos piores episódios da história mundial. Os mongóis começaram a saquear e a destruir a cidade histórica que fora fundada em 762 d.C., não poupando sequer a sua sociedade e a sua cultura. Algumas fontes apontam que 2 milhões de habitantes foram mortos durante o massacre. Bagdade que até então era um centro de artes e de cultura no mundo islâmico ficou reduzida a cinzas. As suas esplendorosas bibliotecas e universidades foram incendiadas, perdendo-se obras que versavam áreas como a Filosofia, a Poesia, a Medicina e a Astronomia. De acordo com um relato, as águas do rio Tigre que banhavam a cidade ficaram mesmo escuras devido à tinta (utilizada então na escrita) absorvida e que estava então presente num número quase infindável de antigos manuscritos e livros que foram assim arremessados naquele curso fluvial.
Palácios, hospitais, mesquitas e jardins foram também reduzidos a pó.
O abássida al-Mustasim foi forçado a assistir à destruição da sua cidade, e como se não bastasse, os mongóis enrolaram-no num tapete, tendo sido pisoteado até à morte pelos cascos dos cavalos invasores. 
A vingança muçulmana ocorreria apenas 2 anos depois, quando os mamelucos do Egipto ousaram travar as forças do Império Mongol numa das batalhas mais decisivas da Idade Média (Ain Jalut).


(Veja-se: CHARLES, Phillips - Fall of Baghdad (1258) in 1001 Battles that changed the course of History, Londres, Quintessence Editions, 2011, p. 175).




Gravura: Iluminura datada do século XIV que retrata o cerco dos mongóis sobre Bagdad.

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Curiosidade Histórica XVII - A Lendária Mumadona


Mumadona Dias foi uma dama galega que se evidenciou no século X. Era filha dos Condes de Portucale Diogo Fernandes e Onega. 
Pouco apurámos sobre a sua vida, dado que viveu numa época muito recuada, para a qual escasseiam as fontes manuscritas.
Sabemos sim que esta senhora provinha de um meio familiar bastante abastado e que mantinha relações muito próximas com a corte e a família governante do reino de Leão. 
Contrairia matrimónio, talvez algures entre 915 e 920, com Hermenegildo Gonçalves (também conhecido como Mendo Gonçalves), o qual desempenhara o papel de conde de Tui e do Porto, além de ser tenente de Deza. 
Em 926, ambos receberam de Ramiro II, rei de Leão, a vila de Creixomil situada perto de Guimarães. Mumadona Dias era curiosamente tia deste soberano.
Entretanto, o seu marido Hermenegildo falecera algures entre os anos de 943 e 950, deixando-a viúva.
Mas isso não demoveu Mumadona de consubstanciar muitos projectos de benfeitoria que tinha em mente, tendo ficado expressa a devoção que nutria pela sua herdade de "Vimaranes". Primariamente, ali mandou fundar um mosteiro em honra de Santa Maria (outros referem que seria de invocação a São Mamede). Posteriormente, e de forma a garantir a protecção deste espaço de culto cristão, sobretudo diante de potenciais ataques normandos, determinou a construção de um castelo (que viria a ser o de Guimarães). 
A partir da criação destas duas estruturas nasceria mais tarde o burgo de Guimarães. Mais do que isso até: materializaram-se as condições necessárias para o futuro estabelecimento da corte do Condado Portucalense naquela terra, missão que viria a ser desempenhada mais tarde pelo Conde D. Henrique (1066-1112) e por D. Teresa (1080-1130).
Não se sabe a data do falecimento de Mumadona, mas sabemos que deixou descendência: Gonçalo Mendes (o qual se tornaria Conde de Portucale), Diogo Mendes, Ramiro Mendes, Onega Mendes, Nuno Mendes e Aires Mendes. 
Acredita-se que a condessa terá passado os seus últimos dias no mosteiro vimaranense que então fundara. Mumadona ficou ainda conhecida por ter deixado inúmeras doações ao mencionado cenóbio.




Foto - Estátua da Condessa Mumadona - Guimarães (blogue: "Cidade de Guimarães").

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Curiosidades Históricas XVIII - Paulo Orósio, o Historiador Cristão


Nascido provavelmente na região de Bracara Augusta (Braga) por volta dos finais do século IV, Paulo Orósio seria um dos mais notáveis pensadores do seu tempo.
Orósio provinha de uma família abastada, pelo que teve acesso a uma boa educação, além de estar ao corrente da cultura rural que então proliferava. De imediato, se tornou clérigo cristão e chegou mais tarde a ser ordenado presbítero. Mas por volta de 409 d. C., é forçado a abandonar a Galécia devido às invasões bárbaras que começavam a subtrair os domínios de um Império Romano em desintegração avançada. 
Atribui-se a ele o primeiro grande tratado de história universal sob a perspectiva cristã, A sua obra intitulada "Historiarum adversus paganos libri VI", talvez escrita em 417, aborda a história, não do ponto de vista das nações, mas sim da evolução do homem universal. A sua obra mereceu mais de mil reproduções manuscritas por parte dos copistas, e chegou mesmo a ser traduzida em árabe. Chegaria a ser citada, durante séculos, por eminentes vultos da Literatura Mundial (São Bráulio e Dante Alighieri chegaram a mencionar a sua obra).
O historiador José Mattoso revela-nos que Orósio foi ainda autor de uma série de pequenos tratados, visando reflectir o ambiente de agitação intelectual que se registava na Galécia (noroeste peninsular) e no restante mundo cristão. O erudito opôs-se ainda a algumas filosofias e interpretações teológicas que iriam resvalar para o campo das heresias. Dentro deste contexto, combateria o priscilianismo, o origenismo e o pelagianismo, tendo até participado em debates quentes na Cidade Santa de Jerusalém, sob a égide de São Jerónimo de Estridão. 
Foi igualmente um discípulo directo de Santo Agostinho (354-430) com quem privou de perto em Hipona (Norte de África). Junto a este grande vulto da Igreja Universal não apenas conversou sobre temas teológicos, como colaborou com ele na elaboração da monumental obra "A Cidade de Deus". Aliás fora o próprio Santo Agostinho que recomendara Paulo Orósio a São Jerónimo de Estridão na viagem que encetaria à Palestina, tendo redigido inclusive uma carta de apresentação. 
Nos seus manuscritos, Orósio procurou defender que o Cristianismo não foi o principal responsável pela queda de Roma nas mãos de Alarico, rei dos Godos (o terrível saque de Roma ocorrera em 410). Esta acusação era habitualmente dirigida pelos pagãos que, desde o édito de Teodósio (380), deixaram de adorar livremente os seus deuses clássicos no Império. Orósio refuta ainda as insinuações destes, alegando que antes de Roma existiram três impérios, e todos eles caíram sem que a religião cristã estivesse presente em algum deles. 
Apesar das depredações cometidas pelos invasores bárbaros, Orósio dava a entender que era possível a vitória de um povo ou de uma nação sobre a ruína, o sofrimento ou o desespero, podendo assim reerguer-se e nascer dali futuras civilizações ou impérios. 
Por outro lado, se a historiografia romana glorifica os vencedores das batalhas, Orósio presta na sua sua narração uma especial atenção ao sofrimento e à tragédia visível nas facções derrotadas. Uma novidade clara do seu estilo peculiar em encarar a própria história. 
Ainda no seu entender, o presente é sempre melhor que o passado, porque este último estivera durante largos milénios afastado da verdadeira religião.
De acordo com algumas fontes antigas, deve-se ainda a ele a descoberta das relíquias do primeiro mártir cristão, Estêvão (apedrejado por volta do ano de 37, pouco antes da conversão de Paulo de Tarso), aparecidas no final de 415, sendo parte destas encomendadas a Orósio para as deslocar posteriormente até Braga. Contudo, acabou por trazê-las até Minorca, ilha balear mediterrânica, onde foram usadas para converter a comunidade judaica local. 
Teria falecido, algures no Norte de África (ou até mesmo nas ilhas baleares onde estivera), em data não posterior a 423, pelo que na altura deveria ter entre 30 a 40 anos de idade. 




Gravura - Miniatura presente no Códice de Saint-Epure.


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Curiosidade Histórica XIX - Srinivāsa Aiyangār Rāmānujan, o Génio Improvável


Imaginem uma pessoa que, sem formação académica, nasce e vive num lugar precário com possibilidades sociais e educacionais bastante reduzidas, conseguindo ainda assim desenvolver pesquisas e investigações matemáticas capazes de superarem inclusivamente aquelas que foram efectuadas pelos grandes matemáticos de Cambridge?
Srinivāsa Aiyangār Rāmānujan (1887-1920) foi essa pessoa. 
Nascido em Erode (localidade indiana que fazia naturalmente parte do Império Britânico da altura) e oriundo de um seio familiar humilde, Rāmānujan começou por ter acesso à escola básica e a liceus de pequena ou média reputação. 
Nem sempre o seu aproveitamento fora o melhor. Por exemplo, chegou a ter dificuldades em dominar o inglês. Contudo, na fase da sua adolescência, entre os 12 e os 15 anos, começa a interessar-se por áreas como a matemática, a geometria e/ou a aritmética. Os seus colegas ofereceram-lhe inclusive um livro ("Synopsis of Elementary Results on Pure Mathematics", obra do autor George Shoobridge Carr, professor da Universidade de Cambridge, sendo que esta incluía cerca de 6 mil teoremas já conhecidos e compilados) que o inspiraria definitivamente a contribuir com novos teoremas e equações matemáticas (ao todo, e durante a sua curta existência de 32 anos, Rāmānujan logrará produzir 3900 fórmulas, quase todas novas e resolvidas de forma correta, e algumas delas, determinantes mais tarde como pontos de partida para investigações fulcrais). Posteriormente, em 1913, e sendo já conhecidos alguns dos seus trabalhos, Rāmānujan foi finalmente convidado a frequentar uma universidade local e a colaborar igualmente com as investigações matemáticas em curso. Impressionados com o seu talento, os professores indianos enviam até Cambridge os seus teoremas e sistemas matemáticos. A Índia era, na altura, uma colónia do Império Britânico, e Godfrey Harold Hardy, Professor de Matemática Pura naquela prestigiada universidade inglesa, fica imediatamente rendido à sabedoria do então "leigo" indiano (que os havia superado em muitas das suas capacidades) e convida-o a deixar o seu país de origem de forma a vir à metrópole, podendo assim usufruir de melhores condições para potenciar e aprimorar ainda mais todo o seu conhecimento. 
Durante cinco anos (1914-1919), Rāmānujan estivera então em Cambridge, oferecendo todos os seus préstimos à Matemática que era o berço de toda a sua inspiração. O génio indiano viria a ingressar na Royal Society de Ciências, além de se ter tornado professor no Trinity College (Cambridge).
Em 1919, contrairia tuberculose, tendo sido forçado a regressar à Índia, onde viria a falecer no ano seguinte.
Ao nível da herança da sua obra, Rāmānujan formulou uma imensidão de enigmas abstractos, estudaria as noções dos números (em especial, os primos), promoveria partições matemáticas, analisaria a base natural dos algoritmos e a própria função das fracções.
Esta é a síntese da história de um "leigo" que, proveniente de um meio com poucos recursos, se tornou num matemático autodidacta de classe mundial. 




Postal Indiano que retrata Srinivāsa Aiyangār Rāmānujan (1887-1920), o génio indiano que brilhou em Cambridge. (Imagem retirada de: matematicautodidata.com)


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Curiosidade Histórica XX - O Temperamento Difícil do Rei D. Pedro (1357-1367)


O assassínio de D. Inês de Castro ocorrera nos inícios do ano de 1355. O rei D. Afonso IV aproveitara a ausência momentânea do seu filho, D. Pedro, para consumar os planos de execução, levando consigo três ou mais carrascos. Apesar das súplicas de misericórdia (e sabendo que Inês era já mãe de quatro filhos contraídos com D. Pedro) que quase levaram o velho Afonso IV a voltar atrás na decisão, o rei foi pressionado por membros da aristocracia tradicional a "cortar o mal pela raiz" já que se temia a ingerência da Família dos Castro na linhagem dinástica portuguesa. O Rei D. Afonso IV procurava sim um matrimónio para o seu filho que viesse a normalizar ou até fortalecer as relações políticas e diplomáticas com Castela. E daí os exemplos dos dois matrimónios anteriores que arranjara para o filho: Branca de Castela e Constança Manuel (esta filha do príncipe e duque João Manuel de Castela). Branca foi repudiada por D. Pedro, Constança nunca foi verdadeiramente amada e faleceria precocemente em 1345, vítima de um parto atribulado, quando dera à luz o seu terceiro e último filho (D. Fernando, o qual viria inclusivamente a suceder a D. Pedro) que contrairia com o príncipe português já então apaixonado por Inês. A morte de Constança, fez com que Inês regressasse desde o exílio forçado no Castelo de Albuquerque (Badajoz) e fosse assim viver com o príncipe D. Pedro, gerando já descendência. O escândalo rebentou na corte, e a ameaça da ingerência dos Castro tornou-se real pelo que se exigiu uma decisão mais ominosa. 
A execução clandestina e dramática de Inês, ocorrida então em 1355, fez com que o príncipe D. Pedro entrasse em rebelião contra o seu pai durante largos meses até que a situação acabou por se estabilizar.
Em 1357, D. Afonso IV morreria e D. Pedro se tornaria então no seu sucessor. 
O novo rei, talvez afectado por tudo o que vivera anteriormente, procurou imprimir um elevado sentido de justiça. Viveu obcecado e fez de tal causa uma exigência no seu reinado. Mas ninguém pode negar que o soberano foi conhecido pela brutalidade de algumas das sentenças que proferiu. 
Mal sobe ao poder, o rei persegue os carrascos de Inês de Castro. Um foge para França, os outros dois, Pêro Coelho e Álvaro Gonçalves, não têm a mesma sorte. Seriam capturados e torturados até serem executados de uma forma hedionda. O rei havia mandado arrancar os corações dos dois (um pelo peito, o outro pelas costas) enquanto se consolava a comer num banquete público. 
No entanto, os excessos de justiça de D. Pedro não se ficaram por aqui, e daí para muitos, ter merecido os cognomes de “Justo ou Justiceiro”, mas também o de “Cruel”. 
D. Pedro mandou castrar Afonso Madeira, seu fiel escudeiro (ao qual havia agraciado até então com várias mercês), quando descobrira que este dormia com uma mulher casada. O facto de este último se ter apaixonado por Catarina, mulher de um Corregedor, e de ter consumado a traição motivou a ira do rei português que ordenou a sua emasculação. De acordo com a historiadora Cristina Pimenta, o rei português não demonstrava muita tolerância quando se debruçava perante casos de adultérios. Outros casos similares seriam reportados no seu reinado, e D. Pedro voltaria a ser implacável.
Segundo a Revista Sábado, conhecem-se, pelo menos, mais três ou quatro casos em que D. Pedro agiu de forma brutal. Assim sendo, o rei mandou imediatamente degolar dois dos seus criados por terem roubado e morto um judeu que andava a vender especiarias, despiu ainda o bispo do Porto e queria açoitá-lo/chicoteá-lo por andar com uma mulher casada, e ainda ordenou que uma mulher adúltera fosse queimada viva bem como exigiu a morte por degolação do seu amante envolvido então na traição, e neste último caso, o "marido traído" parece ter sido o último a saber do sucedido, segundo os documentos medievais.
D. Pedro descobrira ainda que uma lavradora de Santarém fora violada por um frade confessor, tendo contraído um filho fora do seu casamento. O rei mandou meter o violador num caixote e serrá-lo ao meio! De nada lhe valeria o seu estatuto clerical...
D. Pedro era temível quando anunciava as sentenças, mas é certo que procurou imprimir uma justiça mais equitativa, não diferindo muitas vezes o estatuto social de cada um. Nobres, religiosos e plebeus estavam todos sujeitos à sua punição. Por isso, terá sido admirado por uns, e temido por outros.
D. Pedro reinara em Portugal entre 1357 e 1367, sobressaindo assim a imagem de um soberano com sede de justiça, desde o assassinato cruel da sua amada Inês de Castro, mas também um homem que não olhava a meios para infligir os castigos mais severos ou cruéis. 
Durante o seu reinado, evitou guerras, e conseguiu igualmente aumentar o tesouro, tendo cunhado moedas de ouro e prata.
D. Pedro falecera em 1367. Seria sucedido por D. Fernando, filho do matrimónio contraído anteriormente com D. Constança Manuel.

"Aquando da sua morte, o povo dizia que ou não havia de ter nascido, ou nunca havia de morrer"




Retrato do Rei  D. Pedro I que viveu entre 1320 e 1367. Foi soberano de Portugal nos seus últimos dez anos de vida.
Direitos da Foto - Retirada do Site Vortexmag (veja-se ainda Revista Sábado e Portal Arqnet)


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Curiosidade Histórica XXI - D. Dinis e o Urso Pardo


D. Dinis foi um dos reis mais sábios de Portugal. Reinou entre 1279 e 1325. Um excelente administrador do reino que também compôs poesia trovadoresca. No entanto, e de acordo com uma lenda que poderá ser verídica, o soberano português teve de travar um duelo inesperado de sobrevivência.
Relata-se que um dia, andava o rei D. Dinis à caça num lugar chamado Belmonte que hoje integra os domínios da freguesia de São Pedro de Pomares, distrito de Beja, quando se perdeu dos seus companheiros. Ao passar próximo de um penhasco, foi imediatamente surpreendido por um urso pardo que o derrubou do seu cavalo. O rei rebolou pelo solo, enquanto o urso se aproximava lentamente para desferir o golpe fatal. Naqueles segundos de aflição, D. Dinis lembra-se de São Luís, jovem Bispo de Toulouse (ou Tolosa) que tinha já fama de santo e que ainda era vivo. D. Dinis pede a sua intercessão e promete construir um mosteiro caso consiga sobreviver ao episódio. De imediato, surge-lhe a visão talvez imaginária do bispo francês (ou italiano, segundo outras teses para o seu nascimento) que o insta a sacar do punhal que levava à cintura. D. Dinis pega no seu punhal e quando a fera se preparava para lhe dar o golpe final, consegue virar-se e espetá-lo em cheio no coração. O rei sobreviveria a este duelo improvável e quase desigual com muita bravura à mistura. Quanto aos ursos pardos, sim ainda existiam naqueles tempos em número razoável em Portugal e na restante Península Ibérica. Aliás, o último urso pardo em Portugal terá sido somente morto em 1834. 
Tendo sobrevivido ao ataque, o rei reencontrou rapidamente os seus companheiros de caça. Mais tarde, em 1295, fundaria um mosteiro de vocação cisterciense na Quinta das Flores, em Odivelas, que seria consagrado a São Luís de Toulouse, o santo que "miraculosamente o acudira" no momento de aflição, segundo a lenda. D. Dinis seria inclusivamente sepultado ali em 1325. 
Curiosamente, no seu túmulo então jazente no Mosteiro de Odivelas surge a representação da alegada contenda entre o homem e a fera, o que parece reforçar a ideia de que a lenda poderá ter algum fundo de veracidade. 
Recentemente, o Mosteiro de Odivelas foi palco de más notícias, dado que alguns dos seus azulejos foram roubados perante a inércia das entidades que deveriam tutelar e preservar a integridade deste monumento lendário de origens medievais.




Túmulo de D. Dinis no Mosteiro de Odivelas com representações nos seus alicerces que aludem à presença de uma fera. (Imagem retirada de: http://capeiaarraiana.pt/)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

A Ascensão dos Samurais (1180-1185)


Contexto: 

Durante muito tempo, até aos finais do século XII, o Japão não dispunha propriamente de uma força de autoridade a nível local, dependendo claramente do controlo exercido pelas poderosas famílias aristocratas que se distribuíam pelo arquipélago. Pode-se afirmar que, pelo menos, nos derradeiros tempos do período Heian (794-1185), os imperadores e seus auxiliares de governação bem como os generais de sua confiança, negligenciaram largamente a administração das províncias, ignorando todo um clima de insegurança e rebeldia que começava a alastrar-se. 
Murasaki Shikibu, uma das mais notáveis escritoras medievais que viveu entre a segunda metade do século IX e os inícios do século X, já antevia, embora que de uma forma algo dissimulada, a chegada de uma era mais violenta ao seu país, além de criticar o insuportável ambiente das cortes japonesas que fomentavam a intriga e as invejas.
A nação nipónica preparava-se para a chegada de um novo advento, acompanhado de transformações sociais bastante relevantes. 





Mapa nº 1 - O Arquipélago do Japão é composto por quatro ilhas principais: Hokaido, Honshu, Shikoku e Kyushu. Existem muitas mais ilhas, embora de dimensão bem inferior. O mapa exibe ainda a Península Coreana, com a qual o Japão teve um maior contacto (ora por via bélica ou ora mediante trocas comerciais) nestes primeiros tempos. 




1- A origem dos Samurais

A origem dos Samurais é difícil de determinar, embora a sua era hegemónica possa ser balizada no âmbito cronológico pelos historiadores. Os Samurais constituirão efectivamente uma classe militar e feudal com um poder quase ilimitado que se evidenciará no Japão entre os anos de 1185 e 1868 (altura em que ocorre a Restauração Meiji que instalará uma nova forma de governo apologista de reformas mais democráticas e ocidentalizadas, optando ainda por criar um exército à base de recrutas). Podemos dizer que foram quase 700 anos de domínio samurai (683 para sermos mais precisos) mesmo diante da presença de sucessivos imperadores que confiavam na sua lealdade (ou que se sentiam forçados a isso!).
Mas abordemos agora a complexa questão que nos remete para o nascimento desta classe. Como disséramos, não lográmos apurar uma data ou um século próprio para o aparecimento dos Samurais na história do Japão. Sabemos sim que nos períodos Asuka e Nara (abrangem os séculos VI, VII e VIII d. C.) já haveria legislação, mediante a promulgação de códigos imperiais que, baseados no modelo antigo chinês, previam a criação de uma subclasse disciplinada e vocacionada para a arte militar, a qual estaria isenta de impostos embora fosse responsável pela gestão do seu próprio equipamento bélico. Outras leis, mais contraditórias, previam a introdução de um novo grupo de servidores civis que cobraria impostos e administraria com máximo rigor e sentido de organização as pequenas terras que lhes seriam entregues. Ou seja, tal legislação ambígua poderá ter suscitado os primeiros esboços do que seriam, em breve, os samurais. 
Na altura, o Japão ainda não era uma nação verdadeiramente unificada, dado que vários clãs resistiam, através de rebeliões recorrentes, contra o governo imperial estabelecido em Quioto (ou Kyoto). Os imperadores continuarão a insistir em novas leis para fazer prevalecer as necessidades centralistas. Uma dessas medidas, ainda não directamente relacionada com o surgimento dos samurais, preveria a criação do título de “Shōgun”, atribuído pelo imperador àquele que viria a ser o seu braço-direito na governação. Inicialmente, aquele estatuto apenas reconhecia o papel do seu portador enquanto general máximo do exército nipónico, o qual teria de reprimir, pela via militar, os “bárbaros” e os “revoltosos”. Nos primeiros tempos, alturas houve em que esta função não era confiada a ninguém. Contudo, no século XII, a realidade começa a mudar, e os portadores de tal estatuto, designados agora de forma mais recorrente, começam a tornar-se ainda mais poderosos, ao ponto de se tornarem ditadores militares do seu país. Por outras palavras, o imperador japonês, embora fosse o governador legítimo, viria, com o avançar dos tempos, a delegar todos os seus poderes civis, militares, diplomáticos e judiciais no “Shōgun”.
A legislação demonstrava a preocupação de impor a ordem no país, sobretudo pela via militar. Contudo, não serão apenas os códigos criados para travar a insegurança e os confrontos no Japão que ditarão a génese dos samurais. Curiosamente, a própria realidade social favorecerá o surgimento de uma nova aristocracia guerreira, de origens maioritariamente provincianas. Muitos dos senhores feudais, ao sentirem-se ameaçados por eventuais emboscadas ou ataques dirigidos contra as suas terras, começaram a ceder à tentação de possuírem os seus próprios destacamentos ou servidores privados, os quais se especializariam na arte do combate. Esses guerreiros seriam lançados ainda em combate contra famílias aristocráticas rivais e viriam a impor a ordem diante de camponeses que se rebelassem contra o seu senhorio.
Curiosamente, por outro lado, fustigados pela inflação tributária e pela perda de terras de cultivo, também alguns camponeses bem como outros cidadãos de parcas posses iniciariam a sua dedicação aos treinos militares, de forma a protegerem os seus interesses diante dos magistrados imperiais e senhorios que poderiam incomodá-los a qualquer momento. Uma perspectiva diferente, mas que pode explicar igualmente a adesão destes à nova classe militar. 
Também é provável que determinados colectores de impostos ou pequenos membros da aristocracia tradicional/civil tenham aderido à nova tradição. Aliás, as origens sociais dos primeiros samurais serão certamente distintas e obedecerão a contextos múltiplos. Qualquer japonês poderia, naquela altura, ingressar na nova classe emergente, desde que fosse adestrado nas técnicas de combate. Num futuro a médio ou largo prazo, essa possibilidade iria esfumar-se até porque os samurais acabariam por consolidar, nos séculos seguintes, uma lógica de transmissão por sucessão natural, tornando bem mais difícil a adesão de novos candidatos sem ascendência samurai.
Tendo em conta todo o contexto primário que acabamos de narrar, nascerão em breve novos clãs que se fundirão com outros para fazerem frente a famílias aristocráticas tradicionais de larga influência.
Por seu turno, o imperador e outras personalidades proeminentes do próprio Japão não tentaram hostilizar, de todo, este fenómeno, começando inclusive a recrutar alguns destes novos guerreiros. Os clãs samurais (e aqui já podemos usar a designação de forma indiscutível) eram agora uma realidade inequívoca e entranhavam-se cada vez mais no corpo militar nipónico, conseguindo em troca um maior prestígio nos conflitos travados e o seu próprio crescimento económico (mediante recompensa dos senhores ou do próprio imperador). A sua influência acabará, mais tarde ou mais cedo, por chegar à corte, influenciando directrizes políticas. 
Os samurais nasciam assim como resposta à necessidade de uma maior segurança ou protecção militar no país, mas também para atender aos almejos dos “novos guerreiros” que ansiavam por promoção social através do belicismo. 
A sua primeira prova de fogo acontecerá em 1156, altura em que se dá a Rebelião de Hōgen, a qual foi, na verdade, uma autêntica guerra civil. A morte do Imperador Toba em Julho desse ano fez rebentar então uma disputa entre o imperador Go-Shirakawa (que já se havia previamente proclamado como tal) e o imperador Sutoku (o qual se tinha retirado da governação no ano de 1142, mas que tencionava regressar ao trono). Apesar de ambos terem recorrido a guerreiros samurais, a verdade é que o primeiro sairia vencedor, enquanto o segundo seria forçado a exilar-se. Com a vitória do imperador Go-Shirakawa, dois clãs passaram a ganhar maior protagonismo junto do “Trono de Crisântemo”. Os Minamoto e os Taira, compostos essencialmente por guerreiros samurais, tornaram-se agora nas famílias mais poderosas do Japão, e em breve, irão envolver-se num terrível conflito que ditará a hegemonia final de uma delas. 





Imagem nº 1 - A Rebelião de Hōgen (1156) seria a rampa de lançamento de uma nova classe militar: os Samurais.
Gravura antiga que exibe o clima de guerra civil vivido (Domínio Público)




2- A Idiossincrasia dos Samurai

Os primeiros samurais certamente não passariam de guerreiros provincianos que, perderiam vários anos, ou até décadas, a aprimorar as suas capacidades militares e a sua própria disciplina e organização. Muitos destes combatentes pereceriam, talvez por impreparação ou inexperiência inicial, em vários combates diante de assaltantes, bandos, clãs inimigos ou até magistrados que tencionavam fazer-lhes a vida num inferno através da cobrança de mais impostos ou do confisco de terras. Por seu turno, aqueles que sobreviveram, mediante vitória ou uma eventual fuga a um destino cruel, continuaram a treinar de forma a evoluírem enquanto soldados de combate. Todo este percurso adverso foi necessário para que os samurais crescessem e se tornassem, a partir do século XII, na classe militar dominante do seu país.
O que torna fascinante a história destes guerreiros é a forma como estes homens maioritariamente provenientes do mundo provinciano, todos eles carregando consigo histórias e raízes familiares diversas (sendo muitas delas modestas!), conseguiram criar uma classe que faria convergir todo um tipo de características que lhes seriam exclusivas, identificativas e/ou restritas, diferenciando-os não só dos outros grupos da sociedade nipónica, como das restantes civilizações medievais.
Nos seus primeiros séculos de existência, muitos samurais assumiram-se como autênticos cavaleiros que aperfeiçoaram em particular o uso do arco. Também procuraram educar a mente e testar, até ao limite, os movimentos e a resiliência do seu corpo. Com o tempo, as espadas, as lanças e as katanas (estas últimas, serão uma novidade apenas no século XVII) passarão também a ser instrumentalizadas, de forma célebre e heróica, por estes guerreiros. Também adoptarão armaduras que os distinguirão, conjugando a sua estrutura sólida e vigorosa com a necessidade de imprimir uma maior mobilidade. Dessa forma, elas eram feitas de placas de couro e metal pintadas, cuidadosamente unidas por laços de couro ou seda. Os braços e ombros eram protegidos por grandes escudos rectangulares. A parte mais peculiar da armadura, o capacete “kabuto”, tinha a cúpula feita de placas de metal rebitadas, enquanto a parte do rosto e testa era protegida por uma máscara resistente que era, por sua vez, amarrada atrás da cabeça e sob o capacete.
Relativamente à sua conduta e à sua forma de estar na vida, os samurais inspiravam-se no código de honra do “Bushido” (“O Caminho do Guerreiro”) que, imbuído de uma vocação confucionista, valorizava a lealdade, a sabedoria, a frugalidade, a coragem, o auto-controlo, a aceitação dos sacrifícios, o espírito marcial, a humildade e o próprio sentido de justiça. 
Um samurai ou “bushi” deveria ser sempre fiel ao seu daimyo (senhor feudal), shogun e/ou imperador, estando preparado para a morte em qualquer circunstância. Em troca, os seus senhores garantiriam o seu sustento financeiro e a preservação da sua posição social. Um samurai não se deveria render ou proceder a uma fuga covarde porque tal seria motivo de desonra. Muitos sabendo que estavam encurralados e em clara inferioridade numérica, preferiam combater até ao último fôlego ou concretizar o seu próprio suicídio (“seppuku”), visto por muitos sábios orientais da altura como um acto corajoso e digno. O samurai também deveria defender o lado da justiça e ter compaixão diante dos inimigos submetidos bem como dos mais fracos, algo que nem sempre acontecia na prática, dados os recorrentes episódios de violência e opressão que vigoraram durante a extensa era dos samurais. 
Contrastando com a realidade dos guerreiros disseminados pelo mundo restante, os samurais foram ainda incentivados pelo Código de Ética a conhecerem o seu próprio idioma, passando a saber ler e escrever. Uma ferramenta que certamente ajudou a manter a longevidade da sua influência. 
O guerreiro aceita a possibilidade da sua morte estar iminente e, por isso, vive o presente sem se preocupar com o amanhã, e não cede a prazeres secundários de forma excessiva ou até à própria preguiça.
Como é lógico, nem tudo foi um mar de rosas. É claro que neste regime feudalista, houve certamente samurais que não honraram o seu código de honra, perpetrando a destruição e a morte em aldeias, vilas ou cidades onde residiam os seus inimigos. Também beneficiaram da exploração sobre o mundo rural, recebendo géneros alimentícios e outros bens da parte dos agricultores. Mas essa era a exigência de um período turbulento e obscuro que não hesitaria em dizimar qualquer elite guerreira, se esta se revelasse demasiado pacífica, benevolente ou harmoniosa. E no arquipélago nipónico, o combate era quase um procedimento sagrado e as artes marciais um sacramento para qualquer japonês que sonhasse em progredir socialmente. 





Imagem nº 2 - Os Samurais seguiam um código de honra: o "Bushido"
Retirada de: https://www.realmofhistory.com/2017/06/30/samurai-scroll-blinding-powder-fight-stealth/, (também presente na plataforma Venngage).




Tabela nº 1 - A Pirâmide Social do Japão nos tempos do feudalismo medieval. No topo, estava o Imperador Nipónico, depois seguia-se o Shogun (o general máximo ou ditador militar) e os Daimyos (ou Dyamios, Senhores das terras). Os samurais vinham depois e serviam os interesses militares destes todos. Os Ronin também eram guerreiros samurais, embora não comprometidos com qualquer senhor ou nobre (ou porque este morrera ou porque os dispensara das suas obrigações). Na base da pirâmide, estavam os agricultores, pescadores, artesãos e mercadores (todos juntos representavam mais de 90% da população).




3- A Rivalidade dos Dois Clãs Samurais: As Guerras Genpei (1180-1185)

3.1- As Batalhas de Uji e Kurikara

Nos anos subsequentes à Rebelião de Hōgen (1156), foram os Taira que, mais instalados na zona ocidental do arquipélago, conseguiram ganhar maior influência junto do “Trono de Crisântemo”, mediante a realização de alguns casamentos com membros da família imperial. Desconfiados face à sua crescente intromissão na administração do país, os Minamoto (o então clã arqui-rival) desejam agora inverter essa realidade que se foi tornando cada vez mais nítida e não hesitarão em recorrer aos métodos bélicos. 
Em 1159 ou 1160, rebenta a Rebelião Heiji, com altos membros do clã Minamoto a assaltar e a causar sérios estragos no Palácio Sanjō, raptando o "semi-aposentado" imperador Go-Shirakawa e o seu filho Nijō (este último já nomeado imperador pelo pai que renunciara recentemente a seu favor). O clã Taira viria em socorro da causa imperial e, após vários enfrentamentos travados em cada aposento, acabaria por derrotar os Minamoto, enquanto o imperador e o seu filho conseguiram escapar, no momento certo, do seu cativeiro. Os Minamoto foram banidos e exilados pelo imperador japonês e deixaram assim de ocupar cargos de elevada importância. Contudo, a guerra ainda nem sequer começara verdadeiramente, e as conspirações voltariam a ser o prato do dia alguns anos depois. 
Os Minamoto reagiriam, é certo, e os Taira voltariam a ser chamados para procurar defender o status quo que lhes era favorável. 
Entre 1180 e 1185, as duas famílias voltariam a abrir hostilidades, fazendo com que o Japão atravesse um conflito sangrento. As Guerras Genpei (“Genpei War”) duraram cinco anos e causaram uma razia no arquipélago. Quanto aos samurais, podemos afirmar com convicção que estes dificilmente não sairiam vencedores deste enfrentamento, dado que encabeçavam e representavam o poderio militar de ambas as facções. E as histórias e demais narrações lendárias da sua participação neste cenário militar irão fortalecer ainda mais o seu carisma colectivo. 
Ao todo, serão quatro as grandes batalhas travadas entre os Minamoto e os Taira. 
A primeira, a Batalha de Uji, será travada a 23 de Junho de 1180, quando Minamoto Yorisama procurou oferecer protecção ao príncipe Mochihito (visto como candidato favorito ao trono imperial pelos Minamoto, mas perseguido pelos Taira que o viam como uma ameaça) e encetar imediatamente uma revolta que começou a ser preparada a partir do Mosteiro de Miidera (em Uji, Quioto). Contudo, o destacamento de Yorisama era composto em grande parte por monges-guerreiros, além de ser bastante reduzido numericamente (não superaria os 1000 homens). Por seu turno, os Taira avançaram com um exército constituído por 28 mil cavaleiros. Esta conjuntura militar adversa forçou Minamoto Yorisama  e os seus homens a recuarem para sul, mas sempre com os Taira a persegui-los e a flagelá-los com “nuvens de flechas”. Entretanto, os Minamoto pararam, por um pouco, junto de uma ponte que existia sobre o rio Uji, e procuraram logo sabotar a passagem dos seus inimigos que, à noite ou de madrugada, iriam ter que atravessá-la. Nesse sentido, foram destruídas várias das tábuas que materializavam a passagem superficial da ponte. Quando lá chegaram, os samurais do clã Taira tentaram valorosamente atravessar a ponte que contava agora com um “passadiço repleto de buracos rectangulares”, mas logo reconheceram que teriam de recorrer a outra alternativa. Dentro deste contexto, decidiram atravessar o rio a nado juntamente com os cavalos, uma performance heróica que não impediu ainda assim o registo de um número ainda que reduzido de baixas. O exército de Taira, depois de alcançar a outra margem, continuou assim a sua perseguição, enquanto Yorisama “entrincheirou-se” no templo de Byodo-in, onde os seus filhos estariam dispostos a ajudá-lo na resistência. Mas a batalha estava perdida, os homens do clã Taira estavam em grande número, e Yorisama, após escrever um poema nostálgico de despedida (o qual traduziremos agora dada a sua curta extensão: "Como uma árvore fóssil, De onde não colhemos flores, Triste tem sido a minha vida, Não predestinou frutas para produzir"), tornou-se no primeiro grande samurai a cometer suicídio (“seppuku”) para não ser capturado pelos inimigos, passando a ser um exemplo a seguir pela classe durante vários séculos. Por seu turno, o Príncipe Mochihito também não teve melhor sorte: foi capturado e prontamente executado pelos Taira. 
Os Minamoto tinham sofrido uma pesada derrota, mas não desistiram da sua causa, e três anos depois, conseguiram virar a guerra a seu favor na Batalha de Kurikara, como iremos relatar em seguida.
Nos dias iniciais de Junho de 1183, Minamoto Yoshinaka lançou então uma rebelião na zona central montanhosa do Japão. Conscientes da nova ameaça, os Taira enviaram uma força expedicionária. O seu comandante era Taira Koremori, um nobre que era filho de um grande guerreiro. Os progressos da sua força são relevantes inicialmente e conseguem abafar, numa primeira fase, os poucos focos de resistência que iam encontrando. Conseguem entrar inclusivamente na passagem montanhosa de Kurikara, mas Minamoto Yoshinaka acompanhado pelo grosso das suas forças obriga os Taira a pararem ali, de forma a anunciar o enfrentamento iminente. Nesse momento, os Minamoto tomaram a iniciativa da batalha, promovendo duelos de flechas e desafios individuais entre os cavaleiros de ambas as facções. Os Taira aderiram entusiasticamente a este tipo de lutas clássicas samurais. Contudo, desconheciam que um destacamento das forças de Minamoto Yoshinaka havia percorrido, de forma sorrateira e dissimulada, os caminhos sinuosos e ominosos da montanha, de forma a atacarem, de surpresa, a retaguarda dos Taira. Como sinal do ataque final, o líder dos Minamoto neste conflito liberou uma manada de bois que cruzariam o desfiladeiro. Estes animais traziam tochas acesas nos chifres fazendo com que a sua fuga ocorresse de forma enraivecida e descontrolada. O pânico e o sofrimento dos animais foi suficiente para desorganizar as forças de Taira Koremori que se encontravam no caminho. Alguns samurais dos Taira caíram mesmo do vale, vítimas da fúria da manada indomável, e como golpe final, os Minamoto atacaram prontamente a vanguarda e a retaguarda (ambas já completamente dispersadas) das forças Taira. Muitos destes caíram em combate, outros procuraram fugir por uma sarjeta estreita (mas a maior parte cairia no precipício). Poucos seriam os samurais de Taira que sobreviveriam à batalha. O próprio Taira Koremori conseguiu fazer parte da minoria de sobreviventes, e só ele sabe como foi possível escapar diante da chuva de flechas, dos bois irados e dos caminhos traiçoeiros da montanha. Mas a verdade é que a partir de agora, o outro clã samurai, os Minamoto, virava a guerra a seu favor e, em breve, entraria triunfantemente na capital imperial – Quioto, enquanto os Taira e o imperador Antoku (era uma criança ainda) tiveram que retirar-se preventivamente para Shikoku.





Imagem nº 3 - Os Taira levariam a melhor sobre os Minamoto na Batalha de Uji (1180). Nesta representação, veja-se a célebre ponte desfalcada de tábuas, com um samurai dos Minamoto a enfrentar corajosamente os soldados do clã Taira que, em superioridade numérica, queriam atravessar a passagem.





Imagem nº 4 - A Batalha de Kurikara (1183), travada nas zonas montanhosas centrais do Japão, mudaria o curso da guerra, fazendo com que os Minamoto ganhassem vantagem na frente terrestre.





3.2 – As batalhas de Mizushima e Dan no Ura

Graças ao triunfo na batalha de Kurikara, os Minamoto apoderaram-se da região central do Japão, enquanto os Taira reforçaram os seus meios militares em três bases marítimas estratégicas do “Mar Interior do Japão (Seto)”. A mais importante dessas bases, conhecida como Yashima, localizava-se na ilha de Shikoku, centro de operações agora escolhido pelos altos membros da família Taira e pelo imperador Antoku. 
O herói de Kurikara, Minamoto Yashonaka, iniciou um novo empreendimento belicista de forma a destruir a base que ainda conferia superioridade militar, no plano naval, aos Taira. Para isso delegou a liderança da expedição ao seu general Yada Yoshiyasu que partiria da ilha vizinha de Mizushima, dentro do Mar Interior do Japão, de forma a atacar Shikoku. Em jeito de reacção, Taira Tomomori e Taira Noritsune partiram com a sua frota, indo ao seu encontro de forma a travar as suas aspirações. 
Em termos de experiência na guerra marítima, os Taira pareciam ter mais histórias e aventuras para contar, visto que já haviam expulsado e eliminado piratas que ameaçavam a costa japonesa. Por seu turno, o clã Minamoto nunca se tinha habituado a combates navais. 
No dia 17 de Novembro de 1183, isto é, cinco meses depois da batalha de Kurikara, ambas as facções voltam a encontrar-se, não junto a um templo ou a um palácio, nem tampouco numa montanha, mas em alto mar.  
Os Taira ligaram os seus barcos através de pranchas ou tábuas amarradas e esticadas de forma a proporcionar uma plataforma plana de combate, tal como os samurais de ambas as castas desejariam. Usando as mesmas técnicas do costume, a batalha envolveu arqueiros e espadachins samurais das duas castas que assim abordaram os navios uns dos doutros. Muitos dos combates foram travados no “palco de batalha” improvisado em cima do alto mar. Ambos os lados sofreriam baixas consideráveis (muitos dos feridos morreram inclusivamente afogados), e a batalha duraria horas. A experiência dos Taira no domínio marítimo falaria, desta feita, mais alto, tendo provocado a desintegração da frota dos Minamoto, cuja hegemonia se vislumbrara ultimamente apenas na frente terrestre. 
Apesar do último desaire, os Minamoto continuariam a assolar as bases militares dos Taira, embora sempre que possível o fariam por terra, não tentando envolver grandes incursões marítimas. E a verdade é que, entre 1183 e 1185, acumularam novas vitórias em terra, derrotando as forças leais ao clã Taira que perdeu inclusive a maior parte das bases e entrepostos militares que detinha. A guerra parecia estar próxima do fim, e o desaire naval anteriormente ocorrido algures entre Mizushima e Shikoku fora apenas um acidente de percurso dos Minamoto.
Por seu turno, os Taira procuraram refúgio numa ilha ocidental do Mar Interno do Japão (Mar de Seto), já nas proximidades do Estreito de Shimonoseki que separa duas das quatro ilhas nipónicas então existentes: Honshu e Kyushu. 
Tendo colmatado muitas das suas lacunas e aperfeiçoado o seu conhecimento estratégico em matérias navais, os Minamoto sentiram-se agora preparados para enfrentar os Taira numa nova grande batalha marítima que decorrerá durante os dias 24 e 25 de Abril de 1185. Ao saber da investida da frota inimiga liderada por Minamoto Yoshitsune, os Taira, de tal forma confiantes em novo sucesso, prepararam os seus barcos e não hesitaram em trazer consigo o imperador Antoku, na altura uma criança com apenas 7 anos. 
Numa primeira fase, a batalha naval começará mesmo em frente da Praia de Dan no Ura, mas a maré e os ventos logo obrigarão ambas as facções a afastarem-se da costa, sendo assim travada no mencionado Estreito de Shimonoseki. E as coisas começam a correr mal aos Taira que são imediatamente traídos por um dos seus generais que decide abraçar a causa dos Minamoto. Por seu turno, e à medida que os combates sangrentos iam acontecendo, Minamoto Yoshitsune evidencia-se em grande plano nos combates, saltando para dentro dos barcos adversários e causando a destruição do inimigo. A derrota era inevitável. Praticamente quase todos os altos membros da Família Taira foram mortos em combate ou suicidaram-se. A própria avó do imperador pegou na criança ao colo, e do seu navio, atiraram-se ao mar, provocando os seus suicídios por afogamento. 
Rezam as lendas posteriores que muito dos espíritos dos samurais Taira mortos em combate reencarnaram, desde então até hoje, nas almas dos caranguejos com cara de guerreiro que habitam em toda a costa. Muitas histórias de avistamentos de fantasmas foram curiosamente desenvolvidas em torno do desaparecimento brusco desta linhagem poderosa. 
Os épicos combates travados entre os samurais de ambas as facções e os seus feitos incríveis nas batalhas ocorridas em terra ou no mar, fortaleceu o seu impacto lendário que iria perdurar por longos séculos. 
Os Minamoto que, antes das Guerras Genpei (1180-1185), pareciam estar descredibilizados, recuperaram o seu anterior prestígio e assumiram, pela primeira vez, o domínio no Japão, o qual manterão intacto até 1333. Daí nascerá o “Shogunato Kamakura”, uma espécie de ditadura militar, mas que será benéfica para os samurais, dado que passarão a ser classe dominante do país, depois de terem sido considerados por muito tempo como um grupo inferior à aristocracia tradicional. Por seu turno, e na época imediatamente posterior às Guerras Genpei, os imperadores estarão à mercê dos caprichos dos shoguns





Imagem nº 5 - A Batalha Natal de Muzishuma (1183) contou com a particularidade de terem sido proporcionadas plataformas que, imitando as superfícies terrestres, permitiram os duelos e os confrontos entre os samurais de ambas as facções. Os Taira manteriam ainda a sua supremacia marítima na costa japonesa.
Direitos: Wayne Reynolds (?), também presente na Plataforma Pinterest




Local: Estreito de Shimonoseki (Perto da praia de Dan no Ura)
Data: 24/25 de Abril de 1185
Forças Beligerantes
Clã Minamoto
Clã Taira
Comandantes, Generais, Protagonistas
Minamoto no Yoshitsune
   Taira no Munemori †
   Taira no Tomomori †
  Imperador Antoku †
Número de Combatentes/Navios
850 navios
Exército poderoso (não contabilizado)
500 navios
Exército poderoso (não contabilizado)
Baixas Estimadas:
Milhares (?)
Milhares (?)
Resultado: Depois dos sucessos na frente terrestre, o Clã Minamoto acabou com a hegemonia naval da família Taira, e assumiu finalmente o controlo do Japão. Esta batalha épica seria recordada muito por causa dos combates fascinantes e entusiásticos travados entre os samurais de ambas as castas.

Tabela nº 2 - Dados relativos à Batalha decisiva de Dan No Ura (1185).





Imagem nº 6 - O mar junto à costa de Dan no Ura (1185) ficou bravo, acompanhando a fúria presente nos combates que envolveram os samurais dos clãs Minamoto e Taira.
(Clicar em cima para visualizar melhor a gravura)





Imagem nº 7 - Os Taira sairiam arruinados do conflito naval ocorrido no Estreito de Shimonoseki. Além de perderem quase todos os seus principais familiares (morte em combate e actos sucessivos de suicídio), os Taira não conseguiram proteger o Imperador Antoku, ainda uma criança, que acabaria por morrer afogado nas águas daquele mar indomável. A avó pegara na criança e atiraram-se os dois para uma morte certa.
(Clicar em cima para visualizar melhor a gravura)




O século seguinte

No século XIII, o Japão enfrentará a mesma ameaça que regiões como a China, a Rússia, o Médio Oriente e a própria Europa Oriental enfrentavam. Tratava-se do fenómeno da expansão dos mongóis que chegaram também a fazer mira sobre o arquipélago nipónico. 
Kublai, o grande Khan dos Mongóis, queria dar seguimento ao império então edificado pelo seu avô, o inigualável Genghis Khan (1162-1227). Em 1263, e após uma guerra bastante violenta, torna-se imperador da China. Nos anos de 1274 e 1281, os mongóis e os seus novos vassalos chineses lideraram grandes expedições pelo mar de forma a atingir o sudoeste do Japão. A ameaça era real, e os samurais presentes em Kyûshû encontravam-se numa clara inferioridade numérica para fazer frente a esta ameaça. Por incrível que pareça, em ambas as situações, os japoneses sobreviveram a essas tentativas, não tanto graças aos samurais (desta vez, e apesar de terem participado em alguns combates valorosos contra os mongóis junto ao litoral, não podemos atribuir-lhes de todo tal mérito vitorioso) mas sobretudo porque os ventos divinos jogaram a seu favor. Em ambas as tentativas de invasão, tufões e tempestades dizimaram boa parte da frota chinesa-mongol, impedindo que estes pudessem alcançar, com sucesso, o Japão. Em ambas as tentativas, alguns navios mongóis que transportavam determinados destacamentos ainda desembarcaram, em condições muito adversas, em terra, visando em particular os altos muros da Baía de Hakata. Chegaram até a travar-se ferozes combates na costa, mas não havia dúvidas de que o mar havia sido o principal inimigo dos mongóis que tiveram então de abandonar os projectos de conquista do Japão. O Japão só voltaria a ser invadido apenas no decurso da Segunda Guerra Mundial (1938-1945) pelos norte-americanos.
Curiosamente, os sacerdotes de Shintô que haviam zelado pela protecção do seu povo e estimulado a adoração de deuses na sua terra perante aquela ameaça séria, acabaram por ser recompensados com múltiplas doações. 
Ainda no século XIII, é justo realçar que muitos samurais aderiram aos ensinamentos da escola budista de Zen. E uma vez mais foram chamados a intervir em alguns conflitos entre clãs que procuravam ganhar protagonismo no seio imperial. Tal como no século anterior, os samurais consolidavam o seu prestígio e poderio militar no arquipélago. Os imperadores e os grandes clãs necessitavam deles mais do que nunca para os desafios do futuro. E assim o será até 1868, altura em que a Revolução Meiji renegará o seu papel, preferindo adoptar uma nova estrutura militar e uma visão política mais secular para o Japão. Em declínio, os samurais procuraram revoltar-se, mas cerca de 20 mil perderiam a vida na Rebelião de Satsuma (1877), sendo derrotados pelo exército do Imperador Meiji (este quase quatro vezes superior no plano numérico) que, ainda assim, perdeu mais de 6 mil soldados e registou mais de 9 mil feridos. O fim de uma era encontrava-se traçada para os samurais. O novo Exército Imperial Japonês seria doravante formado por conscritos independentes da classe social. E já nada nem ninguém poderia mudar o rumo da história. O feudalismo, as práticas e tradições antigas do País do Sol Nascente já não se coadunavam com os ventos modernos. 




Imagem nº 8 - Os ventos divinos salvaram o Japão de uma potencial invasão mongol (segunda metade do século XIII). Os samurais nipónicos ainda tiveram que enfrentar alguns destacamentos mongóis isolados que desembarcaram na costa, mas os tufões tinham ajudado, em simultâneo, a destruir a maior parte da frota chinesa-mongol, perdendo esta a capacidade de efectuar um desembarque eficiente e um ataque consistente ao arquipélago.




Referências Consultadas:

terça-feira, 24 de julho de 2018

Nelson Mandela, o homem, a causa e a luta (a epopeia contada por Jack Lang)


"Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar".  

(Nelson Mandela, 1918-2013)



Nota introdutória: Apresentamos neste artigo uma recensão crítica de uma obra biográfica sobre Nelson Mandela que havia então sido escrita por Jack Lang. A autora do texto que apresentamos em seguida é Mariana Henriques, licenciada em Ciência da Informação pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que assim teve a oportunidade de analisar o trajecto de vida deste homem ímpar então exibido naquele livro. 


Apresentação geral do autor da obra


A obra “Nelson Mandela – Uma Lição de Vida” da autoria de Jack Lang apresenta-nos a história de uma célebre personalidade que se evidenciou no combate ao regime do Apartheid, o qual vigorou na África do Sul em meados e até inclusive na segunda metade do século XX.
Este livro espelha a luta da população negra contra a discriminação racial a que estavam sujeitos perante a asfixiante supremacia dos homens brancos. Nelson Mandela (1918-2013) foi a voz desse povo humilde e oprimido que tentava libertar-se da tirania, exploração e injustiça. O seu exemplo de vida foi determinante para que fosse concretizado o sonho de uma sociedade sul-africana livre e democrática, onde todas as pessoas pudessem usufruir dos mesmos direitos e conviver mutuamente. Dentro deste contexto, a obra insere-se na temática da liberdade, retratando um processo lento, e por vezes, bastante penoso que permitiu à África do Sul alcançar os princípios civilizacionais modernos. 
O autor deste livro é Jack Lang (nascido em 1939) que, durante a sua carreira profissional, foi professor de Direito Público, membro e presidente da Comissão de Negócios Estrangeiros na Assembleia Nacional Francesa, Ministro da Cultura (entre os anos de 1981 e 1986 e, de novo, entre 1988 e 1992) e deputado no Parlamento Europeu. Este político francês confessou na sua obra que, durante a primeira vez em que assumiu a pasta da Cultura, mobilizou os meios artísticos franceses e internacionais com a finalidade de promover a causa dos negros sul-africanos. Neste âmbito, podemos observar que o autor conheceu bem de perto a realidade tenebrosa que chegou a verificar-se na África de Sul, tendo desempenhado esforços no sentido de apoiar os resistentes daquele regime nefasto que vigorava impunemente. 
No que diz respeito à estrutura da obra, podemos afirmar que esta se encontra constituída por: capa, folha de rosto, índice geral, prefácio (da autoria de Nadine Gordimer - escritora laureada com o Prémio Nobel da Literatura em 1991), prólogo, cinco actos/capítulos , anexos. Os primeiros quatro capítulos estão associados a quatro figuras míticas (Antígona, Espártaco, Prometeu, Próspero) que, por seu turno, ilustram o percurso dramático de Nelson Mandela até à conquista da liberdade. No quinto e último ato, temos referência ao “rei Nelson”, fundador de um país livre que soube extrair a mais importante lição da tragédia. Ao nível das ilustrações, encontramos fotografias a preto e branco e a cores em páginas não numeradas que se situam a meio da obra. Assim sendo, temos imagens de Nelson Mandela a discursar, a receber o Prémio Nobel da Paz em Oslo (1993), o seu juramento enquanto novo Presidente da África do Sul (1994), entre outras fotografias.
No que concerne ao paratexto, ressalvamos o facto de a capa exibir o rosto sorridente de Nelson Mandela acompanhada pelo título, autor da obra, editora e redator do prefácio. Na folha de rosto voltamos a ter acesso aos mesmos elementos embora seja ainda acrescentada a autoria da tradução (Francisco Agarez) bem como o local e a data da produção desta nova edição portuguesa que se sucede à anterior e original versão francesa. A lombada é preenchida por um fundo acastanhado, ressaltando, mais uma vez, aos olhos do leitor o título, o autor da obra e a respetiva editora. Na contracapa encontramos uma breve descrição produzida pelo autor Jack Lang, sintetizada em três pequenos parágrafos onde é engrandecida a personalidade e o afinco de Nelson Mandela no combate às injustiças cometidas contra os negros, bem como é revelado o seu amor pela tolerância e democracia. Apesar de o livro não dispor de posfácio, bibliografia e glossário, a verdade é que o mesmo contém algumas notas de fim utilizadas para citar as origens das informações reportadas ao longo desta biografia. 




Imagem nº 1 - Jack Lang foi Ministro da Cultura de François Mitterrand. Foi responsável pela elaboração da biografia - "Nelson Mandela - Uma Lição de Vida".




A Estrutura Mitológica da Obra

A obra de Jack Lang começa com um breve prefácio (p. 9-11) da autoria da Prémio Nobel da Literatura – Nadine Gordimer (1923-2014). Esta conceituada escritora recordou, numa clara alusão a Nélson Mandela, “as condições interiores que o homem teve de ultrapassar e resolver para cumprir o seu primeiro objetivo: combater a opressão de um ser humano por outro”.  Nadine compara a vida de Madiba a um drama, onde ele teve de encarnar o destino daqueles que o antecederam e foram investidos de missões idênticas. 
Dentro deste contexto, no primeiro acto do livro de Jack Lang  (p.25-66), Nélson Mandela será equiparado a Antígona, personagem da obra do dramaturgo grego Sófocles, visto que, à semelhança desta figura mitológica, cumprira inicialmente as leis da nação, mas um dia teve de as violar, por considerá-las aberrantes e maquiavélicas, representando estas um elevado prejuízo ético e moral ao seu povo.
No segundo acto ou capítulo (p.67-99), Nélson Mandela deixa praticamente de lado os seus serviços de advocacia (sector onde se destacara durante a sua carreira profissional), para se tornar chefe dum bando de revoltosos contra as forças do regime, assumindo assim os traços do célebre gladiador Espártaco que, na Idade Antiga, encabeçara uma revolta servil contra a exploração e opressão promovidas por Roma. 
Por seu turno, o terceiro acto (p. 101-141) apresenta-nos o calvário do biografado que passou 27 anos em cativeiro, depois de ter afrontado corajosamente o regime do Apartheid. Tal como Prometeu, vulto mitológico que defendia os interesses da Humanidade e que, segundo a lenda, foi agrilhoado a um rochedo por ter desejado entregar aos homens o fogo libertador (o qual teria sido roubado aos deuses helénicos, gerando assim a ira de Zeus que o castigaria), também Madiba sofreria um terrível martírio por ter cometido o “pecado” de abraçar a liberdade e repudiar a tirania, contrariando as directivas superiores ou estatais.
No quarto acto (p. 143-186), Mandela é um homem renascido e assume o papel triunfante de Próspero, benfeitor dos homens e vencedor de Calibã, evitando uma guerra civil e o caos no seu país. 
Por fim, no derradeiro ato (p. 187-211) – isto, é o quinto – Nélson já não é equiparado a nenhuma personagem lendária, mas é sim caracterizado como o “rei fundador” de um país finalmente livre e igualitário para assim personificar uma nação “arco-íris”.  
Expostas estas originais comparações que acompanham o livro de Jack Lang e que realçam o percurso heróico de Nélson Mandela, é altura então de abordarmos, de forma sucinta, a narração biográfica que a obra de Jack Lang imprime a respeito desta personalidade que marcou uma era na História Mundial.




Imagem nº 2 - O percurso de Nelson Mandela motivou comparações por parte de Jack Lang com algumas figuras mitológicas do Período Antigo.




Nélson Mandela, a sua formação

Nélson Mandela, sob o nome original de Rohhaba, nasceu na pequena vila de Mvezo (região do Transkei, África do Sul) a 18 de Julho de 1918. Era filho de um importante conselheiro que servia o rei tribal de Thembu. Nascera assim no seio do clã “Madiba”. Durante a sua juventude, interessou-se particularmente pelas histórias e lendas dos povos negros antepassados que teriam chegado a viver em harmonia naquela região, antes da chegada dos colonizadores. Em 1930, teve conhecimento da morte do seu pai, ficando por algum tempo sob supervisão educativa do soberano thembu – Jongintaba.
Em termos de formação escolar, o biografado realizaria os seus primeiros estudos em Qunu, onde uma professora decidiu atribuir-lhe o nome cristão de Nélson que seria certamente mais pronunciável do que o seu complexo nome de nascimento. Mandela frequentaria ainda o colégio de Clarkebury que era, na altura, o melhor estabelecimento de ensino para os africanos da região do Transkei. De acordo com as descrições da época, ele era inicialmente um aluno aplicado, embora não brilhante. Mesmo assim, conseguiria evoluir ao ponto de ingressar na Universidade de Fort Hare. No entanto, seria expulso devido ao seu envolvimento num protesto estudantil. Quando regressa ao palacete do dignatário tribal e seu tutor, é recebido com uma enorme reprimenda por parte deste que ameaça impingir-lhe um casamento com uma mulher por si escolhida, caso não ponderasse voltar atrás na sua insubordinação universitária. Encurralado, Nélson Mandela não hesitaria em fugir para Joanesburgo, à procura de iniciar uma carreira profissional que lhe permitiria a sua própria subsistência. Estávamos no ano de 1941. Naquela conceituada cidade, começará por ser vigilante noturno numa sede de minas de ouro, mas é um ofício que exercerá por muito pouco tempo. Depois, e por intermédio de Walter Sisulu (um agente imobiliário que acaba de conhecer e com o qual manterá uma amizade para a vida), conseguirá entrar numa importante sociedade de advogados da cidade que era liderada por três judeus Lazar Sidelsky, Witkin e Eidelman. Como Mandela não havia terminado ainda os seus estudos, teve então de se contentar em redigir apenas contratos destinados aos negros, nomeadamente relacionados com processos de empréstimos e de hipotecas. No decurso da experiência vivida nesse escritório, o novo funcionário nunca seria discriminado pela sua cor, apesar de auferir um ordenado simbólico de duas libras por mês. 
Em 1943, Mandela matricula-se na nobre e antiga Universidade de Wittwatersrand, onde estudaria até 1949 com o intuito de conquistar os novos galões de advogado. No ano de 1944, conheceu Evelyn Mase, prima de Walter Sisulu, por quem se apaixonaria e contrairia matrimónio. Quando se conheceram, Evelyn aparentava ser uma mulher empenhada e trabalhadora que tinha vindo para Joanesburgo estudar Enfermagem. No entanto, era alérgica à política, factor que explicaria mais tarde o divórcio (ocorrido então em 1958). Mesmo assim, é de realçar o facto de o casal ter gerado quatro filhos (dois rapazes e duas raparigas). 





Imagem nº 2 - Nelson Mandela demonstrou um interesse imediato pela área da advocacia. Foi aí que se aperceberia do regime legal injusto que vigorava no seu país.
Retirada do Jornal Inglês The Telegraph



A resistência ao regime

Nos seus primeiros 25 ou 30 anos de vida, Mandela deparou-se gradualmente com a realidade social que girava em seu torno e que radicava em inúmeros preconceitos raciais. Podemos dar alguns exemplos desse atormentante cenário que era vivido na África do Sul e que piorou bastante entre as décadas de 1940 e 1980. O regime do Apartheid codificou, sob a forma de leis injustas, a superioridade total do homem branco face a mestiços, indianos e negros. Por outras palavras, os melhores cargos estavam reservados aos brancos, os únicos que poderiam desempenhar funções administrativas no Estado. Todavia, vigoravam outras imposições que eram ainda mais humilhantes para os negros. Estes não poderiam almoçar nas cantinas reservadas aos brancos, eram muitas vezes expulsos de espaços públicos, tinham acesso condicionado (mediante apresentação dum passe) aos autocarros, era-lhes vedada a utilização de casas de banho públicas e muitos eram ainda relegados para os dormitórios das minas ou para os bairros de lata. Por outro lado, seriam proibidos os casamentos inter-raciais (lei de 1949) e foram igualmente estabelecidos bantustões (mini-estados negros que acolheriam grandes deportações de africanos). O Apartheid promovia um sistema legal racista, e não hesitava em reagir com mão-de-ferro perante qualquer rebelião sucedida. O regime contava ainda com dois aliados “involuntários” – a religião cristã (a promessa bíblica do Paraíso noutra vida era a terapia ideal para que a esmagadora maioria da população se submetesse aos sacrifícios do presente) e a passividade internacional (apesar de muitos países censurarem as transgressões verificadas na África do Sul, a verdade é que não desejavam intrometer-se nos assuntos duma nação alheia).
Os grupos políticos opositores ao regime ditatorial sul-africano eram essencialmente dois: o Partido Comunista e o ANC (Congresso Nacional Africano – fundado em 1912). Apesar de Mandela ter admirado o activismo de muitos militantes comunistas e de até ter mantido conversações secretas com estes, a verdade é que ele não subscreveria as teorias de Karl Marx. Por isso, acabou por aderir ao ANC. No seio dessa facção política, testemunhou inicialmente muita apatia e inclusive falta de coragem de alguns dos seus representantes. A sua entrada no partido foi uma lufada de ar fresco para a causa da igualdade inter-racial. Assim sendo, e mediante a sua crescente influência, Nélson convenceu o ANC a enveredar por um programa de acções mais radicais e eficazes (por exemplo, através da convocatória de greves ou de manifestações massivas), dado que as anteriores tentativas de diálogo e de pressão se tinham traduzido em resultados quase nulos. 
Em 1952, Mandela promoverá, juntamente com outros líderes da resistência ao regime, uma campanha de desobediência civil contra seis leis injustas  que haviam sido promulgadas. Será condenado a uma pena de nove meses de trabalhos forçados, embora suspensa por dois anos. Por essa altura, fundará em parceria com Oliver Tambo, a primeira sociedade de advogados negros na África do Sul. 
Todavia, Nélson seria alvo de interdição política – isto é, vítima duma nova norma promovida ardilosamente pelo Apartheid (o “ban”) que consistia, através dum decreto do Ministro da Justiça, no banimento definitivo de um cidadão da actividade política, sendo que a decisão não era sequer passível de defesa ou recurso. Em caso de desrespeito desta exclusão deliberada, o visado poderia ser detido por tempo indeterminável e sem direito a qualquer julgamento. Curiosamente, e apesar de ter sido vítima desta manobra legal maquiavélica, Mandela não desistirá de lutar pelos seus ideais políticos, mantendo a mesma postura que iria culminar, pouco tempo depois, num cativeiro prolongado.
No ano de 1955, o biografado será novamente detido por algum tempo, recaindo sobre ele a acusação de traição. A sentença conhecida, apenas em 1961, iliba-o por falta de provas. Pelo meio, Mandela contrai o seu segundo casamento com Winnie Madikizela (ocorrerá em 1958), uma assistente social que o apoiará incondicionalmente na sua luta política e que lhe dará duas filhas. O casal iria divorciar-se apenas em 1996. 
Por outro lado, em 21 de Março de 1960, a polícia estatal disparou perante uma população desarmada que protestava em Shaperville, causando 69 mortos, incluindo mulheres e crianças. O regime sul-africano decretou estado de emergência e ilegalizou o ANC e o Congresso Pan-Africano a 8 de Abril. O cenário tornara-se tenso e irrespirável. 
Com o partido na clandestinidade, Mandela e os seus companheiros de luta irão promover uma série de explosões a 16 de Dezembro de 1961, que não causarão mortes (excepto a de um detonador) embora tenham gerado estragos materiais de monta. No momento em que este ataque ocorre, Nélson já tinha sido incumbido de liderar o recém-criado braço armado do ANC – “Spear of the Nation” (“A Lança da Nação”).
Em Janeiro de 1962, e sob uma falsa identidade, deixa secretamente a África do Sul, e viaja pelo continente africano e chega igualmente a visitar Inglaterra, onde obtém apoio para a sua causa. Nas suas passagens por Marrocos e Etiópia, receberá formação militar para que pudesse assim comandar com distinção o pequeno exército que o ANC havia montado para resistir à perseguição do regime e que actuaria sob forma de guerrilha. Poucos meses depois retornaria à África do Sul, onde seria, em breve, identificado e detido quando se deparara com uma barreira policial na estrada em que seguia.





Imagem nº 3 - Nelson Mandela foi obrigado a adoptar tácticas mais duras para enfrentar a repressão do Apartheid contra os negros.
Retirada do Jornal Inglês The Telegraph



Julgamento e Cativeiro 

Mandela seria acusado de ter deixado a nação sem qualquer permissão e de ter incitado os operários à greve, acabando por ser condenado a cinco anos de prisão. Mas o pesadelo não terminaria por aqui. O regime descobriria entretanto uma fazenda secreta em Rivonia, onde se achavam os planos e os segredos dos activistas do ANC e do Partido Comunista. As autoridades desvendaram igualmente a organização do braço armado que supostamente seria tutelado por Mandela. Este seria, juntamente com mais alguns arguidos, acusado de sabotagem e de promover um golpe de estado, o que poderia originar a sua condenação à forca. 
Durante o julgamento de Rivonia (1963-1964), Nélson defender-se-á com bravura, não hesitando em denunciar um sistema legal injusto, e discursando, em simultâneo, que estava disposto a morrer pelos ideais duma sociedade livre e democrática, em que todos pudessem viver com harmonia e com as mesmas oportunidades. Apesar de poupado à pena de morte, Nélson seria condenado a prisão perpétua juntamente com outros seis arguidos (incluindo Walter Sisulu). Começariam então 27 anos sombrios de cativeiro, passados maioritariamente em Robben Island (ilha inóspita localizada perto da Cidade do Cabo), onde teve de suportar inúmeros trabalhos forçados e as injúrias dos guardas que o vigiavam . 




Imagem nº 4 - Durante vinte e sete anos de cativeiro, Nelson Mandela foi sujeito a trabalhos forçados e a vários insultos por parte de guardas mais severos. Primeiro, esteve durante vários anos detido em Robben Island, e depois, ainda seria transportado para uma cadeia em Tokai, Cidade do Cabo. O seu espírito de sacrifício aliado à nobreza da causa sensibilizaria rapidamente o mundo. Muitas personalidades começaram a exigir a sua libertação e um novo paradigma na África do Sul.




A Libertação e o Triunfo da sua Causa

Finalmente, a 11 de Fevereiro de 1990, poucos dias depois da legalização do ANC, do Partido Comunista e do Congresso Pan-Africano (por iniciativa do Presidente Willem de Klerk ), Mandela seria libertado, recomeçando as conversações para acabar de vez com o Apartheid que estava já, na altura, obsoleto e “cercado” pela comunidade internacional. Em 1991, Mandela torna-se presidente do ANC, substituindo o seu amigo Oliver Tambo. No ano de 1993, receberia juntamente com o presidente sul-africano De Klerk o Prémio Nobel da Paz. A história na África do Sul estava a ser reescrita. Os novos sistemas legislativos pautavam-se agora pela modernidade, eliminando os últimos resquícios de eventuais códigos raciais.
Em 10 de Maio de 1994, Nélson Mandela tornou-se no Primeiro Presidente da África do Sul  a ser democraticamente eleito, cumprindo as suas funções com dignidade e amor ao seu povo, não excluindo ninguém pela sua raça ou pelas convicções religiosas/partidárias. Em 1998, casou-se com a conhecida dama moçambicana Graça Machel, a sua terceira mulher. Contava na altura com 80 anos. Durante a década de 90, criou ainda fundações destinadas a apoiar causas nobres .
Agora no topo e venerado por todos (negros, mestiços, brancos…), Nélson jamais recorreria a qualquer forma de vingança pelos vexames a que foi sujeito. A sua retribuição consistiria na tolerância e no respeito pelo próximo.  
Apesar de tal não ser retratado no livro de Jack Lang (publicado em França em 2004, e com a edição portuguesa a ser de 2005), Nélson Mandela morreria na sua casa em Joanesburgo a 5 de Dezembro de 2013 (contava então com 95 anos de idade), deixando um legado incontornável que valorizaria a liberdade em detrimento da opressão. Afinal, a longa luta que levara ao cabo da sua vida foi recompensada pelo descanso final vitorioso.
Depois da obra retratar detalhadamente a vida de Nélson Mandela, seguem-se por fim os anexos (p. 215-230) que são compostos por três documentos, a saber: a “Declaração de Nélson Mandela no banco dos réus, em sua defesa, na abertura do julgamento de Rivonia”, o “Discurso de Aceitação do Prémio Nobel” e o “Discurso de Nelson Mandela perante a multidão que se concentrou na Cidade do Cabo, no dia da sua libertação”.





Imagem nº 5 - Após o calvário, seguiu-se a bonança. Mandela seria libertado numa conjuntura mais estável. O Apartheid estava descredibilizado. A sua reintegração social e política foi essencial para a recriação de um Estado mais justo e igualitário. Sentou-se com homens negros e brancos. Não procurou vinganças, desejou sim criar pontes e harmonia para um futuro mais risonho na África do Sul. Seria mesmo Presidente da África do Sul entre 1994 e 1999.



Análise crítica e recomendação da obra

A partir da leitura da obra de Jack Lang, os leitores ficam a conhecer de forma mais detalhada o lado humano e fraterno de Nelson Mandela bem como a sua visão política e social. Este homem humilde conseguiria transmitir os seus nobres ideais através de uma postura convicta e eloquente. Apesar de ter permanecido vinte e sete anos em cativeiro (onde foi submetido a trabalhos forçados), Madiba acabaria por testemunhar o triunfo da integridade dos negros sul-africanos, os quais haviam suportado infindáveis sofrimentos nos tempos brumosos do Apartheid. Além disso, Mandela renunciou a qualquer cenário de vingança face aos homens brancos (estes tinham sempre constituído uma minoria) porque era fiel aos valores da justiça e da igualdade humana, sendo que estes princípios superiores se configuravam alheios à natureza racial ou étnica das comunidades. 
A obra contém algumas virtudes que a tornam recomendável para os jovens que demonstram um particular interesse pelas temáticas da liberdade, dignidade humana, paz e nobreza da arte política . O facto da biografia se associar a quatro personagens de conotação dramática torna o livro ainda mais original visto que reflete igualmente os sacrifícios históricos e/ou mitológicos que foram necessários em todo este percurso complexo que, por fim, culminaria na implantação da liberdade nas civilizações modernas. 
Todavia a obra também apresenta alguns pontos mais discutíveis. A leitura do livro acaba, às vezes, por ser algo pesada, isto é, de difícil interpretação, visto que o autor recorre a um vocabulário nem sempre acessível. Em certos trechos, a informação acaba por não ser tão esclarecedora devido à ausência de potenciais elementos informativos complementares. Por fim, o autor comete exageros narrativos ao recuar e avançar demasiado no tempo, não seguindo uma ordem cronológica ou linear dos acontecimentos que deveria ser aconselhável numa biografia. 
Não obstante, a obra não deixa de ser interessante e pedagógica porque é transmitido um modelo de conduta que deve ser seguido por todos aqueles que venham assumir funções políticas ou sociais de elevada importância. E claro o seu modelo singular é digno da personalidade que se pretende homenagear. Aliás, para quem deseje conhecer este herói mundial, esta é mesmo uma das leituras obrigatórias.


Referência Bibliográfica:

  • LANG, Jack – Nélson Mandela. Uma Lição de Vida. Trad. Francisco Agarez. 1ª Edição portuguesa. Lisboa: Editorial Bizâncio, 2005.

Artigo/Trabalho da autoria de Mariana Henriques
Licenciada em Ciência da Informação
Faculdade de Letras da Universidade do Porto