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segunda-feira, 15 de setembro de 2014

As luzes da "Reforma Gregoriana" (séculos XI-XIII)

Na segunda metade do século XI, a Igreja assistirá a uma enorme revolução interna, ao nível da sua organização e prioridades assumidas. É um novo ciclo instaurado que se repercutirá em várias vertentes. Trata-se evidentemente da então designada (embora de modo impreciso) "Reforma Gregoriana" que se prolongará até ao século XIII, a qual tentará alcançar diversos objectivos, entre os quais destacamos os seguintes:


  1. A afirmação do poder supremo da Igreja.  No plano político, a instituição reclama a supremacia universal, exigindo a obediência ou a vassalagem dos restantes reis e do imperador germânico. Por outro lado, o poder de decisão que anteriormente cabia às grandes famílias romanas e ao imperador alemão foi anulado, assegurando-se assim a eleição interna sem pressões exteriores. O Papa está acima de qualquer outro soberano da Cristandade, e só presta contas a Deus. A Igreja declara assim a sua independência perante o poder imperial que nos séculos anteriores fora responsável por diversas intromissões.
  2. Abolição de ritos pagãos introduzidos nos padrões da religiosidade católica. Ao nível do rito, a Igreja procura assegurar uma uniformidade ou conformidade dos rituais católicos (liturgia), evitando disparidades devido a influências culturais alheias. O canto gregoriano é uma das novidades que adquire exponencial destaque nesta era.
  3. Combate às práticas desviantes da simonia e do nicolaísmo. Por outras palavras, as transacções de cargos clericais ou o não-cumprimento do celibato jamais poderiam ser tolerados, e a Reforma Gregoriana canalizará assim uma maior atenção para punir estas irregularidades que, em nada, dignificavam a instituição clerical. Neste capítulo moral, procurou-se ainda regressar ao Cristianismo Primitivo.
  4. Repúdio da investidura laica. Antigamente, muitos nobres ingressavam na Igreja por mera influência das suas famílias, contudo muitos o faziam sem deterem formação e vocação prévias, cenário que propiciava habitualmente um desempenho limitado daqueles novos clérigos.
  5. A eleição pontifícia realizada pelo Colégio Cardinalício. Os cardeais da Igreja Romana passariam a participar, de forma independente e interna, na eleição do novo sumo pontífice, evitando assim ingerências do exterior.



Imagem nº 1 - A "Reforma Gregoriana" (designamos sempre a mesma entre aspas, devido à limitada precisão de tal designação, pois a reforma não se deveu apenas a Gregório VII) garantiu o início dum novo e importante ciclo histórico para a Igreja Romana.



Os Grandes Papas Reformistas do Século XI


Apesar do Papa Clemente II (1047-1048) ter procurado adoptar as primeiras acções contra a simonia, a verdade é que o seu pontificado foi demasiado curto (cerca de 9 meses de pontificado) para ser considerado um pioneiro indiscutível do espírito reformista que engrandeceria a Igreja Católica. Por isso, não o incluímos na lista que apresentaremos de seguida, embora fiquem bem patentes as suas primeiras tentativas para garantir um futuro melhor à instituição que servia.


Papa
Pontificado
Feitos Reformistas
Leão IX
1049-1054
Um grupo de importantes reformadores acompanhou-o em muitas das decisões que teria tomado no decurso do seu pontificado: Frederico da Lorena, Hugo o Branco, Pedro Damião, Humberto de 
Moyenmoutier e São Hugo de Cluny. Contará ainda com a importante colaboração do monge germânico Hildebrando (futuro Gregório VII). Combateria a simonia (troca de dinheiro por favores eclesiásticos ou venda de cargos clericais) e defende intransigentemente a castidade clerical. Foi o primeiro papa do seu tempo que conseguiu implementar os ideais reformistas.
Vítor II
1055-1057
Continuou a obra do seu antecessor. No concílio de Florença (1055), condena o concubinato/nicolaísmo, a simonia e a usurpação dos bens da Igreja.
Estevão IX
1057-1058
Zelou pela autonomia da Igreja e, de novo, condenou a simonia a qual se atribuía à ingerência laica.
Nicolau II
1059-1061
Estabelece poderes únicos aos cardeais-bispos para que estes elejam os futuros pontífices de forma autónoma e privada (começam a ser então construídas as bases do nascente Colégio Cardinalício). Criticou novamente as práticas nefastas já referidas que corroíam a credibilidade da Igreja. Enviou ainda diversos legados em inúmeras viagens para que nas variadas regiões se assegurasse a imposição duma liturgia ou rito católico unificado na Cristandade.
Alexandre II
1061-1073
Prosseguiu com as causas defendidas pelos papas antecessores. Implementou ainda a missa comunitária nos mosteiros. A ruptura com o Poder Imperial foi total no seu pontificado. Condenou as investiduras feitas sem autorização superior e procurou proibir a presença de sacerdotes, que não tinham respeitado o voto de castidade, nas missas. O raio de acção da Igreja será agora maior durante estes anos.
Gregório VII
1073-1085
O principal vulto da Reforma, embora não tivesse sido o único pontífice a zelar pela causa. Com o nome de nascimento de Hildebrando, é factual que já teria prestado uma contribuição importante nos pontificados anteriores. Fora ainda monge da célebre abadia de Cluny.
Seria eleito Papa muito devido ao grande apoio popular.
Defendeu a primazia da Igreja de Roma no plano universal e a infalibilidade papal, condenou o concubinato, a simonia e as investiduras laicas. Pretendeu impor rigor máximo nas eleições eclesiásticas. É do seu tempo – o famoso documento do Dictatus Papae, onde a Igreja Romana é considerada como detentora do poder supremo. Pugnou até à exaustão por tais ideais, enfrentando os sectores clericais mais acomodados ou relaxantes e os nefastos interesses imperiais. Chegou mesmo a ser detido em 1075, todavia o povo revoltou-se de tal forma que Gregório VII acabaria por ser libertado.
As relações com o imperador germânico Henrique IV (apesar da penitência deste em Canossa, o entendimento durou pouco tempo) não foram as melhores, e Gregório VII foi mesmo obrigado a deixar Roma, quando as tropas alemãs tomaram esta cidade entre 1083-1084. Todavia, a sua morte no exílio em Salerno não seria em vão, pois os seus ideais e a sua glória asseguraram a continuidade da linha reformista. No leito da sua morte, terá dito “Amei a justiça e odiei a iniquidade, por isso morro no exílio”.
Vítor III
1086-1087
Antigo monge beneditino. Contra a sua própria vontade, tornou-se Papa com uma idade algo avançada e uma saúde debilitada. Destacou-se pela sua generosidade e serenidade.
No seu pontificado é excomungado o anti-Papa Clemente III, apoiado pelo partido germânico/imperial, bem como é confirmada a excomunhão de Henrique IV. Também Roma voltaria a ser recuperada através duma força normanda que expulsaria a milícia imperial, todavia a enorme instabilidade da época fez com que Vítor terminasse os seus últimos dias no mosteiro de Montecassino.
Urbano II
1088-1099
Pontífice enérgico que voltou a condenar as investiduras laicas, o nicolaísmo e a simonia. Novamente, envolveu-se em conflitos com o imperador Henrique IV, o qual pretendia controlar os assuntos da Igreja, o que não ia de encontro às pretensões de independência e supremacia da instituição católica. Em 1092, teve de abandonar Roma, todavia conseguiria voltar no ano seguinte.
A manifestação poder papal tornou-se clara quando chegou o pedido de auxílio do imperador bizantino Aleixo I (líder daquele império cristão oriental que tinha perdido vários territórios nas últimas décadas para os turcos seljúcidas), e que em jeito de resposta,  Urbano II mandou convocar o Concílio de Clermont, o qual promoveria o lançamento e a pregação da Primeira Cruzada. Este empreendimento militar foi um sucesso, com a Cidade Santa de Jerusalém a ser recuperada pelos cruzados em 1099, poucos dias antes da morte de Urbano II.


Tabela nº 1 - Os pontífices reformistas da segunda metade do século XI.




Imagem nº 2 - Embora o termo "Reforma Gregoriana" seja impreciso porque existiram outros Papas que contribuíram para a revolução da Igreja, a verdade é que não podemos negar que Gregório VII (na imagem) foi a personalidade que talvez alcançou maior destaque, contribuindo para o amadurecimento dos ideais reformistas.
Retirada: http://www.pliniocorreadeoliveira.info/DIS_SD_640525_saogregorio7dictatuspapae.htm#.VBbRj_ldVRE, (veja-se aqui ainda as disposições do Dictatus Papae)




Evidentemente, a Reforma da Igreja Romana (talvez uma designação que achamos mais correcta, abrangente e eficaz do que o término "Reforma Gregoriana") prosseguiu nos pontificados seguintes, bem como as querelas entre Papado e Império. 



Referências Consultadas:


  • GUIJARRO-RAMOS, Luis Garcia - Papado, cruzadas y ordenes militares: siglos XI-XIII. Madrid: Cátedra, 1995. Este escritor defende, e bem no nosso entender, que o termo "Reforma Gregoriana" é demasiado restrito, e por isso, os feitos reformistas não se cingem apenas a Gregório VII, apesar da contribuição igualmente decisiva deste pontífice.
  • ORLANDIS, José - Historia de la Iglesia: La Iglesia antigua y medieval. Madrid: Ediciones Palabra, 2003.
  • http://www.infopedia.pt/, Infopédia, Porto Editora. Aqui encontramos igualmente descrições sobre a Reforma bem como a vida e obra dos seus pontífices empreendedores.
  • http://www.infoescola.com/historia/reforma-gregoriana/, (artigo da autoria de Antonio Gasparetto Júnior, consultado em: 15-09-2014).

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Papa Bento IX, a personificação da incompetência e o maior pesadelo da Igreja Romana



Ao longo da sua história, a Igreja Católica conheceu líderes credíveis e inteiramente dedicados à sua causa, mas também foi representada por elementos que se pautaram pela mediocridade. Nesta última vertente, Bento IX parece ter superado todos os recordes negativos.
Bento, com o nome inicial de nascimento - Theophylactus, era oriundo de Túsculo e as suas origens remontam aos inícios do século XI, embora tenha nascido em data incerta (talvez algures entre 1012-1020?). Era filho de Alberico III, conde daquela cidade italiana. Por aqui, observamos imediatamente que esta personalidade havia nascido no seio da alta nobreza romana, conhecendo assim as manobras obscuras inerentes ao poder político daquela era. A influência e riqueza da sua importante família constituíram um vector determinante para que fosse o sucessor do falecido pontífice João XIX (1024-1032). Segundo alguns historiadores, o novo Papa eleito, Bento IX não possuía qualquer formação prévia para poder ocupar um cargo que exigia elevada responsabilidade. Como se não sabe ao certo a sua data de nascimento, não sabemos qual seria realmente a sua idade quando se tornou Papa pela primeira vez. Se os cálculos estimados não andarem muito longe da realidade, Bento IX teria entre 12 a 20 anos de idade quando ocupou a cadeira de São Pedro. No imediato, todos estes ingredientes começam a favorecer a imagem dum Papa ambicioso, cruel, imoral e sem escrúpulos para alcançar os seus objectivos. Em pouco tempo, atrairá a implacável crítica de muitos dos seus detractores que começam a apontar-lhe o dedo, acusando-o do envolvimento em assassinatos, orgias, estupros (ainda hoje se debate o grau de veracidade destas violentas acusações lançadas contra o Papa Bento IX)... O seu primeiro pontificado duraria cerca de 12 anos, desde Outubro de 1032 até Setembro de 1044, altura em que é forçado a sair de Roma. Foi sucedido por Silvestre III, o qual ocuparia o lugar por muito pouco tempo até porque não tardaria a ser acusado de ter chegado ao cargo pela via do suborno. 
Novamente, e através de tanta intriga no seio do poder papal, começou a surgir a possibilidade de Bento IX, rival de Silvestre III, recuperar o seu estatuto anterior. Bento IX reúne forças e apoios importantes no exterior, e consegue mesmo iniciar um segundo pontificado, o qual seria praticamente tão breve como o do seu antecessor - durou apenas cerca de um mês (Abril a Maio de 1045). Bento nunca escondera o seu vício pelo álcool, e terá sido sob a influência deste que tomou a decisão mais absurda, e simultaneamente, inédita da história da Igreja Romana - vendeu o cargo de Papa ao sacerdote italiano João Graciano, ofício que seria agora preterido pelo matrimónio que ansiosamente procurava. Foi até hoje o único sumo pontífice que ousou colocar à venda o seu ofício. O comportamento de Bento era arrepiante, fora um erro inqualificável permitir que tal homem ocupasse uma posição de grandiosa importância. Não reunia pois conhecimento, postura e vocação para representar a Cristandade, mas os conluios da época materializaram este cenário absolutamente terrível. 
Como se não bastasse, Bento IX arrependeu-se depois da transacção realizada (ou seja, desistiu da ideia do casamento) e exigiu de novo o cargo ao qual havia renunciado, e assim sendo, iniciaria o seu terceiro e derradeiro pontificado, o qual se estenderia entre Outubro de 1047 e Julho de 1048. Efectivamente, João Graciano (tinha adoptado a designação de Gregório VI) havia antes renunciado ao trono papal, quando fora sistematicamente acusado de ter comprado o cargo de pontífice a Bento IX. O sucessor de João Graciano seria o Papa Clemente II, um homem que procurava finalmente travar os actos de simonia (transacções de cargos eclesiásticos), contudo faleceria alguns meses depois de ter assumido o papado. Foi neste pretexto de indefinição que Bento IX teria uma terceira oportunidade à frente da Santa Sé, mas a oposição interna voltaria a ser enorme, e claro o seu pontificado durou novamente pouco tempo. Acabou expulso pelas tropas germânicas que instalaram Dâmaso II, o qual teve um curtíssimo pontificado.
Depois seguiu-se Leão IX (1049-1054), um Papa empenhado que se preocupou seriamente com a abominável simonia, o não cumprimento do celibato (nicolaísmo) e pelo retorno ao cristianismo primitivo. Assim, a Igreja começava a demarcar-se dos últimos anos negros que deixaram danos irreversíveis à sua imagem.
O Papa Bento IX foi excomungado em 1049, e talvez terá falecido em 1056 (há também a teoria de que teria morrido apenas em 1085!). Desconhece-se se a excomunhão que pendia sobre ele foi posteriormente levantada. Não sabemos se este ex-pontífice terá demonstrado arrependimento pelos actos pouco dignos que cometera, ou se chegou a desistir das suas pretensões à cadeira de São Pedro. Certo é que ele ficou na história como o único Papa que vendeu o seu próprio cargo, foi ainda o único a ter mais do que um pontificado (teve 3!) e tornou-se igualmente num dos primeiros a renunciar ao cargo.
Como estamos a abordar uma era bastante recuada, é necessário salientar que os testemunhos existentes pautam pela sua escassez, e muitas vezes, pela ausência de imparcialidade. Não descartamos a possibilidade de algumas das acusações que recaíram sobre Bento IX tivessem sido exageradas pelos seus detractores, não obstante a sua incapacidade gritante para liderar os destinos duma instituição religiosa universal - a Igreja Católica, cuja credibilidade foi colocada em causa no seu malogrado pontificado.
Assim sendo, não é de estranhar que São Pedro Damião, Doutor da Igreja nesse século XI (1007-1072), se tenha referido a este Papa como alguém que se regozijava na imoralidade, sendo visto como “um demónio do inferno dissimulado de sacerdote”. Contudo, São Pedro Damião não foi a única personalidade prestigiada a veicular estas duras palavras contra Bento IX. Logicamente, as críticas difundiram-se facilmente perante tantos escândalos que se haviam vivido na altura.
Paradoxalmente, personalidades obscuras como Bento IX motivaram, em breve, o surgimento do movimento revolucionário da Reforma Gregoriana (iniciada na segunda metade do século XI), a qual, entre muitos objectivos, procurou combater definitivamente a imoralidade no seio da Igreja e terminar com as influências nefastas exteriores das poderosas famílias romanas e dos imperadores germânicos, de forma a garantir uma maior credibilização, autonomia e controlo eficiente das mais diversas questões internas. Assim, a instituição universal começou a traçar um novo trilho que se afastaria, embora de forma ainda gradual, daqueles tempos anteriores mais dúbios, e procuraria assim afirmar uma nova supremacia mundial.




Imagens: A primeira ilustração representa o Papa Bento IX, autor - Artaud de Montor (1772–1849) in Wikipédia. A segunda imagem representa a pedra sepulcral de Bento IX, retirada de: http://www2.fiu.edu/~mirandas/biosunknowndate1012-1024.htm. Por fim, a terceira e última imagem corresponde ao retrato de Leão IX, responsável por trazer mais serenidade e harmonia à Igreja, foi retirada a partir de: http://kirchensite.de/index.php?myELEMENT=95043.



Referências Consultadas:



Nota extra:

Apesar das múltiplas e incríveis acusações (aceita-se que algumas possam ter sido completamente inventadas pelos cronistas da época, embora não todas...) que se balançavam contra Bento IX, não é menos verdade que este sumo pontífice tomou ainda uma ou outra decisão aceitável - por exemplo, em 1038, colocaria a conceituada abadia de Monte Cassino sob a protecção papal, e procurou obrigar Bretislav, Duque da Boémia, a fundar um mosteiro como gesto de penitência pelo facto de se ter apropriado indevidamente das relíquias de São Adalberto de Praga. 
Há ainda a eventualidade de Bento IX ter terminado os seus últimos dias enquanto monge da abadia de Grottaferrata (localizada próximo de Roma), o que poderá indiciar uma mudança do seu estilo de vida, contudo esta derradeira possibilidade não está sequer confirmada.
Sobre o seu padrinho, João Graciano, que se tornou no pontífice Gregório VI, é verdade que este comprou o cargo pontifício a Bento IX, todavia Graciano terá tomado tal decisão e adiantou assim a soma exigida para que o controverso Bento (que queria na altura casar-se!) se afastasse definitivamente dos assuntos da Santa Sé, e assim tentou iniciar, embora sem sucesso, um novo ciclo na Igreja, todavia a sua inadmissível acção simoníaca (pois comprou o cargo pontifício!) constituiu motivo suficiente para determinar um curto e atribulado pontificado. 

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Sigurdo I, o rei cruzado norueguês


Sigurdo I, o rei da Noruega (1103-1130)


Sigurdo Magnusson teria nascido por volta do ano de 1090, em sítio incerto na Noruega. Apesar de ser filho ilegítimo do rei Magnus III, herdou a coroa em 1103 juntamente com os seus irmãos Eystein e Olaf Magnusson. Na altura, contava com cerca de 13 anos de idade.
Até 1123, Sigurdo partilhou a governação com Eystein, este falecido naquele ano. Já o seu irmão mais novo Olaf Magnusson praticamente não chegou a reinar, visto que ele morreria ainda bastante novo no ano de 1115. 
Durante o seu reinado (1103-1130), Sigurdo promoveu a construção de catedrais e mosteiros, autorizou a instauração dos dízimos, os quais revelaram ser uma fonte de rendimento importante para a Igreja Norueguesa. Não há dúvidas de que este soberano tomou medidas que fortaleceram o clero da sua nação. É provável que este rei norueguês tivesse seguido ainda a fé católica com sinceridade e convicção. Aliás, nos últimos dois séculos, os vikings haviam abandonado os seus antigos deuses pagãos em favor do monoteísmo cristão.
A Noruega desta era compreendia vários territórios, nomeadamente a Suécia, a Gronelândia e a Islândia. Para além disso, procuraram, nalguns momentos, manter uma influência determinante sobre a Inglaterra, a Escócia e a Irlanda.
Em 1098, quando nem sequer tinha 10 anos contabilizados, Sigurdo participa na expedição bem-sucedida de seu pai Magnus III que reivindicava o controlo das ilhas de Orkney e Mann (localizadas maioritariamente na zona norte da Britânia). Aí testemunhou, pela primeira vez, as incidências da guerra. Nesse momento, e antes de ainda ser coroado como soberano da Noruega, Sigurdo tornou-se então primeiramente rei das ilhas de Mann e conde de Orkney. Houve igualmente um casamento arranjado entre esta ainda criança norueguesa e a filha do rei da Irlanda - Muirchertach Ua Briain, o qual não foi concretizado pela morte repentina do rei Magnus (este fora alvo duma emboscada quando liderada uma nova campanha). Sigurdo abandonou o sonho irlandês e retornou à sua nação para iniciar um governo conjunto com seus dois irmãos.
Apesar do arquipélago das Hébridas e da ilha de Mann terem entretanto proclamado a independência, o reino da Noruega continuava a ter um número elevado de ilhas sob o seu domínio, para além do seu próprio território extenso. Não faltavam pois recursos económicos e humanos que garantissem um período de alguma estabilidade, cenário que favorecia assim a possibilidade de Sigurdo concretizar o seu voto de cruzada, o que se traduziria numa aventura incerta em terras longínquas.



Mapa nº 1 - As ilhas de Mann, Orkney e o Arquipélago das Hébridas foram disputadas pelos noruegueses. Às ordens de seu pai, Sigurdo realizou a sua primeira campanha militar e foi recompensado com títulos, após os êxitos verificados, embora estes tenham sido apenas temporários.
Retirado do Wikipédia/Wikimedia (Sémhur, Map of British Isles)



O Voto de Cruzada de Sigurdo (1107-1113)


Sigurdo seria o primeiro rei europeu a partir em cruzada rumo ao Oriente. Para além da aparente acalmia que vigorava na Noruega, também é imperioso relembrar que o trono era igualmente repartido harmoniosamente pelos seus dois irmãos (principalmente Eystein, embora o jovem Olaf ainda tivesse vivido até 1115), e por isso, Sigurdo sabia que tinha chegado o momento certo para empreender a sua aventura sem que tal comprometesse o futuro do seu povo.
No ano de 1107, o rei norueguês decide então empreender a sua longa jornada rumo à Terra Santa. A sua frota era composta por 60 embarcações, e talvez fosse tripulada por 5 mil soldados. Pelo caminho, fará diversas paragens: Inglaterra, França, Península Ibérica, Sicília, e por fim, a Palestina.
Durante este trajecto, destacamos os raides que empreendeu contra os mouros da Península Ibérica, embora não seja nada fácil precisar como se revestiu aqui a sua acção. Julga-se que terá apoiado o reino da Galiza nalgumas incursões (suspeita-se que dirigiu ataques furtivos contra Sintra, Lisboa, Alcácer do Sal e outros lugares do litoral hispânico que permitiram assim à tripulação obter alguns despojos generosos; o reino de Portugal ainda não existia sequer, pois só será oficializado em 1143). Durante a sua estadia no Noroeste Peninsular (Inverno de 1108), é possível que Sigurdo tenha testemunhado o fervor religioso em torno de Santiago de Compostela, talvez até tivesse visitado o túmulo que conteria os alegados restos mortais do apóstolo (veja-se artigo que publicamos anteriormente sobre Prisciliano). Posteriormente, e já depois de atravessar o Estreito de Gibraltar, atacou ainda com violência as ilhas Baleares, um dos focos da pirataria muçulmana o que tornava este arquipélago bastante temido pelos cristãos da Península Ibérica.
Ao fim de quase 3 anos (intercalados pela cansativa viagem marítima e por paragens algo duradouras), o rei norueguês chegava finalmente ao Levante, tendo aportado com a sua armada em Acre no Verão de 1110. Foi imediatamente bem recebido por Balduíno I, rei de Jerusalém.
Efectivamente, a Primeira Cruzada (1096-1102) havia sido um grande sucesso com os cruzados a recuperarem vários territórios aos turcos seljúcidas e aos fatímidas: Niceia (devolvida ao Império Bizantino), Edessa, Antioquia e Jerusalém (estes três últimos tornaram-se estados cruzados, aos quais se somou ainda o condado de Tripoli, conquistado gradualmente entre 1102 e 1109). Balduíno era irmão dum dos lendários líderes da Primeira Cruzada e posteriormente Protector do Santo Sepulcro - Godofredo de Bulhão. Com o falecimento deste no ano de 1100, o trono ficaria vacante. Balduíno, na altura conde de Edessa, seria então escolhido como seu sucessor, reinando na Terra Santa até 1118.
A conquista de Jerusalém a 15 de Julho de 1099 por Godofredo de Bulhão representou um marco decisivo para a instauração duma nova era no Levante que se prolongaria por cerca de dois séculos.
Quando ascende ao trono, Balduíno I, como novo soberano de Jerusalém, demonstra a preocupação pelo facto de muitos dos portos litorais ainda estarem na posse dos fatímidas do Egipto, o que claramente era encarado como uma situação preocupante. As suas primeiras vitórias permitirão a captura de Cesareia, Acre e Beirute, todavia a sua missão ainda não estava concluída.
É então no ano de 1110 que tem conhecimento da chegada do soberano nórdico, o qual acolherá na maior das comodidades. Ambos delinearão um ataque à cidade costeira de Sidon. Este acontecimento não é ignorado pelo cronista muçulmano al-Qalânisi que concedeu o seu próprio testemunho:


"Naquele ano [1110], se anunciou que um rei franco [o rei da Noruega - Sigurdo] tinha chegado por mar com mais de sessenta navios carregados de combatentes, para cumprir sua peregrinação e conduzir a guerra nos países do Islão. Como ele se dirigia rumo a Jerusalém, Balduíno veio ao seu encontro, entrou em contacto com ele, e eles decidiram em conjunto atacar os países muçulmanos. Quando eles voltaram de Jerusalém, eles iniciaram o cerco da praça costeira de Sidon [os três rabi' II 504 - 19 de Outubro de 1110] e bloquearam-na por terra e por mar. A frota egípcia estava ancorada em frente da cidade de Tiro, mas não pôde auxiliar Sidon. Os francos construíram uma torre e a utilizaram quando eles se apressavam sobre a cidade. Ela estava coberta de sarmentos de videira, tapetes e peles de carne bovina fresca para assim a proteger contra as pedras e o fogo grego. Depois de estar assegurada a protecção, eles fizeram-na avançar durante vários dias com a ajuda das rodinhas sobre as quais eles a haviam montado. Quando veio o dia da batalha, aproximou-se a torre da muralha, os francos através dela tiraram proveito para o seu ataque, eles tinham colocado lá material de guerra, bem como água e vinagre para se protegerem contra o risco de incêndio. 
Quando o povo de Sidon havia constatado estes preparativos, a sua coragem vacilou porque temiam o destino de Beirute. Eles enviaram então aos francos o seu cádi e uma delegação de anciãos da cidade para pedir a Balduíno um salvo-conduto. Ele acedeu ao seu pedido e deu-lhes a garantia, a eles e aos seus soldados, pela sua vida e seus bens, e lhes prometeu deixar partir aqueles que iriam deixar Sidon por Damasco. Eles lhe pediram a sua palavra e depositaram a sua confiança nele. O governador, o controlador das finanças, todas as tropas regulares e auxiliares, e uma grande parte dos habitantes deixaram a cidade e se dirigiram a Damasco (vinte jumada I de 504 - 4 de Dezembro de 1110). O cerca tinha durado 47 dias.
Balduíno resolveu questões pendentes, deixa uma guarnição em Sidon e retorna a Jerusalém. Mas ele voltou a Sidon pouco tempo depois e exigiu daqueles que tinham permanecido um imposto superior a vinte mil dinares, os reduziram assim à miséria; ele levou tudo até ao último centavo e extorquiu todo o dinheiro possível"  (Captura de Sidon por Ibn al-Qalânisi)


Em jeito de análise, o receio duma entrada violenta na cidade que se traduzisse num massacre impiedoso (cenário que aconteceu por várias vezes, no âmbito da Primeira Cruzada) terá causado bastante pânico aos líderes e habitantes muçulmanos de Sidon. Para além disso, o avanço gradual da torre móvel que rumava em direcção às muralhas, terá desmoralizado a guarnição daquela praça muçulmana que, desprovida do auxílio exterior, começava a temer um assalto cada vez mais inevitável. Todavia, esse não terá sido o único medo dos responsáveis da urbe, pois ao vislumbrarem a presença de forças nórdicas, tradicionalmente destemidas, violentas e com sede de enveredar pelo saque de valiosos bens e tesouros, sabiam que se estas furassem as estruturas defensivas, causariam o terror e a mortandade. Para evitar este cenário mais fatalista ou trágico, acordou-se então uma rendição pacífica para evitar uma entrada em fúria dos cruzados. Balduíno I, embora tenha voltado mais tarde a esta cidade para exigir impostos pesados (o que era normal porque o ainda "jovem" reino cristão de Jerusalém tinha falta de mão-de-obra e os seus cofres estavam praticamente vazios), cumpriu a sua palavra e poupou a vida aos cidadãos de Sídon, mesmo àqueles que iriam abandoná-la, trocando a sua estadia pela de Damasco.
Balduíno conquistava mais um porto importante do litoral, mas este feito é, em muito, devido ao jovem rei Sigurdo (em 1110, teria praticamente 20 anos de idade) e às suas forças que atormentaram as defesas de Sidon. Para garantir o avanço progressivo da torre móvel, o rei de Jerusalém necessitou da bravura destes cavaleiros e soldados provenientes da Escandinávia de forma a desgastar ao máximo a guarnição da cidade sitiada e mantê-la assim ocupada enquanto a torre móvel, devidamente coberta por substâncias anti-incendiárias, avançava ao longo de dias seguramente duros e penosos. O cercou durou cerca de 1 mês e meio, culminando com a rendição da cidade.
Como forma de agradecimento, Balduíno terá talvez entregado uma pequena porção da Vera Cruz (a célebre cruz onde se acreditava que Jesus Cristo havia sido crucificado) ao rei norueguês para que este incrementasse a fé cristã no seu reino. Durante esta estadia no Oriente, Sigurdo teria sido baptizado no rio Jordão e visitaria ainda os lugares sagrados de Jerusalém.
A sua missão estava concluída e era altura de regressar à sua nação que se encontrava agora tão distante, sem que Sigurdo tivesse sequer conhecimento do que lá tinha acontecido nos últimos anos. No retorno, perderá mais 3 anos até chegar à Noruega, só que desta feita terá preferido regressar essencialmente por terra. Durante o trajecto, parou em Constantinopla, onde foi bem recebido pelo imperador Aleixo I. Sigurdo ofereceu-lhe todos os barcos que detinha em troca de cavalos para empreender então o retorno por via terrestre. Alguns cruzados noruegueses, rendidos à magnificência da capital bizantina, decidiram ficar na cidade e servir os interesses do imperador. Posteriormente, Sigurdo teria igualmente passado pela corte de Lotário, duque da Saxónia e futuro imperador do Sacro-Império Romano Germânico.
O rei norueguês tinha conseguido alcançar respeito e prestígio na Cristandade. Fora o primeiro rei europeu a arriscar a sua vida e a partir em cruzada.
Sigurdo regressaria ao seu país sem ter sofrido qualquer derrota, militar ou diplomática, na sua longa aventura. As forças que o serviram eram temidas, pois eram conhecidas pela sua bravura e brutalidade.




Mapa nº 2 - O presumível trajecto de Sigurdo. A linha vermelha representa a viagem de ida (e ainda o início do retorno - passando pelo Chipre até Constantinopla), já a de regresso está marcada parcialmente com a cor a verde.
Retirada do Wikipédia/Wikimedia, (Gabagool, SigurdNorwegianCrusade1107-1111OldNorse)



Imagem nº 1 - A chegada de frotas norueguesas ou vikings atormentavam sempre os povos das zonas costeiras.



Imagem nº 2 - Sigurdo, rei da Noruega, e Balduíno I, rei de Jerusalém cavalgam sobre o Rio Jordão.
Retirada de: "Magnussonnenes saga 3 - G. Munthe" by Gerhard Munthe (1899) in Wikipédia




Imagem nº 3 - O antigo castelo cruzado de Sidon (actualmente, Sidon é a 3ª cidade mais importante do Líbano). Nesta cidade, escorreu sangue escandinavo nos tempos da chamada "Cruzada Norueguesa".



Imagem nº 4 - O castelo marítimo de Sídon foi construído pelos cruzados em 1228, mas a cidade fora inicialmente tomada em 1110 por Balduíno e Sigurdo.



Imagem nº 5 - Na sua viagem de regresso, Sigurdo é bem recebido em Constantinopla pelo imperador Aleixo I.
Retirada de: "Magnussonnenes saga 4 - G. Munthe" by Gerhard Munthe (1899) in Wikipédia



O regresso e últimos anos


Em 1113, concretiza definitivamente o retorno e é recebido pelo seu irmão Eystein que demonstrara ter dado conta do recado na sua ausência que se prolongou por cerca de 6 anos. Assim, se explica como estes irmãos conseguiram alcançar o reino partilhado mais extenso da história da Noruega. Demonstraram provavelmente ser um caso raro de entendimento entre soberanos. 
Sigurdo instituirá a sua corte em Kungalv (actual Suécia). Todavia, durante todo o seu reinado preocupou-se em expandir a fé cristã, zelando pelo crescimento da Igreja. 
Em 1123 (ano do falecimento de seu irmão Eystein por doença), Sigurdo voltou a sentir a necessidade de impor o seu espírito de cruzada, embora desta feita no seu próprio território, forçando agora os habitantes de Småland, que haviam renunciado ao credo cristão e recuperado temporariamente o culto dos antigos deuses pagãos, a aceitar de volta o catolicismo. 
No ano de 1130, o rei norueguês faleceria com cerca de 40 anos somados. Foi sepultado na Igreja de Hallvard em Oslo. 
A sua morte provocou uma grave crise de sucessão, porque só havia gerado filhas e filhos ilegítimos, o que motivou disputas acérrimas pelo poder nas décadas que se seguiram.
Sigurdo representava o típico modelo de guerreiro viking - desde a sua infância, teve de conviver com a guerra e empreender várias viagens marítimas e terrestres. A sua fama chegou a vários territórios então longínquos, lutando por aquilo em que acreditava de acordo com o pensamento que vigorava naquela época e que engrandecia a guerra santa travada entre cristãos e muçulmanos. A sua aventura permitiu-lhe conhecer várias terras, populações e os soberanos mais notáveis daquele tempo.
O rei norueguês soube ainda promover uma liderança sólida e estável, não hesitando em partilhar o poder com seus irmãos Eystein (principalmente) e Olaf.




Imagem nº 6 - Uma igreja norueguesa apresentada como meramente exemplificativa.
Sigurdo promoveu nos inícios do século XII o crescimento daquela instituição na Noruega.
Retirada de: https://foaminglattes.wordpress.com/tag/norway/, (Hosse Liknes - 2007).



Referências Consultadas:

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Roberto Bruce, o conde escocês que alcançou o trono

Contexto e Primeiros Anos


Em 1296, as forças do rei inglês Eduardo invadem a Escócia, obrigando João de Balliol a renunciar ao trono escocês (veja-se artigo anterior). Praticamente, durante 10 anos, a Escócia não terá um rei ou governador que realmente tutelasse os assuntos internos (daí o interregnum). É certo que o rei Eduardo procurará, à distância e apesar da resistência nativa, administrar o território em questão, o que claramente se revelou uma tarefa pouco acessível. Evidentemente, houve momentos de grande anarquia e instabilidade que se alastravam pelo território escocês. 
Roberto Bruce, nascido na localidade de Ayrshire em 1274, viverá toda esta conjuntura crítica, acabando por aderir à resistência escocesa, embora tivesse estado inicialmente ao lado dos ingleses quando estes, de certa forma, destronaram John Balliol. Em algum momento, terá chegado a conhecer William Wallace, o herói de Stirling Bridge (1297) e até há historiadores que levantam a hipótese de ter ajudado aquela personalidade a escapar com vida aos ingleses na malograda batalha de Falkirk (1298). Embora não existam certezas sobre este seu movimento em concreto (não está sequer minimamente provada a participação de Roberto Bruce naquela batalha), é consensual que, de algum modo, se terá juntado à revolta dos scots no limiar dos finais do século XIII. Neste contexto, crê-se que terá sido nomeado Guardião da Escócia juntamente com John Comyn, com o qual manterá uma rivalidade tensa. 
Em termos nobiliárquicos, Roberto Bruce era filho de Robert de Brus (Senhor de Annandale) e Marjorie (condessa de Carrick), e destes herdaria então o condado de Carrick e o senhorio de Annandale. No plano militar, Roberto aprendeu rapidamente as técnicas e estratégias que vigoravam na era medieval.
Mas, como veremos, os anos de 1306 e 1307 serão os anos centrais para Roberto iniciar uma nova era na Escócia.



Imagem nº 1 - Roberto Bruce, rei da Escócia (1306-1329), conde de Carrick e senhor de Annandale.



A ascensão de Roberto Bruce


Em 1306, Roberto mata o seu rival John Comyn na Igreja de Dumfries, isto poucas semanas antes da sua coroação enquanto rei da Escócia. Logicamente, a nova figura de proa da resistência escocesa não tinha um temperamento fácil. Em Inglaterra, o ainda rei Eduardo declara-o agora como um fora-de-lei, enquanto o Papa Clemente V o excomungará devido àquele acto. Todavia, nada o impede de se auto-coroar como rei da Escócia na Abadia de Scone para irritação dos ingleses que obviamente não reconheceram o seu novo estatuto. Todavia, Roberto alegava ser descendente do rei David I da Escócia (1084-1153) que havia sido um soberano excepcional e bem-sucedido em termos de desenvolvimento da sua nação.
Mesmo assim, o seu reinado não começa nada bem com as forças inglesas a triunfarem em Methven. A sua esposa bem como as suas irmãs foram aprisionadas, mas o pior ficou reservado para três dos seus irmãos que foram executados. Por seu turno, Roberto desaparece de cena por algum tempo, talvez procurando refúgio seguro na Costa de Antrim (actual Irlanda do Norte).
Em 1307, o rei Eduardo, historicamente conhecido pelo seu estilo implacável no campo bélico, falece já com alguma idade avançada, embora ainda tivesse pretendido dirigir, nesse mesmo ano, uma nova campanha na Escócia. É sucedido pelo seu filho Eduardo II, o qual revelaria ser um rei mais ineficaz no plano militar. É óbvio que este acontecimento jogou completamente a favor de Roberto que conseguiu ressurgir e reerguer-se para os anos decisivos que aí vinham.
A partir de agora, o líder da resistência escocesa, à semelhança dos modelos bélicos anteriormente adoptados pelos rebeldes William Wallace e Andrew de Moray, fomentará as tácticas de guerrilha intensiva, começando a somar vitórias determinantes através da conquista de vários castelos e fortalezas. Em 1314, os avanços já eram bastante significativos, o que levou o rei Eduardo II a reagir imediatamente.



Imagem nº 2 - Robert Bruce esfaqueia, de surpresa, o seu rival John Comyn III de Badenoch numa Igreja. Havia uma forte concorrência entre as famílias Bruce e Comyn pelo poder na Escócia. Por exemplo, os primeiros nunca digeriram bem a escolha de John Balliol em 1292, enquanto os segundos apoiaram o rei escocês que acabaria por ser forçado a renunciar em 1296.
Ilustração da autoria de Henri Félix Emmanuel Philippoteaux in Wikipédia




Imagem nº 3 - Roberto Bruce conquistaria ou recuperaria várias fortificações na Escócia diante dos contingentes ingleses, entre os anos de 1307 e 1314.



A Batalha de Bannockburn e o Génio Militar de Roberto Bruce


As recentes façanhas bélicas concretizadas a partir da determinação e energia de Roberto começaram a comprometer os interesses ingleses na Escócia que assistiram a uma redução abissal dos seus domínios. O rei Eduardo II decide reagir, procurando inverter o rumo da guerra que favoreceria agora as intenções dos independentistas. Por seu turno, os escoceses sabiam que uma vitória decisiva poderia determinar um rombo total nas aspirações dos invasores.
O pretexto para a decisiva batalha visará o controlo do importante Castelo de Stirling que era tutelado, na altura, por uma guarnição inglesa. Ao longo da sua campanha bem-sucedida, Roberto havia juntado reforços de várias povoações que se levantaram contra os invasores e, por isso, chegara ao ponto de possuir uma força suficiente para tentar o assalto àquela fortificação imponente e estratégica. Do outro lado, o rei Eduardo II, ao ter conhecimento da evolução real dos acontecimentos, dirige-se a Norte para aliviar o cerco e impor uma dura retaliação aos rebeldes escoceses. Os ingleses contariam com 25 mil combatentes devidamente equipados. Por isso, tratava-se dum exército poderoso!
Roberto Bruce dispunha apenas duma força avaliada em 9 mil soldados, a qual se posicionará numa inclinação localizada a poucas milhas a sul do Castelo de Stirling, num lugar chamado Bannockburn, onde existia um afluente do rio Forth. Aí aguardariam a chegada dos ingleses. Todavia, Roberto não permite o relaxamento dos seus efectivos, mandando cavar buracos em frente das linhas escocesas, sendo aqueles camuflados com galhos, ramos, folhas e ervas. Era pois uma cilada concebida para fazer tropeçar fatalmente os cavaleiros ingleses.
No dia 23 de Junho de 1314, começam as primeiras escaramuças entre os soldados das forças envolvidas, contudo a batalha só seria realmente travada no dia seguinte.
Mais uma vez, Roberto decide adoptar uma táctica utilizada por William Wallace, ordenando à sua infantaria para que fossem formadas divisões de lanceiros a pé ou piqueiros que deveriam apontar as suas lanças (estavam ainda munidos com os seus escudos defensivos) em todas as direcções exteriores.
As investidas da cavalaria inglesa, embora apoiada em simultâneo pelos seus arqueiros galeses/ingleses tal como acontecera (embora com sucesso) em Falkirk, não conseguem, desta feita, furar as linhas escocesas. Os poucos cavaleiros que conseguem isoladamente penetrar no seu interior, não conseguem voltar atrás e acabam por perecer esmagados pelos escoceses.
A confusão apodera-se entretanto do campo de batalha. Há cavaleiros ingleses em retirada que chocam com aqueles que avançavam rumo às posições defensivas do adversário. Os seus arqueiros atingem acidentalmente muitos daqueles, quando tentavam visar os piqueiros/lanceiros escoceses.
Aproveitando a desorganização inglesa, muitos seguidores escoceses irrompem pelos bosques e atacam a ala esquerda das tropas inglesas.
Com o exército a desagregar-se, Eduardo II decide retirar-se o mais depressa possível, sendo seguido por vários cavaleiros, mas um número considerável destes foram mortos pelos escoceses que os perseguiram posteriormente. Tal como acontecera em Stirling Bridge (1297), a humilde infantaria escocesa que assentava em piqueiros e lanceiros havia levado novamente a melhor sobre a cavalaria pesada inglesa.
O resultado final não deixa margem para dúvidas: 4 mil escoceses pereceram contra mais de 11 mil ingleses que tombaram na batalha. A derrota inglesa fora portanto estrondosa, porque as baixas somadas em Bannockburn duplicavam aquelas sofridas no desastre de Stirling Bridge diante de William Wallace. Neste episódio bélico, muitos nobres ingleses de renome acabaram por cair em combate:


  • Giles de Argentan - Considerado, na altura, um dos cavaleiros mais reputados da Europa, tendo vencido vários torneios nobiliárquicos. Na batalha de Bannockburn, era responsável pela protecção do rei, estando ambos na retaguarda. Quando o rumo da batalha se tornou desfavorável, Giles de Argentan e Aymer de Valence (este último conde de Pembroke) supervisionaram a retirada, em segurança, do rei Eduardo II, escoltando e abrindo caminho, perante o assédio dos escoceses, para que o soberano inglês pudesse escapar. Com a garantia de que o rei estava já a salvo, Giles de Argentan foi dos poucos que regressou à batalha para tentar inverter o rumo, mas acabou por morrer às mãos das forças de Roberto Bruce.
  • Gilbert de Clare - Conde de Gloucester e Hertford
  • Roberto de Clifford - Barão de Clifford
  • Henry de Bohun - Cavaleiro inglês morto por uma machadada de Roberto Bruce, durante um duelo ocorrido na batalha
  • Edmund de Mauley - Senhor de Ascot
  • Pain Tiptoft - Barão de Tibetot
  • John Lovel - Barão de Lovel
  • Robert de Felton - Barão de Felton
  • William le Marshal - Senhor de Marshal
  • John Comyn IV - Senhor de Badenoch. Herdara o nome do seu pai que fora guardião da Escócia e morto por Robert Bruce na igreja de Dumfries em 1306. Todavia, em 1314, e embora sendo escocês de nascimento (facto então que o distingue dos nomes que acabamos de elencar nesta lista), combateu ao lado dos ingleses contra o responsável pela morte de seu pai, mas acabará igualmente por perecer.

É justo mencionar que Roberto Bruce devolveu alguns dos corpos para que as famílias destes cavaleiros pudessem fazer o seu devido luto. Além disso, tratou os cativos de guerra com respeito, libertando-os gradualmente mediante acordos, resgates, trocas de prisioneiros...
A batalha de Bannockburn tornara-se num pesadelo autêntico para os ingleses, o poder de Roberto Bruce cresceu consideravelmente na Escócia e era quase impossível fazer-lhe frente neste preciso momento. Provavelmente, e pouco tempo depois deste combate violento, o Castelo de Stirling cairia automaticamente nas mãos dos escoceses.
É certo que os combates entre ambas as facções prosseguirão nos próximos anos, mas esta vitória representaria um passo crucial rumo ao reconhecimento da independência escocesa. 



Imagem nº 4 - Na batalha de Bannockburn (1314), muitos cavaleiros ingleses acabaram cravados pelas lanças dos piqueiros/lanceiros escoceses.




Imagem nº 5 - Com recurso ao seu machado, Roberto Bruce elimina o cavaleiro inglês Henry de Bohun num duelo travado na batalha.
Retirada de: http://www.thesocietyofwilliamwallace.com/andyhillhouse.htm, (os direitos de todas as imagens retiradas deste site pertencem a Andy Hillhouse).


Derradeiros anos

Roberto Bruce gostava de jogar em diversos tabuleiros, e por isso, decidiu apoiar o seu irmão Eduardo Bruce que se tornou rei da Irlanda (1315-1318), de forma a garantir uma maior pressão sobre os ingleses. Todavia, Eduardo Bruce acabaria por ser morto em batalha em 1318, frustrando assim as intenções de solidificar o seu reinado que se resumiu portanto a um período curtíssimo.
Ainda em 1318, Roberto Bruce conquista Berwick aos ingleses, todavia Eduardo II, rei de Inglaterra, recusava-se a reconhecer o novo soberano da Escócia até porque ainda mantinha ténues aspirações de voltar a recuperar o controlo daquele território.
No ano de 1320, os condes, barões e o parlamento escoceses enviam uma carta ao Papa João XXII, pedindo para que este reconhecesse Roberto I como legítimo monarca. Este documento ficou sobejamente conhecido como a "Declaração de Arbroath". Uma das afirmações mais célebres aí contidas foi a seguinte:

"Enquanto cem de nós de permanecerem vivos, nunca consentiremos, de forma sábia, a submissão ao domínio dos ingleses, pois não é pela glória que lutamos, mas pela liberdade apenas".

No ano de 1324, o Papa reconhecerá Roberto Bruce como rei da Escócia. Dois anos depois, é firmado o Tratado de Corbeil que reforçará a aliança entre escoceses e franceses contra o inimigo que tinham em comum: a Inglaterra. Em 1327, Eduardo II é deposto, aprisionado e até possivelmente assassinado, sendo sucedido por Eduardo III, novo rei de Inglaterra que negociará um sólido acordo de paz (Tratado de Edimburgo-Northampton) com Roberto I da Escócia. Os ingleses comprometeram-se a renunciar a qualquer postura de superioridade sobre os escoceses, para além de aceitarem a independência do reino da Escócia. 
Esta onda de vitórias diplomáticas dos últimos anos, somada aos êxitos militares anteriores, permitiu a Roberto concretizar três objectivos essenciais: expulsar os ingleses, restabelecer a paz e ser reconhecido verdadeiramente como rei. Ele tinha conseguido ser mais bem-sucedido do que muitos outros resistentes escoceses, nomeadamente William Wallace, Andrew de Moray, John Comyn III, entre outros...
Todavia, a saúde de Roberto já não seria a melhor pelos anos de 1327 e 1328, e suspeitava-se que ele teria lepra, a qual lhe iria esgotar gradualmente as forças. A 7 de Junho de 1329, com 54 anos, o rei escocês expirava, deixando para trás o seu grandioso legado que lhe reservará, mais tarde, o estatuto de herói nacional. Faleceria no Castelo de Cardross. Roberto Bruce seria enterrado em Dunfermline, excepto o seu coração que, de acordo com o último desejo deste soberano, teria que ser transportado até à Terra Santa - Jerusalém. O reputado cavaleiro escocês que lutara a seu lado - James Douglas tentou concretizar esta missão árdua, mas terá morrido em Granada quando combatia os mouros, mas o coração de Roberto foi recuperado e recambiado para a Escócia, onde foi colocado na Abadia de Melrose em Roxburghshire. Seria sucedido por David II.



Imagem nº 6 - A estátua de Roberto Bruce no Castelo de Stirling.




Imagem nº 7 - Famosos Escoceses dos séculos XIII-XIV. Nesta imagem, a única excepção ou o intruso é o rei inglês Eduardo I, embora o mesmo tivesse, no seu reinado, logrado o controlo de várias regiões da Escócia. A maior parte esmagadora (senão até todas) das restantes figuras remetem-nos para personalidades que representaram a causa escocesa.




Referências Consultadas:


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

William Wallace, o rebelde escocês que desafiou a Inglaterra


1- Os primeiros passos

Nascido por volta de 1270, talvez em Elderslie, no condado escocês de Renfrewshire, William provinha do seio duma família da pequena nobreza rural. De resto, pouco ou nada se sabe sobre os seus primeiros anos de vida.
Em 1296, o rei inglês Eduardo (o mesmo que, como tínhamos observado no artigo anterior, resistira a um atentado contra a sua pessoa quando liderava a Nona Cruzada direccionada ao Levante) decide invadir a Escócia e tenta impor o seu domínio, recorrendo mesmo à via militar para tentar evitar ou, na pior das hipóteses, abafar as rebeliões. Nesse ano, os ingleses são bem sucedidos na conquista de Berwick e na batalha de Dunbar, o que obrigará o rei escocês John Balliol (1292-1296)  a abdicar da coroa e mais tarde a procurar exílio na França. De acordo com alguns historiadores, esta invasão poderá ter-se devido ao facto da Escócia se ter recusado a apoiar a Inglaterra nas acções bélicas contra a sua arqui-rival França, aliás terá existido mesmo um pacto secreto entre escoceses e franceses, conhecido como a Auld Alliance, o que deverá ter irritado o rei inglês Eduardo que não perdoou tal ousadia, quando teve conhecimento pelos seus informadores da existência de tais acordos. Todavia, também não é menos verdade que Eduardo sempre desejara controlar os assuntos da vizinha Escócia, e quando instalou John Balliol no trono escocês em 1292 como resultado duma crise de sucessão (a rainha Margarida tinha deixado o trono vacante em 1290), esperava que este soberano lhe fosse inteiramente obediente, o que não veio efectivamente a acontecer para fúria do rei inglês.
Em termos práticos, a Escócia atravessará agora uma fase de grande anarquia. A harmonia tinha sido substituída pela agitação. Inevitavelmente, as primeiras escaramuças e confrontos começam. Nem todos aceitam a nova realidade de subjugação face à Inglaterra.
É neste contexto que William Wallace se sobressairá, tomando a cidade escocesa de Lanark (que já era tutelada pelos ingleses) em Maio de 1297. Ele lidera a rebelião que causará mesmo a morte do xerife inglês que estava incumbindo de controlar aquela terra, em nome do rei de Inglaterra. Este acto revoltoso foi inicialmente subestimado pelos comandos invasores que apenas encaravam William e seus seguidores como perigosos arruaceiros ou foras-de-lei, contudo sem grande margem de progressão para façanhas notáveis em termos militares. Todavia, é certo que William começava a ganhar admiradores e adeptos, e engrossaria portanto o número de combatentes que estariam dispostos a lutar até à exaustão contra os ingleses. 
Entretanto as localidades de Fife e Pertshire também são recuperadas pelos escoceses, tendo aí William derrotado e expulsado guarnições superiores e modernas de ingleses. Com cerca de 27 anos contados na altura, ele já começava a ser visto como um herói para o seu povo que não admitia ser explorado por estrangeiros. 
As rebeliões escocesas prometiam pois enfraquecer, ao máximo, o domínio inglês na Escócia. 




Imagem nº 1 - Os confrontos entre ingleses e escoceses foram numerosos na Idade Média.
Retirada de: http://www.educationscotland.gov.uk/scotlandshistory/warsofindependence/andrewmoray/




Imagem nº 2 - William Wallace, visto como um fora-da-lei que se movia nos bosques da Escócia. Ele promoverá as tácticas de guerrilha.
Retirada de: http://www.thesocietyofwilliamwallace.com/andyhillhouse.htm


2 - A Batalha de Stirling e o auge de William

Normalmente, as batalhas são comummente conhecidas pelo número de baixas militares e até civis que são então registadas e até "repartidas" entre os lados envolvidos no campo bélico. Todavia, aquelas também concediam imenso prestígio, sendo capazes de mundializar o nome de comandantes ou generais, até então quase reduzidos ao anonimato e que poderiam assim alcançar o seu momento de glória na História. Na Idade Média, as grandes batalhas eternizavam os nomes dos seus vencedores, exaltando a sua bravura e conhecimento táctico.
Até à Batalha de Stirling, William Wallace era apenas um resistente habilidoso que só contava com 2 ou 3 vitórias a nível regional, derrotando com mestria alguns destacamentos bem organizados, mas nunca enfrentando um verdadeiro exército inglês que, à partida, contaria com muitos mais efectivos e que estaria seguramente mais bem armado e disciplinado para poder assim anular a resistência escocesa. William terá pois uma oportunidade decisiva que se pode traduzir num destes dois resultados possíveis - ficar na história da Humanidade como um vitorioso inesperado e alcançando aqui um invejável pedestal, ou nunca sair do patamar discreto dum mero ou vulgar guerreiro que combatera por uma causa, sem nunca ter logrado grandes façanhas.
As rebeliões começaram a preocupar os altos dirigentes ingleses que supervisionavam a invasão da Escócia e, por isso, prepararam uma armada, constituída entre 8 a 12 mil soldados, com alguns cavaleiros, para refrear o ambiente explosivo e punir assim os resistentes. Por seu turno, os escoceses apenas conseguem reunir cerca de 2 300 homens, nem todos totalmente bem equipados para a batalha que iria decorrer em Stirling Bridge. A vantagem militar, tanto a nível numérico como em termos de armamento, estaria claramente do lado dos ingleses que tinham tudo para triunfar.
A limitada força escocesa, liderada por William Wallace e Andrew de Moray (este último, outro líder proeminente da resistência escocesa), teria seguramente uma missão hercúlea.
No dia 11 de Setembro de 1297, os ingleses, comandados pelo conde de Surrey (John de Warenne) e pelo tesoureiro da administração inglesa da Escócia (Hugh de Cressingham), procuram atravessar o rio Forth através duma ponte estreita de madeira quase já defronte das linhas escocesas. Por seu turno, os escoceses que observavam os cavaleiros ingleses a partir duma ladeira ou colina, dirigem-se igualmente rumo à ponte de Stirling, preparados para tirar proveito das suas lanças e doutros objectos de arremesso. Tecnicamente, a acção dos lanceiros (spearmen) escoceses será perfeitamente executada, causando várias baixas e inclusive desorganização e pânico totais no exército inglês que vislumbraria a sua cavalaria pesada a ser então humilhada. Muitos procuraram desesperadamente recuar, utilizando a ponte como meio de fuga, acesso que não foi facilitado pelos escoceses que procuravam cortar as saídas ao inimigo. Alguns conseguem escapar ao massacre mergulhando e nadando rumo à outra margem do rio Forth, enquanto outros completamente encurralados foram abatidos, e outros afogaram-se ainda naquele meio pantanoso. O conde inglês John de Warenne consegue retirar-se são e salvo com mais alguns cavaleiros e arqueiros, mas para escapar, teve de mandar incendiar a ponte de forma a evitar a perseguição escocesa. Menos sorte, teve o tesoureiro Hugh de Cressingham que foi esfolado vivo. Cerca de 5 mil efectivos que incorporavam as forças inglesas haviam tombado nesta sangrenta batalha.
Também no lado de escocês, há algumas baixas a registar. Andrew de Moray, o segundo líder conceituado dos escoceses depois de William Wallace, é ferido fatalmente na batalha, acabando por falecer dois meses depois. Embora não tenhamos encontrado nenhum autor que se refira ao número de baixas sofridas pelos escoceses, cremos que estes poderão ter sofrido entre 500 a 1000 baixas, uma estimativa que consideramos lógica para um pequeno exército vitorioso composto por pouco mais do que 2 000 homens.
William Wallace tinha finalmente alcançado uma vitória invulgar, derrubando um numeroso exército inglês que foi incrivelmente anulado, e muito provavelmente, logo após esta façanha, ele teria recuperado para os escoceses o domínio do castelo de Stirling.
Agora sim esta derrota será levada a sério pela Coroa Inglesa que reconhecerá a existência dum claro inimigo em solo escocês. Já não se tratava pois dum caso de rebeldia isolada, mas de uma resistência muito mais organizada que desafiava assim os interesses de Londres.



Imagem nº 3 - Os cavaleiros e soldados ingleses, a maior parte em vão, tentam retirar-se a partir da ponte de Stirling. 




Imagem nº 4 - As forças escocesas (destaque para os seus lanceiros a pé) acabarão por levar a melhor nos combates travados junto à ponte de madeira de Stirling.
Retirada de: 
http://www.educationscotland.gov.uk/scotlandshistory/warsofindependence/battleofstirlingbridge/




Imagem nº 5 - A marcha de William Wallace, seguido pelos lanceiros escoceses.
Retirada de: http://www.thesocietyofwilliamwallace.com/andyhillhouse.htm




Imagem nº 6 - Andrew de Moray, a segunda personalidade notável da batalha de Stirling Bridge que combateu ao lado de William Wallace contra os ingleses. Andrew acabaria por sucumbir posteriormente aos ferimentos da batalha.
Retirada de: http://www.thesocietyofwilliamwallace.com/andyhillhouse.htm




Imagem nº 7 - As lanças foram letais para travar a cavalaria pesada inglesa em Stirling.
Retirada de: http://www.thesocietyofwilliamwallace.com/andyhillhouse.htm



3- A Batalha de Falkirk: o Declínio do Guardião da Escócia

Em Novembro de 1297, William Wallace concretizará raides no Norte da Inglaterra, causando o pânico em Northumberland e Cumberland. Nesse fim de ano, também seria ordenado cavaleiro. Indubitavelmente, 1297 havia sido o ano de afirmação desta personalidade com vitórias em todos os confrontos travados com os ingleses. Seria juntamente com o recém-falecido Andrew de Moray: o Guardião da Escócia.
Mas os ingleses desejavam voltar às vitórias de 1296, e por isso, agirão energicamente em 1298, mais concretamente em Julho. O rei Eduardo acompanhará desta vez o seu exército, rumando a Norte para enfrentar os escoceses. Desta feita, contará com 15 mil guerreiros, entre os quais 2 500 cavaleiros e 12 500 homens de infantaria (aqui também estavam incluídos arqueiros ingleses e galeses).
William Wallace, reconhecendo a superioridade militar do adversário, procurará, a todo o custo, evitar um combate em campo aberto, preferindo actuar em regime de guerrilha e de emboscada. Os resistentes apenas estavam estimados em 6 mil combatentes: 1 000 cavaleiros e 5 000 soldados de infantaria (e entre estes últimos, destacamos novamente os lanceiros a pé e ainda alguns arqueiros).
Na manhã do dia 22 de Julho de 1298, William ordenou a formação de 4 corpos de piqueiros/lanceiros a pé que se dispunham em forma circular, voltados para fora com as suas lanças exteriores prontas a atacar os ingleses. Nos espaços vazios entre as divisões circulares, e assim mais protegidos, estavam os arqueiros que disparavam as flechas sobre o inimigo. Ninguém pode negar que William foi dos comandantes medievais que mais explorou o uso da lança e das armas de arremesso (por ex: flechas ou até pedras) na arte bélica, em detrimento da cavalaria pesada que era simultaneamente tão apreciada e temida naqueles tempos por vários generais de guerra.
As 4 formações escocesas travarão com sucesso as primeiras investidas da cavalaria pesada e dos infantes ingleses. Todavia, não terão a mesma sorte quando os arqueiros e besteiros ingleses, os melhores do reino que serviam assim o rei Eduardo, lançaram autênticas chuvas de flechas, causando a mortandade nas forças adversárias. Enquanto as setas caíam sobre os escoceses, o rei inglês ordenou uma nova carga da cavalaria pesada, esta seguramente muito mais bem sucedida do que as anteriores que rompeu assim as disposições dos lanceiros/ piqueiros escoceses.
Eduardo tinha a vitória na mão. Os escoceses fugiam para os bosques mais próximos para não serem capturados. William Wallace consegue escapar, mas muitos dos seus leais companheiros não tiveram essa possibilidade, tombando perante as flechas mortíferas ou a fúria dos cavaleiros ingleses.
As baixas foram consideráveis de ambos os lados. As tropas de William Wallace perderam cerca de 2 mil homens. O mesmo número parece ter sido visível nas forças inglesas, talvez devido ao sucesso inicial dos lanceiros escoceses que travaram as primeiras investidas malogradas das tropas de Eduardo.



Imagem nº 8 - Na batalha de Falkirk, os ingleses, liderados pelo rei Eduardo, romperão, após algumas tentativas, as disposições tácticas dos piqueiros/lanceiros escoceses. William Wallace consegue escapar por uma unha negra aos seus adversários que o desejavam capturar vivo ou morto.




4- Anos Finais e Execução

A derrota em Falkirk parecia ter travado o ímpeto de William Wallace que esteve muito perto de ser detido pelos ingleses nessa batalha que correu de forma desfavorável aos seus interesses. Ele renunciará ao título de Guardião da Escócia talvez em detrimento de Robert Bruce (conde de Carrick e reputado cavaleiro) e John Comyn (Senhor de Badenoch e Lochaber), outros conhecidos defensores da causa independentista escocesa.
Mas o nosso biografado não abandonará definitivamente a sua missão de liberar a nação escocesa. Por isso mesmo, empreenderá uma viagem a França, procurando o apoio militar destes para combater os ingleses. Retornará em 1303 à Escócia. Nestes anos, Robert Bruce e John Comyn haviam celebrado acordos de tréguas com o rei Eduardo, todavia nos termos firmados não estava garantida a protecção de William Wallace, o qual se tornou um alvo do soberano inglês que oferecia uma elevadíssima recompensa em dinheiro a quem assassinasse ou capturasse esta personalidade.
Em Agosto de 1305, William é capturado perto de Glasgow e transportado para Londres, onde seria julgado por traição. Em vão, o agora prisioneiro e réu, praticamente sem direito a defesa, tentará argumentar que nunca tinha prestado lealdade ao rei inglês porque não reconhecia os domínios daquele na Escócia. Todavia, a sede de vingança era grande, e William enfrentaria uma execução cruel que foi concretizada imediatamente a 23 de Agosto de 1305. Foi pendurado, amarrado, torturado, mutilado, esquartejado até ao golpe fatal. A sua cabeça foi colocada na ponte de Londres, os seus membros em Newcastle, Berwick, Stirling e Perth.
Claramente, Wallace havia irritado profundamente a Coroa Inglesa, pelo que a sua condenação foi muito saboreada pelos altos dirigentes ingleses.
Todavia, a morte deste protagonista não significou o fim das pretensões escocesas. Roberto Bruce, mais tarde Roberto I da Escócia, será também um herói nacional para o seu povo, pois  ele continuará com a guerra da independência, causando vários dissabores às tropas inglesas, nomeadamente na batalha de Bannockburn (1314), onde aplicará uma estrondosa derrota às forças de Eduardo II (filho do rei Eduardo I, este já falecido em 1307).



Imagem nº 9 - William Wallace nunca desistira da sua causa, sendo um dos nomes incontornáveis nas Guerras da Independência Escocesa.




Imagem nº 10 - A execução cruel e indigna de William Wallace em 1305.




Imagem nº 11 -  Roberto Bruce (futuro Roberto I da Escócia) restaurará a independência. Nesta imagem, ele levará melhor no duelo fatal com o conceituado cavaleiro inglês Henry de Bohun que tombará no âmbito da batalha de Bannockburn (1314).





Referências Consultadas:




Notas extra:

1- Quando utilizamos o termo lanceiro, não estamos a fazer referência aos cavaleiros que lutavam com lanças (pois estes também são designados de lanceiros), mas sim neste caso em concreto aos soldados que combatiam a pé com uma lança (também por vezes identificados como piqueiros). (Veja-se: http://www.dicionarioinformal.com.br/lanceiro/)

2 - William Wallace inspirou o célebre filme Braveheart, protagonizado pelo actor Mel Gibson.