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segunda-feira, 13 de julho de 2015

Em Nome da Ganância e da Traição: O Desvio da Quarta Cruzada (1202-1204)


Contexto

A 15 de Julho de 1099, Godofredo de Bulhão conseguiria tomar a Cidade Santa de Jerusalém, coroando com inequívoco sucesso a Primeira Cruzada (1095-1102) que produziria então a formação de quatro estados latinos - Edessa, Antioquia, Jerusalém e Tripoli. Uma caminhada atribulada repleta de combates e visões míticas que abriram os portões da glória aos combatentes cristãos, cujo prestígio ficou, em abono da verdade, manchado pelos massacres hediondos que perpetraram aquando das suas mais notáveis conquistas.
Apesar da desunião e até da mediocridade que vigorava inicialmente entre os grandes líderes do Mundo Muçulmano, a verdade é que o aparecimento de vultos conceituados como Zenghi, Nureddin e Saladino ajudou a inverter o rumo dos acontecimentos. Em 1144, Edessa cai nas mãos de Zenghi - era o primeiro estado cruzado a cair nas mãos do Islão. O seu filho Nureddin anulará a desorganizada reacção cristã expressa na malograda Segunda Cruzada (1147-1149), unificando posteriormente a Síria ao tomar Damasco em 1154. Mas será Saladino, até então seu vassalo e que depois se rebelara contra a sua autoridade (quando se tornou senhor do Egipto), que granjeará inúmeras conquistas e feitos em 1187, recuperando Jerusalém a 2 de Outubro, isto depois de ter vergado o maior exército cristão do Levante na batalha de Hattin travada a 4 de Julho. 
A Terceira Cruzada (1189-1192), encabeçada essencialmente pelo rei de Inglaterra - Ricardo Coração de Leão, viabilizará a recuperação de alguns domínios entretanto perdidos (como por exemplo: São João de Acre) e a sobrevivência dos já limitados "bastiões" cristãos levantinos por mais um século, mas não materializará uma nova reconquista da Cidade Santa que permanecerá assim sob o controlo aiúbida.
Dentro deste contexto, a vontade de recuperar Jerusalém era enorme entre os cristãos. O Papa Inocêncio III (1198-1216), um dos pontífices mais prestigiantes da Idade Média e portador de uma sólida formação teológica e canónica, estava determinado em concretizar este ambicioso objectivo e, por isso, promoveria o fenómeno cruzadístico de forma ímpar. Ele planearia previamente a Quarta Cruzada (1202-1204) e ainda a Quinta Cruzada (1217-1221), embora não tivesse assistido ao desenrolar desta última. Além destas duas expedições que rumaram ao Oriente, pregou igualmente a Cruzada Albigense destinada a combater a heresia do catarismo no sul de França.
A prosperidade e a paz tinham voltado à Ásia Menor, depois da finalização da Terceira Cruzada e da assinatura do Tratado de Jaffa (1192). As trocas comerciais entre cristãos e muçulmanos tinham incrementado, o que favorecia a economia de todos os estados envolvidos. Esse período de tolerância religiosa e progresso económico parecia estar agora ameaçado ao fim de 10 anos decorridos. O sonho incessante de restaurar os tempos áureos da Primeira Cruzada comandava as intenções pontifícias, e para isso havia que preparar novas expedições militares que consubstanciassem na prática todo este programa ideológico.
Apesar do clima de aparente acalmia, há a destacar a perda de Jaffa para as forças muçulmanas em 1197, um enclave estratégico que havia sido segurado por Ricardo Coração de Leão, cinco anos antes, em 1192. Todavia, em 1204, os cristãos voltariam a recuperar esta praça, no âmbito de novas tréguas firmadas e da tolerância aiúbida então manifestada. Mas até se viabilizar essa devolução, pode-se afirmar que a perda temporária de Jaffa (um episódio ainda que isolado), durante aqueles 6 ou 7 anos, foi motivo suficiente para fazer soar o alarme na estrutura pontifícia.
Também em 1197, ocorre a morte de Henrique de Champagne (caiu duma janela do seu palácio em Acre), rei de Jerusalém, acontecimento que abriu algum suspense no que diz respeito ao futuro dos interesses cristãos na Palestina.
Apesar destas notícias pouco animadoras, merece o nosso apontamento - o feito excepcional (embora também isolado) de um grupo de cruzados alemães que se apoderou da cidade de Beirut, contudo estes guerreiros da fé cristã não hesitariam em regressar à sua nação, logo que tiveram conhecimento da morte do imperador germânico Henrique VI que tinha feito anteriormente o seu próprio voto de cruzada (o qual ficaria então sem efeito). Contudo, esta era apenas uma gota no Oceano. A era do pós-Hattin favoreceria, cada vez mais, a unificação do Islão, além de motivar o decréscimo gradual da influência latina no Levante.
A conjuntura na Terra Santa revelava-se estável e próspera no plano comercial, porém o rumo político não era promissor. Assim sendo, a preparação da Quarta Cruzada começava a ser colocada em prática para contrariar o declínio dos ainda sobreviventes estados cruzados, mas o potencial envolvimento de intervenientes incompatíveis com o projecto constituía uma ameaça séria que poderia mesmo comprometer a essência da expedição. A Santa Sé não se terá apercebido a tempo deste perigo, e acabará inclusive por perder a supervisão sobre a campanha que tinha então promovido.





Imagem nº 1 - Inocêncio III almejava restaurar a glória cristã no Levante, ambicionando a recuperação da Cidade Santa que se encontrava nas mãos dos aiúbidas desde 1187.
Fresco que representa o Papa Inocêncio III no mosteiro beneditino de Subiaco




A Preparação da Campanha


O Papa Inocêncio III impulsionaria a pregação da cruzada que se concentrou essencialmente no reino da França (pelo menos, foi aí mais visível) e no Sacro Império Romano-Germânico. Desta vez, a nova realidade não favorecerá a participação de reis, os quais estariam ainda ocupados nos conflitos ocidentais. Neste ponto em concreto, é ainda provável que o papado desejasse assumir o controlo total deste novo movimento de modo a fazer prevalecer o seu poder universal ou primazia apostólica. A empresa deveria ser então encabeçada por alguns membros da alta nobreza que acabariam por aderir à causa, imitando assim um cenário que, por exemplo, já se tinha verificado no decurso da Primeira Cruzada. Sem grandes surpresas, surgiriam com veemência os nomes dos influentes condes Teobaldo de Champagne e Balduíno da Flandres que poderiam vir a assumir um papel relevante na condução desta campanha belicista.
O alvo teórico da Quarta Cruzada já estava determinado - o Egipto, centro nevrálgico do regime aiúbida. Se a cidade do Cairo e as restantes terras "faraónicas" caíssem nas mãos cristãs, a tão desejada Cidade Santa de Jerusalém ficaria praticamente à mercê dos cruzados que assim não teriam motivos para temer qualquer contra-ataque ou retaliação militar por parte dos sucessores de Saladino, pois estes seriam assim derrotados ou aniquilados previamente. Este raciocínio parecia fazer todo o sentido do ponto de vista geo-estratégico, mas em simultâneo, tornaria a expedição bastante ousada e exigente. 
A problemática dos recursos financeiros destinados a subsidiar todo este projecto belicista causava ainda maior apreensão. O Sumo Pontífice, embora presumivelmente empenhado na causa, não poderia contar com o apoio dos tesouros reais (como já tínhamos afirmado, nenhum soberano ocidental aderiu à Quarta Cruzada) e, por isso, decretou um imposto de cruzada que incidia em 2,5% sobre as rendas do clero, mas a sua aceitação bem como a respectiva recolha não parecem ter decorrido da forma mais proveitosa. Durante esta altura, as atenções começam igualmente a virar-se para uma personalidade - Enrico Dandolo, o poderoso e abastado doge de Veneza. Curiosamente, Enrico estava já na casa dos 90 anos, era na realidade cego, mas possuía ainda uma capacidade mental e física bastante invejáveis. Além disso, a sua ambição e ganância eram desmedidas. A Santa Sé julgou ver nesta personalidade um aliado de peso para a sua campanha, um erro do qual se arrependeria amarguradamente para sempre.
De acordo com o historiador Carlos de Ayala Martínez, o doge veneziano Enrico Dandolo comprometeu-se a ministrar as embarcações e os mantimentos necessários à expedição que deveria ser composta por 30 mil homens (cavaleiros, escudeiros e peões). Em contrapartida, os cruzados teriam de pagar a soma total de 85 mil marcos de prata e de ceder metade dos territórios conquistados a Veneza. Naquele preciso momento, muitos acreditaram que o acordo até parecia ser bastante favorável às duas partes e que poderia assim resolver alguns dos entraves da campanha. Mas tudo não passava afinal duma miragem: as dificuldades voltariam a ressurgir muito em breve e o tratado tornar-se-ia bastante lesivo para a facção cruzada.
A morte de Teobaldo de Champagne em Março de 1201 acrescentou mais indefinição à preparação do movimento, visto que aquele conde francês seria o preferido da Santa Sé para desempenhar a liderança máxima da nova cruzada. Como seu substituto, foi escolhido o margrave ou marquês italiano Bonifácio de Montferrat (irmão de Guilherme e de Conrado, personalidades que tinham contraído matrimónio com rainhas titulares do reino de Jerusalém) que revelava uma conexão guibelina com a casa germânica dos Staufen, o que deixava sérias reservas à entidade papal. Segundo Hans Eberhard Mayer, Bonifácio de Montferrat, apesar de reivindicar a seu favor a tradição oriental da sua família, parecia ter ocultado, desde cedo, a sua intenção de combater em solo grego, onde sonhava um dia exercer o seu domínio sobre Tessalónica.
Na Primavera de 1202, o exército cruzado, estacionado em Veneza, tenciona rumar já ao Oriente, mas o doge veneziano trava, naquele momento, as aspirações dos peregrinos e exige imediatamente o pagamento da verba acordada para o transporte das forças cristãs por via marítima. Surpreendentemente (ou não!), os cruzados não conseguirão reunir sequer a soma necessária para saldar a quantia estabelecida no contrato celebrado. Como veremos, a explicação para esta insolvência é simples. O prazo estipulado para a partida da expedição estava fixado para o mês de Abril de 1202. Nessa mesma data, muitos cruzados franceses (provençais e borgonheses) decidiram embarcar em Marselha por questões óbvias de proximidade geográfica. Pelas mesmas razões, outros fizeram-no na cidade flamenga de Bruges. O problema sério ocorreu em Veneza, pois aí só convergiriam 11 ou 12 mil homens que logicamente não conseguiriam pagar o preço (os tais 85 mil marcos de prata) que supostamente deveria ser saldado por uma multidão de 30 mil cruzados. Mesmo assim, lograram reunir, com muito esforço, cerca de 51 mil marcos de prata. Contudo, continuavam a faltar 34 mil marcos para satisfazer as exigências de Veneza. O seu doge não demonstrava qualquer sensibilidade ou compreensão pelo facto de estarem ali menos cruzados do que o previsto, mantendo-se inflexível quanto à soma pretendida. No entanto, Enrico Dandolo, repleto de malícia, dará luz verde à expedição, mas só se os cruzados entrarem no seu jogo frívolo que assentava em abomináveis chantagens e esquemas gananciosos. Enrico poderia estar cego (na dupla acepção da palavra) de ambição mas sabia mais do que ninguém que tinha agora os cruzados na sua mão. Neste âmbito, o doge de Veneza só deixará os cruzados tirar proveito das suas embarcações, desde que estes, na sua primeira operação atacassem a localidade de Zara, outrora um enclave veneziano que estava agora incorporado no reino cristão da Hungria. Os lucros obtidos num potencial saque daquela cidade poderiam ressarcir as derradeiras exigências monetárias do doge.
Abria-se assim um precedente apavorante, onde Enrico deixava bem claro que tinha em mente a estratégia de usar os cruzados para almejar as suas próprias metas políticas e demais caprichos pessoais. Devido a inúmeros câmbios acidentais, a Quarta Cruzada ganhará um cariz económico incontornável. A natureza religiosa será mesmo absorvida pelos vastos interesses da República Veneziana. 





Imagem nº 2 - Enrico Dandolo (1107?-1205), o doge de Veneza, assumirá uma acção determinante no desvio da Cruzada.




O Primeiro Alvo: Zara (1202)


Zara (actual Zadar - Croácia) situava-se na costa da Dalmácia, então banhada pelo Mar Adriático. No passado, chegara a ser pertença dos venezianos, mas em 1183 (ou 1186?) a cidade rebelou-se contra esta república italiana, colocando-se sob a protecção do Papado e do reino cristão da Hungria. Situação que decerto não foi bem digerida por Veneza. Além disso, os venezianos suspeitavam que Zara constituía um abrigo para muitos piratas que comprometiam os seus interesses comerciais naquele mar. Também a expectativa de obter valiosos despojos de guerra (pela via do saque ou da depredação) pesava nas aspirações dos aderentes. Tinha chegado o momento da retaliação.
Após ouvirem a proposta de Enrico Dandolo, alguns cruzados que tencionavam a todo o custo combater na Terra Santa prontamente se recusaram a tomar parte numa acção bélica que seria agora canalizada especificamente contra uma terra cristã. Todavia, e apesar das enérgicas ameaças de excomunhão por parte do Papa Inocêncio III, a verdade é que a maior parte dos combatentes aceitou as exigências infames do doge veneziano e alinhou então nos seus maliciosos ardis. Neste preciso momento, achamos pertinente ressalvar que muitos peregrinos estiveram dispostos a participar no ataque a Zara, com a esperança de que a anulação da dívida seria certa e imediata, o que lhes permitiria liquidez financeira para posteriormente navegar e desembarcar no Egipto ou noutro ponto do Levante, onde travariam as batalhas glorificantes que moldavam o seu imaginário. Contudo, o rumo dos acontecimentos não seria tão linear como supostamente previam.
A partida das forças cruzadas e venezianas ocorre em Outubro de 1202, deixando para trás a cidade de Veneza. O desembarque em torno do porto de Zara dá-se a 10 de Novembro de 1202, quebrando as correntes protectoras ou encadeamento defensivo daquela estrutura portuária. A frota de 50 ou 60 navios de guerra transportava cerca de 20 mil homens (entre cruzados e venezianos) que assediariam assim aquela praça. Com recurso a modernos engenhos e estratagemas de cerco, os cruzados tiraram proveito da superioridade técnica para assim alcançar avanços graduais diante duma guarnição magiar esforçada mas de composição insuficiente para suportar as investidas dum exército oponente que se encontrava bem constituído e equipado militarmente. De nada valeram as tentativas dos cidadãos de Zara que, do alto dos muros, erguiam bandeiras com cruzes a tentar demonstrar que aquela era uma cidade cristã. Pouco se apurou mais sobre este empreendimento militar em concreto. De acordo com a maior parte dos historiadores (Carlos de Ayala Martínez, Migail Zaborov, Hans Eberhard Mayer), a cidade cairia nas mãos cruzadas a 24 de Novembro de 1202. Outros autores (embora em evidente minoria, podemos citar o caso de Tony Jaques) sugerem o dia 15 de Novembro como o da conquista por parte dos cruzados. Independentemente das cronologias propostas, podemos concluir que o cerco de Zara foi apenas uma questão de dias, com os sucessivos assaltos aos muros a viabilizarem muito em breve a vitória dos sitiadores. A população procurou defender-se com valentia nas ruas, combatendo de modo desigual com espadas, flechas e lanças, mas os cavaleiros cruzados e soldados venezianos impuseram naturalmente o seu controlo militar sob a urbe. Nem as igrejas foram poupadas ao saque! Zara seria assim devolvida à República de Veneza, sem glória e honra.
Ao ter conhecimento do sucedido, o Papa Inocêncio III excomungou todos os membros da expedição, evidenciando o seu pesar pelo "sangue irmão" derramado pelos cruzados que estavam proibidos de participar em acções de agressão contra terras cristãs. O episódio assumiu ainda contornos mais gravosos porque o rei da Hungria - Emerico, senhor daquela terra saqueada, estava inclusive disposto a participar numa cruzada, caso a conjuntura assim o permitisse.
Pouco tempo depois, o sumo pontífice levantou a excomunhão aos cruzados franceses e germânicos, mas a manteve em relação aos venezianos, encarados como mentores do actual trajecto da expedição. É provável que Inocêncio III ainda quisesse salvar a Cruzada, tentando a inversão do rumo dos acontecimentos, e por isso, terá recuado parcialmente, no sentido de chamar os peregrinos à razão, os quais deveriam ser imediatamente transportados para combater os muçulmanos na Terra Santa. Mas o pior ainda estava afinal por vir, pois Bizâncio sempre constituíra uma meta aliciante para os proeminentes líderes da expedição.




Local: Zara (actual Zadar - Croácia)
Data: De 10 a 24 de Novembro (ou 15 de Novembro) de 1202
Forças Beligerantes

 Cross templars.svg
Cruzados e República de Veneza

Reino Cristão da Hungria
Comandantes/Generais
Enrico Dandolo
Bonifácio de Montferrat
Nomes não apurados
Número de Combatentes
20 mil soldados
(10 mil cruzados, 10 mil venezianos)
Estatística desconhecida
(Talvez guarnição inferior a 5 mil homens)
Baixas Estimadas
Estatística desconhecida, embora se especule que tenham sido reduzidas.
Estatística desconhecida, contudo houve um número considerável de mortes e ainda de refugiados que abandonaram a cidade.
Resultado: Cruzados e Venezianos apoderam-se e saqueiam a cidade cristã de Zara, após um breve cerco. O Papa Inocêncio III reagiu com fúria, excomungando todos os membros da expedição.

Tabela nº 1 - As estatísticas inerentes à conquista de Zara (1202).






Imagem nº 3 - A conquista de Zara, terra cristã incorporada no reino da Hungria, por parte dos cruzados e venezianos, foi um episódio que terá irritado a Santa Sé que prontamente excomungou os intervenientes.
Quadro da autoria de Andrea Vicentino (1539-1614)






Porquê Bizâncio?


No decurso da triunfante Primeira Cruzada (1095-1102), os atritos iniciais entre os peregrinos ocidentais e os bizantinos ocorreram aquando da tomada de Niceia (os gregos apoderaram-se discretamente da cidade sem dar conhecimento aos cruzados que desejavam saquear a praça que até então estava nas mãos dos turcos) e do posterior cerco de Antioquia (consta-se que um exército de 20 000 homens liderado pelo imperador Aleixo Comneno se dirigia em direcção àquela urbe para auxiliar os cruzados que estavam desesperados e suplicavam por auxílio militar, contudo devido à desinformação que se tinha espalhado em torno do confronto, os bizantinos optaram, a meio do caminho, por fazer marcha atrás, deixando os francos por sua conta). Na malograda Segunda Cruzada (1147-1149; movimento liderado pelos soberanos Luís VII de França e Conrado III da Germânia), os bizantinos foram mesmo responsabilizados pelos fracassos da expedição (esta fraquejou estrondosamente no cerco posto em torno de Damasco), tendo sido estes acusados de traição e de terem conspirado com os turcos. Os ódios e as desconfianças em relação ao Império Bizantino aumentavam...
A autonomia das tradições culturais gregas, além dos seus irresistíveis tesouros e da sua magnificente dimensão artística, motivaram sempre a inveja e a cobiça de diversos povos inimigos ao longo dos tempos. Constantinopla, a "Nova Roma" fundada pelo imperador romano Constantino I em 330 d. C., tornou-se numa das cidades mais preponderantes ou até prestigiadas da Idade Média. A capital do Império Bizantino, localizada na região do Bósforo, assumia um papel fundamental na rede de rotas comerciais estabelecidas no Oriente (aliás, Bizâncio tinha acesso privilegiado ao Mar Negro e Mar Mediterrâneo). O império desfrutava claramente da transacção de produtos de luxo, da abundante circulação monetária e de uma moeda estável durante séculos. No âmbito religioso, a Igreja Ortodoxa tinha reforçado a sua independência desde os tempos do Grande Cisma do Oriente (1054), mantendo assim sérias divisões ou querelas em relação à Igreja Católica de Roma.
Em jeito de síntese, temos, por um lado, um historial já imbuído de cepticismo dos cruzados face à pertinência ou relativa eficácia das alianças forjadas com os bizantinos, enquanto que, por outro, o fulgor cultural e comercial bizantino tornavam o Império e a sua capital apetecíveis aos olhos das personalidades mais poderosas daquele tempo.
Todavia, para a equação ficar completa, era ainda necessário compreender os motivos que poderiam levar Veneza, a república que se tornou monitorizadora da campanha, a atacar aquela região. Se no final do século XI as relações entre aquela cidade-estado italiana e o império bizantino eram bastante promissoras (em 1082, foi mesmo assinado um tratado que conferia privilégios comerciais excepcionais a Veneza), a situação muda drasticamente de figura a partir de meados do século XII com uma aproximação dos venezianos ao inimigo mortal de Bizâncio - o reino normando da Sicília. Este câmbio materializa-se quando o basileu ou imperador grego Manuel Comneno decidiu programar uma ofensiva contra esta ilha, cuja posição estratégica era bastante sensível no âmbito comercial. Logicamente, os venezianos não hesitarão em colocar-se do lado dos normandos de modo a proteger os seus interesses instalados no Mar Adriático que poderiam assim ficar comprometidos com uma eventual hegemonia bizantina naquela região. No cômputo diplomático, a discórdia entre as duas nações começa a assumir tons ousados. Em breve, as autoridades de Bizâncio firmarão acordos vantajosos com as cidades italianas rivais de Veneza: Génova, Pisa e Amalfi. Todavia, o episódio mais negro aconteceu em 1171, quando o mesmo imperador Manuel Comneno lançou uma perseguição geral contra os venezianos, acusados de terem destruído a colónia ou bairro genovês de Constantinopla. Só na capital foram detidos 10 mil venezianos que testemunharam ainda a confiscação dos seus bens. Mas a história não ficaria ainda por aqui.. Em 1182, rebentará uma forte reacção nacionalista no Império Bizantino que causará uma matança cruel e indiscriminada contra habitantes estrangeiros, com sangue veneziano e também de outras nações latinas a ser derramado em nome da xenofobia. No ano de 1185, e em jeito de retaliação, o rei normando Guilherme II da Sicília atacou e saqueou violentamente Tessalónica, uma das principais cidades do Império Bizantino. Nem a Terceira Cruzada (1189-1192) logrou sequer atenuar as rivalidades entre o Ocidente e Bizâncio que se mantinham bem patentes. Afinal, todos estes antecedentes cimentavam terreno para uma escandalosa, mas não impossível, cruzada contra os "cismáticos gregos".
Enrico Dandolo alcançaria o estatuto de doge veneziano em 1192 e ambicionava restaurar, no patamar mais faustoso, a presença comercial e os inestimáveis privilégios da sua república no Império Bizantino, de modo a extrair volumosos dividendos económicos. Não estaria sozinho nesta causa - Bonifácio de Montferrat, que viria a ser então o principal chefe deste movimento cruzado, também tinha pretensões em solo helénico, e não hesitaria em exercer o papel de elo decisivo destinado a convencer os peregrinos a aceitarem as propostas desviantes daquele doge sedento de poder. Neste ponto, e apesar destas intenções individuais prévias que nos parecem evidentes, manifestamos as nossas dúvidas se estas ambições ocultas acompanharam, desde o início, os planos destes dois responsáveis principais pela cruzada, ou se foram apenas reavivadas à posteriori com a sucessão de acontecimentos pontuais que favoreceram a sua concretização.
Como já tínhamos inferido anteriormente, a meta teórica da Quarta Cruzada seria o Egipto, mas nos "bastidores" já se propalava o rumor de que emissários venezianos se tinham reunido recentemente com al-Adil, sultão aiúbida e senhor daquela região, firmando talvez um pacto de não-agressão e reforçando assim os seus interesses comerciais em território "faraónico". Suspeitava-se que Veneza não quereria atacar aquele estado muçulmano, porque aí tinha estabelecido relações prósperas no sector económico. A potencial veracidade em torno deste boato não nos surpreende - Enrico Dandolo sempre soube manejar habilmente os interesses da sua República.
Os dados estavam lançados. A ideia duma campanha contra o Império Bizantino consubstanciava-se gradualmente, mas faltava ainda um vértice essencial - o pretexto minimamente legítimo (pelo menos, aos olhos dos chefes supremos da Quarta Cruzada) ou o referido "acidente pontual" para uma intervenção bélica que pudesse justificar um novo e mais polémico desvio depois do ataque anterior direccionado a Zara. Sem essa circunstância maior, poderia ter ficado sem efeito a hipótese duma ofensiva aos domínios gregos. Contudo, as intrigas palacianas explodiriam em Constantinopla, viabilizando a ingerência estrangeira no império até então orgulhoso da sua língua e da sua identidade.





Imagem nº 4 - Constantinopla, capital do Império Bizantino, foi uma das cidades mais deslumbrantes e opulentas da Idade Média. 




O Pretexto


Isaac II Ângelo reinava em Constantinopla desde 1185. Tratava-se dum imperador que tinha fomentado várias expedições bélicas, nomeadamente contra os búlgaros. Todavia, os elevados impostos que programou para suportar o esforço de guerra bizantino granjearam-lhe impopularidade. Além disso, as suas façanhas militares tinham sido pouco relevantes. Dez anos depois (1195), o seu irmão mais velho Aleixo Ângelo aproveitou a sua ausência durante uma caçada, para se auto-proclamar como novo imperador (agora designado como Aleixo III Ângelo), conseguindo obter a lealdade imediata do exército. Isaac foi detido e cegado em Constantinopla. O golpe de estado parecia ter decorrido duma forma eficaz e tudo parecia estar controlado. Mas Aleixo IV Ângelo, filho do imperador deposto Isaac II Ângelo, tinha conseguido fugir das masmorras em 1201, sem nunca abdicar da luta pelos seus direitos. Ele estava disposto a ceder a todas as exigências para reaver o trono a seu pai, o qual lhe pertenceria também por herança. Dentro deste contexto, e depois doutras consultas ou embaixadas que saíram frustradas, Aleixo IV não hesitará em sondar os líderes cruzados, nomeadamente Bonifácio de Montferrat. Desesperado e sedento de vingança, o filho do imperador destronado está disposto a tudo para obter auxílio militar - promete que cederá 10 mil soldados bizantinos para a Cruzada na Terra Santa, uma enorme soma de dinheiro destinada a saldar as dívidas dos cruzados, assegura ainda que irá restabelecer todos os privilégios e benesses comerciais requeridas por Veneza no seio do Império, e demonstra igual disponibilidade em tentar a submissão da Igreja Ortodoxa à autoridade do Papa. Esta proposta era totalmente aliciante para os ocidentais, e por isso, foi logo aceite pelos cruzados e venezianos que se aprontaram para uma primeira intervenção em 1203. É possível que o imperador germânico Filipe da Suábia (mantinha relações tensas com o Papado) tivesse apoiado sigilosamente estas negociações. Aliás, a irmã de Aleixo IV Ângelo era esposa do poderoso soberano alemão que desejava solidificar a sua influência no interior do seu território.
De um modo geral, o actual governante Aleixo III Ângelo foi imediatamente rotulado pelos ocidentais como um tirano que tinha chegado ao poder por via da usurpação ilegítima do trono, e por isso, o cenário de deposição parecia constituir uma causa justa. Contudo, os guerreiros da fé cristã ignoravam claramente que Aleixo III era bem mais popular em Constantinopla do que Isaac II e seu filho fugitivo Aleixo IV.
Não havia nada a fazer, pois a decisão já estava tomada. O apelo de Aleixo IV tinha sido levado a sério, e os responsáveis máximos da cruzada aceitaram intervir militarmente, depois de terem conhecimento das condições irrecusáveis da nova parceria firmada.
Neste contexto explosivo, regista-se novamente a deserção de mais um número indeterminado de cruzados que não se reviam no rumo da empresa, mas a verdade é que, ainda assim, muitos permaneceram, aliciados por uma eventual recompensa económica e com a esperança de que Constantinopla seria apenas mais uma paragem antes de finalmente desembarcarem no Egipto ou na Terra Santa. Os responsáveis venezianos e Bonifácio de Montferrat tinham conseguido convencer muitos dos guerreiros cristãos a permanecer naquele "compromisso" que assumia, cada vez mais, um cariz político e económico, e não a faceta religiosa que se reivindicava como elo fulcral em qualquer cruzada.
No Verão de 1203, os cruzados iniciaram a primeira ofensiva contra Constantinopla. Desde logo, conquistaram o subúrbio de Gálata e romperam novamente com a cadeia ou corrente protectora que impedia a entrada no "Corno de Ouro".  No dia 17 de Julho, atacam a capital bizantina por terra e por mar, mas aí enfrentam a resistência heróica da guarda varegue (ou varega), composta por ingleses e dinamarqueses. Todavia, Aleixo III, talvez temendo pela sua segurança e pela inequívoca valia do inimigo, fugiu imediatamente da cidade, e assim o trono acabaria por ser devolvido a Isaac II Ângelo, mas como este se encontrava cego, a governação passaria essencialmente para as mãos do seu filho Aleixo IV.
No entanto, a liderança destes dois co-imperadores estava destinada ao fracasso, findando tragicamente a curto prazo. Em primeiro lugar, Aleixo IV não tinha meios financeiros suficientes para honrar os compromissos que tinha assumido com os venezianos e cruzados (o tesouro imperial reunia quantias limitadas naquela altura exacta), perdendo gradualmente a protecção e o apoio da facção latina. Neste cenário comprometedor que ganhava proporções de isolamento, o povo de Constantinopla não perdoava a intimidade de Aleixo IV e de seu pai para com os ocidentais. No mês de Janeiro de 1204, dá-se um novo levantamento nacionalista na capital bizantina, e as vidas dos dois co-imperadores acabariam por ser ceifadas.
O novo imperador aclamado popularmente é Aleixo V Ducas Murtzouphlos (até então fora um funcionário imperial ou protovestiário), o qual está disposto a enveredar por uma política anti-latina e cortar com qualquer tipo de relacionamento ou fidelização com os cruzados e venezianos.
Este derradeiro episódio provocou a ira dos líderes ocidentais que agora julgavam ter o motivo perfeito para concretizar um objectivo ambicioso - apoderar-se do antigo Império Romano do Oriente e reiniciar aí uma nova era. Contudo, estavam seguramente a pensar nos seus interesses pessoais ou privados, omitindo o seu dever de proteger a integridade da Cristandade.





Imagem nº 5 - Aleixo IV em negociações entabuladas com os cruzados, de modo a viabilizar a recuperação do trono imperial.





Imagem nº 6 - O primeiro ataque dos Cruzados a Constantinopla ocorreu no Verão de 1203, e fez com que Aleixo III (visto pelos ocidentais como um usurpador) tivesse fugido da capital bizantina, o que permitiu o retorno imediato de Isaac II e de seu filho Aleixo IV ao centro do poder. Todavia, a  co-governação de ambos seria apenas temporária.
Iluminura e Manuscrito da obra de Geoffreoy de Villehardouin, principal cronista da Quarta Cruzada




A Conquista e o Saque de Constantinopla


Aleixo V Ducas tem a clara noção de que a sua entrada em cena perturba radicalmente as pretensões dos venezianos e cruzados que se encontravam até então concentrados nos extra-muros e até nas periferias da capital. Esperando uma reacção violenta da parte destes, o novo imperador bizantino ordena o reforço urgente das defesas de Constantinopla, nomeadamente das suas muralhas e torres. Apesar da bravura que tentou imprimir nos seus soldados e militantes voluntários, o recém-aclamado imperador sabia perfeitamente que iria enfrentar um adversário superior que detinha mecanismos suficientes para intentar a conquista daquela afamada urbe. Além do mais, Bizâncio tinha acabado de testemunhar profundas divisões internas que abalaram as suas estruturas centrais, o que então materializava uma conjuntura impregnada de debilidade ou fragilidade que favorecia irremediavelmente as intenções dos invasores.
Constantinopla era, naquele momento, uma sombra dos seus tempos áureos, uma presa acessível que despertava a cobiça dos seus acérrimos detractores.
Na primeira semana de Abril de 1204, regista-se o primeiro ataque dos ocidentais aos muros da capital. A 12 de Abril, os cruzados conseguem aniquilar a resistência da guarnição e sobem triunfantemente às muralhas. Nos três dias seguintes (até 15 de Abril), os guerreiros latinos produzirão um dos episódios mais execráveis da História da Cristandade - o Saque de Constantinopla, episódio tenebroso em que a matança assumiu proporções assinaláveis - cristãos que matavam cristãos, tesouros de valor incalculável que foram pilhados pelos cruzados (muitos bens ou objectos de cariz cultural, até então insubstituíveis, desapareceram para sempre; outros conheceram, ao menos, a "sorte" de terem sido trasladados à força para algumas terras do Ocidente, o que permitiu a sua preservação), mulheres violadas sem misericórdia, gritos que ecoavam em vão pelas ruas da capital transformadas agora em "rios de sangue"!!! A ganância desmedida estimulara toda aquela barbárie. Veneza tinha conseguido apoderar-se duma fenomenal Quádriga do século VI a. C. (ou IV a. C., segundo outras leituras) que ainda hoje decora a sua fachada de São Marcos. Os caçadores de relíquias não olhavam a meios para procurar um enriquecimento sujo. Até mesmo alguns eclesiásticos que seguiam na expedição para salvaguardar as necessidades "espirituais" dos peregrinos, demonstraram um descaramento inolvidável, traindo os verdadeiros valores cristãos que deveriam professar. Como mero exemplo destes actos embaraçosos, temos o caso do abade Martin de Pairis que terá ameaçado de morte um sacerdote grego da Igreja de Pantócrator, o qual teve mesmo de abdicar dum valioso e impressionante relicário. Não parece ter sido o único furto ou acto de latrocínio cometido pelo abade francês que, através da sua robustez física, ainda logrou juntar mais outras peças de arte sacra (nomeadamente relíquias de 28 santos masculinos e 8 femininos). É-nos praticamente impossível avançar com uma estimativa concreta para os danos humanos e materiais sofridos durante aqueles três dias infernais. Milhares de pessoas terão certamente morrido, outras terão conseguido fugir ou encontraram modo de serem poupadas; e não subsistem dúvidas de que o rasto de destruição tinha tornado Constantinopla numa urbe vulgar.
Após a conquista da cidade e a consequente fuga de Aleixo V Ducas (rumou à Trácia), os cruzados  e venezianos não hesitaram em apoderar-se de outras regiões à volta. O novo Império será dividido ou partilhado metodicamente, e com enorme sangue frio à mistura, pelos próprios invasores. De acordo com Hans Eberhard Mayer, o rendimento total obtido a partir do saque brutal em Constantinopla poderá ter ascendido aos 900 000 marcos de prata, sendo que 500 000 foram parar às mãos dos venezianos (a dívida dos cruzados já estaria assim mais do que saldada, contudo o Império Bizantino foi, mesmo assim, o último ponto de campanha da Quarta Cruzada, esfumando-se a hipótese duma aventura no Egipto ou na Terra Santa!!!). A escolha do novo imperador, que deveria inaugurar uma dinastia latina, iria recair sobre o conde Balduíno da Flandres, o qual até então se encontrava parcialmente na sombra da liderança da expedição. O novo imperador, coroado a 16 de Maio na Catedral de Santa Sofia, teria direito a um quarto do império, mormente às regiões da Trácia, do Noroeste da Ásia Menor, e às ilhas de Lesbos, Quíos e Samos. Dos restantes três quartos, uma metade foi concedida a Veneza e a outra aos cruzados. Os venezianos voltaram a assumir protagonismo comercial na região, reforçando a sua posição nos mares Adriático, Jónico e Mediterrâneo. Apoderaram-se de portos da costa ocidental de Peloponeso e das ilhas Jónias (ou Jónicas), e também acabariam por assegurar controlo sobre Creta (comprada a Bonifácio de Montferrat).
Por seu turno, Bonifácio de Montferrat tornou-se soberano do reino de Tessalónica (o mais importante estado vassalo do novo Império Latino) que compreendia as regiões da Tessália e da Macedónia, e que submeteria, na sua área de influência, o Principado de Acaia (ou Moreia) e o Ducado de Atenas.
O Império da România, como seria designado, estava então estabelecido pelos ocidentais porém contava com a rivalidade acérrima de três poderosos estados - o Despotado de Épiro, e os Impérios de Niceia (este considerado como o mais influente) e de Trebizonda que seriam representados por sucessores da velha aristocracia bizantina que se encontravam determinados em recuperar os territórios perdidos e eliminar a ingerência estrangeira. Em termos práticos, a fragmentação política era total na região e, graças a esta conjuntura atribulada, as guerras internas travadas entre latinos e gregos constituíram uma realidade inevitável nos próximos anos. Nem o novo imperador Balduíno nem o enérgico Bonifácio de Montferrat escapariam a um final terrível que lhes seria traçado muito em breve. Ambos acabaram mesmo por sofrer na pele a ira dos guerreiros búlgaros que serviam ao temível Caloian, soberano que ficou curiosamente conhecido pelo epíteto de "Matador de Romanos". O primeiro morreria em 1205, depois de ter sido capturado na batalha de Adrianópolis, enquanto que o segundo seria vítima duma emboscada ocorrida em 1207.
Henrique da Flandres, irmão mais novo de Balduíno e segundo imperador latino de Constantinopla entre os anos de 1205 e 1216, ainda somaria algumas vitórias diante de bizantinos e búlgaros, as quais foram, pelo menos, importantes para a preservação dos domínios latinos por mais algum tempo. No entanto, os gregos nunca abandonaram a sua causa e orgulhosos das suas raízes e tradições, conseguiriam avanços decisivos nas décadas seguintes, recuperando gradualmente as terras até então perdidas para os ocidentais e seus aliados. Neste âmbito, não será de estranhar a entrada triunfante de Miguel VIII Paleólogo em Constantinopla no ano de 1261, restaurando a identidade do Império Bizantino e encerrando a era latina que havia durado mais de meio século. Todavia, a herança devastadora desse período belicista impediria que Bizâncio voltasse a assumir a grandeza de outrora, e o seu fim ocorreria em 1453, quase dois séculos depois, com o sultão turco Maomé II a apoderar-se da capital Constantinopla. Outra consequência da Quarta Cruzada foi, sem dúvida, o extremar de ódios e desconfianças entre ocidentais e gregos, o que hipotecou durante séculos o diálogo entre as Igrejas Romana e Ortodoxa.
De um modo geral, os resultados a breve, médio ou até longo prazo revelaram-se inequivocamente desastrosos, comprometendo os interesses cristãos na frente oriental.




Local: Constantinopla (Capital do Império Bizantino)
Data: Desde a primeira semana de Abril até 12 de Abril de 1204 (o cerco)
12 de Abril até 15 de Abril de 1204 (o saque)
Forças Beligerantes

 Cross templars.svg

Cruzados e República de Veneza

Palaiologos-Dynasty-Eagle.svg 

Império Bizantino
Comandantes/Generais
Enrico Dandolo
Bonifácio de Montferrat
Aleixo V Ducas
Número de Combatentes
20 mil soldados
(10 mil cruzados, 10 mil venezianos)
15 mil soldados/voluntários
Baixas Estimadas
Estatística desconhecida, embora se especule que as baixas tivessem sido reduzidas.
Estatística desconhecida, contudo houve um número elevado de mortes, sobretudo durante o saque infernal de três dias.
Resultado: Cruzados e Venezianos apoderam-se da capital bizantina - Constantinopla. Seguiu-se um saque inenarrável que culminou com o desaparecimento de muitos tesouros que até então decoravam aquela opulenta cidade. No âmbito político, nasceria o Império Latino (ou a România) que perduraria até 1261. O até então Império Bizantino cairia em desgraça e, apesar da sua reunificação posterior, a verdade é que jamais regressaria aos seus tempos áureos.


Tabela nº 2 - Esquematização das informações recolhidas sobre a conquista de Constantinopla pelos cruzados em 1204.





Imagem nº 7 - O ataque derradeiro dos Cruzados a Constantinopla em Abril de 1204
Imagem retirada de: https://deadliestblogpage.wordpress.com/page/9/





Imagem nº 8 - O sangue derramado cobria as ruas da capital bizantina, durante o saque ocorrido entre os dias 12 e 15 de Abril de 1204.






Imagem nº 9 - O triunfo do doge veneziano Enrico Dandolo (exibido simbolicamente na proa do seu navio) sobre Aleixo V Ducas Murtzouphlos (este montado a cavalo).
Quadro de Gustave Doré  (1832-1883)






Imagem nº 10 - "Os Cavalos de São Marcos" - Quádriga que decora actualmente a fachada da Catedral de São Marcos em Veneza. Estas quatro estátuas foram atribuídas ao escultor grego Lisipo (embora subsistam ainda dúvidas quanto à sua cronologia e seu autor), e durante séculos, ornamentaram o Hipódromo de Constantinopla, mas o rumo desviante da Quarta Cruzada (1202-1204) permitiu, através do saque da capital bizantina, a trasladação desta estrutura monumental para Veneza.




Teorias do Desvio:


Muitos dos investigadores que se debruçaram sobre o trajecto da Quarta Cruzada propuseram teorias ou hipóteses que tendessem a explicar o desvio desta expedição que, em termos teóricos, deveria dirigir-se ao Egipto, mas que, na realidade dos factos, acabou por pairar no Império Bizantino, após um saque precedente em Zara. 
Entre a comunidade académica, e citando a abordagem de Carlos de Ayala Martínez, subsistem as duas teorias seguintes:

  • A Teoria do Azar  - De acordo com esta proposta, o desvio da Cruzada deveu-se somente a acontecimentos pontuais de importância suficiente para cambiar acidentalmente a rota prevista. Terão sido as circunstâncias produzidas (a limitação dos recursos financeiros dos cruzados, a exploração ardilosa e inflexível da parte dos venezianos, além do oportuno aparecimento dum pretendente ao trono de Bizâncio) que determinaram a mudança dos planos previamente delineados. A crónica de Geoffreoy de Villehardouin (principal fonte da Quarta Cruzada) não nos oferece elementos flagrantes que comprovem uma conspiração prévia, narrando os sucessivos acontecimentos sem levantar grandes suspeitas a esse respeito. Esta é a teoria que reúne mais consenso entre os historiadores, e que conta assim com a aprovação dos especialistas Jonathan Riley-Smith e Carlos de Ayala Martínez.
  • A Teoria da Traição ou do Complot - Segundo esta tese bem mais polémica, terá existido, desde o início, uma preparação prévia e sigilosa do desvio. Assim sendo, o ataque ao Império Bizantino teria sido calculado de forma deliberada com a antecedência necessária. Aqui o dedo é essencialmente apontado ao maquiavélico doge veneziano Enrico Dandolo que, enquanto encetava conversações com os cruzados, terá alegadamente enviado emissários numa missão secreta destinada a selar um pacto de não-agressão com as autoridades aiúbidas do Egipto (o objectivo inicial da Quarta Cruzada), de modo a proteger os interesses comerciais da sua república italiana naquele território. Por outro lado, as relações bastante tensas entre Veneza e Bizâncio constituíam um forte motivo para a planificação duma empresa bélica. Nestas suspeitas de conspiração, nem a imagem do Papa Inocêncio III sai ilesa. Apesar da excomunhão decretada aquando do ataque a Zara (o que parece ter irritado verdadeiramente a Santa Sé), a verdade é que o Sumo Pontífice encheu os cruzados de felicitações quando teve conhecimento da queda de Constantinopla, embora lhe tivesse sido ocultada inicialmente a história do saque sangrento que se sucedera na urbe. Recorde-se que o Papado sempre priorizara a união das Igrejas Romana e Ortodoxa, embora recorrendo até então a diligências diplomáticas. Inocêncio III também é criticado por não ter assumido a dívida dos cruzados (os referidos 34 mil marcos de prata que faltavam para garantir o seu transporte rumo ao Egipto e à Terra Santa), o que poderia ter travado as manobras pouco transparentes e demais chantagens de Enrico Dandolo. Esta interpretação historiográfica reúne menos "adeptos", embora seja ainda assim defendida por Mas-Latrie, Hopf e Mijail Zaborov.

Pelas leituras que até então efectuamos, não nos é nada fácil tomar uma posição concreta que possa esclarecer inequivocamente o percurso atípico da Quarta Cruzada. Por um lado, não duvidamos de que a sucessão de determinados acontecimentos foi decisiva para o desvio da rota cruzadística, mas por outro lado, é igualmente impensável ignorar a má fé e os interesses ocultos do doge veneziano que nos remetem assim para uma clara traição de quem estaria pouco interessado em rumar a terras faraónicas e enfrentar o centro nevrálgico do poder aiúbida. Quanto à eventual cumplicidade do Papa Inocêncio III neste rumo surpreendente, é muito difícil retirar conclusões seguras. No nosso entendimento, denotamos alguma negligência da Santa Sé em não ter conseguido saldar as dívidas dos cruzados (não teria o tesouro papal a capacidade necessária para liquidar a dívida dos cruzados? não poderiam ter sido utilizados outros trunfos negociais, nomeadamente privilégios especiais, que convencessem os responsáveis venezianos a assumir o compromisso de transporte dos cruzados até ao Egipto?), problema que acabou mesmo por desvirtuar a identidade e os objectivos daquela expedição que ganhou contornos de "Cruzada Comercial". Mas exceptuando a inércia papal nesse ponto em particular, a verdade é que não perduram dados suficientes que atestem cabalmente o envolvimento claro e indiscutível da Santa Sé num complot contra Constantinopla que estivesse acordado ou arquitectado desde o início. 
Em jeito de conclusão, acreditamos que os citados acontecimentos pontuais, o envolvimento premeditado e malicioso dos representantes da República de Veneza e a consequente perda do controlo por parte da Santa Sé sobre a expedição justificaram a transformação da Cruzada numa expedição que apenas beneficiou escandalosamente os interesses políticos e económicos venezianos.





Mapa nº 1 - A Rota da Quarta Cruzada, também designada de "Cruzada Comercial".






Mapa nº 2 - O Império Latino (criado em 1204) contava com a rivalidade do Despotado de Épiro e Impérios de Niceia e Trebizonda. Seria extinto em 1261 aquando da restauração da unidade bizantina.
Retirada do Wikipédia e Natural Earth
(https://en.wikipedia.org/wiki/Latin_Empire)




Notas-extra:


1- No ano de 2004 comemoraram-se 800 anos do Saque de Constantinopla (1204), marco que fez com que o Papa João Paulo II expressasse a sua dor e o profundo desgosto pelo episódio que foi considerado como um dos mais tenebrosos da Idade Média. Esta declaração insere-se igualmente no âmbito da visita de Bartolomeu, Patriarca ecuménico de Istambul (antiga Constantinopla), ao Vaticano.

2- Relativamente à participação portuguesa neste conflito, há dois nomes que ousamos destacar - Fernando Afonso (ou Afonso de Portugal, filho ilegítimo de D. Afonso Henriques), Grão-mestre da Ordem do Hospital (1202-1206), e Paio Galvão, bispo-cardeal de Albano e legado papal. O primeiro terá participado, de algum modo e a partir da sua posição privilegiada, na Quarta Cruzada (1202-1204), intervindo directamente no conflito (por exemplo: com a sua presença ou com o envio de destacamentos de hospitalários) ou, pelo menos, mantendo uma relação privilegiada com os líderes da expedição. O segundo (alguns autores poderão defender a sua ascendência leonesa sob o nome de Pelayo Gaitán, embora existam também muitos historiadores que acreditam que ele seria natural de Guimarães) foi enviado a Constantinopla numa embaixada pontifícia, entre 1213 e 1215, para tentar a submissão da Igreja Ortodoxa aos desígnios da Igreja Romana, mas não foi bem sucedido na capital oficialmente "latina" que era ainda habitada, em grande parte, por uma população grega que não queria abdicar das suas convicções e dos seus direitos. No entanto, o silêncio das fontes deste período não nos permite esclarecer muitas das potenciais realidades que terão envolvido o fenómeno da Quarta Cruzada.




Referências Consultadas:

segunda-feira, 29 de junho de 2015

As "revolucionárias" Ferramentas Pré-humanas detectadas no Quénia

Trata-se de mais uma descoberta arqueológica de extrema importância, desta feita, realizada por uma equipa de investigação norte-americana numa zona a oeste do Lago Turkana (Quénia). Nessa área, os investigadores acharam ferramentas em pedra lascada que somam 3,3 milhões de anos de antiguidade, datação que nos remete prontamente para a sua criação e manuseamento por parte de hominídeos. Este é, sem dúvida, um dado relevante para os especialistas da Pré-história, visto que até então o achado mais antigo de ferramentas materializara-se em Gona, na Etiópia, onde se detectaram objectos com 2,6 milhões de anos. Todavia, os resultados surpreendentes das recentes intervenções arqueológicas no Quénia fizeram recuar agora esse marco em 700 mil anos.
Esta nova introspecção arqueológica assume inequivocamente uma especial pertinência, dado que as ferramentas achadas então nas proximidades do Lago Turkana antecedem em 400 mil ou 500 mil anos os primeiros vestígios que assinalam o aparecimento do Género Homo. Por outro lado, atesta igualmente que os hominídeos já possuíam capacidades cognitivas e motoras para assim procederem ao fabrico de ferramentas em pedra, ideia defendida por Sonia Harmand (investigadora da Universidade de Stony Brook dos Estados Unidos que usufruiu da oportunidade de "operar" na área escavada). Em simultâneo, também é confirmada a hipótese de que estes já saberiam talhar a pedra, revelando destreza manual e algum "critério" na selecção de materiais.
De entre as ferramentas agora detectadas incluem-se, por exemplo, lascas afiadas, bigornas, martelos de pedra e percutores. Naturalmente, muitos destes instrumentos eram utilizados com recurso a uma elevada força manual, tornando-se essenciais para cortar e esmagar objectos ou carnes de animais caçados.
As origens inerentes à utilização da mencionada "Tecnologia da Pedra" são bem mais antigas do que se julgava anteriormente, precedendo mesmo o aparecimento dos primeiros humanos que afinal não foram pioneiros no seu aproveitamento.



A arqueóloga Sonia Harmand descobriru ferramentas com 3.3 milhões de anos, provavelmente usadas por uma espécia semelhante ao Australopiteco - mas mais antigo

Imagem nº 1 - A arqueóloga Sonia Harmand destacou-se nas escavações a oeste do Lago Turkana (Quénia). Aí descobriu ferramentas com 3,3 milhões de anos, provavelmente usadas por uma espécie semelhante ao Australopiteco, embora precedente a esta. Esta investigação refuta assim a tese de que o Homo Habilis tenha sido o primeiro fabricante de pedras.
Direitos da Foto - Jason Lewis / Rutgers University





Imagem nº 2 - Instrumento lítico desenterrado pelos investigadores.
Direitos da Foto - MPK-WTAP





Imagem nº 3 - Vista Geral da área das escavações.




Referências Consultadas:

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Apontamentos sobre o Castro de Ovil

No decurso da nossa visita ao Castro de Ovil, ocorrida no dia 13 de Junho de 2015, e que foi exemplarmente conduzida pelo arqueólogo Jorge Salvador, tivemos a oportunidade de recolher algumas anotações sobre a pertinência histórica deste povoado pré-romano. Dada a sua relevância para a história local, consideramos que seria interessante a publicação destes apontamentos. 
Na Idade do Ferro, as povoações do noroeste da Península Ibérica viviam em castros, isto é, aldeias fortificadas e situadas em colinas de onde poderiam usufruir duma vantajosa visibilidade. 
O Castro de Ovil situa-se no lugar do Monte que, por seu turno, se insere na Freguesia de Paramos (Município de Espinho, Distrito de Aveiro). De acordo com as balizas cronológicas avançadas pelo referido arqueólogo, este sítio conhece as suas origens no século IV a. C., e terá sido povoado até ao primeiro quartel do séc. I d. C. Julga-se que o seu abandono poderá estar directamente relacionado com a consolidação da ocupação romana na Hispânia.
No seu próprio sentido de configuração, o povoado estaria protegido a Norte e a Nordeste por fossos profundos (difíceis de trepar ou escalar) e pela ribeira de Rio Maior que, localizada a Sul, constituiria um obstáculo natural a potenciais intrusos. Estas especificidades asseguravam as condições mínimas de defesa, sobretudo na eventualidade de existirem bandos de salteadores que estivessem dispostos a assolar a zona. 
No interior do castro propriamente dito, destacavam-se as estruturas circulares (revestidas de xisto e argamassa) que outrora serviram de habitações indígenas. Algumas possuíam à sua frente um vestíbulo. 
Em termos económicos, esta comunidade pré-romana deveria garantir a sua auto-sustentabilidade através da recolecção, caça, pesca (proximidade de cursos de água tais como a ribeira de Rio Maior, a lagoa de Ovil - actual Barrinha de Esmoriz/Lagoa de Paramos, e o mar), agricultura (embora incipiente) e criação de gado (talvez caprino). 
O seu culto religioso seria essencialmente politeísta, talvez assente na veneração de deuses ou elementos ligados à Natureza (por exemplo, poderia ser o caso do Sol: o arqueólogo Jorge Salvador confidenciou-nos que terão existido gravuras inscritas em pedra que remetiam para uma eventual adoração daquela estrela central e nevrálgica do nosso Sistema Solar; caso se confirme esta leitura, então estaremos perante uma adoração de características animistas). Sabemos ainda que os indígenas recorriam à incineração dos seus mortos. 
Segundo uma estimativa avançada para o local, terão vivido, no auge da sua ocupação, cerca de 200 pessoas. A esperança média de vida deveria rondar, na época, os 35 anos. É evidente que estes números de pendor demográfico carecem de sustentação científica, mas parecem ser, à primeira vista, minimamente realistas.
Naquele espaço arqueológico, foram ainda recolhidos milhares de fragmentos de materiais antigos (cerâmicas indígenas, potes, panelas, talhas, vasos de suspensão, alguidares; cossoiros, pesos de tear, pesos de rede, pedaços de barro, escórias de fundição, mós de vaivém; objectos de adorno pessoal - contas de colar em pasta vítrea ou fíbulas em bronze; ponta de uma lança em ferro para fins bélicos). No entanto, não foram detectados vestígios romanos o que indicia muito provavelmente o abandono do castro numa altura precedente à chegada dos soldados de Roma àquela região em concreto.
Curiosamente, e pese a sua inequívoca antiguidade, o Castro de Ovil só seria finalmente (re)descoberto e identificado pelos investigadores contemporâneos em 1981. 
Situada próxima deste sítio arqueológico, encontramos as ruínas da extinta Fábrica de Papel "Castelo" (fundada em 1836 e desactivada posteriormente em 1975), envolvidas por um espaço verdejante envolvente que tornou agradável e convidativa a nossa digressão.





Imagem nº 1 - O primeiro núcleo habitacional do Castro que tivemos a oportunidade de visitar.
Foto da nossa autoria




Imagem nº 2 - Os alicerces de mais uma estrutura/habitação circular com o seu respectivo vestíbulo.
Foto da nossa autoria




Imagem nº 3 - O Castro de Ovil situa-se numa escarpa e foi erguido na Idade do Ferro.
Foto da nossa autoria




Imagem nº 4 - As ruínas da antiga Fábrica do Papel situam-se nas imediações do Castro de Ovil.
Foto da nossa autoria



Nota-extra - Há outros estudos que remetem as origens do Castro de Ovil para o século II a. C. (ou até para o século III a. C.). Também é importante assinalar que os achados até então recolhidos confirmam a existência dum artesanato autóctone. 



Referências Consultadas:

segunda-feira, 15 de junho de 2015

al-Mansur, o Grande Califa dos Almóadas


O Contexto


Durante quase todo o século XII, o processo da Reconquista Cristã alcançaria avanços determinantes que gradualmente reduziriam as posses territoriais dos muçulmanos na Península Ibérica. Reis como D. Afonso Henriques (Portugal), Afonso I (Aragão) e Afonso VII (Leão e Castela) haviam arrecadado vitórias fundamentais que empurravam, cada vez mais, para sul os seguidores de Maomé. O espírito de cruzada estava bem patente na Hispânia, e contava ainda com o patrocínio papal que encarava a presença muçulmana em solo europeu como uma ameaça. 
O declínio do al-Andalus (designação árabe para as posses que os islamitas detinham naquela região) era confirmado pelas acentuadas divisões internas vividas entre os responsáveis muçulmanos, sobretudo aquando da era desagregadora dos reinos taifas. 
Os almóadas emanciparam-se na região do Magreb (Norte de África) no decurso do século XII, contrariando o relaxamento, o decadentismo e a passividade dos almorávidas. Esta nova dinastia de origem berbere irá estender-se desde 1147 até 1269, tanto no Norte de África como na Península Ibérica. Nesta última frente, o seu objectivo visaria então a anulação do ascendente cristão no âmbito belicista.
Na última década do século XII, muitos dos propósitos teóricos desta nova linhagem materializariam-se através da acção dum califa enérgico e determinado: Abu Yusuf Ya'qub al-Mansur, aquele que viria mesmo a ser o mais bem sucedido entre os almoádas que intentaram inaugurar um período mais luzidio ou criativo no al-Andalus. A sua entrada em cena será suficiente para fazer cessar os progressos cristãos, e obrigar inclusive alguns reis peninsulares a recorrer à guerra defensiva.





Mapa nº 1 - A realidade do al-Andalus em 1157. Os almoádas herdaram o legado crítico dos reinos taifas, tentando agora resistir às recorrentes investidas cristãs.




Mapa nº 2 - O Império Almóada (1147-1269), preenchido/delimitado a azul escuro neste exemplar cartográfico digital, albergava a região do Magreb/Marrocos e ainda o sul da Hispânia (ou a parte "sobrevivente" do al-Andalus).




A vida de al-Mansur até a batalha de Alarcos


al-Mansur nasce em 1160. Era filho de Yusuf I (1163-1184), segundo califa dos almóadas que havia convertido Sevilha na capital do al-Andalus, além de ter procedido a construções fundamentais nesta notável urbe. Em 1184, o seu pai é morto aquando do cerco frustrado de Santarém, episódio em que se terá deparado com as tropas cristãs de D. Afonso Henriques de Portugal e de D. Fernando II de Leão. Como consequência natural, al-Mansur sobe automaticamente ao trono, e encontra-se logo disposto a vingar a morte de seu pai e a romper com o auge cristão na Península Ibérica.
O terceiro califa dos almóadas é um homem com relevante grau de cultura e visão estatal. Por exemplo, sabemos que escrevia em bom estilo árabe. O novo soberano entendia que era imperioso imprimir uma reforma vasta no seu império, de forma a combater a mediocridade, a incompetência ou a corrupção internas. Neste preciso contexto, não hesitará em repudiar o luxo e a relaxação de costumes, e reforçará igualmente o seu poder militar e a importância do capítulo disciplinar na sociedade.
A primeira demonstração bélica do seu califado acontece em 1187, ano em que aplica uma derrota estrondosa à dinastia almorávida dos Banú Ganiyah de Maiorca que governava as ilhas Baleares e que patrocinava a pirataria bem como acções militares que lesavam recorrentemente os interesses dos almóadas do Norte de África. Nos seus empreendimentos iniciais, al-Mansur teve então de viabilizar alguma estabilidade no Magreb, para assim mais tarde poder finalmente ingressar com as suas tropas na Península Ibérica, de forma a projectar uma campanha ambiciosa que, desde a morte de seu pai, motivaria o seu desejo de vingança mas também de glória e de restituição dos tempos áureos do al-Andalus que se haviam esfumado nas últimas décadas.
Entre 1190 e 1191, al-Mansur realiza a sua primeira campanha na Península Ibérica. Os resultados são logo evidentes - o califa almóada recupera várias praças para o Islão: Alcácer do Sal, Palmela, Almada, Torres Novas, Abrantes e Silves. Apodera-se ainda do castelo de Paderne. Évora tornou-se praticamente no único bastião cristão na região do Alentejo. Todavia, e no âmbito desta expedição, temos também de reconhecer a resistência heróica dos templários em Tomar que, liderados pelo experiente e reputado D. Gualdim Pais (cruzado português que outrora combatera na Palestina), souberam suportar uma terrível pressão exercida pelas forças muçulmanas que certamente compreenderiam um elevado número de soldados.
D. Sancho I não imprimiria o mesmo legado vitorioso que o seu pai D. Afonso Henriques evidenciara perante os seguidores do Islão. Como já podemos constatar, o reinado do Povoador (1185-1211) coincidiu, em boa parte, com a subida de al-Mansur ao trono dos almóadas. O soberano português que até então tinha "saboreado" a conquista de Silves e Alvor em 1189 (com a ajuda de cruzados nórdicos, flamengos, frísios e germânicos), acabou por perder, nos anos seguintes, estas duas praças e muitas outras terras a sul do seu reino, e não teve outra oportunidade senão "jogar à defesa" diante dum adversário que conseguiu unificar, centralizar e reforçar o seu próprio poder, organizando um exército poderoso e coeso que estava à altura dos desafios militares mais exigentes.
Entretanto, seria assinado um armistício, de curta duração, entre os principais intervenientes, o que permitiu a al-Mansur regressar triunfantemente ao Norte de África, mais concretamente aos seus aposentos em Marraquexe. 

  



Imagem nº 1 - Abu Yusuf Ya'qub al-Mansur assegura uma entrada vitoriosa na Península Ibérica, conquistando várias praças. Apenas fracassa em Tomar, onde os cavaleiros templários, liderados por D. Gualdim Pais, resistem com heroicidade a um assédio implacável.
Retirada de: http://passoapasso-abt.blogspot.pt/2012_09_17_archive.html, (III Festival de Estátuas Vivas de Tomar).




A Batalha de Alarcos (1195)



Com a expiração das tréguas, Afonso VIII, rei de Castela, voltou à carga e monitorizou uma campanha na província nevrálgica de Sevilha. Os governadores do al-Andalus imediatamente suplicaram por auxílio militar da parte do califa. Atendendo a esta urgente solicitação, al-Mansur sai logo de Marraquexe e atravessa novamente o Estreito de Gibraltar, liderando uma segunda expedição contra os cristãos.
O califa almóada desembarca em Tarifa a 1 de Junho de 1195. Nas semanas seguintes, consegue adquirir mais reforços, nomeadamente ao nível de tropas cedidas pelos governadores locais. Contou ainda com o apoio surpreendente de Pedro Fernandes de Castro, um nobre castelhano que se havia rebelado contra o seu próprio rei.
Por seu turno, D. Afonso VIII reúne o seu exército em Toledo e marcha em direcção a Alarcos, espaço situado nas proximidades do rio Guadiana. O rei de Castela temia o acesso imediato do inimigo ao vale do Tejo, e por isso, decidiu não esperar pelas tropas de auxílio dos reis Afonso IX de Leão e de Sancho VII de Navarra. Um erro do qual se arrependeria amargamente, e que só inverteria em 1212 na célebre Batalha de Navas Tolosa.
A 16 de Julho de 1195 as duas forças oponentes encontraram-se finalmente em Alarcos. Nesse momento, o rei cristão apercebe-se do real poderio do inimigo, mas mesmo assim recusa-se a fazer marcha atrás, opção que lhe permitiria aguardar pela chegada de novas tropas cristãs provenientes doutros reinos peninsulares. Por seu turno, al-Mansur recusou travar a batalha nesse mesmo dia porque denotava algum desgaste nos seus homens que haviam sido sujeitos a uma marcha penosa e atormentada pelos calores veraneantes. Por isso, conseguiu oferecer algum repouso aos seus homens antes do episódio bélico que decorreria a 18 de Julho.
Contando com uma cavalaria pesada, estimada em 8 mil homens, Afonso VIII é o primeiro soberano a tomar a iniciativa, ordenando uma carga assombrosa sobre as linhas almóadas. Os primeiros capítulos da batalha até são favoráveis aos cristãos que arrasam ou fazem dispersar algumas tribos berberes. O renomeado vizir Abu Yahya é mesmo morto em combate. O ascendente das tropas castelhanas parecia ser irreversível, mas tal fora uma ilusão que não perduraria por muito mais tempo.
De facto, a reacção muçulmana não se fez esperar. Os arqueiros almóadas começaram a causar baixas significativas nas forças de Afonso VIII, e a elite do exército árabe estava já preparada em partir para a ofensiva com o próprio califa à vista nas fileiras.
O rei castelhano Afonso VIII responde na mesma moeda e avançaria então com todas as forças para o engajamento derradeiro, mas os almóadas revelavam uma invejável coesão e continuavam a tirar máximo proveito da sua arquearia exímia, além de conquistarem novas posições nos flancos. Assolado por quase todos os lados, o soberano cristão, então envolvido na luta corpo-a-corpo, compreende imediatamente que tinha subestimado as capacidades reais do adversário, e contra a sua vontade, teve mesmo de se retirar da batalha em direcção a Toledo, acabando assim por ceder aos prudentes conselhos dos nobres cristãos mais experimentados que o acompanhavam. Para trás, ficaram a sua infantaria e um número considerável de cavaleiros de ordens militares que seriam irremediavelmente esmagados pelo impetuoso exército berbere que já sentia o sabor da vitória. Muitos soldados cristãos que não se retiraram com Afonso rumo a Toledo, tentaram encontrar refúgio numa fortaleza inacabada de Alarcos. Os fugitivos atropelam-se mortalmente uns aos outros só para conseguir a entrada no seu interior claramente congestionado, outros são mortos pelos ginetes que os perseguiam impiedosamente. Para acentuar ainda mais o drama, os cerca de 5 mil soldados que lograram entrincheirar-se na modesta fortificação não dispõem sequer de qualquer acesso aos víveres necessários (água e alimentos), e ao serem prontamente cercados pelas forças almóadas, não têm outra hipótese senão negociar a sua própria rendição. López de Haro, o líder da vanguarda do exército cristão, garantirá a sua própria liberdade tal como outros cavaleiros influentes, mas em contrapartida, deixará para trás alguns reféns e a promessa do pagamento dum elevado resgate aos vitoriosos.
Em jeito de balanço final deste episódio bélico, al-Mansur tinha alcançado o feito mais importante da sua carreira, ao derrotar um exército de proporções respeitáveis que ameaçava desferir já o golpe fatal na sobrevivência do al-Andalus. Naqueles anos, a fama do califa generalizou-se pelo mundo muçulmano, e o medo tomou mesmo conta dos líderes cristãos ibéricos. Há quanto tempo eles não enfrentavam um governante muçulmano tão determinado e enérgico no seu dever de protecção dos seus territórios?
Nos dois anos seguintes à batalha de Alarcos, al-Mansur promoverá incursões devastadoras na Estremadura, no Vale do Tejo, em La Mancha e até nas proximidades de Toledo. Alguns castelos destas regiões renderam-se ou foram mesmo abandonados. A estabilidade do reino de Castela foi inclusive ameaçada, contudo o califa acabaria por dar ênfase a outras prioridades, retirando-se para o Norte de África, mas sem antes firmar tréguas com os reinos de Leão, Navarra e Portugal.




Local: Alarcos (terra localizada a sul de Toledo; pertence à província de Ciudad Real)
Data: 18 de Julho de 1195
Forças Beligerantes
Kingdom of Castile Arms.svg

Reino de Castela


 Flag of Almohad Dynasty.svg


Império Almóada
Comandantes/Generais
D. Afonso VIII
Abu Yusuf Ya'qub al-Mansur
Número de Combatentes
25 000
30 000
Baixas Estimadas
Estatística não apurada, mas o número de mortos e de prisioneiros caídos nas mãos do adversário deve ter sido deveras elevado.
Estatística não apurada, embora o exército almóada tenha sofrido algumas baixas, sobretudo nos primeiros momentos da batalha.
Resultado: Os almóadas derrotam as forças cristãs, forçando o rei castelhano D. Afonso VIII a retirar-se da batalha. al-Mansur consolidava assim a sua “fama” de califa imparável no campo de batalha.


Tabela nº 1 - As estatísticas inerentes à batalha de Alarcos (1195).




Imagem nº 2 - A reconstituição do posicionamento táctico inicial das duas forças no terreno.
Veja-se ainda: http://www.balawat.com/




Imagem nº 3 - O momento em que as forças almóadas começam a cercar o adversário, e a controlar assim as operações na batalha de Alarcos.
Veja-se ainda: http://www.balawat.com/





Imagem nº 4 - Os arqueiros muçulmanos desempenharam um papel decisivo na batalha de Alarcos, causando significativas baixas no exército cristão.




Final de Vida e Posterior Legado


O final da sua existência irá pautar-se por uma condição enferma extenuante, talvez já herdada da derradeira campanha conduzida em território hispânico, e que se agravaria gradualmente, quando já se encontrava em Marrocos. Nos derradeiros momentos da sua vida, entregou-se à devoção religiosa, delegando os assuntos de estado no seu filho Muhammad an-Nasir que seria o seu sucessor. No ano de 1199, a vida de al-Mansur expiraria em Marraquexe (Marrocos), após 39 anos de vida e 15 anos de sólido califado. O seu falecimento seria um alívio para os soberanos cristãos ibéricos que, muito em breve, voltariam à ofensiva, desta feita, para serem inteiramente bem sucedidos, invertendo o resultado verificado em Alarcos. A batalha de Navas Tolosa (16 de Julho de 1212) devolverá o ascendente decisivo aos cristãos que, comandados pelos reis Afonso VIII (Castela), Sancho VII (Navarra) e Pedro II (Aragão), derrotarão o filho de al-Mansur nesse confronto crucial. A estabilidade política que fora consubstanciada no tempo de al-Mansur iria ruir nos anos seguintes, e o al-Andalus voltaria a caminhar para um cenário de extinção que parecia certo e inevitável.
Consideramos redutor analisar o governo de al-Mansur (1184-1199) apenas pelo prisma político, pelo que enunciaremos agora determinadas iniciativas levadas a cabo noutros sectores de actuação. No âmbito social e cultural, o califa almóada promoveu actividades religiosas nos meios sociais e intelectuais. Ordenou a construção de numerosos edifícios civis e religiosos no al-Andalus e em Marrocos. Por exemplo, ele mandou construir as mesquitas de Koutoubia e El Mansouria em Marraquexe, e desempenhou papel importante na reconstrução do Casbá dos Oudaias, sito em Rabat. Já em Sevilha, seria erguido o célebre e altivo minarete junto à respectiva mesquita (espaço que corresponde à actual Giralda, esta já adequada à posterior ocupação cristã) que, sob a direcção prévia do arquitecto Ahmad Ben Baso, conheceria um impulso definitivo na sequência moralizadora gerada pela vitória árabe em Alarcos. Com uma altura inicial de 82 metros, esta estrutura tornou-se no edifício mais alto da Europa daquele tempo. Pouco tempo depois, e inspirada neste mesmo modelo arquitectónico, seria também erguida a Torre Hassan em Rabat.
Mas nem tudo foi um mar de rosas. O filósofo e médico Averróis (1126-1198), especialista na interpretação do pensamento aristotélico e seguidor duma visão essencialmente racionalista, foi banido por al-Mansur, cujo carisma era conservador e ortodoxo e ainda defensor acérrimo dos princípios do Corão. Os escritos daquele erudito foram queimados, apesar do seu legado cultural ter sido preservado à posteriori.
Em suma, al-Mansur conseguiu imprimir a estabilidade necessária e revelar, em simultâneo, uma visão admirável que produziu frutos no âmbito político, militar e cultural. O califa almóada travou, durante o seu governo, o ímpeto da Reconquista, e promoveu uma vasta obra material, porém o cenário acabaria por mudar nos anos posteriores à sua morte.




La Giralda August 2012 Seville Spain.jpg

Imagem nº 5 - A Giralda de Sevilha (Património da Humanidade) conhece as suas verdadeiras origens no imponente minarete construído em finais do século XII, aquando do califado de al-Mansur. Com a ocupação cristã a partir de 1248, a mesquita será transformada em catedral, e o minarete acabará por ser designado como Giralda (é nesta fase que o terço superior da torre será implantado para albergar os sinos e conferir uma identidade cristã). 
Retirada do Wikipédia





Imagem nº 6 - A Torre Hassan começou a ser construída na cidade de Rabat em 1195.




Referências Consultadas:

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Murasaki Shikibu, a romancista medieval japonesa

No decurso da era medieval, os direitos e as capacidades culturais da mulher encontravam-se completamente desacreditados ou até renegados por uma sociedade estratificada e mergulhada em inúmeras desigualdades. Todavia, houve casos excepcionais de sucesso que, na altura, já tendiam a refutar tais estereótipos infundados. Neste contexto, registamos histórias de pessoas do sexo feminino que conseguiram elevar a sua erudição, deixando um legado valioso à sua civilização e vencendo assim a discriminação humilhante a que estavam votadas.
No país do sol nascente, Murasaki Shikibu alcançaria o reconhecimento universal daquilo que seria o seu imprescindível contributo para a História da Literatura. Nascida em Heian-kyō (actual Quioto) por volta de 973 (ou 978!), era filha do poeta e governador de província de Echizen - Fujiwara no Tametoki. Pertencia assim a uma família aristocrática que também já tinha dado cartas na cultura - por exemplo, o seu bisavô Fujiwara no Kanesuke (877-933) tinha sido igualmente um poeta de notável gabarito. 
Desde a sua infância, Murasaki demonstrava inteligência e perspicácia, assimilando os conhecimentos mais depressa do que o seu irmão. Por vezes, o seu pai desabafava "Se tu fosses apenas um rapaz, como eu ficaria tão contente", porém ele nunca a proibiria de estudar com o seu irmão, permitindo mesmo a leitura de alguns clássicos de língua chinesa que eram considerados inadequados para as mulheres do Período Heian (794-1185). A jovem teve ainda oportunidade de estudar a caligrafia, poesia e música japonesas. Em matéria de perfil, revelou, desde cedo, uma forte personalidade, o que associado à sua alta intelectualidade (considerada absolutamente sinistra para uma mulher), lhe granjearia poucas amizades ao longo da sua vida. Assim sendo, lidou com os olhares indiscretamente censuradores da sociedade do seu tempo, mas nenhuma destas contrariedades a impediria de vencer na vida. A sua educação tinha sido privilegiada, e o seu talento ou dom para a escrita nunca a abandonariam até ao final da sua vida. Estes dois últimos "ingredientes" eram raríssimos no mundo medieval mas constituiriam ferramentas preciosas para que alguns ousassem triunfar diante duma realidade bastante adversa.
Quando alcançou a fasquia etária dos 20 anos, Murasaki casou-se com Nobutaka - seu primo afastado e de idade já algo avançada. Teve uma filha em 999, mas perderia o seu marido dois anos depois, em 1001, devido a uma epidemia de cólera que afectou o país. 
A família imperial Fujiwara logo que teve conhecimento da sua erudição e utilidade, convidou-a a integrar a corte nipónica, como de facto veio a suceder-se enquanto dama-de-companhia às ordens da imperatriz Shōshi (também conhecida como Akiko). Ao frequentar essa nova realidade, Murasaki Shikibu começou a redigir um diário que manteve junto de si durante dois anos. Aí descreveu os pormenores da vida cortesã, lamentando profundamente o seu carácter frívolo e concorrencial. Também confidenciou que evitava expressar-se em língua chinesa (adoptada como oficial no âmbito estritamente governamental), cuja pronunciação por parte duma mulher era inaceitável naquele arquipélago asiático.
Todavia, a sua obra mais notável foi "O Conto de Genji" ("Genji Monogatari") baseado na vida preenchida de aventuras e amores dum príncipe fictício de seu nome Genji. Este seu projecto marcante foi talvez composto entre os anos de 1001 e 1010, ou seja, teria começado a lavrá-lo logo após a morte de seu marido e só o terminaria quase uma década depois (no entanto, há outros estudiosos que defendem que só terá concluído a redacção nos anos derradeiros da sua existência, remetendo aquela composição prosaica para uma duração cronológica superior). Nesta sua longa e incontornável narrativa, recheada de inúmeras personagens, a escritora inspirar-se-ia novamente nos mais ínfimos detalhes que caracterizavam as acções e comportamentos em voga das classes mais elevadas da sua sociedade, não hesitando em denunciar a decadência, a vaidade, a falsidade e os seus "vazios morais". Os "rolos manuscritos" de Murasaki perpetuariam a sua mestria intelectual, ao nível do pormenor descritivo e do exímio retrato que apresentou do seu povo naquele período mais remoto. Sem surpresa, os seus textos foram posteriormente traduzidos em diversos idiomas, merecendo a atenção de vários estudiosos e investigadores que, até aos dias de hoje, se renderam à sua criatividade sublime. De acordo com muitos especialistas, Murasaki terá sido a primeira romancista da História da Humanidade, e a sua vasta obra ainda se reveste duma invejável actualidade, sobretudo nos meios intelectuais orientais. Murasaki terá ainda concebido a sua própria colecção de poemas, onde voltou a revelar originalidade e uma infindável sabedoria.
Pouco se apurou sobre os derradeiros anos de vida da dama Murasaki. Julga-se que, em algum momento, terá abandonado a corte e ingressado num convento budista (Ishiyama-dera?). É ainda possível que tivesse procurado zelar pelo bem-estar da imperatriz Shōshi (o marido desta - o imperador japonês Ichijō tinha perecido em 1011).
Supõe-se que esta célebre escritora japonesa teria falecido por volta dos anos de 1025 ou 1026 (também subsistem teorias que sugerem as datas de 1014 e 1031 para o seu óbito), pressentindo, nos seus últimos escritos, acontecimentos violentos no futuro, muito devido àquilo que ela considerava ser fruto da degradação das classes superiores (as suas visões ou instintos não estavam muito longe da verdade, pois em 1192, os "samurais" iriam rebelar-se e, por conseguinte, procederiam à criação dum governo feudal e militar encabeçado por um xogum, oficial belicista que esvaziaria assim os poderes do imperador).
Murasaki evidenciou-se pela sua astúcia, carisma, coragem e determinação. Só assim abriria as portas da glória, ultrapassando todos os penosos obstáculos que se lhe podiam deparar na era medieval.





Imagem nº 1 - Murasaki Shikibu [973-1025] retratou a sociedade nipónica (nomeadamente as classes superiores) no Período Heian.






Imagem nº 2 - A Dama Murasaki Shikibu deixou uma herança vasta à Literatura Mundial.
Retirada de: http://womenandphilosophyproject.blogspot.pt/2013/03/murasaki-shikibu.html




Afirmações Célebres de Murasaki Shikibu:



"O mundo sabe que não; mas a ti, Outono, tenho de te confessar: o vento ao anoitecer apunhala profundamente o meu coração "


"Nenhuma arte ou aprendizagem deve ser continuada sem entusiasmo... E a aprendizagem de qualquer arte irá certamente recompensar mais ou menos de forma generosa o esforço feito em estudá-la"


"Bem, nós nunca esperávamos isto! Todos dizem: «Ninguém gostava dela. Todos eles disseram que ela era pretensiosa, estranha, de difícil abordagem, espinhosa, também gostava de seus contos, altiva, propensa a versificar, desdenhosa, rabugenta, e arrogante. Mas quando você a encontra, ela é estranhamente mansa, uma pessoa completamente diferente! Que vergonha! Será que eles realmente olham para mim como uma coisa maçante, eu me pergunto? Mas eu sou o que eu sou. "


"Em assuntos de arte a modéstia não é uma virtude"


"É inútil falar com aqueles que não entendem nada e que são problemáticos em falar com outros que criticam a partir de um sentimento de superioridade. As pessoas unilaterais são especialmente problemáticas. Poucas são versadas em muitas artes e a maioria agarra-se estreitamente à sua própria opinião. "




Notas-extra - Além das dúvidas em torno das balizas cronológicas que delimitaram a vida desta personalidade que tentamos aqui biografar, também ressalvamos que o seu nome original (ou de nascimento) é-nos totalmente desconhecido. Os investigadores acreditam que Murasaki é o nome derivado duma heroína do seu romance, enquanto que o apelido Shikibu reflecte a posição ou título de seu pai no "ministério" dos rituais. No entanto, foram estes os dois nomes que lhe assegurariam uma identidade na História. Relativamente à sua família, denotamos ainda uma ligação emparentada, embora seguramente distanciada e remota, ao clã poderoso dos Fujiwara.  



Referências Consultadas:



quarta-feira, 20 de maio de 2015

Ladislau, o rei santo da Hungria


Um cenário atribulado no início da sua vida


Filho do príncipe Bela e de Riquilda, Ladislau nasceu na Polónia, por volta do ano de 1046. Naquela altura, a conjuntura não era nada promissora visto que os conflitos internos pelo poder eram frequentes e minavam a estabilidade. Nos seus primeiros anos de vida, Ladislau testemunhara a rivalidade feroz que o seu pai Bela mantinha com o seu tio e rei da Hungria - André I. 
A disputa bélica pelo trono magiar até parecia ter ficado apaziguada aquando da promessa de André que, sendo o soberano em exercício, estaria disposto em transmitir, por herança, o ofício régio ao seu irmão Bela. Contudo, o nascimento de Salomão, primeiro filho do rei André, em 1053, inverteu este processo de entendimento, pois o líder magiar logo procurou defender os interesses do seu filho numa eventual sucessão, postura que decerto irritou Bela. O recurso às armas voltou então a verificar-se. Em 1060, dá-se uma dura batalha junto ao rio Tisza, na qual o soberano André é derrotado pelo príncipe Bela. Apesar da fuga, o rei húngaro tinha sofrido ferimentos que lhe seriam fatais e, assim sendo, viria a perecer em Moson nesse mesmo ano. 
Como a monarquia húngara era electiva, Bela (pai de Ladislau) seria então convidado a suceder na liderança do reino, até porque Salomão (filho do rei André I) era ainda demasiado jovem para assumir tais responsabilidades. Todavia, o reinado de Bela seria curto e terminaria logo em 1063, após o derrube inesperado do suporte de madeira do seu trono, acidente que lhe causaria diversos ferimentos que seriam também suficientes para ditar a sua morte. Coincidindo com o ano do falecimento daquele rei, chegariam igualmente as forças de apoio germânicas lideradas por Salomão que retornava agora para reclamar os seus direitos. Os três filhos de Bela - Géza, Ladislau e Lampert tiveram de procurar refúgio por algum tempo fora do reino. Contudo, em 1064, este trio de príncipes regressou com um exército polaco e conseguiu então firmar um acordo com o seu primo e novo rei Salomão que lhes cedeu uma porção territorial no nordeste do reino húngaro.  
Durante este processo, Ladislau não hesitou em reconhecer a legitimidade real de Salomão, até porque nunca aceitara bem o facto do seu pai (Bela) ter sido responsável directo pela morte do seu tio - o rei André I.
Apesar de algumas façanhas militares (sobretudo contra invasores cumanos, pechenegues e bizantinos), o rei Salomão acabaria por revelar uma conduta déspota, sanguinária e cruel, o que causou indignação popular. A nobreza húngara apresta-se à rebelião para defender os seus direitos, não se revendo na gestão autoritária do filho de André. Entretanto, o mal-estar e a desconfiança de Salomão também visará os seus próprios primos, não hesitando em planear o assassinato destes, embora os seus intentos tivessem saído frustrados. A rivalidade interna acentuava-se então vertiginosamente. No campo diplomático, o titular do reino da Hungria conta com o apoio dum aliado de peso ao qual está disposto a prestar vassalagem - o Sacro Império Romano Germânico. Todavia, os filhos de Bela não se deixam ultrapassar neste cômputo e conseguem obter o auxílio de polacos, russos e ainda do Papa Gregório VII (1073-1085) que mantinha um braço-de-ferro com as instâncias imperiais alemãs por causa da querela das investiduras. 
A guerra travada entre as duas facções culminaria na batalha decisiva de Mogyoród (1074), a qual seria vencida pelos irmãos Géza e Ladislau que, no pós-batalha, poupariam a vida a Salomão. Enquanto irmão mais velho, Géza seria coroado como novo rei, porém só governaria por três anos, tendo morrido em 1077. Abriam-se as portas do poder para Ladislau...





Imagem nº 1 - A Batalha de Mogyoród (1074) terminará com o reinado autoritário de Salomão, filho do rei André I, abrindo em simultâneo as portas do poder real para Géza e Ladislau, filhos do rei Bela. 
 Gravura da Chronicon Pictum (século XIV).




Ladislau I, o modelo de rei-cavaleiro (1077-1095)


Após a morte de Géza, os nobres húngaros voltaram a reunir-se para determinar quem seria o sucessor, e a escolha recairia sobre Ladislau. A sua sobriedade, sentido de justiça e elevada conduta moral eram virtudes apreciadas por parte da assembleia de barões influentes. Mesmo assim, Ladislau só aceitou a coroa após inúmeras pressões nesse sentido, visto que considerava ainda o seu primo Salomão (ainda vivo!) como herdeiro legítimo ao trono.
Chegado ao poder em 1077, Ladislau promoveu o crescimento do Cristianismo, tendência que se espelhou no decurso do seu reinado através da construção de várias igrejas e mosteiros (podemos aqui destacar a criação da célebre basílica de Nossa Senhora de Waradin). Foram ainda fundadas duas dioceses - a de Várad e a de Zagreb. Redefiniu igualmente os deveres que deveriam nortear os bispos e demais dignidades eclesiásticas. Ladislau sabia articular a sua hábil acção tanto nos assuntos laicos como nas temáticas eclesiásticas, o que lhe granjearia respeito por parte das mais diversas esferas da sociedade. Na sua vida privada, o soberano jejuava constantemente e orava por largas horas, o que confirmava a sua sólida formação cristã, talvez herdada por via da educação maternal
No campo da política interna, privilegiou a pacificação total do seu território, devolvendo harmonia ao reino após vários anos de tensão. Elaborou leis rígidas sobre furtos e assassínios, e demonstrou ainda solidariedade para com os órfãos e mais carenciados.
Ao nível da diplomacia no exterior, Ladislau continuava a reconhecer o Sacro Império Romano Germânico como principal inimigo do seu reino, e por isso, não hesitará em reforçar a aliança com o Papa Gregório VII e com Rodolfo da Suábia, adversário directo do imperador Henrique IV. Após ter ficado viúvo, Ladislau contrairia um segundo matrimónio com Adelaide, filha de Rodolfo, da qual terá algumas filhas, entre elas - Santa Piroska da Hungria (também conhecida como Irene).
Ladislau sempre procurou manter uma convivência sensata com o seu primo Salomão. Concedeu-lhe uma pensão proporcional ao seu nascimento privilegiado, e enviou ainda altos prelados ou homens de Estado que o tentavam chamar à razão e aos caminhos da fé cristã. O monarca húngaro estava inclusive disposto a devolver-lhe o trono, caso ele imprimisse uma postura bem mais assertiva e equilibrada. Mas Salomão não tinha mudado, e por isso, não tardaria em envolver-se em conspirações para destronar o rei santo. Contudo, os seus planos foram descobertos e Ladislau mandou-o encerrar numa praça forte, mas não por muito tempo. De acordo com uma lenda então narrada, Ladislau queria trasladar e exumar os restos mortais do antigo rei magiar Estêvão (este governara entre os anos 1000 e 1038; seria mesmo considerado o primeiro grande promotor do Cristianismo na Hungria), porém os seus operários não conseguiam sequer abrir o túmulo de pedra. Uma monja do convento de Kökénysomyló terá aconselhado o rei a libertar Salomão e a devolver-lhe todos os seus bens, para que as intervenções acabassem por ser bem sucedidas. Foi o que efectivamente aconteceu. Salomão foi libertado e morreria poucos anos depois (talvez em 1087), desconhecendo-se os detalhes das suas últimas vivências. De acordo com uma narração lendária (embora não fundamentada do ponto de vista científico), ele teria possivelmente seguido uma vida solitária em regiões florestais, acabando por abraçar o Cristianismo e demonstrando ainda arrependimento pelos seus anteriores desmandos. Quanto às contrariedades em torno do túmulo real de Estêvão, foram finalmente contornadas, tornando assim possível o transporte das suas relíquias, o que se traduziu numa crescente veneração à sua figura. Segundo se julga, foi encontrada ainda a sua mão direita que se achava desaparecida no reino, a qual seria colocada no novo mosteiro de Szentjobb que havia sido fundado para o efeito. Muitos populares passaram a relatar milagres que seriam da autoria de Estêvão, pelo que o rei Ladislau tentou influenciar a sua canonização bem como a de seu filho - o príncipe Emerico (ou Emérico), e ainda de outros três bispos (Gerardo Sagredo, Bystrík e Buldus), vítimas dum terrível levantamento pagão ocorrido em 1046. Todos os processos conheceram luz verde da Santa Sé no ano de 1083. Graças a estas cinco canonizações, a Hungria consolidava assim a fé cristã e reforçava ainda mais a estreita ligação com a Santa Sé - aliás, estas foram as metas (religiosas e políticas) que Ladislau pretenderia almejar no seu reinado. Neste caso concreto, é de salientar ainda a magnanimidade do monarca húngaro que não hesitou em apoiar este intenso culto em torno de São Estevão, o qual outrora teria presumivelmente mandado cegar Vazul, avô de Ladislau, nos inícios da década de 1030.
Apesar da sua índole moderada e piedosa, Ladislau teve que enfrentar alguns ataques provenientes do exterior, nomeadamente por parte de pechenegues e cumanos, tribos bárbaras que continuavam a semear o pavor nas zonas fronteiriças nas décadas de 1070, 1080 e 1090. Bem sucedido nas batalhas, o soberano magiar, caracterizado pela sua alta estatura e robustez física, foi prontamente visto como um defensor do mundo cristão e em particular do reino húngaro, sendo ainda admirado pela sua benevolência para com os invasores pagãos, pois preferia que estes fossem cristianizados em vez de chacinados. A partir do reinado de Ladislau, o estado magiar experimentará agora alguma acalmia face aos eventuais perigos oriundos do exterior, cenário que se manterá até 1241, ano da aterradora invasão mongol.
No ano de 1091, a morte do derradeiro rei da Croácia - Dmitar Zvonimir, casado com Helena (irmã de Ladislau), permitiu ao soberano magiar ocupar grande parte daquela região bem como da Dalmácia, proporcionando assim a expansão dos seus domínios. Preocupado com a cristianização destas novas áreas, estabeleceria a já mencionada sede episcopal de Zagreb.
Ladislau falecerá no dia 30 de Julho de 1095, deixando para trás 18 anos prósperos de reinado. Segundo rumores talvez circulados postumamente, teria sido convidado, por altura da Páscoa desse mesmo ano, para liderar o projecto da Primeira Cruzada, contudo é pouco provável que tal tivesse acontecido, visto que o seu falecimento ocorreria meses antes do Concílio de Clermont, onde o Sumo Pontífice Urbano II convocaria toda a Cristandade para aquilo que seria o início das peregrinações armadas rumo à Ásia Menor, de modo a liberar a Terra Santa do jugo muçulmano.
Em jeito de balanço do seu governo, é indesmentível que Ladislau terá assumido, com sucesso, o protótipo ou modelo de "monarca cristão", tal como já havia sido evidenciado no passado pelo reputado imperador Carlos Magno (742-814). Não só promoveu o rápido desenvolvimento do Cristianismo na Hungria (dando continuidade à missão que já tinha sido iniciada pelo rei santo Estêvão), como ainda recorreu à conversão ou à acção bélica para tentar extinguir o paganismo. Ladislau procurou ainda incutir virtudes morais na sua sociedade, preocupando-se com a estabilidade e integridade do seu estado.
Muito devido à popularidade e legado que havia assim deixado, este rei magiar passaria a ser venerado, e em breve, muitos cidadãos húngaros e polacos começaram a atribuir-lhe milagres supostamente realizados por sua intercessão. No ano de 1192 (quase um século depois da sua morte), Ladislau seria canonizado pelo Papa Celestino III, após solicitação do rei húngaro da altura - Bela III.
Actualmente, o culto de São Ladislau permanece activo na Hungria (onde reinou) e na Polónia (onde nasceu), sendo patrono de inúmeras igrejas. O dia da sua festividade é 27 de Junho.




King St. Ladislaus.jpg

Imagem nº 2 - Relicário medieval do rei santo Ladislau I na Catedral de Győr.




A knight riding a horse and taking a lance

Imagem nº 3 - Ladislau em perseguição a um guerreiro cumano que levava consigo uma menina como refém. Segundo a lenda, o rei teria conseguido libertá-la das suas garras.
Mural da Igreja of Székelyderzs (Roménia)





       Imagem nº 4 - Estátua do Rei Ladislau I em Püspökszentlászló (Hungria)
Retirada do Wikipédia




Nota-Extra: Ladislau foi sucedido no poder pelo seu sobrinho Colomán (ou Colomano), filho de Géza.


Referências Consultadas:


terça-feira, 5 de maio de 2015

A Queda dum Colosso Futebolístico em Superga

A história também se constrói em torno de notáveis instituições que marcaram uma página de ouro no Desporto Mundial. O Torino Football Club faz seguramente parte da lista restrita de clubes de futebol que ainda hoje se podem dar ao luxo de afirmar que já tiveram ao seu dispor uma das melhores equipas de todos os tempos. Esta colectividade desportiva italiana só não prolongou por mais tempo os seus feitos incríveis, porque uma tragédia se abateria sobre os seus jogadores que até então tinham recebido o elogioso epíteto de "invencíveis".
O Torino Football Club foi fundado em 1906 na cidade de Turim. O seu nascimento deveu-se, em muito, à dissidência de alguns adeptos que até então apoiavam a Juventus, o principal clube daquela urbe. Como prova flagrante desta ocorrência, temos conhecimento de que o fundador do Torino, o empreendedor suíço Alfred Dick, tinha abandonado a presidência da Juventus para viabilizar a criação deste novo projecto desportivo. Não foi seguramente em vão! O Torino ainda hoje existe, e ostenta no seu palmarés: 7 Campeonatos de Itália, 5 Taças de Itália e 1 Copa Mitropa (dados actualizados para o ano de 2015). 
Este clube, cujo logotipo oficial privilegia a representação dum touro, conheceria os seus tempos áureos na década de 1940, onde conquistariam 5 dos seus 7 campeonatos. As épocas de 1942–43, 1945–46, 1946–47, 1947–48 e 1948–49 trouxeram glória ao Torino que, na altura, contava com a base da poderosa selecção italiana. Nessa temível equipa pontificavam atletas de elevada categoria tais como Valentino Mazzola (capitão, goleador da equipa e ainda um dos melhores da sua geração), Aldo Ballarin, Danilo Martelli, Mario Rigamonti, Guglielmo Gabetto, Ezio Loik, entre outros. As goleadas aos adversários sucediam-se, e a equipa granjeava méritos atrás de méritos dentro das quatro linhas. Apenas o Céu parecia ser o limite para estes jogadores que perfumavam com classe os campos de futebol, levando assim multidões ao delírio. Contudo, uma trágica e inesperada ocorrência colocaria um ponto final em todo este clima de progresso e euforia.
No dia 27 de Fevereiro de 1949, a selecção italiana (com seis jogadores do Torino no onze inicial) derrotou a portuguesa por 4-1 num particular realizado em Génova. Os capitães de Portugal, Francisco Ferreira (atleta do Sport Lisboa e Benfica), e de Itália, Valentino Mazzola (a estrela do Torino FC), desenvolveram mesmo uma grande amizade aquando deste encontro desportivo. Neste contexto de mútua harmonia, o Torino seria convidado a participar posteriormente num jogo amigável em Portugal, onde defrontaria o Benfica, clube que pretendia homenagear o seu célebre jogador Francisco Ferreira. Entre avanços e recuos, a data do jogo foi definida para o dia 3 de Maio, e os italianos aterrarão em Lisboa a 1 de Maio.
A partida realizou-se no Jamor e contou com uma assistência total de 40 mil pessoas. O jogo foi emocionante, terminando a vitória por sorrir à equipa portuguesa nuns renhidos 4-3. Houve ainda tempo para confraternização entre ambas as equipas no Parque Mayer, o que evidenciava um bom relacionamento entre todos os intervenientes.
Todavia, a viagem de regresso assumiria um desfecho dramático. No dia 4 de Maio, a aeronave Fiat G.212, que transportava a comitiva do Torino de regresso a casa, embateria estrondosamente contra uma das torres da Basílica de Superga (arredores de Turim), causando a morte dos 31 tripulantes (18 jogadores, 5 dirigentes/técnicos, 1 organizador, 3 jornalistas e 4 tripulantes). Acredita-se que a fraca visibilidade, motivada pelo forte nevoeiro, terá estado por detrás do acidente fatal. A equipa dos magníficos resultados, o Grande Torino (como era assim apelidado) conhecia o fim da sua hegemonia da forma mais cruel e ingrata.
No dia do funeral, mais de 500 mil pessoas encheram as ruas de Turim para prestar a sua última homenagem aos jogadores atraiçoados pelo destino bem como aos restantes membros que seguiam na aeronave.
O Torino foi imediatamente proclamado pela Federação Italiana como o campeão da temporada de 1948-1949. Era oficialmente o seu pentacampeonato (recordamos que as épocas de 1943/44 e de 1944/45 não foram disputadas devido à Segunda Guerra Mundial, e por isso, são omitidas da sequência). A equipa recorreu às camadas jovens para se apresentar em campo nas últimas quatro jornadas, gesto que também foi imitado, em jeito de fair-play, pelas restantes equipas da sua liga.  
O clube dos "touros" só voltaria a ser campeão na época de 1975/1976, curiosamente o seu último campeonato alcançado (designado especificamente em Itália como "scudetto"). Como registo de mera curiosidade, a sua primeira liga foi conquistada na temporada de 1927-1928.
Onde teria ido esta equipa do Torino se não tivesse sofrido o maior dos azares naquele voo fatídico?





Imagem nº 1 - O Grande Torino - a equipa de futebol que "reinou" em Itália no decurso da década de 1940, e que assistira a um final trágico no dia 4 de Maio de 1949.





Imagem nº 2 - O embate da aeronave na Basílica de Superga (4 de Maio de 1949) causou a morte de todos aqueles que integravam a delegação do Torino FC que havia previamente participado num jogo amigável com o Benfica em Portugal.





Imagem nº 3 - O Funeral ou o Último Adeus prestado às vítimas, momento que motivou a comparência de milhares de pessoas.





Imagem nº 4 - Memorial com o nome das vítimas do trágico acidente de Superga.



Nomes das 31 vítimas do desastre - Valerio Bacigalupo, Aldo Ballarin, Dino Ballarin, Emile Bongiorni, Eusebio Castigliano, Rubens Fadini, Guglielmo Gabetto, Ruggero Grava, Giuseppe Grezar, Ezio Loik, Virgilio Maroso, Danilo Martelli, Valentino Mazzola, Romeo Menti, Piero Operto, Franco Ossola, Mario Rigamonti, Giulio Schubert (18 jogadores do Torino FC); Arnaldo Agnisetta, Ippolito Civalleri, Egri Erbstein, Leslie Lievesley (treinador)e Ottavio Corina  (5 técnicos/funcionários do Torino FC); Andrea Bonaiuti (1 organizador) Renato Casalbore, Renato Tosatti, Luigi Cavallero (3 jornalistas); Pierluigi Meroni, Celestino D 'Inca, Cesare Biancardi, Antonio Pangrazi (4 membros da tripulação)



Nota-extra - Francisco Ferreira, jogador homenageado pelo Benfica naquela partida amigável, guardaria remorsos da posterior tragédia para sempre. O atleta que até tinha sido alvo de cobiça do Torino que o desejava contratar (embora esse interesse tivesse ficado sem efeito com tudo o que acontecera entretanto), tentou aliviar a sua consciência enviando 50 contos às famílias das vítimas, e colocou ainda na sua sala pessoal de troféus uma imagem da equipa sensacional do Torino num quadro preto.


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Referências Consultadas: