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domingo, 2 de novembro de 2014

A Defesa Heróica de Tiro (1187)


Contexto

Tiro tinha sido uma das últimas terras conquistadas pelos cruzados, no pós-Primeira Cruzada. A sua tomada ocorreu em 1124, com o auxílio militar duma frota veneziana, no decurso do reinado de Balduíno II. Desde então, continuou a assumir uma vocação comercial bastante apelativa aos mercadores europeus, nomeadamente italianos. 
A cidade revelava ainda uma história invejável. Foi fundada no 3º milénio a. C., o que revela a sua indiscutível antiguidade, e assumiu um papel determinante na era fenícia (sobretudo nos tempos de Hiram I no séc. X a. C.), sendo conquistada, mais tarde, pelas tropas macedónias de Alexandre, o Grande, em 332 a. C., após um longo e desgastante cerco de 7 meses. De acordo com a tradição cristã, São Paulo de Tarso (5-67 d. C.) teria passado cerca de uma semana nesta cidade.
Em suma, pela sua tradição comercial e histórica e consequente localização estratégica, Tiro seria uma das principais cidades do reino medieval cristão de Jerusalém. Todavia, a investida do sultão aiúbida Saladino em 1187 originará a queda de várias praças latinas do Levante. A cidade será alvo de dois cercos, embora o derradeiro assédio militar tivesse sido notoriamente o mais relevante.




Imagem nº 1 - As ruínas de Tiro, cidade considerada como Património Mundial da UNESCO. Alcançara o auge na época fenícia e, na era das cruzadas, estava incorporada no reino cristão de Jerusalém que ameaçava ruir definitivamente, dados os últimos avanços militares de Saladino.
Retirada de: https://www.pinterest.com/pin/338051515753726715/, (Afixada por Darlene Talley/Pettit Pettit)




Rendição bem encaminhada até à chegada do Marquês


Depois da batalha de Hattin, os responsáveis muçulmanos apresentavam duas alternativas aos aglomerados francos locais: ou rendiam-se pacificamente (e a sua vida seria poupada) ou arriscavam-se a tombar pela espada com a possibilidade de massacres e abusos por parte do exército sitiador, caso este furasse as muralhas. É evidente que muitas praças cristãs, expostas ao isolamento e sem meios militares suficientes, preferiram acordar a rendição e entregar a praça ao sultão, evitando qualquer derramamento de sangue. O espírito derrotista era evidente em muitos dos senhores cristãos que não se atreviam em enfrentar Saladino, o imparável soberano muçulmano, bem como o seu reputado e moralizado exército.
Em Tiro, o processo de negociação tendo em vista uma rendição harmoniosa parecia encontrar-se numa fase já bastante avançada. Reginaldo de Sídon era agora o principal barão cristão da cidade e estava mesmo disposto a entregar a praça em breve, todavia a chegada dum barco ao porto de Tiro iria mudar todo este cenário. Nele vinha um peregrino cristão influente e originário do Ocidente: o seu nome era Conrado, marquês de Montferrat (curiosamente era irmão de Guilherme de Montferrat, que havia sido o primeiro marido da rainha Sibila de Jerusalém, e ainda tio da falecida criança Balduíno V) que logo se encontrou estarrecido ao deparar-se com a realidade precária dos estados cruzados no Levante. Como as notícias naquele tempo não circulavam tão depressa como hoje, não é de estranhar que Conrado não tivesse sequer conhecimento do desastre de Hattin e do aprisionamento do rei Guido. Antes de alcançar Tiro, o marquês, de origem italiana (piemontês), teria passado primeiro por Acre onde se fez passar por comerciante e aí estranhou imediatamente a ausência dos típicos rituais francos inerentes à recepção dum navio recém-chegado, e após um primeiro contacto exploratório, constatou prontamente que esta localidade estratégica já se encontrava nas mãos dos muçulmanos. Pelo que depois se dirigiu então a Tiro que afinal não era ainda controlada por Saladino, mas que estava bem encaminhada para o ser muito em breve.
Ao chegar a Tiro, depois da sua travessia marítima, Conrado não se resigna ao status quo derrotista que personificava quase todos os nobres cristãos que haviam escapado ou até evitado a sua participação na desastrosa batalha de Hattin. Devido à sua influência nobiliárquica, o marquês puxará dos seus galões e tomará as primeiras decisões concretas que alterariam o rumo dos acontecimentos. No seu entender, era vital preservar Tiro nas mãos cristãs, e para isso acontecer, revela estar disposto a tudo.
Dentro deste contexto, Conrado demonstrou a sua total irritação quando se deparou com estandartes muçulmanos aiúbidas (que deveriam então ser hasteados na cidade a pedido daqueles), inerentes ao negociado processo de rendição, tendo atirado estes para um fosso, em sinal de repúdio. De facto, Conrado vai impor a sua influência e utilizará todos os meios possíveis para convencer a população de Tiro a tentar a sua sorte pelas armas, o que acabará por acontecer.





Imagem nº 2 - A chegada de Conrado a Tiro, depois duma passagem fugaz por Acre, onde testemunhou, com uma preocupação gritante, os recentes avanços dos aiúbidas no Levante.
Gravura retirada do Brevis Historia Regni Hierosolymitani (séc. XII).




O primeiro cerco (Verão de 1187 - Julho?)


Para assegurar a protecção de Tiro, o recém-chegado marquês de Montferrat investe muito do seu dinheiro na melhoria ou reparação das imponentes estruturas defensivas da cidade. Além disso, organiza um sistema de comunas à moda italiana, responsável assim por garantir a defesa da cidade. Conta igualmente com o apoio das comunidades mercantis italianas que estavam estabelecidas em Tiro, cujo porto estava em incessante actividade comercial com o Ocidente, encontrando-se este incluído em muitas das rotas mercantis do Mediterrâneo. É ainda provável que, mesmo em tão pouco tempo, tivesse ainda havido lugar ao recrutamento de mercenários para engrossar as forças disponíveis que estavam longe de ser numerosas para suportar um cerco dirigido pela super-moralizada armada de Saladino. De facto, encontra-se registada a presença de três navios de Pisa no porto de Tiro, os quais abasteceram a cidade com soldados e alimentos.
Como já mencionamos, a cidade de Tiro resistirá a dois cercos. O primeiro, talvez não tão significante (há quem designe apenas este episódio bélico como um mero ataque ou incursão militar do que uma empresa propriamente planeada), foi perpetrado algures no Verão de 1187, mas durou muito pouco tempo, porque Saladino, ao deparar-se com as boas estruturas defensivas da cidade, optou antes por rumar a outras paragens, cuja conquista seria mais acessível e recomendada, e até porque na data em que esta primeira tentativa ocorrera - Jerusalém ainda não havia caído nas mãos muçulmanas pese a vitória já registada em Hattin. Assim sendo, Tiro ainda não era o alvo prioritário de Saladino. Logo que este abandonou os muros da cidade, Conrado enviou Joscius, arcebispo de Tiro, num navio rumo ao Ocidente, de forma a divulgar as últimas novidades preocupantes da Terra Santa e proceder à pregação e difusão da propaganda cruzadística. Os cronistas muçulmanos acusam, embora sem termos noção do grau de veracidade dos seus argumentos, Conrado de ter chegado ao ponto de utilizar imagens bastante fanáticas e chocantes: algumas alegadamente retratavam a presença dum estábulo na Igreja do Santo Sepulcro com um dos cavalos do exército de Saladino a urinar naquele lugar sagrado para os cristãos, ou a dum sarraceno que esbofeteava o rosto de Cristo. O objectivo destas imagens ofensivas, se é que elas foram mesmo divulgadas (como defendem os cronistas muçulmanos), passaria por sensibilizar, naquele tempo, os cristãos do Ocidente que, assim indignados, deveriam acorrer à cruzada, e é evidente que Conrado necessitava urgentemente de reforços para garantir a defesa de Tiro. Aliás, é certo que Saladino, depois da conquista da Cidade Santa, voltaria muito em breve para tentar novamente a sua sorte, e desta vez, terá mais tempo para encetar a abordagem aos muros daquela cidade.






Imagem nº 3 - Conrado, Marquês de Montferrat, inverteu o processo de rendição pacífica de Tiro que deveria cair nas mãos de Saladino, não fosse a sua chegada ao Levante. 
Quadro da autoria de François-Édouard Picot, 1843, Salles des Croisades, Versalhes
(Imagem disponível em Wikipédia)




O segundo cerco (Novembro 1187 - 1 ou 2 de Janeiro de 1188)


Saladino volta então, por uma segunda vez, a visar a conquista de Tiro em Novembro de 1187, dispondo agora de mais tempo, porque já havia então conquistado Jerusalém (no mês anterior - em 2 de Outubro de 1187) e muitas outras praças. O seu exército transportará 17 máquinas de assédio (catapultas e balistas), que procurarão danificar ao máximo os altivos muros de Tiro. Além disso, o sultão contará, em breve, com o apoio duma pequena frota egípcia, comandada pelo berbere Al-Faris Bedran, que bombardeará o porto da cidade bem como os navios de guerra cristãos aí instalados.
Todavia, as defesas de Tiro, durante o escasso tempo em que gozaram duma relativa acalmia, foram reforçadas: muitos tinham sido os francos que entretanto haveriam de afluir a este bastião, o seu novo refúgio, desde nobres, burgueses, civis modestos que foram evacuados doutras terras e que rumaram a esta cidade fortificada, à qual em breve aportariam ainda os primeiros reforços cruzados que provinham dos reinos cristãos ocidentais. A nível estrutural, procederam-se novamente a reparações das muralhas, torres e demais estruturas defensivas. Além disso, Conrado ordenou a abertura de valas/fossos em redor das muralhas exteriores, de forma a dificultar a abordagem do exército aiúbida, e como já assinalamos, dispunha igualmente de alguns navios que a partir do litoral, procurariam bombardear as posições terrestres ocupadas pelas forças de Saladino, através do lançamento de pedras (com engenhos instalados nessas embarcações) e do assédio perpetrado por arqueiros e besteiros.
Rapidamente podemos constatar que a batalha pelo controlo de Tiro prometeria ser renhida e bastante violenta. Aferimos pois que o verdadeiro cerco começava realmente agora com movimentações mais coerentes e planeadas de ambos os lados que iriam assim ser testados até aos limites, durante praticamente os próximos 2 meses. E será neste capítulo que Conrado marcará a sua própria página na história, recusando-se a todo o custo a entregar esta praça.
Os confrontos junto às muralhas são intensos, com um número significativo de mortes. Os primeiros assaltos muçulmanos esbarram contra a rigidez dos muros e o empenho máximo duma guarnição que tudo faria para evitar qualquer penetração inimiga.
Mas Conrado não se limitava apenas em assegurar a integridade da guarnição, pelo que recorreu igualmente a sortidas, isto é cargas de cavalaria que, pelos portões da cidade, saíam para carregar sobre os contingentes aiúbidas. Aqui há a destacar a liderança que foi conferida a Sancho Martin, designado como o Cavaleiro Verde, de origem hispânica (desconhecemos o seu lugar concreto de nascimento, mas suspeita-se que este cavaleiro ibérico teria anteriormente combatido os muçulmanos do al-Andalus), o qual com a sua bravura desmedida comandava estas acções de elevado risco. Saladino reconheceria mesmo o valor deste cavaleiro, o qual até terá tentado mesmo contratar, mas em vão.
Ficou rapidamente claro para Saladino que era necessário que a frota muçulmana composta por 10 galés e comandada por Al-Faris Bedran se aprestasse o mais depressa possível, de forma a derrubar os navios cristãos que se encontravam no mar a bombardear os contingentes muçulmanos que se moviam no plano terrestre. Os sucessos desta recém-chegada frota egípcia são inicialmente claros, forçando os navios cristãos a recuarem praticamente até ao porto de Tiro, depois de terem sofrido claras baixas.
Saladino julgava que o processo poderia agora seguir outro rumo que levaria à queda da cidade, mas desta vez, o sultão estava iludido. Conrado preparou uma cilada que consistiria na simulação duma rendição totalmente fictícia. Ele usou um jovem muçulmano que havia desertado para o campo cristão (após sérias incompatibilidades com seu pai), e que foi envolvido neste plano, lançando aquele uma flecha para o campo inimigo, a qual estava envolvida por uma mensagem. Segundo o teor desta, os francos comprometiam-se a abandonar em massa a cidade na noite de 29 para 30 de Dezembro de 1187, e se os muçulmanos não acreditassem na informação, então deveriam escutar o barulho emanado do porto quando começasse a escurecer. No campo muçulmano, houve quem acreditasse na veracidade desta mensagem, pelo que a frota muçulmana estava prestes a investir sobre os navios cristãos que pudessem sair a qualquer momento do porto de Tiro. Todavia, tudo não passava, como disséramos, duma armadilha montada por Conrado. Este tinha mobilizado um número considerável de homens disfarçados e ocultados pela escuridão, posicionados nas proximidades dos muros do porto, enquanto outros teatralizavam à vista uma aparente fuga precipitada. Os capitães dos 10 navios muçulmanos carregaram sobre o porto que julgavam desprotegido perante uma aparente tentativa de saída descoordenada por parte dos cristãos. Cinco embarcações muçulmanas tomam entretanto a iniciativa e são as primeiras a entrar no porto visto que a corrente protectora (que permitia ou recusava o acesso) estava naquele momento em baixo. Todavia, esta é levantada imediatamente depois da entrada daqueles, encurralando os ditos navios no interior. Os combatentes cristãos, até então escondidos, caem em seguida sobre essas embarcações, desferindo golpes atrás de golpes nos soldados muçulmanos que estavam a bordo. Dum momento para o outro, metade da frota muçulmana tinha sido aniquilada. Aliás, as 5 embarcações capturadas agora passariam a ser utilizadas pelos cristãos. Depois foi a vez da frota cristã até então "adormecida" (pois fora colocada numa "posição mais defensiva") entrar em acção, causando danos materiais e humanos às embarcações restantes da frota islâmica que, totalmente desintegrada e em desvantagem, se colocou imediatamente em fuga rumo a Beirute.
Saladino ao aperceber-se de duros combates junto ao litoral e acreditando que os cristãos estavam mais concentrados no porto de Tiro, ordenou um forte assalto às muralhas, esperando que a guarnição estivesse descompensada pelos conflitos ocorridos na outra parte da cidade. Com recurso a escadas móveis, muitos são os combatentes muçulmanos que tentam a todo o custo penetrar nas altivas estruturas defensivas. De acordo com o autor W. B. Bartlett, alguns conseguem mesmo fazê-lo, mas a guarnição, confrontada fatidicamente entre os destinos de glória ou morte, preferiu resistir com valentia e total tenacidade numa luta corpo-a-corpo que poderia pender para qualquer um dos lados. O assalto muçulmano acabaria por fracassar, não sem se registarem várias baixas de ambas as facções. O sultão aiúbida não desiste ainda e ordena agora aos seus sapadores para minarem as muralhas, de forma a abrir uma brecha que lhes possibilitasse a penetração na cidade. Os trabalhos começaram a bom ritmo, e tudo parecia indicar que, desta vez, os muçulmanos conseguiriam mesmo abrir uma brecha algures na extensa e quase inexpugnável muralha que cobria Tiro. Temendo o pior, Conrado não consegue ficar parado, e programa desesperadamente uma grande sortida, de forma a encetar um duro golpe nas hostes de Saladino. Neste momento crítico, os portões da cidade abriram-se para muitos pela última vez de forma a participarem numa operação cujas possibilidades de retorno não eram nada animadoras. Morte ou glória eram novamente os únicos cenários possíveis para cavaleiros e civis cristãos armados que integravam esta iniciativa militar de alto risco. Não sabemos se Conrado liderava pessoalmente este batalhão ou se confiou mais uma vez a iniciativa ao valoroso Cavaleiro Verde. A batalha foi mais uma vez intensa e confusa, porque a primeira linha muçulmana, talvez surpreendida pela reacção impetuosa dos cristãos, desintegrou-se por completo. Houve perseguições mútuas e momentos em que a vitória poderia sorrir a qualquer um dos partidos beligerantes. Mas esta batalha "anárquica" teria sido seguramente inconclusiva, não fosse o facto das incidências bélicas terem comprometido presumivelmente o trabalho dos sapadores muçulmanos (teriam sido estes mortos ou optaram pela deserção?), e por isso, o contra-ataque cristão terá conseguido, ao menos, arrancar este derradeiro trunfo ao sultão aiúbida.
Esta dupla vitória cristã registada no mar de Tiro e no exterior das muralhas desgastou definitivamente o moral das forças muçulmanas. Agastado, Saladino apercebe-se que não haveria muito a fazer. Do mar de Tiro, já não poderiam vir boas notícias porque os responsáveis muçulmanos já teriam conhecimento de que nas próximas semanas ou meses afluiriam ali novas embarcações repletas de cruzados que engrossariam as forças de Tiro e cujas galés intensificariam os bombardeamentos sobre as posições aiúbidas, caso estas se mantivessem.
Pelo meio, Saladino teria ainda procedido a uma artimanha para ver se a praça se rendia, fazendo desfilar um homem velho que alegava ser o pai de Conrado de Montferrat (efectivamente capturado em Hattin), e que estava disposto a executá-lo se o marquês não entregasse a praça de Tiro. Mas Conrado afirmou, embora mais em jeito de afirmação da sua posição do que em se rever propriamente em tais intenções, do alto das muralhas: "Amarra-o a uma estaca e eu serei o primeiro a abatê-lo. Ele já viveu muito tempo, e agora não me serve de nada" (pelo que se suspeita, o alegado pai de Conrado teria aplaudido corajosamente ao longe a reacção do seu filho porque não queria que este entregasse a praça em troca da sua vida), pelo que a cidade não se rendeu mesmo perante este cenário. Parece-nos evidente que tudo não passou duma manobra de ilusão (bluff?), pois Saladino não executaria afinal o pai de Conrado (se é que era mesmo ele que estaria a ser exibido a alguma distância das muralhas), pois tanto o progenitor como o seu filho voltariam a encontrar-se em breve com boa saúde. Por outro lado, as máquinas de assédio muçulmana apenas tinham servido para causar estragos mínimos nas muralhas imponentes de Tiro. O trabalho dos sapadores poderia ter gerado frutos, mas a verdade é que a prontidão da acção cristã comprometeu todos os seus avanços.
Saladino convocou finalmente os seus emires para uma conferência decisiva. O consenso estava longe de existir, mas o sultão tomaria a posição evidenciada por alguns dos seus conselheiros que já estavam cansados das incidências improdutivas dos últimos tempos. O sultão procedeu à retirada das suas tropas no dia 1 ou 2 de Janeiro de 1188, queimando os engenhos de assédio para que assim estes não caíssem nas mãos de Conrado.
Não há dúvidas de que se tratou duma derrota, que embora não colocasse em causa aquele ano de ouro de 1187 para Saladino e seus seguidores, marcaria um novo ciclo naquela região. Conrado havia demonstrado que os cristãos, mesmo isolados, poderiam ainda fazer frente às forças poderosas do sultão aiúbida. Aliás, segurar o porto de Tiro permitiria que, nos próximos anos, aportassem aí vários navios, carregados de cruzados europeus, que haviam tomado a cruz na sua peregrinação incerta. Uma nova etapa no Levante iria começar. Tratava-se da Terceira Cruzada (1189-1192) que iria obrigar Saladino à guerra defensiva.
Por seu turno, Conrado adquiriu bastante prestígio neste episódio bélico, pois fora o único barão cristão que ousara desafiar o rumo derrotista dos acontecimentos que favoreciam inteiramente Saladino nas suas intenções de se apoderar de todos os estabelecimentos francos. Não será pois surpresa observar que Conrado terá um papel igualmente determinante na Terceira Cruzada, tornando-se mesmo rei nominal de Jerusalém, embora por pouco tempo, pois seria assassinado incredulamente por membros da Ordem dos Assassinos (há a possibilidade destes terem sido contratados por outro barão cristão que não nutria simpatia por Conrado, e que seria talvez partidário da manutenção do rei Guido à frente dos destinos da Terra Santa, ou melhor, dos estabelecimentos cruzados que ainda restavam nas mãos dos cristãos).





Imagem nº 4 - O Cerco de Tiro em 1187: a sortida final dos cristãos. Ao longe, observamos a frota franca a arremeter sobre os contingentes aiúbidas.
Jean Colombe - Sébastien Mamerot, Les Passages d’Outremer, Fr. 5594, BnF (in Wikipédia)




Imagem nº 5 - O mítico Cavaleiro Verde - Sancho Martin que encabeçou as inenarráveis sortidas face ao exército sitiante. A sua bravura mereceu inclusive o reconhecimento elogioso de Saladino.
Supostamente este cavaleiro hispânico utilizaria chifres colados ao seu capacete, além duma armadura essencialmente de cor esverdeada (tanto o seu manto como o escudo).
Gravura meramente exemplificativa da autoria de Daniel Eskridge, retirada de: http://fineartamerica.com/featured/the-green-knight-daniel-eskridge.html



Notas adicionais:


1- Os cronistas árabes não poupam nas palavras para amaldiçoar Conrado, denegrindo-o mesmo com insultos. Todavia, nenhum deles hesitou em reconhecer a bravura e a determinação enérgica deste barão que voltou a fazer com que Saladino voltasse a provar o sabor amargo da derrota, algo que já não acontecia desde os tempos da batalha de Montgisard. Por exemplo, o cronista muçulmano Ibn al-Athir (1160-1233) refere-se a ele desta forma: "Ele era um diabo encarnado na sua capacidade de governar e defender a cidade, e um homem de extraordinária coragem".

2- Antes da sua chegada ao Levante, Conrado tinha passado ainda alguns anos no Império Bizantino, onde se destacara ao serviço do imperador Isaac II Ângelo, desempenhando um papel fundamental ao derrotar o general revoltoso Alexios Branas. As intrigas vividas em Constantinopla instaram-no à peregrinação rumo ao Outremer, onde alguns membros da sua família já mantinham íntimas ligações, nomeadamente o seu pai bem como o seu irmão Guilherme (este já falecido).

3- A batalha por Tiro foi igualmente marcada por uma intensa guerra de cariz psicológico e de artimanhas à mistura.

4- A existência do Cavaleiro Verde (Martin Sancho) não nos parece oferecer muitas dúvidas, porque o mesmo é realmente citado por alguns historiadores reputados: W. B. Bartlett, Steven Runciman ou Peter Edbury. 



Referências Consultadas:

  • BARTLETT, W. B. - Downfall of the Crusader Kingdom. The History Press, 2011. Este livro fornece-nos uma descrição pormenorizada sobre o assédio em torno de Tiro.
  • Chroniques arabes des Croisades. Ed. Francesco Gabrieli. 4ª Ed. Trad. Viviana Pâques. Sindbad - Actes Sud, 1996. Destaque aqui para o relato, também ele preciso, de Ibn al-Athir.
  • JAQUES, Tony - Dictionary of Battles and Sieges: P-Z, 2007. Este autor propõe que o primeiro cerco em torno de Tiro tenha acontecido em Julho.
  • MAALOUF, Amin - As Cruzadas vistas pelos árabes. 15ª ed. Lisboa: Difel, 2008. 
  • WALDIE, Adam - Waldie's Select Circulating Library: The best popular literature. Vol II. Filadélfia, 1836.
  • http://europeanhistory.boisestate.edu/crusades/Outremer/34.shtml, (Consultado em: 02-11-2014).
  • http://www.cristoraul.com/ENGLISH/readinghall/GalleryofHistory/Saladin/LIFE_15.html, (Consultado em: 02-11-2014).

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Saladino e a batalha de Hattin (1187)


Um pouco sobre a vida de Saladino até 1187


Saladino (ou Ṣalāḥ ad-Dīn Yūsuf ibn Ayyūb) é actualmente catalogado pela historiografia mundial como um dos soberanos mais bem sucedidos de sempre no plano político e militar. Considerado meritoriamente como o "Campeão do Islão", esta personalidade continuaria a guerra santa já iniciada por Zengi e Nur ad-Din (este último seu senhor, com o qual no final manterá uma relação mais fria/azeda).
Pouco se sabe sobre os primeiros anos de vida de Saladino. Supõe-se que teria nascido em 1138, talvez em Tikrit, no seio duma família curda. De resto, só voltamos a encontrar menção clara à sua intervenção nas campanhas do Egipto de forma a defender os interesses zengidas e servindo a Nur ad-Din (emir de Damasco e de Alepo, e como tal, senhor da Síria) contra as invasões do rei Amalrico I de Jerusalém, o qual, entre 1163 e 1169, enviou forças cruzadas para tomar aquele território faraónico. Neste palco, Saladino e o seu tio Shirkuh evidenciaram-se pela sua destreza, frustrando as intenções expansionistas dos cristãos. Como a dinastia fatímida do Egipto se encontrava em evidente decadência, a morte do último califa - al-Adid em 1171, permitiu a ascensão de Saladino (já era vizir desde 1169) que se tornaria sultão do Egipto oficialmente (via coroação) em 1174 (embora o seu domínio já fosse evidente a partir de 1171). Neste processo de afirmação, Nur ad-Din não tolerou que o seu antigo vassalo Saladino tivesse tomado o poder sem o seu consentimento, e a relação final entre ambos será marcada por vários desentendimentos.
Com o falecimento de Nur ad-Din em 1174, foi só uma questão de tempo até Saladino aproveitar novo vazio de poder, e tornar-se senhor de Damasco (ainda em 1174) e de Alepo (mais tarde, em 1183), conquistando gradualmente a Síria e unificando-a ao Egipto, criando assim o Império Aiúbida (este albergava ainda grande parte do Norte da Mesopotâmia).
Saladino havia conseguido reunir um extenso território sob o seu domínio, o que lhe permitiria finalmente dispor de grandiosos exércitos capazes de derrubar qualquer inimigo.
Muçulmano convicto (vertente sunita), o sultão tem a ambição de expulsar os cristãos do Levante. Em 1177, lança uma primeira invasão mas não é bem sucedido sendo travado então pelo jovem rei leproso de Jerusalém - Balduíno IV (ver artigo anterior). Os conflitos perdurarão nos anos seguintes (sem avanços decisivos) até ao assentamento de tréguas. Mas novos acontecimentos fariam despoletar um novo conflito - o rei Guido de Lusignan que ascendeu ao trono na Cidade Santa após o falecimento precoce de Balduíno V, não consegue ser consensual entre os barões cristãos nem impor a sua autoridade sobre os seus vassalos, e o caso mais grave, prender-se-à mesmo com Reinaldo de Châtillon, senhor da Transjordânia e ex-príncipe de Antioquia, cuja constante rebeldia e desrespeito contínuo pelos acordos firmados com os muçulmanos irritaram profundamente Saladino que assim adoptaria este pretexto para programar uma nova invasão ao reino cristão de Jerusalém - dez anos depois do fracasso de Montgisard. A este ponto voltaremos mais à frente com uma descrição detalhada dos acontecimentos.



Saladin The Great Saladin by amoxes

Imagem nº 1 - Saladino apodera-se do Egipto e da Síria, tornando-se no soberano muçulmano mais poderoso do seu tempo.




Perfil de Saladino


As crónicas medievais muçulmanas traçam a imagem dum sultão cavaleiresco que respeitava demasiado os seus inimigos, e que não hesitava em elogiar as suas capacidades e façanhas no campo de batalha. Não será pois estranha a admiração que Saladino viria a nutrir pela bravura evidenciada por Ricardo Coração de Leão, rei de Inglaterra, no decurso da Terceira Cruzada.
Além do modelo de excelência de soberano que imprimia, Saladino era caracterizado como um homem piedoso e generoso. De acordo com o seu biógrafo Bahaeddin (ou Bahā' al-Dīn; 1145-1234), antes de falecer, o tesouro real estaria vazio, visto que o sultão havia investido todo o dinheiro na caridade, auxiliando assim os mais carenciados.
É evidente que as fontes árabes, com a sua parcial conotação, tendem a exagerar nas virtudes veiculadas a Saladino, todavia o seu nome circulou pela Europa, tendo sido igualmente respeitado, de certa forma, pela Cristandade.
O sultão revelou ainda uma genialidade política e militar. Só assim podemos perceber como é que Saladino se tornou senhor do Egipto, da Síria e, mais tarde, de Jerusalém e doutras terras. Soube manusear estrategicamente os seus interesses ou objectivos nas mais diversas áreas de actuação. Por exemplo, se procedeu inicialmente a uma conduta agressiva contra a temível Ordem dos Assassinos, a verdade é que as ameaças sérias desta fizeram-no ponderar bastante, acabando por recuar nas hostilidades contra aquela organização perigosa. Assim, evitou que a sua vida fosse colocada desnecessariamente em risco por causa dum atrito com uma sociedade secreta implacável.
Em suma, o sultão soube pois ler e interpretar os sinais do seu tempo.




Imagem nº 2 - As descrições sobre Saladino nas crónicas muçulmanas apresentam-nos um soberano que revelou vários comportamentos de tolerância e generosidade.




O contexto da Batalha de Hattin: as desavenças do reino cristão de Jerusalém


As mortes de Balduíno IV (em 1185) e de Balduíno V (em 1186) abriram as portas do poder a Guido de Lusignan, casado com Sibila (irmã de Balduíno IV, e curiosamente mãe de Balduíno V que nascera do seu primeiro casamento). Guido, de naturalidade francesa, era um homem que demonstrava algum ímpeto na vertente militar, contudo não dispunha de visão política nem de autoridade incontestável, visto que a sua ascensão não fora consensual.
Nesta década de 1180, começaram a perfilar-se dois partidos no seio dos interesses cristãos do Levante, assim designados pelo historiador medievalista Carlos de Ayala Martínez:


  • O Partido dos Barões Nativos - Os elementos deste grupo defendiam a necessidade de manter boas relações com o Império Bizantino (mesmo que fossem cristãos orientais) e de pactuar, sempre que fora aconselhável, com os muçulmanos. Neste partido moderado, estavam incluídos: Raimundo III (conde de Tripoli, senhor da Galileia e ex-regente de Jerusalém), Guilherme de Tiro (o arcebispo e antigo tutor de Balduíno IV), o clã dos Ibelin e Roger des Moulins (Grão-Mestre da Ordem do Hospital) além dos restantes membros desta ordem religiosa-militar. 
  • O Partido da Corte - Os membros deste grupo começaram a instalar os seus ideais na corte já no reinado de Balduíno IV. De acordo com estes, não era aceitável qualquer forma de entendimento com o Islão, aliás tal seria visto como uma traição. Não aceitavam igualmente colaborar com o Império Bizantino, talvez por desconfianças passadas face a este, e porque os despojos conquistados em potenciais vitórias deveriam possibilitar aos cruzados todas as benesses económicas, pelo que não digeriam bem a hipótese de partilharem a recompensa com Bizâncio. Neste sector, destacamos Joscelino III de Edessa, Reinaldo de Châtillon (antigo príncipe de Antioquia e senhor da Transjordânia), Heráclio (arcebispo de Cesareia e posteriormente, patriarca de Jerusalém) e Gerard Ridefort (Grão-Mestre da Ordem dos Templários que se tornará declarado inimigo de Raimundo - conde de Tripoli). O próprio rei Guido acabará por pender para esta facção mais radical e belicista.

Estes dois grupos começaram a acusar-se mutuamente, fazendo da intriga um elemento permanente. Todavia, o pior viria a acontecer quando as tréguas recentemente firmadas com Saladino foram rompidas duma forma inacreditável. 
Reinaldo de Châtillon, de naturalidade francesa, era um barão que já se encontrava há décadas no Levante. Tinha integrado a fracassada Segunda Cruzada (1147-1149). Destacou-se imediatamente no plano político, tornando-se Príncipe de Antioquia desde 1153 até 1160. Neste último ano, foi capturado pelos muçulmanos, tendo ficado 16 anos no cativeiro em Alepo sob a atenção de Nur ad-Din. Depois de libertado, Reinaldo não tinha ainda deixado de lado o seu fanatismo, não conseguindo assimilar qualquer conjuntura de paz ou tréguas com os muçulmanos. Pelo que as tréguas firmadas não foram respeitadas por este barão que voltara, depois de preso na Síria, a exercer uma influência decisiva nos estados cristãos do Levante. Todavia, Reinaldo não imaginava que estava a cavar a sua própria sepultura e a hipotecar a sobrevivência da Terra Santa nas mãos dos cristãos.
Efectivamente, veremos este barão francês a promover razias contra o tráfico caravaneiro que circulava desde o Cairo até Damasco, ora matando ora saqueando. Supervisiona ainda ataques contra peregrinos que rumavam às duas cidades santas do Islamismo: Meca e Medina. Julga-se que ainda terá arquitectado violentas incursões no Mar Vermelho. Estes actos de pirataria que pareciam deliciar Reinaldo, o seu mentor, irritaram profundamente Saladino que exigiu explicações imediatas ao rei de Jerusalém  Guido. Este sem autoridade política para colocar na ordem o seu vassalo, não impede que as tréguas sejam oficialmente violadas. 
É evidente que Saladino nunca escondera a intenção de invadir as possessões cristãs e de recuperar Jerusalém para o Islão, mas a verdade é que a acção frequente e impune de Reinaldo de Châtillon havia sido a gota de água, ou melhor, o pretexto final, para desencadear uma operação de grande envergadura.





Imagem nº 3 - Guido (ou Guy) de Lusignan, rei de Jerusalém desde 1186, não consegue impor a sua autoridade, nem terminar com as intrigas entre os barões cristãos.
Quadro da autoria de François-Édouard Picot em 1843




A Batalha de Hattin (1187)


Saladino recolocou em prática os seus planos expansionistas. O desastre de Montgisard (1177) já fazia parte do passado. O reino cristão de Jerusalém estava mais fraccionado e debilitado pelas disputas internas. O regime aiúbida começou então a encetar propaganda em torno do ideal de jihad. Curiosamente, Saladino mantinha boas relações com Raimundo III, conde de Tripoli e senhor da Galileia,  com o qual firmou uma trégua para que a integridade territorial deste não fosse violada, o que não viria a suceder-se devido a várias incidências que acabariam por ocorrer.
O sultão pede autorização a Raimundo para que as suas forças pudessem atravessar Tiberíades (a Galileia pertencia ao senhorio do actual titular do condado de Tripoli), prometendo que não inquietaria as povoações instaladas na região, solicitação que foi aceite pelo conde cristão. Todavia, as ordens militares (templários e hospitalários) representadas pelos seus grão-mestres então instalados numa fortaleza das cercanias, não apreciaram, de modo algum, o gesto ousado de Raimundo, pelo que foram logo ao encontro da armada inimiga, formulando um plano de ataque. Todavia, a força conjugada pelos referidos hospitalários e templários não passava da ordem das centenas, pelo que foi trucidada na batalha de Cresson (perto de Nazaré; este conflito bélico foi travado no dia 1 de Maio de 1187), por um contingente aiúbida que integrava 7 mil ginetes. Apenas 3 cavaleiros cristãos lograram escapar com vida, incluindo o próprio Gerard de Ridefort, Grão-mestre dos Templários, embora este tivesse saído com sérios ferimentos. A mesma sorte não teve o Grão-mestre dos Hospitalários, Roger des Moulins, que pereceu em combate, tal como quase todos os outros freires que se engajaram nesta batalha desproporcionalmente inglória. Após esta incidência, as críticas ao posicionamento até então adoptado por Raimundo foram renovadas e acentuadas. Muitos não lhe perdoavam a cumplicidade que mantinha com Saladino, censurando o seu mais recente comportamento de alheamento, visto que o conde não partira com os seus cavaleiros em socorro das forças que viriam a ser esmagadas na batalha desigual de Cresson. Acusado de traição e de envolvimento numa conspiração com Saladino, e até alvo de ameaças de excomunhão por parte do patriarca, Raimundo, talvez de consciência pesada, pediu autorização ao sultão para que pudesse combater contra a sua armada (expirando assim a trégua firmada), o que Saladino, compreendendo a difícil posição do barão, nobremente deferiu.




Imagem nº 4 - Os destacamentos templários e hospitalários foram arrasados na Batalha de Cresson (1 de Maio de 1187). O grão-mestre templário Gerard de Ridefort foi excessivamente impetuoso e insistiu num ataque inglório contra um exército bastante superior em termos numéricos. Por uma unha negra, conseguiu escapar com vida, e se tal o fez, foi muito graças ao marechal do Templo - James de Mailly (ou Jakelin de Mailly) e ao grão-mestre hospitalário Roger des Moulins que morreram heróicamente em combate, abrindo espaço à retirada penosa de Gerard. Depois da batalha, as culpas foram curiosamente atribuídas a Raimundo, conde de Tripoli, o qual, de consciência pesada, quebrou a trégua com Saladino.



Após esta primeira vitória moralizadora (e encarada como um claro prenúncio dum futuro promissor) nas proximidades de Tiberíades, o sultão muçulmano acabaria por lograr reunir uma força poderosa de 30 mil homens, entre os quais 12 mil cavaleiros. Encabeçava pois um projecto militar deveras ambicioso. O primeiro objectivo, dado o rompimento forçado da trégua com o conde de Tripoli, passaria pela conquista formal de Tiberíades, processo que já se encontrava visivelmente em marcha.
Por sua vez, Guido de Lusignan, soberano de Jerusalém, começou a preparar a defesa do reino cristão, e não se pode dizer que tenha sido mal sucedido neste primeiro capítulo destinado a agregar o maior número de combatentes para a sua causa. Com a ajuda do conde Raimundo de Tripoli (houve pois uma recente aproximação entre ambos, dados os acontecimentos dos últimos meses), Guido conseguiu reunir um total de 20 mil homens, entre os quais, podemos destacar 1 200 cavaleiros, 4 mil turcópolos (cavalaria ligeira mercenária integrada por cristãos e muçulmanos nativos) e 14 mil peões (aqui também se incluíram membros do campesinato mobilizado) e ainda alguns elementos das ordens militares. Apesar da relativa inferioridade numérica, as tropas cristãs confiavam o seu sucesso na preparação das suas hostes e nas suas armas que acreditavam ser mais sofisticadas. Além disso, era o maior exército cristão que alguma vez um rei de Jerusalém havia conseguido reunir na Terra Santa.
No dia 1 de Julho de 1187, Saladino já é praticamente senhor de Tiberíades (só o castelo e a cidadela resistem ainda), que era considerada a capital do senhorio da Galileia, pertencente então, como já havíamos referido, aos domínios de Raimundo, conde de Tripoli.
Esta provocação bélica constituiu o principal motivo que desencadeou a marcha do rei de Jerusalém e das suas forças que rumaram assim em direcção às posições do invasor, mesmo com a renitência de Raimundo, o qual senhor da terra ocupada, recomendou que aquele não era o momento ideal para ir ao encontro do sultão, recordando que o calor sufocante do Verão Galileu iria desgastar totalmente o exército durante o percurso penoso que lhe estaria reservado, mesmo que este viesse a durar apenas um punhado de horas. O conde de Tripoli alegava ainda que a sua mulher poderia ainda segurar o castelo de Tiberíades, que ainda não havia caído em mãos muçulmanas, pelo que o mais aconselhável era manter uma importante posição defensiva em Sephoria. Todavia, Raimundo não foi levado a sério e foi inclusive acusado pelos seus detractores de demonstrar novamente uma postura cobarde. Reinaldo de Châtillon, esse mesmo - o responsável pelo fim das tréguas e acérrimo defensor da visão belicista, utilizou toda a sua pressão e agressividade para que o rei Guido fosse imediatamente a correr em direcção ao inimigo. Além disso, Reinaldo contou com o apoio dos templários para convencer o soberano cristão. A facção belicista, mais uma vez, levaria a melhor sobre os barões mais moderados que não tiveram outra hipótese senão acompanhar toda aquela marcha imprudente.
No dia 3 de Julho, o exército cruzado deixou então Sephoria, onde estava estacionado, e partiu em direcção às linhas inimigas, e alcançaria, ao fim de algumas horas, uma planície rochosa em Hattin, onde não havia qualquer fonte de água. Os cristãos, sedentos e cansados devido à marcha pautada pelo clima tremendamente exigente e pela travessia por terrenos totalmente áridos, decidiram acampar mesmo ali, mas no dia 4 de Julho, são imediatamente cercados pelas forças de Saladino. Estas começam a atear fogos em redor das posições cristãs, gerando uma cortina de fumo asfixiante no acampamento cruzado. Além disso, cortam qualquer tentativa de abastecimento de água às forças agora sitiadas. De seguida, os francos serão visados pela saraivada de flechas, estas lançadas, de forma contínua, por arqueiros muçulmanos montados. Muitos cruzados tombam nesse preciso momento, outros tentam desertar (mas só poucos conseguem escapar) e ainda houve aqueles que, em número considerável (sobretudo peões), subiram ao cume da colina, sem que tivessem recebido qualquer ordem superior nesse sentido. Aliás, o rei Guido ordena para que eles desçam e constituam uma formação em bloco para avançar em direcção às tropas muçulmanas, mas nem neste momento decisivo, a presumível autoridade do soberano de Jerusalém é atendida, porque os infantes recusam-se a descer do topo da colina, onde talvez se sentiriam mais protegidos das flechas inimigas, mas não era menos verdade que aí não tinham qualquer acesso à essencial água.
Entretanto, 2 mil cavaleiros cristãos, acompanhados por outros homens de armas, tomam uma primeira acção concreta, conseguindo efectuar uma carga finalmente bem sucedida que faz com que os arqueiros muçulmanos montados recuassem, embora este procedimento militar não tivesse sido suficiente para romper o cerco rígido arquitectado pelos muçulmanos. Após esta carga, outras se seguiriam desesperadamente. Os cruzados sedentos queriam a todo custo, romper as linhas árabes e alcançar o Lago de Tiberíades, de forma a conseguirem finalmente molharem os seus lábios quase "moribundos". Estas tentativas prolongaram-se pelo dia inteiro. É certo que estas cargas, efectuadas com bravura, e mesmo sem o apoio de grande parte da infantaria (refugiada no topo da colina), geraram certamente baixas no lado muçulmano, mas só poucos grupos de cruzados (onde por exemplo, se integrava o Conde de Tripoli - Raimundo III) conseguiram furar o cerco e aceder aos víveres de que tanto necessitavam, mas não se atreveram pois a regressar para tentar inverter uma batalha quase perdida. Também houve alguns cruzados que conseguiram pôr-se em fuga graças ao ar mais fresco da noite (contrastando com o dia tórrido) e à sua inseparável escuridão que debilitava a visibilidade do exército muçulmano que procurava controlar as operações, e que até ver o fizera, com o mínimo de sucesso, seguindo assim as ordens claras de seu conceituado líder - Saladino.
De madrugada, a batalha recomeçara, mas os cruzados estavam exaustos e praticamente perto de colapsar devido à enorme sede que sentiam. O Bispo de Acre é um dos que tenta animar os seus soldados, ergue a Vera Cruz sob a sua cabeça, de forma a liderar uma nova carga. O fracasso voltou a acompanhar a iniciativa, e desta feita, nem o corajoso bispo conseguiria escapar à morte, além daquela venerada relíquia sagrada para os cristãos ter caído nas mãos dos muçulmanos. É provável que este episódio tivesse desmoralizado definitivamente as forças cristãs. O rei Guido acabou depois por se render, juntamente com outros barões e um número considerável de soldados que não conseguiram fugir.
As baixas do lado cristão terão alcançado os 17 mil, entre mortos e capturados, e além do Bispo de Acre, morto na batalha, também Reinaldo de Châtillon foi executado (via decapitação) por Saladino que não perdoou os seus actos odiosos de pirataria, motivo pelo qual a trégua anterior tinha sido quebrada. O rei Guido de Jerusalém foi poupado e tratado duma forma digna enquanto cativo (por exemplo, quando fora detido, Saladino mandou-lhe trazer imediatamente água fresca para saciar a sua gritante sede), porque o sultão aiúbida defendia o seguinte lema: "os verdadeiros reis não se matam uns aos outros". O mesmo aconteceu com outros barões cruzados aprisionados que detinham algum prestígio e que acompanhavam o soberano cristão. Outros cavaleiros tiveram ainda a sua vida poupada, embora a sua sorte dependesse do seu nível social (uns foram libertados mais tarde, outros, com menos sorte, vieram a ser transaccionados como escravos). O pior destino ficou reservado aos cavaleiros templários (excepto ao seu grão-mestre Gerard de Ridefort que foi poupado), hospitalários (estas duas ordens militares "fanáticas" daquele tempo eram vistas como verdadeiras ameaças ao Islão) e turcópolos (estes encarados como mercenários que haviam traído ou vendido as suas próprias convicções) foram sumariamente executados. No lado muçulmano, não temos conhecimento duma estimativa de baixas concretas, mas cremos, embora sem base científica, que o número não seria tão expressivo, mas também este não seria praticamente nulo porque houve lugar a combates violentos durante mais de um dia, pelo que aceitamos que o número de baixas do lado aiúbida tivesse sido inferior (talvez não muito inferior) a 5 mil, entre mortos e feridos com alguma gravidade.
O que é certo é que Saladino conquistaria a principal vitória da sua carreira militar. Acabava de destroçar um exército cristão de grande envergadura, o que lhe abriria caminho para a conquista futura de novas terras, dado que o rei de Jerusalém estava agora preso em Damasco (para onde foi cambiado) e que já não existia outro exército cristão na Terra Santa capaz de o enfrentar. A vitória em Hattin deveu-se, em muito, à astúcia militar de Saladino que, conhecendo bem o terreno em que se movia, soube ainda avaliar as fragilidades do adversário que se tinha submetido a uma marcha penosa, e o sultão soube jogar com o clima atormentador e o estado de carência do inimigo a seu favor, vencendo-o pela escassez de víveres, sobretudo pela sede.
Hattin seria uma das batalhas que mudaria o curso da História, e o seu vencedor - Saladino seria eternizado mundialmente pelo feito.



Local: Hattin, perto de Tiberíades
Data: 4 de Julho 1187
Forças Beligerantes

 
Reino Cristão de Jerusalém
Ordens militares

 
Império Aiúbida
Comandantes/Generais
Rei Guido de Jerusalém (PG)
Gerard de Ridefort (PG)
Reinaldo de Châtillon †
Raimundo III de Tripoli
Balian de Ibelin
Saladino
Al-Adil
Número de Combatentes
20 000
30 000
Baixas Estimadas
17 000 (entre mortos e capturados)
Não muito elevadas (talvez inferiores a 5 000)
Resultado:  Depois duma marcha penosa até  às proximidades de Tiberíades, com um clima que revelou ser um dos seus principais inimigos, os cruzados são cercados em Hattin, e massacrados pelas tropas de Saladino, cuja astúcia militar foi determinante. A derrota em Hattin originaria a queda em breve de Jerusalém e de muitas outras praças cristãs.
PG = Prisioneiro de Guerra

Tabela nº 1 - As estatísticas inerentes à batalha de Hattin.



Imagem nº 5 - A marcha penosa dos cruzados no Verão escaldante da Galileia degastou fisicamente as forças cristãs que perderam todos os seus argumentos militares aquando do confronto decisivo em Hattin, perto de Tiberíades.
Ilustração dum manuscrito medieval (in Wikipédia)




Imagem nº 6 - As forças cruzadas tentaram resistir em vão ao poderoso exército de Saladino, cuja genialidade militar seria decisiva para o triunfo muçulmano. As flechas dos arqueiros aiúbidas causaram uma evidente mortandade no lado cristão.





Imagem nº 7 - A rendição cristã em Hattin. Os dois reis (Saladino e Guido) conversam no desfecho da batalha.
Quadro da autoria de Said Tahsine (1904-1985)





Imagem nº 8 - A decapitação de Reinaldo de Châtillon às mãos do sultão Saladino.
Iluminura do século XV (in Wikipédia)




A Queda de Jerusalém


Nos dois meses que se seguiram à batalha de Hattin, Saladino e os seus emires não param de conquistar novas terras: Acre, Nablus, Sidon, Beirut, Ascalona, Gaza, Napsula, Haifa, Nazaré, Belém, Jaffa, Beirute, Jbail... Praticamente ninguém se atrevia a fazer frente ao novo sultão que começava a tornar-se num verdadeiro herói para o Mundo muçulmano. Os estados cruzados encontravam-se consequentemente, cada vez mais, diminuídos e desmembrados. Mas o pior ainda estava para vir: Saladino desejava tomar a Cidade Santa, a terceira terra mais importante para o Islamismo depois de Meca e Medina. É provável que os imãs o tivessem pressionado bastante na ambição de recuperar Jerusalém.
Saladino começa por enviar uma mensagem aos habitantes da Cidade Santa de forma a que estes procedam à rendição pacífica daquela, estando disposto a deixá-los partir acompanhados com os respectivos bens móveis que detinham, bem como não hesita em respeitar a integridade dos lugares cristãos aí sitos. A resposta dos francos é negativa. Mesmo desprovidos do seu rei (Guido encontrava-se em cativeiro) e do seu exército (aniquilado em Hattin), os cristãos estão dispostos a tentar a sua sorte e resistir. A defesa será assegurada por Balian de Ibelin, senhor de Ramleh, um barão valente e respeitado que havia conseguido escapar da batalha de Hattin. O capítulo mais recente da sua história é curioso. Ele havia acordado com Saladino uma licença que lhe permitiria trazer a sua mulher que estava em Jerusalém e que só passaria uma noite naquela cidade. Todavia, mal entrou na Cidade Santa, muitos habitantes consultaram-no e até suplicaram para que ele dirigisse a defesa contra o futuro assédio muçulmano. Pressionado, Balian solicitou a Saladino autorização para que pudesse zelar pela protecção de Jerusalém, ao que o sultão consentiu, desligando-o de qualquer compromisso. Segundo Amin Maalouf, Saladino ao ver Balian demasiado atarefado em organizar a defesa de Jerusalém, proporcionou uma escolta à sua mulher para que esta fosse conduzida para um lugar seguro. Um gesto magnânimo do sultão.
Saladino e o seu poderoso exército promovem um duro cerco a Jerusalém que se inicia em 20 de Setembro de 1187. Trata-se duma batalha desigual. As muralhas são sólidas, mas a verdade é que os defensores cristãos, embora esforçados, limitavam-se a um punhado de cavaleiros e algumas centenas de burgueses recrutados de urgência e sem qualquer experiência militar. No dia 29 de Setembro, os sapadores muçulmanos conseguem abrir uma brecha no norte da fortificação, e a qualquer instante, preparam o assalto final. Por seu turno, Balian consciencializa-se que a batalha está definitivamente perdida, pelo que solicita um salvo-conduto para todos os habitantes de Jerusalém. Saladino não se mostra inicialmente bastante receptivo, estando disposto a tomar a cidade pela força, depois dos francos terem recusado a proposta primitiva de rendição pacífica. Todavia, Balian soube jogar no campo diplomático, ameaçando destruir o Rochedo Sagrado, a mesquita al-Aqsa e muitos outros lugares islâmicos, além de estar disposto a mandar executar os cinco mil prisioneiros muçulmanos que estavam em cativeiro na Cidade Santa: era isto que aconteceria se a recente proposta cristã de rendição pacífica não fosse firmada.
Saladino, ao saber das intenções deste barão cristão, ponderou e acabou por viabilizar a rendição junto dos seus conselheiros, os quais, preocupados com a situação financeira do Império Aiúbida (grande parte do tesouro estatal tinha sido canalizado para as campanhas militares), exigiram que cada cristão, enquanto refém virtual, pagasse o seu próprio resgate. Cada homem pagaria 10 dinares pela sua liberdade, cada mulher 5, e as crianças 1 dinar. O próprio sultão, o seu irmão al-Adil e o barão cristão Balian de Ibelin comprometeram-se em investir alguns milhares de dinares, de forma a salvar muitos civis pobres que não tinham condições para pagar a sua saída livre. É claro que, para azar dos seus tesoureiros, o próprio Saladino deixou ainda sair centenas de cristãos (pessoas idosas, mulheres enviuvadas, órfãos...) sem pagar qualquer tipo de resgate, demonstrando mais uma vez a sua generosidade e tolerância. Mesmo assim, nem todos os cidadãos foram resgatados, pelo que houve ainda um número considerável de habitantes que, sem condições económicas e sem serem abrangidos pela solidariedade dos mais poderosos, seguiram a sua vida na escravidão.
Àqueles que lograram sair com os seus bens móveis, Saladino teve o cuidado de garantir a sua protecção, concedendo ordens a alguns dos seus destacamentos para que os escoltassem até ao destino, de forma a evitar que estes pudessem ser emboscados ao longo do trajecto. Além disso, impediu que alguns fanáticos ousassem destruir a Igreja do Santo Sepulcro na Cidade Santa, demonstrando ainda uma visão tolerante em relação a futuras peregrinações cristãs.
A entrada triunfante das forças lideradas por Saladino em Jerusalém, no dia 2 de Outubro de 1187, foi festejada exaustivamente pelo Mundo Muçulmano. A popularidade de Saladino tinha alcançado o seu clímax. Era pois o herói incontestável do Islão. Todavia, o ano de ouro de 1187 estava prestes a findar, e a reacção cristã, proveniente dos reinos europeus, era inevitável, pelo que os anos vindouros se avizinhavam como tremendamente exigentes.




Imagem nº 9 - Saladino estava imparável. As conquistas sucediam-se freneticamente após a batalha de Hattin, e muitos dos bastiões francos no Levante estavam agora em perigo.
Retirada de: 




Nota adicional - Não concluímos neste artigo a biografia de Saladino que acabaria por falecer em 1193. Todavia, os detalhes da restante vida serão traçados de certa forma nos próximos dois artigos que ainda iremos elaborar e que se prendem com a reacção cristã face a estes feitos militares de Saladino.


Referências Consultadas:

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Balduíno IV, o jovem rei leproso de Jerusalém


Um Contexto Atribulado


A Segunda Cruzada (1147-1149) conduzida pelos reis Luís VII de França e Conrado III do Império Sacro Romano Germânico havia sido um fracasso completo, com um cerco que satiricamente só durou praticamente uma semana em torno de Damasco. A descoordenação foi tremenda até ao ponto da expedição não ter procurado sequer punir Zengi, o atabeg de Mossul e Alepo responsável pela queda do condado cristão de Edessa em 1144, motivo pelo qual se pregou a Segunda Cruzada. Desde então, o espírito de jihad começou a crescer. Depois de Zengi, veio seu filho Nur ad-Din, mas também em breve, surgiria Saladino, um dos sultões mais bem sucedidos de sempre na História do Islão. A situação dos estados cristãos do Levante/Palestina já era bem distinta daquela em que se evidenciaram grandes nomes da estratégia militar como Godofredo de Bulhão, Balduíno I, Boemundo de Taranto, Raimundo de St. Gilles, entre outros responsáveis pela criação e expansão dos domínios latinos no Oriente. A realidade a partir de meados e da segunda metade do século XII, remete-nos para as intrigas internas na luta pelo poder em Jerusalém. Os barões divergiam constantemente, a ideia de estabilidade correspondia a um cenário meramente virtual. O ascendente estava agora do lado da facção muçulmana. A última vitória cristã (a qual constituiu um momento isolado) de digno registo tinha acontecido no reinado de Balduíno III que, em 1153, tomou a cidade portuária de Ascalona, empreendimento militar em que também terá participado o templário português D. Gualdim Pais. Mas depois os desaires acentuaram-se com Amalrico I que promoveu algumas invasões ao Egipto (1163-1169) sem lograr uma única conquista determinante, apesar da destruição e dos saques que terão ocorrido. Aliás, seria neste palco de guerra que Saladino começou a dar as suas primeiras grandes provas juntamente com o seu tio Shirkuh. Dada a decadência da dinastia fatímida, e após a morte do último califa, Saladino apoderou-se do Egipto, tornando-se então no novo sultão, o que decerto desagradou ao até então seu mestre Nur ad-Din que o havia incumbido de apenas travar a invasão cruzada ao Egipto. A relação entre ambos será tensa no final. Entretanto, Nur ad-Din falece em 1174, e Saladino, graças ao prestígio que já possuiria, também acabará por se apoderar gradualmente da Síria. Ao tornar-se senhor deste império aiúbida (Síria e Egipto), Saladino tornava-se num soberano poderoso, tendo ao seu dispor armadas que poderiam atingir os 100 mil homens. Além disso, promovia uma união mais estabilizada no Islão, podendo agora tirar proveito do declínio das forças cristãs no Levante.
Foi realmente neste contexto inglório que Balduíno IV teve de se mover, desenvolvendo todo o tipo de esforços para procurar evitar aquilo que aparentava ser inevitável - a queda da Cidade Santa - Jerusalém, a qual havia sido conquistada em 1099 pelos cruzados de Godofredo de Bulhão e que agora estava em iminente perigo de cair em mãos muçulmanas.



Imagem nº 1 - Juntamente com o seu tio Shirkuh, Saladino foi bem sucedido nas campanhas do Egipto derrotando os cruzados invasores. Devido ao desaparecimento iminente da dinastia fatímida, tornar-se-ia sultão do Egipto, e com o falecimento de Nur-ad-Din, apoderou-se aos poucos da Síria, criando o império aiúbida, o que o oficilizaria como o soberano mais poderoso do Levante. Saladino foi igualmente um génio na vertente militar, além de exibir uma postura cavaleiresca, mesmo diante dos seus adversários.



Mapa nº 1 - O Império Aiúbida (1171-1246), a vermelho, incorporava vários territórios o que sufocaria as possessões litorais dos Estados Cruzados do Levante, estas representadas a cor verde.
Retirado do Wikipédia (autor colectivo - Arab League)



Os primeiros anos e a ascensão ao trono da Cidade Santa


Balduíno nasceu em 1161 em Jerusalém. Era filho de Amalrico I, rei de Jerusalém, e de sua esposa Inês de Courtenay. Aos 9 anos de idade, Balduíno viria a ser educado por Guilherme de Tiro (será arcebispo de Tiro a partir de 1175), historiador que nos deixaria um vasto e notável testemunho sobre aquele período que vivenciara. Foi este mesmo tutor que desvendou que a criança sofria de lepra, o que motivou a procura de médicos, cristãos e até muçulmanos, e de tratamentos para curar ou atenuar o avanço gradual da doença. Todavia, tais esforços de pouco ou nada valeram, pois Balduíno jamais se livraria daquela terrível doença, a qual em breve lhe iria ceifar todas as energias, causando-lhe uma morte lenta e dolorosa. O príncipe não iria viver muitos anos, embora ainda tivesse tempo para marcar a sua própria página na história.
De acordo com o historiador Carlos de Ayala Martínez, Balduíno era um jovem voluntário, culto e cuidadosamente educado pelo seu preceptor Guilherme, arcebispo de Tiro desde 1175. 
A morte de Amalrico I, rei de Jerusalém, em 1174, abriu as portas de sucessão a Balduíno que tinha, na altura, 13 anos de idade. Foi coroado como Balduíno IV. Todavia, nos primeiros tempos houve lugar a dois pequenos períodos de regência em que Miles de Plancy (este acabaria assassinado) e Raimundo III de Tripoli procuraram auxiliar o ainda jovem adolescente nos assuntos do reino. 





Imagem nº 2 - Guilherme de Tiro, enquanto tutor, descobre os primeiros sintomas de lepra no jovem Balduíno de 9 anos, depois deste ter brigado com outras crianças.
Gravura contida num manuscrito medieval da Estoire d'Eracles (século XIII).



O reinado do jovem leproso


Balduíno IV sabia que a doença não lhe permitiria usufruir dum reinado duradouro, pelo que uma das suas prioridades passou por assegurar uma sucessão segura, procurando casar a sua irmã Sibila, de forma a que pudesse ser sucedido por um sobrinho. Dentro deste contexto, Sibila contrairá o seu primeiro matrimónio com Guilherme de Montferrat, conde de Jaffa e Ascalona, do qual resultará o nascimento dum filho - também ele herdeiro do nome "Balduíno" (seria o quinto com esta designação). É claro que a sucessão seria assegurada, mas o futuro Balduíno V teria um governo bastante precoce, e nem o seu futuro padrasto Guido de Lusignan (com quem Sibila se casaria pela segunda vez) estaria ao nível exigido dos acontecimentos, revelando uma visão política desastrosa, factos que não impedirão a queda do reino cristão de Jerusalém em 1187 face às tropas da nova estrela que se reerguia no Oriente - o sultão aiúbida Saladino.
Voltando ao reinado de Balduíno IV (1174-1185), não podemos ignorar os esforços deste em construir novas fortalezas e reestruturar outros edifícios defensivos. Para alcançar esta finalidade, dispôs do fundamental auxílio dos templários. Aliás, mesmo com o agravamento dos sintomas da doença, a verdade é que Balduíno sempre intentara demonstrar carácter e discernimento no decurso do seu governo. Como prova disso, ele procurou rodear-se duma boa equipa de conselheiros, onde estavam presentes o leal arcebispo Guilherme de Tiro (seu anterior educador) e o seu primo, o Conde de Tripoli e ex-regente de Jerusalém - Raimundo III. Mesmo assim, as intrigas cortesãs continuavam a existir, o que desgastou mais o seu estado de saúde.



Os conflitos diante do sultão Saladino


O crescimento militar das hostes lideradas por Saladino preocupavam a corte cristã de Jerusalém, pelo que Balduíno IV decidiu romper as tréguas com o sultão aiúbida que haviam sido firmadas pelo seu anterior regente Raimundo de Tripoli. Os avanços de Saladino (já dono do Egipto) na Síria eram claros. Balduíno optou pois por promover raides junto a Damasco, o que obrigou o sultão a abandonar o cerco a Alepo e a recuar para uma posição defensiva. Hoje é unânime concluir que esta decisão fora tomada com sabedoria, pois o rei de Jerusalém sabia que não tinha elementos suficientes para proceder a um ataque frontal em Alepo contra o poderoso exército de Saladino, mas poderia fazê-lo recuar diante daquela cidade que ainda não lhe tinha caído nas mãos, através duma provocadora ofensiva contra Damasco, cidade basilar que já era controlada por Saladino desde 1174. Em 1176, Balduíno programou novas incursões no vale de Bekaa, Síria e Líbano, e as suas forças travaram inclusive um ataque dum sobrinho de Saladino. Não se tratavam pois de campanhas de grande envergadura (os cristãos do Levante nem dispunham de meios militares para tal naquela altura), mas eram suficientes para incomodar o sultão aiúbida. No palco belicista, o jovem leproso Balduíno ostentava uma maturidade inegável, e talvez essa característica individual tenha constituído o principal motivo para a sobrevivência, embora que precária, dos territórios cruzados durante o seu reinado que perduraria até 1185.
Além destas operações, o rei de Jerusalém procurou uma parceria com o Império Bizantino de forma a encetar uma invasão ao Egipto, onde Saladino assentava o seu nevrálgico poder. A campanha seria comprometida com o adoecimento e consequente falecimento de Guilherme de Montferrat (marido da sua irmã Sibila), o que igualmente terá contribuído para o agravamento do estado de saúde de Balduíno que teve de colocar de lado tais planos tão ambiciosos. Novamente, se abordou a possibilidade duma nova regência, até que Balduíno apresentasse algumas melhorias. O Conde Filipe da Flandres que veio em peregrinação com o seu próprio destacamento militar, e que até era primo do rei leproso de Jerusalém, recusou a regência. Todavia, a morte de Guilherme de Montferrat deixaria Sibila viúva, o que constituiria uma excelente oportunidade para quem desejasse aceder ao poder em Jerusalém, após o falecimento de Balduíno IV que ocorreria inevitavelmente em breve. Há disputas e mau-estar entre os barões dos estados cruzados.
Como se não bastasse, a descoordenação entre os cristãos era outra realidade inegável. Em Outubro de 1177, o conde da Flandres pegou numa parte considerável das forças e lançou uma campanha contra o castelo muçulmano de Harim. A ele também se juntaram Raimundo III, conde de Tripoli e anterior regente do reino de Jerusalém, e Boemundo III, príncipe de Antioquia. Aproveitando um potencial cenário de enfraquecimento militar na Cidade Santa, Saladino planeou, a partir do Egipto, uma invasão ao reino de Jerusalém. Era a sua primeira tentativa de recuperar o controlo muçulmano sobre a Cidade Santa, quando esta predispunha naquele momento de limitadas forças.



A Batalha de Montgisard (1177)



Saladino julgava que o rei leproso de Jerusalém, reduzido ao seu leito de doente crónico, não seria uma ameaça aos seus planos. O sultão procede à invasão com uma armada de 26 000 homens que transportava a sua própria bagagem de assédio militar, e empreende os seus primeiros ataques em Ramla, Lydda e Arsuf.
Talvez subestimando a capacidade de reacção do adversário, autoriza que os seus efectivos pudessem combater e pilhar por uma área considerável. Todavia, Saladino, que viria a marcar mais tarde o seu nome numa página de ouro em que só estariam incluídos os grandes estrategas militares do Medievo, tinha acabado de cometer um erro crasso - consentindo aquilo que se traduziria numa exagerada dispersão e consequente desorganização das suas tropas.
Por seu turno, as forças cristãs que assentavam em 375 cavaleiros (80 seriam templários), e em poucos milhares de soldados de infantaria (talvez menos do que 4 mil infantes; aliás houve mesmo membros da burguesia urgentemente integrados neste destacamento). À frente deste pequeno exército estava Balduíno IV, um rei que teve forçosamente de deixar os seus aposentos, nos quais procurava recuperar o fôlego absorvido pela lepra, para sair a cavalo, situação em que tirou proveito das suas escassas energias e, por conseguinte, reuniu a força possível para ir de encontro ao poderoso inimigo. Muitos julgavam que o rei ("meio morto" por causa da evolução da lepra) não iria aguentar as incidências da batalha e que provavelmente tombaria devido à exigência desgastante da campanha. Com Balduíno, estavam outros barões: Reinaldo de Chatillon (um cristão fanático que viria a dedicar-se à cruel pirataria),  Balduíno de  Ibelin e seu irmão Balian de Ibelin, Reginaldo de Sídon e Joscelin III de Edessa, além da presença do grão-mestre templário - Odo de Saint Amand.
Saladino subestimara estas movimentações, acreditando que as forças cristãs eram insuficientes para o travarem, e por isso, o sultão continua a marcha em direcção a Jerusalém, prevendo que esta lhe caísse com maior ou menor dificuldade. Grave erro, do qual Saladino teria aprendido uma enorme lição, para que no futuro, pudesse ser considerado um dos soberanos mais vitoriosos de sempre. Logicamente, as forças muçulmanas encontram-se dispersas quando estão já próximas da cidade de Ramla, sendo que havia uma colina denominada de Montgisard, onde as tropas de Balduíno se concentraram para lançar um ataque surpresa contras as forças muçulmanas.
A partir do topo da colina, o exército cristão ficou aterrorizado ao avistar o poderoso exército de Saladino que ia ao seu encontro. A desmoralização começou a apoderar-se das hostes cristãs, mas Balduíno, apercebendo-se da situação desesperante, tomou um passe em frente, e mesmo com a sua agravada doença, desceu do cavalo e pediu ao Bispo de Belém para que erguesse a relíquia da Vera Cruz (a cruz onde se julga que Jesus Cristo havia sido crucificado) diante de todos. O rei prostrou-se com dificuldade no chão diante da relíquia sagrada, orando emocionadamente a Deus para que este lhes concedesse a vitória. Levantando-se depois da meditação, Balduíno exortou as suas tropas, que encorajadas pelo seu jovem rei, aplaudiram a sua nobreza e consentiram em lançar uma intensa carga sobre o inimigo. As forças muçulmanas, embora em número bastante superior, estavam desorganizadas ou fragmentadas. O impacto intempestivo da carga cristã causou pânico nos contingentes muçulmanos que não tiveram definitivamente qualquer possibilidade de se reagrupar ou reorganizar, o que era essencial para imprimirem uma coesão necessária. Como se não bastasse, o trem ou bagagem de armamento transportada pelos muçulmanos acabaria por ficar atolada num rio da região, onde os terrenos lamacentos ou pantanosos impediram que os invasores recorressem às ferramentas aí contidas.
Saladino procurou reagrupar a sua guarda-pessoal de mamelucos enquanto seu sobrinho Taqi ad-Din liderava o ataque que seria praticamente aniquilado pelos cristãos. Taqi ad-Din consegue sobreviver às incidências, mas o seu filho, que o acompanhava, acaba por tombar em combate. Muitos elementos da guarda-pessoal de Saladino deram corajosamente a sua vida pela do sultão que só conseguiu escapar com recurso a um camelo de corrida.
Por seu turno, as fontes tendem a elevar a coragem de Balduíno que teria liderado a carga cristã com as mãos enfaixadas, de forma a cobrir as suas feridas. Por um lado, é difícil imaginar que um soberano, cujo corpo se encontrava em estado avançado de hanseníase agressiva, pudesse ter forças para comandar o ataque, mas por outro, a ter acontecido, e embora o risco tivesse sido enorme, a verdade é que o seu exemplo terá motivado os soldados restantes.
As tropas cristãs perseguiram as forças de Saladino até ao anoitecer, e depois retiraram-se rumo a Ascalona. Por seu turno, a armada destroçada do sultão egípcio teve de enfrentar um retorno penoso que se prolongou por 10 dias carregados de intensas chuvas. Como se não bastasse, os beduínos do deserto não hesitaram em atacá-los de forma a pilhar os bens que ainda podiam transportar com eles. De acordo com as crónicas, apenas um décimo da força de Saladino conseguiu sobreviver (dos 27 mil inicialmente estimados, entre 2 500 a 3 000 soldados terão conseguido escapar), contudo alertamos que esta previsão pode ser encarada como exagerada, e é possível que tivessem até existido mais sobreviventes, contudo é inegável que o número de baixas das forças muçulmanas foi inegavelmente elevado. No que diz respeito às tropas de Balduíno, é possível que o número de baixas rondasse o um milhar (num total de cerca de 4 mil efectivos que incorporavam o seu exército, ou até menos do que isso).
A Batalha de Montgisard foi apenas fundamental para que Balduíno IV, no decurso do seu reinado, conservasse intactos o reino cristão de Jerusalém e demais possessões latinas do Levante. Dez anos depois, em 1187, Saladino aplicaria, devido à sua genialidade militar, uma estrondosa derrota às forças do futuro rei de Jerusalém Guido de Lusignan na Batalha de Hattin, o que se traduziria na queda de várias terras controladas pelos cristãos, entre as quais Jerusalém.




Imagem nº 2 - Balduíno decide deixar o seu leito de doente, reúne as poucas forças disponíveis e marcha em direcção ao inimigo, tentando interceptá-lo antes da chegada a Jerusalém. 





Imagem nº 3 - O enfrentamento final das tropas em Montgisard. Dum lado, o jovem rei leproso e corajoso Balduíno, do outro, Saladino, o sultão mais poderoso do seu tempo.
Quadro da autoria de Charles Philippe Larivière (1798-1876)



Imagem nº 4 - A carga final das tropas cristãs que aproveitam a desorganização das forças muçulmanas. Na gravura, veja-se o Bispo de Belém a transportar a Vera Cruz, de forma a motivar os soldados a combater pela causa religiosa.
Retirada de: http://www.deviantart.com/art/Battle-of-Montgisard-168630488, (Giacobino).






O Sofrimento e Morte do Rei


A vitória em Montgisard afastou por alguns anos, não muitos como já referimos, o sultão egípcio de tentar uma nova invasão à Terra Santa. Todavia, a saúde de Balduíno sairia mais debilitada após aquele intensivo e desgastante confronto. Seria uma questão de tempo até perder os olhos e o uso dos seus membros, o que parece acontecer definitivamente em 1183. A lepra corroía impiedosamente o corpo das suas vítimas, causando dores inimagináveis aos seus portadores.
Balduíno desejava abdicar: terá escrito a Luís VII, rei de França, pedindo que este enviasse um barão conceituado que substituísse a sua "mão fraca" que poderia estimular uma nova ousadia por parte dos muçulmanos que estavam sempre atentos à situação dos acontecimentos. Todavia, esta solicitação não terá sido atendida como Balduíno desejara. Procurou então arranjar um casamento entre sua irmã e "viúva" Sibila (Guilherme de Montferrat já havia falecido) com o duque Hugo de Borgonha, mas novamente a intenção não foi concretizada. Aquela acabaria sim por contrair um novo matrimónio com Guido de Lusignan, um homem nada consensual entre os barões do reino e que estava longe de possuir uma visão política adequada às necessidades do reino. Balduíno preferiu, contra a sua vontade, reinar até ao fim, enquanto a doença o devorava interiormente, além da angústia que deveria sentir com estas tensões internas que pareciam comprometer o futuro e a viabilidade dos estados cristãos no Levante.
Em 1183, Balduíno, mesmo incapacitado, foi transportado numa maca para o campo de batalha, procurando resgatar os nobres aprisionados que tinham sido alvo dum ataque surpresa por parte dos muçulmanos. Nesse mesmo ano, opta por nomear como rei associado o seu sobrinho Balduíno V (filho de Sibila no seu primeiro casamento com Guilherme de Montferrat) que só contava com 5 anos de idade, embora o rei leproso confiasse a Raimundo III de Tripoli a regência até que a criança alcançasse a maioridade. Esta decisão não foi bem digerida por Guido de Lusignan que se sentia excluído do trono. Ainda em 1183, Balduíno, devido ao seu estado deteriorante, não consegue evitar que Saladino se apodere finalmente de Alepo, o que permitirá a este último tornar-se senhor indiscutível da Síria.
No dia 16 de Março de 1185, Balduíno, com apenas 24 anos de idade, libertou o último fôlego de sofrimento, o qual se havia intensificado nos últimos 2 anos que o deixaram praticamente imobilizado. A lepra acabou, desde cedo, por anunciar a sua morte a breve-médio prazo, mas a dignidade e a sua bravura mereceram inclusive o respeito do seu rival Saladino. Balduíno IV nunca havia utilizado a sua doença para fugir às responsabilidades enquanto soberano, nem mesmo quando já não dispunha de energias... O seu corpo seria sepultado na Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém.
O seu falecimento gerou, a breve prazo, graves problemas de sucessão. A ainda criança Balduíno V, oficialmente já co-rei desde 1183 (embora com o apoio dum regente), falece em 1186 com apenas 9 anos de idade. É sucedido por Guido de Lusignan (ou Guy de Lusignan), um rei sem visão estratégica, que ainda não soube impor a sua autoridade sobre o súbdito Reinaldo de Chatillon, o qual se dedicou a vários actos de pirataria contra caravanas muçulmanas, principal motivo que originou a quebra das tréguas firmadas recentemente entre cristãos e muçulmanos, e uma nova invasão por parte de Saladino em 1187, esta totalmente bem sucedida.
Os derradeiros anos antes da Batalha de Hattin e da consequente queda da Cidade Santa, testemunharão no lado cristão, como menciona Carlos de Ayala Martínez, "as funestas consequências da luta partidária num contexto da progressiva perda da autoridade do monarca". A arrogância de algumas linhagens nobiliárquicas, obcecadas pelas parcelas e fontes do poder, acabariam por minar as bases de coesão do reino de Jerusalém. 




Imagem nº 5 - Balduíno IV, tal como mais tarde Ricardo Coração de Leão, seriam os únicos reis que conseguiriam enfrentar com mestria e bravura o temível e prestigiante sultão do Egipto - Saladino.
Retirada de: http://king-baldwin.livejournal.com/, (artista - HAL).




Imagem nº 6 - No filme "Kingdom of the Heaven", procurou recriar-se o vulto do rei leproso aquando do seu sepultamento.




Referências Consultadas: