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domingo, 29 de março de 2015

Esmoriz tornou-se vila há 60 anos


Foi no dia 29 de Março de 1955 que Esmoriz alcançou o estatuto de vila, uma data marcante na evolução da localidade. Mas para nos inteirarmos deste passo determinante, é imperioso descrever sucintamente o contexto histórico.
Na primeira metade do século XX, a localidade tinha experimentado um considerável desenvolvimento urbano, demográfico, comercial e industrial. Efectivamente, por volta da década de 1950, a população a residir em Esmoriz superava os 5 mil habitantes, e já contava com algum dinamismo associativo, escolas primárias, uma estação de caminho-de-ferro, uma corporação de bombeiros e um posto de serviços postais. Por outro lado, reivindicava tradições (de âmbito religioso e etnográfico) bastante enraizadas que lhe conferiam uma clara identidade. Também a procura turística em torno da Praia de Esmoriz e da Barrinha (na altura, límpida e cobiçada por portugueses e estrangeiros) atestava a sua avolumada importância.
Dentro deste contexto de favorável crescimento, decorreu a célebre sessão da Junta de Freguesia de Esmoriz no dia 19 de Abril de 1951, onde a partir da qual se solicitará ao Ministro do Interior a elevação da freguesia à categoria de vila. Conforme Aires de Amorim nos relata na sua monumental obra “Esmoriz e a sua História” (p. 467), a intenção não foi muito bem acolhida pela Câmara Municipal de Ovar que, naquela altura exacta, acabaria então por desvalorizar a pretensão então apresentada. A comunidade de Esmoriz lamentou imediatamente a ausência de atenção e colaboração por parte do município ovarense e expressou ainda o seu descontentamento face às limitações de electrificação na freguesia bem como a necessidade (não atendida) de obras urgentes nas escolas da Relva. Todavia, o povo esmorizense, mesmo isolado, não abdicou do seu sonho e “foi à luta”, avançando assim com o seu pedido de elevação a vila e até equacionando a hipótese duma nova integração no concelho de Espinho (Esmoriz pertencera fugazmente a este concelho entre 1926 e 1928). O tremendo esforço canalizado pela Junta de Freguesia de Esmoriz e até pelo padre Manuel Dias da Costa (filho da nossa terra que empreendeu diligências influentes neste dossier) tornaram o sonho possível. 
No dia 29 de Março de 1955, Esmoriz acordava para ser oficialmente vila (através do decreto nº 40.108), momento de progresso que fez rejubilar de orgulho os seus habitantes. Quase quatro décadas depois, em 1993, esta terra de Santa Maria almejaria e alcançaria mesmo o estatuto de cidade, demonstrando que a ascensão prévia a vila constituiu um passo acertado que motivou a continuidade do desenvolvimento económico e social. 




Referências Consultadas:

  • AMORIM, Aires de - Esmoriz e a sua História. Esmoriz: Comissão de Melhoramentos, 1986.

Artigo da minha autoria publicado em: Jornal - A Voz de Esmoriz. Dir. Lília Marques. Edição nº 1116 (26 de Março de 2015). Esmoriz: Comissão de Melhoramentos de Esmoriz, 2015.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Sá de Miranda - o poeta-arauto da Renascença


1 - Uma Vida ao Serviço da Cultura


Francisco Sá de Miranda nasceu em 28 de Agosto de 1481 na cidade de Coimbra. Outros autores apontam a data de nascimento para o ano de 1495. Era filho do cónego Gonçalo Mendes de Sá e duma dama nobre e solteira - Inês de Melo. A sua infância terá sido vivida na casa dos seus avós em Buarcos. 
Sobre a sua formação literária, pouco ou até nada se apurou até hoje. Teófilo Braga sugere que Miranda terá cursado em Coimbra nas escolas menores do Colégio Monasterial de Santa Cruz (aqui era ministrado o ensino das línguas grega e latina, gramática, retórica e humanidades), frequentando depois em 1505 a Universidade de Lisboa, onde completou o curso de Direito ou Leis. Aí terá conseguido estabelecer uma verdadeira amizade com Bernardim Ribeiro, outro intelectual que daria cartas na literatura nacional.
No ano de 1513, e muito graças à sua ascendências nobre, consegue introduzir-se na corte. Conforme nos elucida José Pereira Tavares (outrora reitor do Liceu de Aveiro), Sá de Miranda terá frequentado os serões do Paço, integrando um grupo que reunia os fidalgos e poetas mais conceituados daquela época. Em 1516, já é associado a ele o título prestigiante de doutor - estatuto muito raro naquele período, dado o sufocante analfabetismo que flagelava a população portuguesa. Algumas das suas "poesias miúdas" (cantigas, esparsas e vilancetes) seriam compiladas e publicadas por Garcia de Resende no seu "Cancioneiro Geral", o que vem, desde cedo, atestar o seu talento e criatividade.
Em 1521, deixa Portugal e ruma a Itália. Os motivos que o levam a esta decisão são variados: desgostos amorosos e as intrigas palacianas que terá testemunhado em Portugal, e a vontade de assimilar a nova corrente artística e intelectual que, desde então, iluminava a região itálica. Durante um período de cerca de cinco anos, Sá de Miranda visitará Milão, Veneza, Florença, Roma, Nápoles e Sicília. Obteve vários conhecimentos da língua e literatura italianas, e conviveu com vultos de elevado gabarito daquele tempo (Pietro Bembo, Sannazaro, Ariosto...). Nos templos e palácios que visitara, logo se deparara com as monumentais obras de Rafael e Miguel Ângelo. Em suma, contemplou uma nova expressão cultural humanista que, desde logo, desejou transportar para Portugal, de modo a elevar o pensamento e as manifestações artísticas nacionais para um patamar bastante superior. 
No ano de 1526 (ou 1527), regressa a Portugal, depois da experiência enriquecedora em solo italiano. Volta a estabelecer-se na sua terra natal - Coimbra, onde permaneceu por algum tempo. De novo terá a hipótese de reentrar no ambiente cortesão, visto que a corte portuguesa tinha deixado Lisboa (devido à peste que grassava) para se instalar temporariamente na Cidade do Conhecimento. 
Em termos de obras concretizadas, Sá de Miranda publica a comédia em prosa - "Os Estrangeiros" no ano de 1528. Nos anos seguintes, apresenta a "Fábula do Mondego" (1528-1529) em forma de canção e a écloga "Aleixo" (1531-1532), estes dois últimos lavrados em língua castelhana.
Entretanto, as intrigas e escândalos do Paço reemergem com veemência. De novo, Sá de Miranda sente-se desiludido e, desta feita, abandonará definitivamente a corte. Esta drástica decisão deve-se igualmente a um diferendo que mantinha com uma personalidade, também ela repleta de genialidade e bem cotada nas altas instâncias do reino - Gil Vicente (considerado o "pai do teatro nacional"). Ambos alimentarão uma relação de ódio assente em provocações mútuas, extremadas pelos seus seguidores. A história desta inimizade será longa e repleta de críticas violentas. Gil Vicente não hesitará em omitir os Sás quando descrevia a nobreza de Coimbra aquando do prólogo duma comédia então realizada naquela cidade. Sá de Miranda que se encontrava na plateia sentiu-se desgostoso com a situação. Mas Gil Vicente não se ficará por aqui, chegando ao ponto de na peça "O Clérigo da Beira" representada na corte em 1529, ter proferido a célebre afirmação - "filho de clérigo és, nunca bom feito farás", palavras que aparentam conferir uma potencial alusão a Sá de Miranda. Este último reage, garantindo que iria continuar a lutar pelos seus ideais que poderiam então fazer carreira em Portugal. Todavia, o poeta, desiludido com os derradeiros acontecimentos, optará por rumar ao Minho, deixando as suas origens (bem como as intrigas) para trás.
Inicialmente, estabeleceu-se na Quinta da Penela (actual São Tiago de Arcozelo - Vila Verde) que pertencia à mulher com quem tinha acabado de contrair matrimónio - D. Briolanja de Azevedo, de nobre procedência, e de elevadas virtudes morais. Todavia, esta residência foi apenas temporária, porque através duma mercê, datada algures nos anos compreendidos entre 1533-1535, o casal fixou-se na comenda de Santa Maria das Duas Igrejas (pertencente à Ordem de Cristo, localizada no actual concelho de Vila Verde) que se situava junto ao Rio Neiva, não muito longe da fronteira com a Galiza. Durante quase vinte anos, Sá de Miranda viverá neste novo lugar uma etapa crucial da sua vida a qual corresponderá a uma intensa actividade literária, encontrando-se ainda rodeado pela doce companhia da sua mulher e filhos. No ano de 1538, redigirá a segunda comédia - "Os Vilhalpandos". Até o cardeal-infante D. Henrique (este viria a ser rei, mais tarde - entre 1578-1580, ao suceder a D. Sebastião) ficaria rendido aos seus textos comediantes, solicitando mesmo exemplares das peças para que as mesmas fossem representadas diante da sua presença. Miranda também produzirá novas éclogas e poesia clássica. Por outro lado, doutrinaria ensinamentos àqueles que desejavam inteirar-se do seu conselho intelectual. 
A partir de 1552 passará a viver na casa e quinta da Tapada (freguesia de Fiscal - Amares) que havia adquirido na totalidade. Parece-nos excessivamente optimista e inclusive imprecisa a transcrição presente na edição da obra "Sá de Miranda - Poesias" de José Pereira Tavares, onde no respectivo prefácio é-nos dito que a Quinta da Tapada se tornou no "templo das musas, cujos oráculos e relevações eram escutados com o maior respeito pelos poetas mais distintos da nova geração, templo, centro do qual partiam os exemplos e os impulsos que brevemente determinaram a nova renascença da poesia portuguesa". Por um lado, é certo que, entre 1551 e 1554, o nosso erudito enviará as suas poesias ao Príncipe D. João (filho de D. João III e pai de São Sebastião), tendo este último solicitado, através duma mensagem bastante honrosa, a consulta das mesmas. Também não negamos que Sá de Miranda recebeu nos seus aposentos dois discípulos seus que desejavam materializar a sua reforma cultural - António Ferreira e Diogo Bernardes. Contudo, a verdade é que a nova realidade não será, nem de perto, um mar de rosas. Apesar do empenho e carinho que dedicou ao seu derradeiro lar, Sá de Miranda viveria em constante dor e sofrimento os últimos momentos que o destino lhe reservara. Não alcançaria sequer a tranquilidade e acalmia que tanto desejava para os seus derradeiros suspiros, e por isso, não é de estranhar que a sua arte criativa tenha diminuído vertiginosamente (são pouquíssimos os textos que nos deixa nesta altura). A principal razão para o seu eclipsar prende-se com uma onda de falecimentos que precipitará o poeta para uma saga interminável de desgostos e infelicidades. Em 1553, o seu filho primogénito tomba em Marrocos, no ano seguinte falece o seu estimado Príncipe D. João, e em 1555, é a vez da sua amada esposa perecer. Em 1557, o infante D. Luís (filho de D. Manuel) e o rei D. João III também conhecem o seu próprio fim. Neste contexto lúgubre, Sá de Miranda não suportará tamanhas amarguras, e em 1558, faleceria igualmente, tendo sido sepultado na Igreja de S. Martinho de Carrazedo (Amares). 




2 - Pensamento e Legado de Sá de Miranda



Não restam dúvidas de que Sá de Miranda introduziu a Renascença Literária em Portugal, abrindo então novos horizontes luzidios e promissores. A sua aventura em Itália inspirou-no a encetar uma vasta reforma cultural no seu reino de origem. As formas antigas tinham de ser substituídas, era necessário explorar as inovações artísticas e procurar novos elementos que restaurassem o esplendor artístico. A sua prioridade assentaria na renovação que achava fundamental dos modelos poéticos portugueses, baseando-se preferencialmente nas influências italianas (técnica métrica, a medida nova - o decassílabo, soneto, terceto, canções, elegias...)
Os versos de Sá de Miranda poderiam não ser perfeitos ou da mais elevada classe, mas não hesitarão em entrar em ruptura com a poesia palaciana da Idade Média, iniciando um novo ciclo ou paradigma nesta modalidade. Segundo nos conta José Pereira Tavares, este intelectual humanista demonstrou que "a língua portuguesa é capaz de se elevar até às concepções mais belas do lirismo moderno, como o Soneto e a Canção de Petrarca, os tercetos de Dante, enlaçados em elegias e capítulos segundo o estilo de Bembo, a oitava rima de Policiano, Boccaccio e Ariosto, e as éclogas de Sanazzaro com os seus versos encadeados e variação melódica dos ritmos".
Sá de Miranda introduziu o soneto na nossa literatura, versificando sobre o desengano na vida terrena e as vãs ilusões. Adoptou ainda o terceto, a oitava rima e as éclogas. Também compôs duas canções, de natureza religiosa - Canção a Nossa Senhora e A Festa da Anunciação de Nossa Senhora. 
No teatro, sobressaiu o que aparentava ser então uma clara rivalidade mantida com Gil Vicente. Este último, considerado o Fundador do Teatro em Portugal, vivia a glória derivada dos seus autos e comédias (tragicomédias), e é natural que os seus seguidores refutassem a novidade que Sá de Miranda, o fecundo escritor, pretendia fazer vingar no teatro nacional. Mesmo assim, este erudito conimbricense introduziu a comédia em prosa (uma clara novidade) e a defesa intransigente de diversos valores morais.
No campo inerente ao "pensamento poético", é necessário ressalvar que Miranda cultivou diversos temas como: o amor (sobretudo numa primeira parte da sua carreira), a contradição entre a razão e a vontade, a melancolia, o desdém pela vulgaridade, a exortação do heroísmo, o elogio da rusticidade em contraste com a vida artificial na cidade e na corte, a crítica da ganância em torno do ouro, a emancipação das letras humanas clássicas, a defesa do ideal da paz...
Em termos gerais, Sá de Miranda foi responsável pela criação duma nova era que atingiria o seu expoente máximo com "Os Lusíadas" de Luís Vaz de Camões, considerado de certo modo seu discípulo, embora ambos nunca se tivessem conhecido pessoalmente. Ainda como exemplo do seu notável legado, poderemos citar o caso concreto do soneto (introduzido em Portugal por Miranda embora a inspiração original pertença obviamente ao italiano Francesco Petrarca), o qual foi cultivado com grande insistência até aos nossos dias. Camões, Bocage, Antero de Quental, Florbela Espanca, Fernando Pessoa e Sophia de Mello Breyner não hesitaram em experimentar, com mestria e excelência, esta nova estrutura poética.
De acordo com as palavras de Carolina Michaelis, Miranda foi o segundo poeta português (apenas superado pelo épico autor d'Os Lusíadas) mais lido nos séculos XVII e XVIII, merecendo inclusive inúmeras citações e louvores entusiásticos ("bom Sá", "do grão Sá de Miranda", "do grave e docto Sá"). 


Por fim, decidimos apresentar dois poemas da autoria de Sá de Miranda:




Ó Meus Castelos de Vento

Ó meus castelos de vento 
que em tal cuita me pusestes, 
como me vos desfizestes! 

Armei castelos erguidos, 
esteve a fortuna queda, 
e disse:– Gostos perdidos, 
como is a dar tão grã queda! 
Mas, oh! fraco entendimento! 
em que parte vos pusestes 
que então me não socorrestes? 

Caístes-me tão asinha 
caíram as esperanças; 
isto não foram mudanças, 
mas foram a morte minha. 
Castelos sem fundamento, 
quanto que me prometestes. 
quanto que me falecestes! 




Comigo me Desavim

Comigo me desavim, 
Sou posto em todo perigo; 
Não posso viver comigo 
Nem posso fugir de mim. 

Com dor da gente fugia, 
Antes que esta assi crecesse: 
Agora já fugiria 
De mim, se de mim pudesse. 
Que meo espero ou que fim 
Do vão trabalho que sigo, 
Pois que trago a mim comigo 
Tamanho imigo de mim?




Sá de Miranda




O que outros escreveram a seu respeito:



"Sá de Miranda, verdadeiro pai da nossa poesia, um dos maiores homens do seu século, foi o poeta da razão e da virtude, filosofou com as musas e poetizou com a filosofia. Seu muito saber, sua experiência, seu trato afável, e até a nobreza do seu nascimento lhe deram indisputada celebridade a todos os escritores daquele tempo, dos quais era ouvido, consultado e imitado". (Almeida Garrett)




A alma no céu repousa eternamente,
Cheia do que cá tinha merecido.
O nome voando vai de gente em gente,
Com inveja e amor e espanto ouvido.
O corpo fraco jaz aqui somente,
Da alma à força de idade despedido.
A morte desfaz tudo, mas Miranda
Vivo é no céu, e vivo na terra anda.

(Epitáfio de Pedro de Andrade Caminha sobre Sá de Miranda)




É este o Neiva do nosso Sá de Miranda,
Inda que tam pequeno, tam cantado?
É este o monte que foi às musas dado
Enquanto nele andou quem nos ceos anda?


O claro rio onde chorar me manda
Saudosa lembrança do passado?
O monte, o vale, o bosque, o verde prado
Onde suspira Apolo, Amor se abranda?


Aqui na tenra flor, na pedra dura
Escrevi, ninfas, e no cristal puro
Estes versos que Febo me inspirou


Aqui cantava Sá, daqui seguro,
Livre do mortal peso ao ceo voou:
Pastores: vinde adorar a sepultura!

(Soneto da autoria de Diogo Bernardes, seu "discípulo intelectual")








Legendas das Imagens - A primeira imagem exibe-nos um potencial retrato de Sá de Miranda (Biblioteca Nacional de Portugal) e a segunda remete-nos para um poema deste erudito registado em azulejos na casa do Barreiro (Gemieira - Ponte de Lima).  Ambas as gravuras foram extraídas directamente a partir de: http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A1_de_Miranda. A terceira ilustração exibe uma escultura de Sá de Miranda no Parque dos Poetas em Oeiras. A autoria desta escultura é de José Rodrigues, tendo nós retirado a imagem de: http://parquedospoetas.cm-oeiras.pt/?page_id=1288. Por fim, a derradeira gravura apresenta-nos a casa e quinta da Tapada (erguida no século XVI por Francisco Sá de Miranda que aí viveu os seus últimos anos de vida) foi retirada de: http://www.cm-amares.pt/patrimonioconstruido/casadatapada



Referências Consultadas:

segunda-feira, 9 de março de 2015

A Invasão dos Hunos e a sangrenta Batalha dos Campos Cataláunicos


Um Contexto Atribulado


"Vem aí o Flagelo de Deus"! Assim gritavam muitos indivíduos dos aglomerados populacionais ao pressentir a chegada iminente dos hunos, encabeçados pelo seu carismático líder - Átila (406-453). Só de pronunciar este último nome, vários oficiais e combatentes adversários estremecem de pavor! Não era caso para menos!
Sobre as origens dos hunos, ainda hoje subsiste uma enorme controvérsia. Os historiadores suspeitam de que este povo seria inicialmente composto por várias tribos nómadas e pastoris das estepes asiáticas (Ásia Central), não sendo de excluir que as suas raízes correspondessem hoje à região da actual Mongólia. O que se sabe é que nos séculos IV e V entrarão num grande ritmo de expansão, visando primeiro inúmeros territórios do continente asiático, e depois progredindo abruptamente rumo aos domínios europeus.
O terror de cariz apocalíptico que lhes é atribuído pelas demais civilizações confirma as valorosas habilitações militares dos hunos. Eram, sem dúvida, um povo detentor duma vocação caçadora e aguerrida bastante invulgar. A sua ferocidade é total, assentando o pilar da sua força na temível cavalaria (com guerreiros montados que sabiam manejar flechas e arcos) que semeava a morte por infindáveis terras. Quando entram nas zonas que pertencem ao decadente e moribundo Império Romano, fazem-no imediatamente ao ritmo da guerra através de violentas depredações e chacinas. Neste trajecto, também não poupam os demais bárbaros, arrasados e, por conseguinte, empurrados para o interior das fronteiras latinas. Por exemplo, em 370 submetem os Alanos que viviam na Ucrânia. Os visigodos pedem mesmo ajuda às portas do Império Romano. Muitos são os povos germanos que atravessam a fronteira do Reno para escapar à pressão ou aos massacres dos hunos.
Os líderes desta corrente migratória aterradora não hesitavam em participar em qualquer conflito que lhes granjeasse infindáveis recompensas através do saque das terras futuramente conquistadas. Mas Átila queria bem mais do que isto, e por isso, tinha em mente uma meta mais ambiciosa do que os seus predecessores (Rugila e Bleda - este último era irmão de Átila e governou com sua parceria até 445): tornar-se senhor dum novo e vasto império que incorporaria igualmente todos os domínios romanos.
Ao longe já se ouvem os cascos dos cavalos, os gritos apoderam-se das ruelas das urbes, muitos camponeses e artesãos fogem a sete pés, outros batem repetidamente os sinos das torres de modo a alertar a comunidade para o perigo fatal que sobre eles agora recai, os monges entrincheiram-se dentro das longas portas dos cenóbios, as crianças choram de pavor, uma guarnição corajosa prontifica-se à defesa mas é constituída por membros insuficientes que serão facilmente atropelados pelo poderio do inimigo.
Sim, são os hunos que aí vêm para desempenhar a sua trilogia funcional: combater, destruir e saquear! Mas não estão sozinhos: com eles vem Átila, o líder implacável que parece ter sido mesmo associado por alguns cristãos à figura do anti-Cristo narrada no Novo Testamento. O medo era, mais do que nunca, real e não poupava sequer os povos germânicos, inicialmente pagãos ou possuidores da sua própria religião politeísta.





Imagem nº 1 - Átila (406-453 d. C.) foi o soberano mais poderoso dos hunos, e o homem mais temido do século V.
Retirada de: http://www.ancient.eu/image/3047/, (Todos os direitos - Conifer Games).




A invasão ao Ocidente e a Batalha dos Campos Cataláunicos (Chalons)


Átila assumiu a liderança exclusiva do povo huno em 445, aquando do falecimento polémico do seu irmão Bleda (assassinado por Átila num duelo ou terá sido antes vítima de morte natural?) com o qual governava em parceria desde 434. 
Entre 447 e 448, o novo soberano único e incontestável assedia a Europa Oriental, em concreto a região dos Balcãs. Destacamentos romanos são imediatamente varridos pelas forças hunas que acabam de penetrar pela Mésia. O seu avanço chega mesmo a ameaçar a integridade de Constantinopla, cujos esforços de protecção tiveram de ser espremidos ou redobrados até à exaustão. Pelo caminho, os homens de Átila incendeiam aldeias, aniquilam comunidades, degolam donzelas e até monges. Contudo, o líder huno, talvez atraído por um plano mais apelativo, mudou de ideias e pausou as hostilidades, exigindo em troca ao imperador romano do Oriente o pagamento dum tributo anual em ouro além da cedência duma determinada área territorial. Em abono da verdade, estes acordos também eram do agrado dos hunos que assim obteriam receitas significativas para a sua sobrevivência.
No Império Romano do Ocidente, o contexto é de tal forma complexo que Átila sente-se tentado em participar no xadrez geopolítico. As intrigas acumulavam-se e o soberano huno queria também tirar proveitos do ambiente que aí se vislumbrava. O pretexto para tentar legitimar a sua intervenção surgiria muito em breve.
Honória, um princesa romana e irmã do imperador do ocidente - Valentiniano III, foi detida depois de se ter envolvido reprovadamente com um funcionário da corte. Contudo, ela pensou logo em pedir auxílio a alguém que a pudesse libertar, redigindo uma carta para tal fim. E que rival poderia naquele tempo ombrear com o estatuto do seu irmão? Sem dúvida, Átila - o rei mais poderoso e temido entre os bárbaros! O soberano huno nem sequer hesita em programar uma nova campanha. Todavia, interpreta a mensagem de Honória como um pedido "indirecto" de casamento, o que lhe colocava na posição de reivindicar uma fatia generosa do Império através dum eventual dote. Mas Átila quer mais: quer metade do Império Ocidental! E para materializar este objectivo, 300 mil homens (segundo algumas estimativas) estão dispostos a marchar atrás de si para assim reclamarem o que lhes poderia vir a pertencer por direito. Além deste incidente de cariz diplomático, é necessário ter igualmente em conta que havia uma rivalidade feroz entre hunos e visigodos (estes últimos antes de serem expulsos pelos francos e de se fixarem definitivamente na Hispânia, tinham criado um reino no sudoeste da Gália com a capital em Toulouse) e o rei vândalo Genserico parece ter estimulado ainda mais as intrigas entre ambos os povos, atraindo a ira huna sobre aquele povo bárbaro já instalado no ocidente. As desavenças derivadas na sucessão real dos francos (outro povo bárbaro) também podem ter estado na génese da invasão huna. A guerra e a carnificina iriam recomeçar no ano de 451.
Os hunos invadem a região do Vale do Reno, deixando um inenarrável rasto de destruição. Cidades como Reims, Mainz, Estrasburgo e Colónia não foram poupadas aos instintos maquiavélicos. Posteriormente, Átila avançou sobre a Gália, provocando o êxodo imediato da população. Muito em breve, se lançará a caminho de Orleães (Aurelianum). Os hunos não estão sozinhos e são apoiados por aliados nas suas fileiras, mormente ostrogodos, burgúndios, gépidas, rúgios e alguns francos (talvez dissidentes).
Por seu turno, o general latino Flávio Aécio fica incumbido de organizar um poderoso exército de resistência que reunirá romanos, visigodos (com a presença do seu soberano - Teodorico), bretões, saxões, alanos, burgúndios e também um número aceitável de francos. Esta política de alianças reflecte a preocupação de todos estes povos em travar a avalanche huna. Estava em causa o futuro da Europa.
Neste ano atribulado de 451, o comandante romano Flávio Aécio e o rei visigodo Teodorico I surpreendem os hunos quando estes se encontravam a cercar Orleães. A confederação euro-asiática retirou-se para campo aberto de modo a encarar o recém-chegado exército ocidental. Todavia, os próprios sacerdotes hunos (de vocação pagã) começaram a augurar uma derrota estrondosa que estaria reservada aos homens de Átila, presságio que decerto terá contribuído para a desmoralização dos seus combatentes. Mesmo assim, a batalha iria ser longa e cruel, gerando uma mortandade sem limites.
Ambas as facções, estimadas em forças que rondavam entre as 50 e 80 mil unidades, tentam alcançar o cume duma colina que concederia uma clara vantagem posicional. A batalha torna-se extremamente confusa com uma correria desenfreada, mas são os romanos e os visigodos que acabam por atingir aquela inclinação geográfica. A vanguarda do exército huno desorganiza-se e perde qualquer espécie de iniciativa. A disciplina dos soldados romanos e combatentes aliados permitiu segurar uma disposição ofensiva bastante interessante que gradualmente destroçaria as tropas hunas. Átila, o soberano huno, chega mesmo a ficar encurralado no seu acampamento e terá presumivelmente planeado cometer suicídio. Contudo, Flávio Aécio terá permitido que o referido rei e as suas restantes tropas sobreviventes pudessem retirar-se. Não se conhecem bem as motivações de Aécio para a tomada desta decisão, mas não é de descartar que tivesse pensado em Átila como um aliado importante em futuras campanhas, até porque as alianças forjadas com os bárbaros eram pouco credíveis e conheciam uma duração limitada. Se foi este o raciocínio do general romano, então o futuro trataria de desmistificar essa ilusão. Após esta derrota, Átila desaparecerá num ápice e consigo levará quase todo o seu povo para o adormecimento eterno. Só teremos notícias dele apenas para os dois anos posteriores à batalha dos Campos Cataláunicos (ou de Châlons; a qual acabamos então de narrar aqui duma forma geral).
Graças a esta vitória decisiva que anulará consideravelmente a ameaça huna, Aécio conquistou o título honorífico de "o último dos romanos". Há mérito táctico do vencedor que conseguiu salvaguardar, em parte, os rumos da civilização ocidental diante duma corrente migratória belicista e selvática. O confronto foi violento, tendo os romanos falado em "Cadavera vero innumera" o que atesta a carnificina que ceifou as vidas de milhares de combatentes. Nem o próprio rei visigodo Teodorico escapou com vida, apesar da vitória diante dos hunos. Muitos acreditam que esta foi mesmo a maior batalha do Mundo Antigo, porém esta é uma análise subjectiva que poderá ser formulada por qualquer historiador.




Local: Châlons (Batalha dos Campos Cataláunicos)
Data: 451
Forças Beligerantes


Império Romano
Visigodos
Francos
Burgúndios
Bretões
Saxões


Hunos
Ostrogodos
Rúgios
Gépidas
Alanos
Francos (alguns)
Comandantes/Generais
Flávio Aécio (general romano)
      Teodorico (rei dos visigodos) †
Átila (rei dos Hunos
Número de Combatentes
Entre 50 000 – 80 000
Entre 50 000 – 80 000
Baixas Estimadas
Indeterminadas mas talvez na ordem dos milhares.
Indeterminadas mas talvez na ordem dos milhares.
Resultado:  A ocupação de pontos estratégicos no terreno, nomeadamente o cume duma colina, favoreceu a coligação de tropas ocidentais lideradas por Flávio Aécio que derrotaram o exército, também ele heterogéneo, encabeçado por Átila. A batalha praticamente fez eclipsar as intenções hunas de impor o seu domínio sobre o Império Romano do Ocidente.

Tabela nº 1 - As estatísticas e os protagonistas da batalha dos Campos Cataláunicos.





Imagem nº 2 - Os hunos lutavam maioritariamente montados a cavalo munidos com arcos e flechas. Acabariam igualmente por adoptar o escudo defensivo.
Retirada de: http://www.illustrationartgallery.com/acatalog/info_EmbletonAtilla.html, (ilustração da autoria de Ron Embleton)




A derradeira campanha huna - o flagelo em Itália


Apesar do prestigiante feito, o comandante romano Flávio Aécio cometera um erro crasso ao permitir a retirada de Átila e dum número ainda considerável de guerreiros hunos que conseguiram sobreviver às incidências da batalha cruel travada no Norte da Gália. Com uma força naturalmente inferior, os hunos invadiram a Itália em 452, arrasando várias terras, incluindo Milão que foi saqueada e incendiada. O soberano huno voltava a exigir a mão da princesa Honória bem como a fatia territorial do Império que achava ser sua por direito. O imperador latino Valentiniano III não sabia o que fazer - o exército romano já não tinha sequer meios naquela altura para proteger a região itálica. A cerca de 200 km de distância de Roma, Átila já se sente tentado pelos tesouros da capital imperial. Terá montado inclusive um acampamento, contudo o líder huno nunca atacou a cidade, uma opção polémica e ainda hoje debatida pelos escolares e investigadores científicos. O que levou então Átila a mudar de ideias? Não queria ele tornar-se senhor do Império Romano? Porque desistira do casamento com Honória?
De acordo com uma lenda (cujo grau de veracidade é discutível), o Papa Leão I teria ido ao encontro de Átila, pedindo clemência ou o fim da ofensiva destrutiva. Segundo esta narrativa, o soberano huno teria sido demovido pelas palavras bem escolhidas por parte do Sumo Pontífice. Se este encontro realmente aconteceu, é ainda hoje uma problemática que permanece como um dos maiores mistérios da História Universal. O que sabemos é que o exército euro-asiático acusava já um desgaste excruciante. A marcha tinha sido longa e penosa com muitos combates travados durante o trajecto. O número de guerreiros nas hostes de Átila diminuía gradualmente. As doenças também infernizaram as hordas hunas, e o acesso aos recursos alimentares era bastante limitado. O cansaço e a ausência de resultados bélicos determinantes terão feito com que Átila abandonasse a campanha em Itália, tentando fazer a inversão de marcha rumo às origens de Leste, mais concretamente ao seu palácio além-Danúbio. Se o Papa Leão teve também influência suficiente para o dissuadir dos seus planos de invasão, nunca o saberemos com a devida certeza absoluta!
No regresso ao Leste, os hunos já orquestravam um novo plano de ataque a Constantinopla porque o novo imperador romano do Oriente - Marciano tinha deixado de pagar o tributo anual de ouro que havia sido acordado no passado. Todavia, a morte surpreendeu Átila que, em 453, pereceu duma hemorragia estomacal no âmbito dos festejos de celebração da sua derradeira boda (contraída com a goda Ildico). Ao longo da vida, Átila teve várias mulheres e sempre privilegiou eventos festivos, dedicando a sua especial cobiça por metais preciosos (por ex: o ouro). Todavia, o seu modus vivendi esfumou-se intempestivamente.
Átila foi enterrado num sarcófago triplo - de ouro, prata e ferro, juntamente com o botim das suas vitórias bélicas. Os que participaram no funeral auto-executaram-se ou trespassaram-se mutuamente, de modo a manter o sigilo total sobre a localização do enterro.
Conforme nos conta Michael Kulinowski, “o império de Átila desmoronou quase imediatamente. Ele tinha vários filhos que lutaram entre si por partes de seu legado. Isso deu aos povos conquistados, como os ostrogodos, a oportunidade para se rebelar. Em uma série de batalhas, os filhos de Átila foram vencidos pelos revoltosos”.






Imagem nº 3 - O encontro entre a delegação papal de Leão I e Átila - o rei dos hunos.
Fresco da autoria de Rafael Sanzio, (1514) no Palácio Pontifício de Roma





Imagem nº 4 - Medalha de Bronze do Renascimento que exibe o retrato de Átila. Pode ler-se na inscrição "Atila, Flagelum Dei"






Imagem nº 5 - Outra representação possível de Átila.
Pintura da autoria de Eugene Ferdinand Victor Delacroix





Mapa nº 1 - Os domínios hunos (marcados a cor lilás) na Europa Oriental durante os séculos IV e V.





Referências Consultadas:


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Flávio Belisário, o estratega bizantino "esquecido" que vingou Roma


Contexto


No ano de 476 d. C., Roma caía nas mãos dos hérulos, e posteriormente, no poder dos ostrogodos. As invasões bárbaras provenientes do além-Reno destruiriam gradualmente o Império Romano do Ocidente. As ancestrais instituições imperiais caíram na ruína total e o progresso civilizacional aparentava estar comprometido. 
O Império Bizantino (ou Império Romano do Oriente) conseguiu formar alianças estratégicas ou até firmar tréguas (assente no pagamento de tributos) com os povos vizinhos e serviu-se da sua posição estratégica, praticamente inexpugnável, de modo a assegurar a sua sobrevivência. A cadeia de montanhas que caracterizava a topografia oriental, dificultava, ao máximo, qualquer campanha de invasão. Além disso, a localização bem como as estruturas e recursos defensivos da capital - Constantinopla dissuadiam os inimigos mais acérrimos de eventuais expedições contra o soberano basileu. Mas houve ainda outras razões que justificariam a sobrevivência deste estado, nomeadamente a manutenção dos contactos comerciais com a Ásia e a África, a posse de elevados recursos económicos e a habilidade dos governantes bizantinos em introduzir oportunas reformas fiscais que, por vezes, aliviariam os impostos e assim agradariam à classe popular, colocando-a do seu lado.
Nesses tempos, a principal ameaça prendeu-se com a devastadora campanha dos indomáveis hunos que deixaram igualmente a marca das suas depredações macabras nas regiões do leste europeu. Com o desaparecimento desta confederação euro-asiática, alguns sobreviventes da expedição de Átila ingressaram, enquanto mercenários, nas fileiras gregas.
A paz regressou a Bizâncio, não obstante o declínio recente. A glória doutros tempos parecia ser apenas um registo exclusivo das crónicas antigas, as quais degradadas e repletas de pó condiziam com a conjuntura agora dormente e passiva do Império. O futuro aparentava ser imprevisível e a equação para o sucesso dependeria essencialmente do carisma, da competência e da eloquência dos imperadores e generais vindouros.
Dentro deste contexto, e entre os potenciais caminhos de prestígio ou fracasso, um homem subirá ao trono e causará um impacto decisivo no rumo da história. Graças a ele, o orgulho grego seria recuperado e se reergueriam, embora não por muito tempo, os últimos resquícios da cultura romana. 
Efectivamente, com o reinado de Justiniano I (527-565), o estado bizantino reinaugurará um ciclo prestigiante que se repercutirá nos mais diversos domínios. O novo basileu revela ambição e uma elevada dose de cultura e visão política. Assim sendo, reformará e centralizará a administração, aperfeiçoará o cerimonial de corte, submeterá a hierarquia eclesiástica e empreenderá grandes construções (por exemplo, é no seu tempo que será construída a Basílica de Santa Sofia em Constantinopla). 
Um dos sonhos deste imperador radicava no restabelecimento do velho esplendor de Roma que outrora iluminou a Europa Antiga e que agora jazia dormente sobre o domínio bárbaro. Para atingir esse propósito, Justiniano está disposto a promover campanhas militares de grande envergadura em diversos territórios. Todavia, o sucesso bélico requeria a participação de generais experimentados ou versados na arte da guerra. Neste âmbito específico, Flávio Belisário reunirá todos os requisitos necessários para engrandecer o Império agora repensado pelo novo imperador reformista. Apesar do seu nome ser relegado para segundo plano em comparação com outros grandes nomes da História Militar, a verdade é que os seus êxitos atestam a sua elevada capacidade de liderança e de gestão estratégica. A parceria estabelecida entre Justiniano e Flávio seria uma das mais bem sucedidas de sempre.





Imagem nº 1 - Mosaico que espelha o vulto de Justiniano I, o Grande - o imperador bizantino que se propôs a restaurar o apogeu "romano" de outrora.




Os primeiros feitos de vida do general audacioso



Flávio Belisário nasceu no ano de 505 na localidade de Sapareva Banya (actual Bulgária). Desde jovem, se alistou no exército onde iniciaria uma carreira recheada de sucessos até então impensáveis ou de aparente concretização irrealista. Após a morte do imperador Justino em 527, o poder passaria para um novo soberano - o supracitado Justiniano I que inicialmente integraria Flávio na sua guarda imperial, mas que acabaria depois por nomeá-lo general e comandante das forças bizantinas no Oriente. Estas enfrentavam, naquela altura, a difícil tarefa de conter, a todo o custo, a ofensiva do império persa pré-islâmico (também designado de "sassânida"). Em causa estava essencialmente o controlo da Ibéria (reino situado no Cáucaso - actual Geórgia) - região disputada por bizantinos e os mencionados persas. Os primeiros confrontos iniciam-se em 527, mas o engajamento final entre os dois exércitos só ocorreria três anos depois. Durante este período, o general bizantino teve a oportunidade de aprimorar os seus bucellarii - unidade privada de cavalaria pesada superiormente treinada para os desafios bélicos mais exigentes. Esta força especial era normalmente constituída por centenas de cavaleiros, mas em caso de guerra, poderia atingir a fasquia dos milhares.
Efectivamente, em 530, Flávio conhece a sua primeira prova de fogo na batalha de Dara. Os bucellarii integram o sector nevrálgico da armada bizantina, mas também do lado persa existem soldados hábeis e preparados para a frente de combate. O conflito irá arrastar-se por dois longos dias. No primeiro, há provocações e até duelos entre os campeões (cavaleiros/combatentes mais tenazes) bizantinos e persas. Mas o choque colectivo só se materializará no segundo dia. Neste âmbito, os persas tomam então a iniciativa e atacam o flanco esquerdo bizantino. Apesar de terem atravessado algumas trincheiras defensivas, os seus atacantes são repelidos e por conseguinte obrigados a recuar. Mesmo assim, os persas não deixam de acossar o inimigo, e tentam agora aniquilar o flanco direito grego, recorrendo aos "imortais", os seus lanceiros de elite. Agora sim conseguem fazer retroceder o exército bizantino, causando algumas baixas. Contudo, Flávio Belisário reagiu imediatamente, concedendo ordens à sua tropa especial (os bucellarii) para proceder a uma ofensiva contra as linhas persas, as quais acabaram imediatamente por colapsar diante do impacto trucidante e fugaz da cavalaria pesada. De acordo com as estimativas de Tony Bunting, 10 mil persas tombariam nesta batalha, e os planos de expansão sassânida ficaram irremediavelmente comprometidos para o decurso dos próximos anos.
Apesar duma derrota posterior em Callinicum, os gregos acabariam por chegar a um acordo com a Pérsia, à qual tiveram de pagar um tributo, o preço a pagar pela paz e pela defesa dos superiores interesses de ambos os estados. Mesmo assim, nada nos impede de concluir que Flávio tinha prestado as primeiras provas do seu inegável valor, demonstrando total perícia numa campanha adversa em que os próprios persas aparentavam encontrar-se, desde o início, numa fase bélica ascendente.
No ano de 532, dá-se a Revolta de Nika em Constantinopla. Nesta circunstância em particular, a população estava cansada dos elevados impostos e da "contagiante" miséria, e não hesitou em rebelar-se a pretexto duma corrida de cavalos ocorrida no hipódromo. Os rebeldes descarregaram a sua fúria por quase toda a cidade, massacrando a guarda imperial. Justiniano pensou em deixar o trono, mas foi demovido pela sua mulher Teodora. Depois de ponderar sobre o que fazer, o imperador recorreu imediatamente aos serviços do general Flávio Belisário para travar a onda gigantesca de contestação. Este cercou o hipódromo e, sob ordens imperiais expressas, aniquilou cerca de 30 mil revoltosos. A partir deste momento, Justiniano governará sem qualquer oposição à altura o que logicamente se traduzirá na consolidação definitiva do seu poder.





Imagem nº 2 - Flávio Belisário assegurou uma vitória assinalável na Batalha de Dara (530) diante dos persas, e segurou ainda o Imperador Justiniano no poder, aquando da Revolta de Nika (532).




A Invasão ao Norte de África: a destruição do reino vândalo


Após os últimos acontecimentos, Justiniano começou a depositar naturalmente toda a sua confiança neste seu súbdito habilitado na vertente militar, e para iniciar o projecto de renascimento da glória e esplendor "romanos" tem em mente uma meta ambiciosa - apoderar-se do Norte de África, cenário que lhe possibilitaria o controlo duma extensa parte do Mar Mediterrâneo. Para viabilizar o seu sonho, delega novamente a liderança da expedição no seu general Flávio Belisário, cuja lealdade estava acima de qualquer suspeita.
O pretexto é convidativo - o reino vândalo (localizado no Magrebe) encontra-se dividido numa crise interna. O anterior soberano Hilderico tinha abandonado o Cristianismo ariano (encarado pela Santa Sé como uma filosofia ou interpretação teológica herética) para abraçar o Catolicismo. Além disso, Justiniano mantinha relações amigáveis com este rei. Todavia, a sua deposição em 530 pelo nobre ariano Gelimer consumou um virar de página nas relações diplomáticas existentes entre os responsáveis vândalos e bizantinos. Muitos cristãos que seguiam o credo católico (em vez das tendências arianas) lamentaram o desfortúnio do anterior soberano (Hilderico seria morto três anos depois) e fugiram em várias direcções (muitos acabaram por aportar em Constantinopla, capital bizantina) pois temiam que Gelimer, o novo rei de crença ariana, os viesse a perseguir. Efectivamente, este contexto atribulado favorecia os planos ousados de Justiniano que sempre sonhou incorporar aqueles domínios. O momento para a ofensiva era propício e não havia tempo a perder.
Em 533, uma frota de 50 navios comandada por Flávio Belisário aporta em terras actualmente líbias. Ao todo, estima-se que a sua armada é composta por 15 mil homens. Após o desembarque, este exército empreende uma marcha triunfante em direcção às periferias de Cartago, a capital do estado vândalo. Nas proximidades do marco que assinalava as 10 milhas de distância (daí a designação da batalha com Ad Decimum) em relação àquela cidade histórica, os dois exércitos - vândalos e bizantinos - enfrentam-se pelo controlo da região. As forças de Belisário excediam, em termos numéricos, os contingentes liderados pelo rei  Gelimer. Apesar desta vantagem de pendor quantitativo, a batalha não começou nada bem para os invasores gregos que quase foram cercados pelo adversário. Contudo, o soberano vândalo não soube rentabilizar o seu ascendente, optando por pausar as hostilidades em curso, de modo a sepultar o seu irmão Ammatas que havia falecido em combate. Flávio Belisário teve tempo para reagrupar as suas tropas e lançar um feroz contra-ataque, o qual destroçaria o exército vândalo e capturaria Cartago, cuja população, maioritariamente romana, acolheu bem os seus "donos de outrora". O general bizantino somará posteriormente novo sucesso militar ao vencer novamente os vândalos na batalha de Tricamarum travada em Dezembro de 533. As cargas da cavalaria grega voltariam a ser decisivas. Gelimer sofreria novo desgosto, ao deparar-se com outro seu irmão morto (o respeitado general - Tzazon) durante os combates. O soberano vândalo teve novamente que bater em retirada, consciente da superioridade técnica do adversário cuja liderança e disciplina militares imprimiam as bases necessárias para o sucesso. Pouco tempo depois, Gelimer acordou a rendição, salvaguardando algumas condições que lhe seriam benéficas. Assim sendo, ele acabaria por viver o resto da sua existência em terras da Galácia (Anatólia Central) que lhe foram oferecidas para usufruto por parte do imperador bizantino Justiniano.
Mas nunca é demais ressalvar o papel crucial de Flávio Belisário nesta campanha, o homem que tinha desembarcado nas terras áridas do Norte de África, enfrentando realidades (geográficas, climáticas, políticas, culturais...) que estaria provavelmente longe de conhecer. A sua bravura e conhecimento militar abriram-lhe as portas de Cartago.
Efectivamente, estes triunfos bélicos viabilizaram o controlo bizantino sobre uma grande área do Norte de África e a zona ocidental do Mediterrâneo. Uma etapa necessária para o soberano de Constantinopla que ambicionava restaurar o apogeu romano, recriando se possível um novo "Império Romano do Ocidente".
Por outro lado, um dos povos carrascos do antigo Império Romano - os vândalos, aqueles mesmo que em 455 saquearam Roma durante duas semanas terríveis, acabavam agora de ser aniquilados neste ano de 533 por um comandante que tinha devolvido credibilidade e esperança ao povo de Constantinopla. Todavia, a inveja e a intriga não tardariam em principiar nas altas instâncias bizantinas, com personagens influentes a difundirem rumores mal intencionados a respeito de Flávio Belisário - um deles (obviamente falso) era o de que este general ponderou em tornar-se rei dos vândalos, atraído pela eventualidade de recomeçar uma nova dinastia. Uma mentira que, na altura, não surtiu o efeito desejado pelos seus detractores, mas que era um prenúncio do que lhe poderia vir a acontecer num futuro não muito distante.





Mapa nº 1 - Na batalha de Ad Decimum (533), os vândalos tentaram cercar as forças comandadas por Belisário mas acabariam por fracassar pois os bizantinos reagiriam energicamente, rompendo com as linhas inimigas e motivando assim a sua desorganização fatal.





Imagem nº 2 - A glória dos bizantinos alcançava agora o Norte de África após o triunfo no âmbito da Guerra Vândala.




A Invasão da Península Itálica e a Guerra com os Ostrogodos


Findo o domínio vândalo do Norte de África e garantida a inclusão destes territórios no Império, Justiniano decidiu confiar, mais uma vez, em Flávio Belisário a condução de uma nova campanha - esta ainda mais ambiciosa do que a anterior - tomar a Península Itálica e Roma, a antiga capital do Império Romano. Os ostrogodos  (outro povo de raiz bárbara) tinham instalado o seu próprio reino nessa região, e estavam dispostos a defendê-lo até ao derradeiro suspiro. A guerra iria ser penosa pautada por avanços e recuos. Se o controlo pelo Magrebe ficou logo decidido entre os anos de 533 e 534, o conflito pela posse da Itália da Alta Idade Média começaria em 535 e arrastar-se-ia até 554, totalizando quase 20 anos de hostilidades!
O comandante até então preferido do imperador bizantino começa a sua complexa empresa com uma vitória na Sicília. Segue-se uma entrada em território italiano, mais concretamente em Rhegium (Calábria), e depois coloca cerco à cidade de Nápoles que cairia nas mãos das tropas invasoras durante o Outono de 536.
Entusiasmado pelos recentes êxitos, Belisário dá agora ordem de marcha até Roma, a cidade das sete colinas e, sem dúvida alguma, a urbe mais prestigiante daquela era. Paradoxalmente, a entrada do general em Roma decorre de forma categórica sem sinais de grande resistência no dia 9 de Dezembro de 536. Mas tudo não passava então dum ardil ou esquema concebido pelos ostrogodos que, sabendo da empatia da população romana para com os invasores (que se declaravam herdeiros do Império Romano), permitiram a entrada dos soldados bizantinos naquela cidade, para posteriormente os cercarem. 
Ao ter conhecimento da estratégia de retaliação do inimigo, o general natural da Trácia aprontou os preparativos necessários à sua defesa e mandou inclusive cavar fossos nas zonas imediatamente exteriores às muralhas, de modo a impedir ou, pelo menos, dificultar a aproximação ostrogoda junto das estruturas defensivas de Roma. 
Todavia, o cerco iria ser bastante duro, e pela primeira vez, o conquistador Flávio Belisário teria a obrigação de defender uma grande cidade diante dum exército respeitoso. No imediato, os ostrogodos erguem sete acampamentos/campos em torno de Roma, e destroem os aquedutos que transportavam água fresca. Ao fim de mais de duas semanas, os sitiadores bárbaros recorrem a torres de cerco para tentar o assalto aos muros, mas são forçados a recuar após violentas escaramuças com a guarnição bizantina. 
O comandante das forças imperiais apercebe-se da gravidade da situação, e consegue enviar mensageiros que envidarão esforços no exterior para garantir a afluência de novos reforços que forçassem o exército ostrogodo a levantar o assédio. Além do mais, Belisário projecta algumas sortidas de forma a tentar desmoralizar gradualmente o oponente.  
Após várias semanas de intensos combates, chegaram finalmente as forças de auxílio requeridas pelos bizantinos. Os ostrogodos ainda tentaram a via diplomática, propondo que Roma voltasse às suas mãos a troco de algumas regiões do sul da Itália que seriam oferecidas a Justiniano. Contudo, não houve qualquer espécie de acordo a esse respeito.
Entretanto, o cenário nos sete acampamentos inimigos era caótico devido à proliferação da fome e de pragas. Desesperados, os ostrogodos tentam um grande assalto colectivo às muralhas com uma determinação carregada de brutalidade mas sofrem uma pesada derrota que culminou no registo dum número bastante elevado de baixas. Naquele tempo, uma armada romana comandada por João causou igualmente imensos dissabores aos interesses dos godos. Ao fim de 400 dias de cerco, os últimos contingentes "bárbaros" abandonam finalmente o cerco de Roma. Belisário e os seus homens terão perseguido impiedosamente muitos desses combatentes até à Ponte de Mílvio já no exterior de Roma.
Dotado de sabedoria e dum espírito incansável, Belisário voltaria à ofensiva, tomando Milão e ainda a capital ostrogoda - Ravena, onde aprisionaria o rei godo Vitiges. Os domínios bizantinos tinham aumentado consideravelmente na região itálica. 
Entre os anos de 541 e 542, o general bizantino, atendendo às novas ordens de Justiniano, abandona temporariamente a campanha italiana, para dirigir outra no Oriente de modo a travar nova ofensiva movida pelos Persas. Os resultados desta empresa oriental foram inconclusivos, mas o processo terminaria com um compromisso de não-agressão entre ambas as partes para os próximos cinco anos, o que permitiu a Belisário retornar ao palco anterior.
Quando regressa, os ostrogodos tinham já recuperado alguns territórios importantes entre 540 e 541. O seu novo rei - Totila tinha mesmo conseguido expulsar os bizantinos de Roma, porém não seria por muito tempo, porque Flávio Belisário voltaria a repor em breve o domínio sobre aquela grande cidade. 
Entretanto, crescia a inveja dos seus detractores internos e até o próprio imperador começou a recear o seu excessivo protagonismo. Dentro deste contexto, o comandante deixou de receber o devido apoio imperial, sobretudo ao nível do abastecimento de provisões e de contingentes militares, o que o obrigou a abandonar o seu projecto em solo italiano. Seria substituído no comando pelo eunuco Narsés (com 74 anos na altura), um general igualmente competente, que sairia vitorioso nas batalhas de Taginae (552) e Volturnus (554), o que encerrou definitivamente a conquista bizantina da região itálica.





Mapa nº 2 - A Campanha de Belisário em solo italiano.
Retirada de Wikipédia (http://en.wikipedia.org/wiki/Belisarius)





Imagem nº 3 - Flávio Belisário chega triunfantemente a Roma, um episódio marcante no âmbito da Guerra Gótica.




Os últimos anos de vida em Constantinopla


Em 559, Belisário voltará a exercer um papel militar relevante ao enfrentar uma armada de eslavos e búlgaros que cruzaram o Danúbio, semeando infindáveis medos nos responsáveis de Constantinopla e nas populações das terras em redor. Recorrendo a uma força de veteranos, o general volta a evidenciar-se, contribuindo para a anulação daquela séria ameaça. Foi o último suspiro de glória deste general agora cinquentenário. 
O fim de vida não lhe reservaria o devido reconhecimento pelos seus serviços prestados ao Império Bizantino. No ano de 563, Flávio Belisário foi acusado de corrupção ou até de eventual conspiração contra Justiniano, tendo sido condenado em Constantinopla num julgamento aparentemente realizado pelo prefeito e historiador Procópio de Cesareia (este mantinha na altura uma relação azeda com Belisário, apesar de ter sido no passado seu assessor ou conselheiro). Cumpriu pena de prisão por algum tempo, mas foi perdoado pelo Imperador que ordenou a sua libertação. Não parece conter qualquer fundamento a lenda (então falsa) de que o imperador bizantino teria mandado cegar Belisário, o qual, segundo esta narração pouco credível, teria passado os seus últimos dias a pedir esmola nas ruas. Mesmo assim, este mito, desprovido então de qualquer fundo verídico, tende-nos a transmitir a ideia de que o comandante não teve direito ao tratamento que justificou merecer pelos serviços que cedeu ao Império. Se por um lado é (quase) certo que Flávio não encerrou a sua existência na condição precária dum marginal ignorado pela sociedade, por outro, não podemos negar a sua passagem pela prisão, momento que comprovadamente aconteceu e que terá sido bastante humilhante para um homem que deu tudo de si para concretizar vários dos sonhos do seu chefe máximo - o basileu. É certo que acabaria por ser libertado em breve, mas o crédito de que outrora gozava já não parecia ser o mesmo.
O imperador Justiniano e o seu leal general Flávio Belisário faleceriam ambos em 565, talvez separados por poucas semanas. Os dois tinham aumentado em 45% a extensão territorial do Império Bizantino. O empenho de ambos resultou no ressurgimento dum novo apogeu digno do saudosismo romano.






Imagem nº 4 - Mosaico na Basílica de São Vital em Ravena que apresenta as principais figuras do reinado de Justiniano (527-565). O imperador encontra-se obviamente no centro. O homem imediatamente ao seu lado direito é Flávio Belisário (isto visto a partir da perspectiva da posição ocupada pelo imperador, mas para quem visualiza a imagem a partir do prisma exterior como aqui no nosso blog, Flávio encontra-se logicamente logo ao lado esquerdo de Justiniano, ostentando cabelo e barba compridos).






Imagem nº 5 - Flávio Belisário (já de idade avançada) é reconhecido por um soldado que lhe presta reconhecimento. Nesta gravura, o pintor François-André Vincent alimenta o mito (erróneo) do conquistador ter sido cegado pelo imperador, vivendo os últimos dias na miséria.
Quadro de François-André Vincent (1776)





Mapa nº 3 - O Império Bizantino atinge a sua máxima extensão no reinado de Justiniano que deve muito deste mérito ao seu general Flávio Belisário.
Retirada de: http://www.preceden.com/timelines/6605-edad-media-i--bizancio-y-el-imperio-carolingio, (F. Javier Villalba Ruiz de Toledo - Universidad Autónoma de Madrid)




"Nenhum General desde César conquistou tantas vitórias com recursos tão limitados de homens e fundos; poucos o superaram na estratégia ou táctica, na popularidade com os seus homens e misericórdia para com os seus inimigos; talvez os seus méritos façam notar que os maiores generais - Alexandre, César, Belisário, Saladino, Napoleão - encontraram clemência num poderoso motor de guerra" (Will Durant citado em: http://www.ancient.eu/Belisarius/)



"Esquecido pela História e traído pelas pessoas mais próximas, fez renascer o sonho romano de reconquistar as terras perdidas para os Bárbaros. Dono de uma das carreiras militares mais respeitáveis de todos os tempos, Flávio Belisário foi o responsável pela expansão do Império Romano do Oriente em meados do século VI. Apagado dos livros de história, seu nome foi temido e celebrado do Oriente Próximo até ao norte da Itália. Suas tácticas de guerra levaram-no a bater inimigos numericamente superiores" (Beto Gomes in http://guiadoestudante.abril.com.br/)




Referências Consultadas:





Nota-extra: O apogeu logrado nos tempos do laureado e formidável imperador Justiniano não se prolongaria por muito tempo. Por volta de 570, isto é, 5 anos depois do falecimento do basileu e do seu general), terá nascido em Meca - Maomé, um profeta com elevado carisma e notável oratória, que estará na génese do Islamismo. A idade de ouro muçulmana irá iniciar-se entre os séculos VII e VIII vislumbrando-se inúmeras conquistas, espalhando assim os princípios do Alcorão pelas regiões submetidas. Os seguidores de Maomé obterão várias vitórias no Médio Oriente, Norte de África e inclusive se apoderarão da Península Ibérica (invasão ocorrida em 711), onde o decadente e dividido reino visigodo tombará facilmente. Essa era culminará evidentemente na acumulação de derrotas por parte dos bizantinos que perderão assim muitos dos seus territórios, ficando confinado o império a uma extensão bem mais modesta do que aquela que fora produto do reinado de Justiniano, o Grande e do seu célebre general destemido Flávio Belisário.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

A Batalha de Teutoburgo (9 d. C.) e o prenúncio do desastre romano na Germânia


1- O Contexto


Nos primórdios do século I d. C., reinava o imperador Caio Otaviano (governou desde 27 a. C. até 14 d. C.), mais conhecido como Augusto. Uma personalidade que merece figurar nos anais da História pela sua liderança prestigiante que contribuiu indubitavelmente para o apogeu romano.
Foi no seu tempo que se anexou o Egipto, a Dalmácia, a Panónia, a Nórica e Récia, além de avanços relevantes na Hispânia, na Germânia e ainda em África. Excluindo as guerras (de alargamento ou protecção) de fronteiras, o Império Romano até usufruiu momentos de paz e estabilidade internas ("Pax Romana"). Graças a Augusto, desenvolveu-se igualmente uma nova rede de estradas, foi estabelecido um exército permanente, aperfeiçoou-se o Direito Romano (por acção dos magistrados), criou-se a guarda pretoriana, promoveram-se as artes e letras (por exemplo: Caio Mecenas protegeu um notável círculo de intelectuais) e implementaram-se várias construções na capital - Roma, renovando o seu perfil arquitectónico.
A civilização romana, recheada de esplendor e dinamismo, agradecia aos seus deuses pagãos a prosperidade económica e junto deles intercediam por novos progressos, como por exemplo, na vertente militar.
Todavia, se a expansão romana reivindicou um corolário de glória nos tempos de Augusto, a verdade é que um desaire monumental poderia alertar para potenciais perigos vindouros. Neste âmbito, a guerra pelo controlo total ou definitivo da Germânia assumia-se como uma meta difícil de concretizar, dada a confluência de várias tribos ou povos nativos com alguma capacidade autónoma e belicista. Mesmo assim, nos primeiros anos do séc. I d. C., a situação aparentava ser mais pacífica do que era costume, com grande parte da Germânia submetida e pacificada por três poderosas legiões romanas. Mas um episódio iria cambiar esta tendência alegadamente favorável.





Mapa nº 1 - As conquistas no reinado de Caio Otaviano Augusto (a verde). 




2 - A Batalha de Teutoburgo


Os romanos já tinham encetado alguns progressos a leste do Reno, mas a incorporação destas novas terras no Império estava longe de ser um dado adquirido. À frente do governo da Germânia, encontrava-se o general romano Públio Quintílio Varo, um oficial com experiência ao nível de cargos públicos. Do seu "currículo" ressalta-nos à vista uma liderança exercida com mão-de-ferro. Por exemplo, no ano 4 a. C., Varo tinha mandado crucificar 2 mil judeus em Jerusalém que se tinham rebelado contra o domínio romano. Sabe-se que também se destacou na vertente política pois, durante a sua carreira, fora nomeado governador, primeiro da Província de África, e depois da Síria. Mas é na Germânia que viverá os últimos tempos da sua vida, onde como disséramos, tinha sido nomeado governador. 
A relativa acalmia conquistada pelas campanhas anteriores não parecia beliscar os interesses e objectivos do novo responsável romano da região. Contudo, a harmonia não passava duma perigosa ilusão que iria "engolir", sem piedade, todos aqueles que subestimaram aquelas tribos indomáveis.  
Neste contexto bastante incerto, Varo é alertado para uma potencial revolta contra a sua liderança. Quem lhe confidenciou essa informação foi Armínio, chefe do povo "Cherusci" (querusco) que contava com 25 anos de vida. Apesar das suas origens tribais germânicas, este Armínio estava acima de qualquer suspeita. Tinha vivido por alguns anos em Roma, onde gozara duma educação sólida e assimilaria assim diversos conteúdos de natureza militar. Imediatamente, teve direito à cidadania romana e chegou inclusive a integrar, enquanto auxiliar, as legiões romanas.
Contudo, Armínio não era de confiança e, como veio a saber-se mais tarde, estava a preparar uma cilada a Varo, atraindo-o à densa Floresta de Teutoburgo, o lugar ideal para a concretização duma mega-emboscada. De modo a concretizar esse plano, o responsável germânico conseguiu formar uma aliança com as maiores tribos da região, preparando discretamente os contornos do ataque surpresa.
Evidentemente, o governador Varo desconhecia estes planos e decidiu atender às instruções de Armínio. No Outono do ano 9 d. C., o general romano deixa a sua base, próxima de Minden (a noroeste da Germânia), e marchou com as três legiões para reprimir a rebelião. Ao todo são 36 mil homens que se deslocam para repor a ordem. Armínio seguia com eles, mas aquando da travessia na Floresta de Teotuburgo, consegue escapulir-se e juntar-se à sua armada que aguardava agora pelo sinal para o choque final. Quando este se deu, um número elevadíssimo de guerreiros bárbaros (até então privilegiadamente posicionados em cima duma colina) caiu em cima da extensa coluna romana que foi apanhada desprevenida, sem haver lugar a tempo para se colocar em formação militar. Em simultâneo, dardos e flechas sobrevoam impiedosamente o céu, surpreendendo as forças romanas. Muitos soldados tombam sem sequer enxergar o que realmente estava a acontecer. Nesta emboscada inicial, estima-se que metade das tropas romanas tivesse sido exterminada. Em jeito de guerrilha, os combatentes germânicos muniam-se de lanças, escudos e dardos, e recorreram sistematicamente a ataques relâmpagos nos dias seguintes para causar o terror e o pânico nas linhas defensivas romanas que ainda restavam.
Já os sobreviventes "latinos" marcharam, no dia seguinte, em direcção a sul mas depararam-se com uma muralha de madeira erguida pelos germanos (onde fica hoje Kalkriese). Aí os romanos passaram ao ataque, mas acabaram por ser repelidos, dada a ferocidade e resiliência do oponente. A cavalaria romana dispersou-se e acabou por ser gradualmente aniquilada pelas emboscadas constantes que se sucederam na floresta no decurso dos dias seguintes. O próprio general Varo decidiu suicidar-se para não ser capturado ou morto pelos germanos. Outros oficiais imitaram-no nesse comportamento fatídico. Os que foram capturados por estas tribos, seriam maioritariamente destinados à escravatura, enquanto uma minoria foi sacrificada em honras consagradas aos deuses germânicos. 
Apenas um grupo de sobreviventes, talvez na ordem das centenas, logrou escapar da floresta da mortandade, alcançando a fortaleza de Aliso, onde puderam juntar-se à guarnição existente. Aí permaneceram até ao irromper do Inverno, estação que obrigou os germanos a retornarem aos seus lares, permitindo assim o regresso dos primeiros ao território romano que tiveram a prontidão de comunicar o sucedido às altas patentes do Império.
O resultado não deixava sombra para dúvidas. Armínio tinha planeado uma traição sangrenta, mas não podemos retirar-lhe algum mérito na forma como conseguiu derrotar três legiões bem armadas. Ele conhecia as tácticas militares romanas (a sua educação permitiu-lhe assimilar as estratégias bélicas que estavam em voga naquela era) tal como a natureza da sua mobilização. E soube tirar máximo proveito da principal desvantagem que os romanos manifestaram naquele momento: o desconhecimento do terreno. Por outro lado, o factor surpresa inerente a qualquer emboscada de grande envergadura também foi um elemento decisivo que tramou o exército romano de Varo. 
De acordo com a tradição, o imperador Augusto, ao saber do desaire, terá lamentado bastante a ocorrência, acabando por repetir várias vezes este desabafo:



"Varo, dá-me as minhas legiões de volta!"




Local: Floresta de Teutoburgo
Data: Outono de 9 d. C. (Setembro?)
Forças Beligerantes

 

Império Romano
(Três Legiões)

 

Tribos Germânicas
Comandantes/Generais
Públio Quintílio Varo †
Armínio
Número de Combatentes
36 000
25 000
Baixas Estimadas
35 000 (entre mortos e escravos)
Reduzidas – (1 000, 2 000?)
Resultado:  As três legiões romanas foram atraídas por Armínio a uma emboscada fatal na Floresta de Teutoburgo, o que causaria o seu aniquilamento. Públio Quintílio Varo preferiu suicidar-se com a sua espada em vez de cair eventualmente nas mãos do inimigo.
Tabela nº 1 - As estatísticas estimadas para o desfecho da Batalha de Teutoburgo.



Imagem nº 1 - A Batalha na Floresta de Teutoburgo culminou na destruição das três legiões romanas que controlavam a Germânia e no suicídio do seu governador - Públio Varo.




Epitaph des Marcus Caelius.JPG

Imagem nº 2 - Cenotáfio de Marco Caélio/Célio (Marcus Caelius), um oficial romano que também sucumbiu às emboscadas germânicas lançadas na Floresta de Teutoburgo.





Imagem nº 3 - Monumento a Armínio, o vencedor da batalha da Floresta de Teutoburgo.
Foto de Klaus Beermann (www.fotos.sc)




3 - Consequências


A derrota foi parcialmente abafada pelas altas instâncias imperiais de forma a não preocupar a plebe romana que vivia um período de considerável crescimento. Não obstante as baixas verificadas, o Império ainda não enfrentaria uma fase crítica ou ameaçadora à sua segurança interna. Contudo, a derrota de Teutoburgo colocaria para sempre em causa as pretensões de domínio romano na Germânia, sobretudo no que diz respeito aos objectivos de expansão a leste ou nas terras do além-Reno. Quase quatro séculos depois começariam as invasões bárbaras que dali partiriam para destruir o Império Romano do Ocidente. 
Mesmo assim, não podemos ignorar que decorreram nos anos vindouros campanhas que almejariam alguns êxitos. Atento às derradeiras ocorrências, o imperador Tibério (que sucedeu a Augusto) depositou confiança nas qualidades militares do seu sobrinho - Júlio César Claudiano (que ganharia o epíteto de "Germânico") que promoveu assim diversas expedições na Germânia contra os intentos libertadores de Armínio. Varo e os seus oficiais foram mesmo vingados na Batalha de Idistaviso (16 d. C.), embora Armínio tivesse conseguido escapar, deixando 15 mil dos seus guerreiros mortos para trás. O líder querusco tinha perdido apoios, e veria a sua autoridade a ser disputada. Seria assassinado por opositores que supostamente viviam no seu meio (é possível que Segestes estivesse envolvido no conluio). Apesar do fim fatídico, o seu vulto seria engrandecido, na posterioridade, pela corrente do nacionalismo alemão.
Apesar destes sucessos imediatamente posteriores, os romanos jamais se empossariam da totalidade da Germânia, e o desastre em Teutoburgo manifestou-se nas décadas e séculos seguintes como uma experiência traumática, ou melhor, espelhou uma das maiores derrotas militares até então testemunhadas no Império Romano.





Imagem nº 4 - Destacamento romano em formação "tartaruga" de forma a garantir a sua protecção mediante eventuais projécteis arremessados pelo inimigo.




Referências Consultadas: