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segunda-feira, 29 de junho de 2015

As "revolucionárias" Ferramentas Pré-humanas detectadas no Quénia

Trata-se de mais uma descoberta arqueológica de extrema importância, desta feita, realizada por uma equipa de investigação norte-americana numa zona a oeste do Lago Turkana (Quénia). Nessa área, os investigadores acharam ferramentas em pedra lascada que somam 3,3 milhões de anos de antiguidade, datação que nos remete prontamente para a sua criação e manuseamento por parte de hominídeos. Este é, sem dúvida, um dado relevante para os especialistas da Pré-história, visto que até então o achado mais antigo de ferramentas materializara-se em Gona, na Etiópia, onde se detectaram objectos com 2,6 milhões de anos. Todavia, os resultados surpreendentes das recentes intervenções arqueológicas no Quénia fizeram recuar agora esse marco em 700 mil anos.
Esta nova introspecção arqueológica assume inequivocamente uma especial pertinência, dado que as ferramentas achadas então nas proximidades do Lago Turkana antecedem em 400 mil ou 500 mil anos os primeiros vestígios que assinalam o aparecimento do Género Homo. Por outro lado, atesta igualmente que os hominídeos já possuíam capacidades cognitivas e motoras para assim procederem ao fabrico de ferramentas em pedra, ideia defendida por Sonia Harmand (investigadora da Universidade de Stony Brook dos Estados Unidos que usufruiu da oportunidade de "operar" na área escavada). Em simultâneo, também é confirmada a hipótese de que estes já saberiam talhar a pedra, revelando destreza manual e algum "critério" na selecção de materiais.
De entre as ferramentas agora detectadas incluem-se, por exemplo, lascas afiadas, bigornas, martelos de pedra e percutores. Naturalmente, muitos destes instrumentos eram utilizados com recurso a uma elevada força manual, tornando-se essenciais para cortar e esmagar objectos ou carnes de animais caçados.
As origens inerentes à utilização da mencionada "Tecnologia da Pedra" são bem mais antigas do que se julgava anteriormente, precedendo mesmo o aparecimento dos primeiros humanos que afinal não foram pioneiros no seu aproveitamento.



A arqueóloga Sonia Harmand descobriru ferramentas com 3.3 milhões de anos, provavelmente usadas por uma espécia semelhante ao Australopiteco - mas mais antigo

Imagem nº 1 - A arqueóloga Sonia Harmand destacou-se nas escavações a oeste do Lago Turkana (Quénia). Aí descobriu ferramentas com 3,3 milhões de anos, provavelmente usadas por uma espécie semelhante ao Australopiteco, embora precedente a esta. Esta investigação refuta assim a tese de que o Homo Habilis tenha sido o primeiro fabricante de pedras.
Direitos da Foto - Jason Lewis / Rutgers University





Imagem nº 2 - Instrumento lítico desenterrado pelos investigadores.
Direitos da Foto - MPK-WTAP





Imagem nº 3 - Vista Geral da área das escavações.




Referências Consultadas:

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Apontamentos sobre o Castro de Ovil

No decurso da nossa visita ao Castro de Ovil, ocorrida no dia 13 de Junho de 2015, e que foi exemplarmente conduzida pelo arqueólogo Jorge Salvador, tivemos a oportunidade de recolher algumas anotações sobre a pertinência histórica deste povoado pré-romano. Dada a sua relevância para a história local, consideramos que seria interessante a publicação destes apontamentos. 
Na Idade do Ferro, as povoações do noroeste da Península Ibérica viviam em castros, isto é, aldeias fortificadas e situadas em colinas de onde poderiam usufruir duma vantajosa visibilidade. 
O Castro de Ovil situa-se no lugar do Monte que, por seu turno, se insere na Freguesia de Paramos (Município de Espinho, Distrito de Aveiro). De acordo com as balizas cronológicas avançadas pelo referido arqueólogo, este sítio conhece as suas origens no século IV a. C., e terá sido povoado até ao primeiro quartel do séc. I d. C. Julga-se que o seu abandono poderá estar directamente relacionado com a consolidação da ocupação romana na Hispânia.
No seu próprio sentido de configuração, o povoado estaria protegido a Norte e a Nordeste por fossos profundos (difíceis de trepar ou escalar) e pela ribeira de Rio Maior que, localizada a Sul, constituiria um obstáculo natural a potenciais intrusos. Estas especificidades asseguravam as condições mínimas de defesa, sobretudo na eventualidade de existirem bandos de salteadores que estivessem dispostos a assolar a zona. 
No interior do castro propriamente dito, destacavam-se as estruturas circulares (revestidas de xisto e argamassa) que outrora serviram de habitações indígenas. Algumas possuíam à sua frente um vestíbulo. 
Em termos económicos, esta comunidade pré-romana deveria garantir a sua auto-sustentabilidade através da recolecção, caça, pesca (proximidade de cursos de água tais como a ribeira de Rio Maior, a lagoa de Ovil - actual Barrinha de Esmoriz/Lagoa de Paramos, e o mar), agricultura (embora incipiente) e criação de gado (talvez caprino). 
O seu culto religioso seria essencialmente politeísta, talvez assente na veneração de deuses ou elementos ligados à Natureza (por exemplo, poderia ser o caso do Sol: o arqueólogo Jorge Salvador confidenciou-nos que terão existido gravuras inscritas em pedra que remetiam para uma eventual adoração daquela estrela central e nevrálgica do nosso Sistema Solar; caso se confirme esta leitura, então estaremos perante uma adoração de características animistas). Sabemos ainda que os indígenas recorriam à incineração dos seus mortos. 
Segundo uma estimativa avançada para o local, terão vivido, no auge da sua ocupação, cerca de 200 pessoas. A esperança média de vida deveria rondar, na época, os 35 anos. É evidente que estes números de pendor demográfico carecem de sustentação científica, mas parecem ser, à primeira vista, minimamente realistas.
Naquele espaço arqueológico, foram ainda recolhidos milhares de fragmentos de materiais antigos (cerâmicas indígenas, potes, panelas, talhas, vasos de suspensão, alguidares; cossoiros, pesos de tear, pesos de rede, pedaços de barro, escórias de fundição, mós de vaivém; objectos de adorno pessoal - contas de colar em pasta vítrea ou fíbulas em bronze; ponta de uma lança em ferro para fins bélicos). No entanto, não foram detectados vestígios romanos o que indicia muito provavelmente o abandono do castro numa altura precedente à chegada dos soldados de Roma àquela região em concreto.
Curiosamente, e pese a sua inequívoca antiguidade, o Castro de Ovil só seria finalmente (re)descoberto e identificado pelos investigadores contemporâneos em 1981. 
Situada próxima deste sítio arqueológico, encontramos as ruínas da extinta Fábrica de Papel "Castelo" (fundada em 1836 e desactivada posteriormente em 1975), envolvidas por um espaço verdejante envolvente que tornou agradável e convidativa a nossa digressão.





Imagem nº 1 - O primeiro núcleo habitacional do Castro que tivemos a oportunidade de visitar.
Foto da nossa autoria




Imagem nº 2 - Os alicerces de mais uma estrutura/habitação circular com o seu respectivo vestíbulo.
Foto da nossa autoria




Imagem nº 3 - O Castro de Ovil situa-se numa escarpa e foi erguido na Idade do Ferro.
Foto da nossa autoria




Imagem nº 4 - As ruínas da antiga Fábrica do Papel situam-se nas imediações do Castro de Ovil.
Foto da nossa autoria



Nota-extra - Há outros estudos que remetem as origens do Castro de Ovil para o século II a. C. (ou até para o século III a. C.). Também é importante assinalar que os achados até então recolhidos confirmam a existência dum artesanato autóctone. 



Referências Consultadas:

segunda-feira, 15 de junho de 2015

al-Mansur, o Grande Califa dos Almóadas


O Contexto


Durante quase todo o século XII, o processo da Reconquista Cristã alcançaria avanços determinantes que gradualmente reduziriam as posses territoriais dos muçulmanos na Península Ibérica. Reis como D. Afonso Henriques (Portugal), Afonso I (Aragão) e Afonso VII (Leão e Castela) haviam arrecadado vitórias fundamentais que empurravam, cada vez mais, para sul os seguidores de Maomé. O espírito de cruzada estava bem patente na Hispânia, e contava ainda com o patrocínio papal que encarava a presença muçulmana em solo europeu como uma ameaça. 
O declínio do al-Andalus (designação árabe para as posses que os islamitas detinham naquela região) era confirmado pelas acentuadas divisões internas vividas entre os responsáveis muçulmanos, sobretudo aquando da era desagregadora dos reinos taifas. 
Os almóadas emanciparam-se na região do Magreb (Norte de África) no decurso do século XII, contrariando o relaxamento, o decadentismo e a passividade dos almorávidas. Esta nova dinastia de origem berbere irá estender-se desde 1147 até 1269, tanto no Norte de África como na Península Ibérica. Nesta última frente, o seu objectivo visaria então a anulação do ascendente cristão no âmbito belicista.
Na última década do século XII, muitos dos propósitos teóricos desta nova linhagem materializariam-se através da acção dum califa enérgico e determinado: Abu Yusuf Ya'qub al-Mansur, aquele que viria mesmo a ser o mais bem sucedido entre os almoádas que intentaram inaugurar um período mais luzidio ou criativo no al-Andalus. A sua entrada em cena será suficiente para fazer cessar os progressos cristãos, e obrigar inclusive alguns reis peninsulares a recorrer à guerra defensiva.





Mapa nº 1 - A realidade do al-Andalus em 1157. Os almoádas herdaram o legado crítico dos reinos taifas, tentando agora resistir às recorrentes investidas cristãs.




Mapa nº 2 - O Império Almóada (1147-1269), preenchido/delimitado a azul escuro neste exemplar cartográfico digital, albergava a região do Magreb/Marrocos e ainda o sul da Hispânia (ou a parte "sobrevivente" do al-Andalus).




A vida de al-Mansur até a batalha de Alarcos


al-Mansur nasce em 1160. Era filho de Yusuf I (1163-1184), segundo califa dos almóadas que havia convertido Sevilha na capital do al-Andalus, além de ter procedido a construções fundamentais nesta notável urbe. Em 1184, o seu pai é morto aquando do cerco frustrado de Santarém, episódio em que se terá deparado com as tropas cristãs de D. Afonso Henriques de Portugal e de D. Fernando II de Leão. Como consequência natural, al-Mansur sobe automaticamente ao trono, e encontra-se logo disposto a vingar a morte de seu pai e a romper com o auge cristão na Península Ibérica.
O terceiro califa dos almóadas é um homem com relevante grau de cultura e visão estatal. Por exemplo, sabemos que escrevia em bom estilo árabe. O novo soberano entendia que era imperioso imprimir uma reforma vasta no seu império, de forma a combater a mediocridade, a incompetência ou a corrupção internas. Neste preciso contexto, não hesitará em repudiar o luxo e a relaxação de costumes, e reforçará igualmente o seu poder militar e a importância do capítulo disciplinar na sociedade.
A primeira demonstração bélica do seu califado acontece em 1187, ano em que aplica uma derrota estrondosa à dinastia almorávida dos Banú Ganiyah de Maiorca que governava as ilhas Baleares e que patrocinava a pirataria bem como acções militares que lesavam recorrentemente os interesses dos almóadas do Norte de África. Nos seus empreendimentos iniciais, al-Mansur teve então de viabilizar alguma estabilidade no Magreb, para assim mais tarde poder finalmente ingressar com as suas tropas na Península Ibérica, de forma a projectar uma campanha ambiciosa que, desde a morte de seu pai, motivaria o seu desejo de vingança mas também de glória e de restituição dos tempos áureos do al-Andalus que se haviam esfumado nas últimas décadas.
Entre 1190 e 1191, al-Mansur realiza a sua primeira campanha na Península Ibérica. Os resultados são logo evidentes - o califa almóada recupera várias praças para o Islão: Alcácer do Sal, Palmela, Almada, Torres Novas, Abrantes e Silves. Apodera-se ainda do castelo de Paderne. Évora tornou-se praticamente no único bastião cristão na região do Alentejo. Todavia, e no âmbito desta expedição, temos também de reconhecer a resistência heróica dos templários em Tomar que, liderados pelo experiente e reputado D. Gualdim Pais (cruzado português que outrora combatera na Palestina), souberam suportar uma terrível pressão exercida pelas forças muçulmanas que certamente compreenderiam um elevado número de soldados.
D. Sancho I não imprimiria o mesmo legado vitorioso que o seu pai D. Afonso Henriques evidenciara perante os seguidores do Islão. Como já podemos constatar, o reinado do Povoador (1185-1211) coincidiu, em boa parte, com a subida de al-Mansur ao trono dos almóadas. O soberano português que até então tinha "saboreado" a conquista de Silves e Alvor em 1189 (com a ajuda de cruzados nórdicos, flamengos, frísios e germânicos), acabou por perder, nos anos seguintes, estas duas praças e muitas outras terras a sul do seu reino, e não teve outra oportunidade senão "jogar à defesa" diante dum adversário que conseguiu unificar, centralizar e reforçar o seu próprio poder, organizando um exército poderoso e coeso que estava à altura dos desafios militares mais exigentes.
Entretanto, seria assinado um armistício, de curta duração, entre os principais intervenientes, o que permitiu a al-Mansur regressar triunfantemente ao Norte de África, mais concretamente aos seus aposentos em Marraquexe. 

  



Imagem nº 1 - Abu Yusuf Ya'qub al-Mansur assegura uma entrada vitoriosa na Península Ibérica, conquistando várias praças. Apenas fracassa em Tomar, onde os cavaleiros templários, liderados por D. Gualdim Pais, resistem com heroicidade a um assédio implacável.
Retirada de: http://passoapasso-abt.blogspot.pt/2012_09_17_archive.html, (III Festival de Estátuas Vivas de Tomar).




A Batalha de Alarcos (1195)



Com a expiração das tréguas, Afonso VIII, rei de Castela, voltou à carga e monitorizou uma campanha na província nevrálgica de Sevilha. Os governadores do al-Andalus imediatamente suplicaram por auxílio militar da parte do califa. Atendendo a esta urgente solicitação, al-Mansur sai logo de Marraquexe e atravessa novamente o Estreito de Gibraltar, liderando uma segunda expedição contra os cristãos.
O califa almóada desembarca em Tarifa a 1 de Junho de 1195. Nas semanas seguintes, consegue adquirir mais reforços, nomeadamente ao nível de tropas cedidas pelos governadores locais. Contou ainda com o apoio surpreendente de Pedro Fernandes de Castro, um nobre castelhano que se havia rebelado contra o seu próprio rei.
Por seu turno, D. Afonso VIII reúne o seu exército em Toledo e marcha em direcção a Alarcos, espaço situado nas proximidades do rio Guadiana. O rei de Castela temia o acesso imediato do inimigo ao vale do Tejo, e por isso, decidiu não esperar pelas tropas de auxílio dos reis Afonso IX de Leão e de Sancho VII de Navarra. Um erro do qual se arrependeria amargamente, e que só inverteria em 1212 na célebre Batalha de Navas Tolosa.
A 16 de Julho de 1195 as duas forças oponentes encontraram-se finalmente em Alarcos. Nesse momento, o rei cristão apercebe-se do real poderio do inimigo, mas mesmo assim recusa-se a fazer marcha atrás, opção que lhe permitiria aguardar pela chegada de novas tropas cristãs provenientes doutros reinos peninsulares. Por seu turno, al-Mansur recusou travar a batalha nesse mesmo dia porque denotava algum desgaste nos seus homens que haviam sido sujeitos a uma marcha penosa e atormentada pelos calores veraneantes. Por isso, conseguiu oferecer algum repouso aos seus homens antes do episódio bélico que decorreria a 18 de Julho.
Contando com uma cavalaria pesada, estimada em 8 mil homens, Afonso VIII é o primeiro soberano a tomar a iniciativa, ordenando uma carga assombrosa sobre as linhas almóadas. Os primeiros capítulos da batalha até são favoráveis aos cristãos que arrasam ou fazem dispersar algumas tribos berberes. O renomeado vizir Abu Yahya é mesmo morto em combate. O ascendente das tropas castelhanas parecia ser irreversível, mas tal fora uma ilusão que não perduraria por muito mais tempo.
De facto, a reacção muçulmana não se fez esperar. Os arqueiros almóadas começaram a causar baixas significativas nas forças de Afonso VIII, e a elite do exército árabe estava já preparada em partir para a ofensiva com o próprio califa à vista nas fileiras.
O rei castelhano Afonso VIII responde na mesma moeda e avançaria então com todas as forças para o engajamento derradeiro, mas os almóadas revelavam uma invejável coesão e continuavam a tirar máximo proveito da sua arquearia exímia, além de conquistarem novas posições nos flancos. Assolado por quase todos os lados, o soberano cristão, então envolvido na luta corpo-a-corpo, compreende imediatamente que tinha subestimado as capacidades reais do adversário, e contra a sua vontade, teve mesmo de se retirar da batalha em direcção a Toledo, acabando assim por ceder aos prudentes conselhos dos nobres cristãos mais experimentados que o acompanhavam. Para trás, ficaram a sua infantaria e um número considerável de cavaleiros de ordens militares que seriam irremediavelmente esmagados pelo impetuoso exército berbere que já sentia o sabor da vitória. Muitos soldados cristãos que não se retiraram com Afonso rumo a Toledo, tentaram encontrar refúgio numa fortaleza inacabada de Alarcos. Os fugitivos atropelam-se mortalmente uns aos outros só para conseguir a entrada no seu interior claramente congestionado, outros são mortos pelos ginetes que os perseguiam impiedosamente. Para acentuar ainda mais o drama, os cerca de 5 mil soldados que lograram entrincheirar-se na modesta fortificação não dispõem sequer de qualquer acesso aos víveres necessários (água e alimentos), e ao serem prontamente cercados pelas forças almóadas, não têm outra hipótese senão negociar a sua própria rendição. López de Haro, o líder da vanguarda do exército cristão, garantirá a sua própria liberdade tal como outros cavaleiros influentes, mas em contrapartida, deixará para trás alguns reféns e a promessa do pagamento dum elevado resgate aos vitoriosos.
Em jeito de balanço final deste episódio bélico, al-Mansur tinha alcançado o feito mais importante da sua carreira, ao derrotar um exército de proporções respeitáveis que ameaçava desferir já o golpe fatal na sobrevivência do al-Andalus. Naqueles anos, a fama do califa generalizou-se pelo mundo muçulmano, e o medo tomou mesmo conta dos líderes cristãos ibéricos. Há quanto tempo eles não enfrentavam um governante muçulmano tão determinado e enérgico no seu dever de protecção dos seus territórios?
Nos dois anos seguintes à batalha de Alarcos, al-Mansur promoverá incursões devastadoras na Estremadura, no Vale do Tejo, em La Mancha e até nas proximidades de Toledo. Alguns castelos destas regiões renderam-se ou foram mesmo abandonados. A estabilidade do reino de Castela foi inclusive ameaçada, contudo o califa acabaria por dar ênfase a outras prioridades, retirando-se para o Norte de África, mas sem antes firmar tréguas com os reinos de Leão, Navarra e Portugal.




Local: Alarcos (terra localizada a sul de Toledo; pertence à província de Ciudad Real)
Data: 18 de Julho de 1195
Forças Beligerantes
Kingdom of Castile Arms.svg

Reino de Castela


 Flag of Almohad Dynasty.svg


Império Almóada
Comandantes/Generais
D. Afonso VIII
Abu Yusuf Ya'qub al-Mansur
Número de Combatentes
25 000
30 000
Baixas Estimadas
Estatística não apurada, mas o número de mortos e de prisioneiros caídos nas mãos do adversário deve ter sido deveras elevado.
Estatística não apurada, embora o exército almóada tenha sofrido algumas baixas, sobretudo nos primeiros momentos da batalha.
Resultado: Os almóadas derrotam as forças cristãs, forçando o rei castelhano D. Afonso VIII a retirar-se da batalha. al-Mansur consolidava assim a sua “fama” de califa imparável no campo de batalha.


Tabela nº 1 - As estatísticas inerentes à batalha de Alarcos (1195).




Imagem nº 2 - A reconstituição do posicionamento táctico inicial das duas forças no terreno.
Veja-se ainda: http://www.balawat.com/




Imagem nº 3 - O momento em que as forças almóadas começam a cercar o adversário, e a controlar assim as operações na batalha de Alarcos.
Veja-se ainda: http://www.balawat.com/





Imagem nº 4 - Os arqueiros muçulmanos desempenharam um papel decisivo na batalha de Alarcos, causando significativas baixas no exército cristão.




Final de Vida e Posterior Legado


O final da sua existência irá pautar-se por uma condição enferma extenuante, talvez já herdada da derradeira campanha conduzida em território hispânico, e que se agravaria gradualmente, quando já se encontrava em Marrocos. Nos derradeiros momentos da sua vida, entregou-se à devoção religiosa, delegando os assuntos de estado no seu filho Muhammad an-Nasir que seria o seu sucessor. No ano de 1199, a vida de al-Mansur expiraria em Marraquexe (Marrocos), após 39 anos de vida e 15 anos de sólido califado. O seu falecimento seria um alívio para os soberanos cristãos ibéricos que, muito em breve, voltariam à ofensiva, desta feita, para serem inteiramente bem sucedidos, invertendo o resultado verificado em Alarcos. A batalha de Navas Tolosa (16 de Julho de 1212) devolverá o ascendente decisivo aos cristãos que, comandados pelos reis Afonso VIII (Castela), Sancho VII (Navarra) e Pedro II (Aragão), derrotarão o filho de al-Mansur nesse confronto crucial. A estabilidade política que fora consubstanciada no tempo de al-Mansur iria ruir nos anos seguintes, e o al-Andalus voltaria a caminhar para um cenário de extinção que parecia certo e inevitável.
Consideramos redutor analisar o governo de al-Mansur (1184-1199) apenas pelo prisma político, pelo que enunciaremos agora determinadas iniciativas levadas a cabo noutros sectores de actuação. No âmbito social e cultural, o califa almóada promoveu actividades religiosas nos meios sociais e intelectuais. Ordenou a construção de numerosos edifícios civis e religiosos no al-Andalus e em Marrocos. Por exemplo, ele mandou construir as mesquitas de Koutoubia e El Mansouria em Marraquexe, e desempenhou papel importante na reconstrução do Casbá dos Oudaias, sito em Rabat. Já em Sevilha, seria erguido o célebre e altivo minarete junto à respectiva mesquita (espaço que corresponde à actual Giralda, esta já adequada à posterior ocupação cristã) que, sob a direcção prévia do arquitecto Ahmad Ben Baso, conheceria um impulso definitivo na sequência moralizadora gerada pela vitória árabe em Alarcos. Com uma altura inicial de 82 metros, esta estrutura tornou-se no edifício mais alto da Europa daquele tempo. Pouco tempo depois, e inspirada neste mesmo modelo arquitectónico, seria também erguida a Torre Hassan em Rabat.
Mas nem tudo foi um mar de rosas. O filósofo e médico Averróis (1126-1198), especialista na interpretação do pensamento aristotélico e seguidor duma visão essencialmente racionalista, foi banido por al-Mansur, cujo carisma era conservador e ortodoxo e ainda defensor acérrimo dos princípios do Corão. Os escritos daquele erudito foram queimados, apesar do seu legado cultural ter sido preservado à posteriori.
Em suma, al-Mansur conseguiu imprimir a estabilidade necessária e revelar, em simultâneo, uma visão admirável que produziu frutos no âmbito político, militar e cultural. O califa almóada travou, durante o seu governo, o ímpeto da Reconquista, e promoveu uma vasta obra material, porém o cenário acabaria por mudar nos anos posteriores à sua morte.




La Giralda August 2012 Seville Spain.jpg

Imagem nº 5 - A Giralda de Sevilha (Património da Humanidade) conhece as suas verdadeiras origens no imponente minarete construído em finais do século XII, aquando do califado de al-Mansur. Com a ocupação cristã a partir de 1248, a mesquita será transformada em catedral, e o minarete acabará por ser designado como Giralda (é nesta fase que o terço superior da torre será implantado para albergar os sinos e conferir uma identidade cristã). 
Retirada do Wikipédia





Imagem nº 6 - A Torre Hassan começou a ser construída na cidade de Rabat em 1195.




Referências Consultadas:

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Murasaki Shikibu, a romancista medieval japonesa

No decurso da era medieval, os direitos e as capacidades culturais da mulher encontravam-se completamente desacreditados ou até renegados por uma sociedade estratificada e mergulhada em inúmeras desigualdades. Todavia, houve casos excepcionais de sucesso que, na altura, já tendiam a refutar tais estereótipos infundados. Neste contexto, registamos histórias de pessoas do sexo feminino que conseguiram elevar a sua erudição, deixando um legado valioso à sua civilização e vencendo assim a discriminação humilhante a que estavam votadas.
No país do sol nascente, Murasaki Shikibu alcançaria o reconhecimento universal daquilo que seria o seu imprescindível contributo para a História da Literatura. Nascida em Heian-kyō (actual Quioto) por volta de 973 (ou 978!), era filha do poeta e governador de província de Echizen - Fujiwara no Tametoki. Pertencia assim a uma família aristocrática que também já tinha dado cartas na cultura - por exemplo, o seu bisavô Fujiwara no Kanesuke (877-933) tinha sido igualmente um poeta de notável gabarito. 
Desde a sua infância, Murasaki demonstrava inteligência e perspicácia, assimilando os conhecimentos mais depressa do que o seu irmão. Por vezes, o seu pai desabafava "Se tu fosses apenas um rapaz, como eu ficaria tão contente", porém ele nunca a proibiria de estudar com o seu irmão, permitindo mesmo a leitura de alguns clássicos de língua chinesa que eram considerados inadequados para as mulheres do Período Heian (794-1185). A jovem teve ainda oportunidade de estudar a caligrafia, poesia e música japonesas. Em matéria de perfil, revelou, desde cedo, uma forte personalidade, o que associado à sua alta intelectualidade (considerada absolutamente sinistra para uma mulher), lhe granjearia poucas amizades ao longo da sua vida. Assim sendo, lidou com os olhares indiscretamente censuradores da sociedade do seu tempo, mas nenhuma destas contrariedades a impediria de vencer na vida. A sua educação tinha sido privilegiada, e o seu talento ou dom para a escrita nunca a abandonariam até ao final da sua vida. Estes dois últimos "ingredientes" eram raríssimos no mundo medieval mas constituiriam ferramentas preciosas para que alguns ousassem triunfar diante duma realidade bastante adversa.
Quando alcançou a fasquia etária dos 20 anos, Murasaki casou-se com Nobutaka - seu primo afastado e de idade já algo avançada. Teve uma filha em 999, mas perderia o seu marido dois anos depois, em 1001, devido a uma epidemia de cólera que afectou o país. 
A família imperial Fujiwara logo que teve conhecimento da sua erudição e utilidade, convidou-a a integrar a corte nipónica, como de facto veio a suceder-se enquanto dama-de-companhia às ordens da imperatriz Shōshi (também conhecida como Akiko). Ao frequentar essa nova realidade, Murasaki Shikibu começou a redigir um diário que manteve junto de si durante dois anos. Aí descreveu os pormenores da vida cortesã, lamentando profundamente o seu carácter frívolo e concorrencial. Também confidenciou que evitava expressar-se em língua chinesa (adoptada como oficial no âmbito estritamente governamental), cuja pronunciação por parte duma mulher era inaceitável naquele arquipélago asiático.
Todavia, a sua obra mais notável foi "O Conto de Genji" ("Genji Monogatari") baseado na vida preenchida de aventuras e amores dum príncipe fictício de seu nome Genji. Este seu projecto marcante foi talvez composto entre os anos de 1001 e 1010, ou seja, teria começado a lavrá-lo logo após a morte de seu marido e só o terminaria quase uma década depois (no entanto, há outros estudiosos que defendem que só terá concluído a redacção nos anos derradeiros da sua existência, remetendo aquela composição prosaica para uma duração cronológica superior). Nesta sua longa e incontornável narrativa, recheada de inúmeras personagens, a escritora inspirar-se-ia novamente nos mais ínfimos detalhes que caracterizavam as acções e comportamentos em voga das classes mais elevadas da sua sociedade, não hesitando em denunciar a decadência, a vaidade, a falsidade e os seus "vazios morais". Os "rolos manuscritos" de Murasaki perpetuariam a sua mestria intelectual, ao nível do pormenor descritivo e do exímio retrato que apresentou do seu povo naquele período mais remoto. Sem surpresa, os seus textos foram posteriormente traduzidos em diversos idiomas, merecendo a atenção de vários estudiosos e investigadores que, até aos dias de hoje, se renderam à sua criatividade sublime. De acordo com muitos especialistas, Murasaki terá sido a primeira romancista da História da Humanidade, e a sua vasta obra ainda se reveste duma invejável actualidade, sobretudo nos meios intelectuais orientais. Murasaki terá ainda concebido a sua própria colecção de poemas, onde voltou a revelar originalidade e uma infindável sabedoria.
Pouco se apurou sobre os derradeiros anos de vida da dama Murasaki. Julga-se que, em algum momento, terá abandonado a corte e ingressado num convento budista (Ishiyama-dera?). É ainda possível que tivesse procurado zelar pelo bem-estar da imperatriz Shōshi (o marido desta - o imperador japonês Ichijō tinha perecido em 1011).
Supõe-se que esta célebre escritora japonesa teria falecido por volta dos anos de 1025 ou 1026 (também subsistem teorias que sugerem as datas de 1014 e 1031 para o seu óbito), pressentindo, nos seus últimos escritos, acontecimentos violentos no futuro, muito devido àquilo que ela considerava ser fruto da degradação das classes superiores (as suas visões ou instintos não estavam muito longe da verdade, pois em 1192, os "samurais" iriam rebelar-se e, por conseguinte, procederiam à criação dum governo feudal e militar encabeçado por um xogum, oficial belicista que esvaziaria assim os poderes do imperador).
Murasaki evidenciou-se pela sua astúcia, carisma, coragem e determinação. Só assim abriria as portas da glória, ultrapassando todos os penosos obstáculos que se lhe podiam deparar na era medieval.





Imagem nº 1 - Murasaki Shikibu [973-1025] retratou a sociedade nipónica (nomeadamente as classes superiores) no Período Heian.






Imagem nº 2 - A Dama Murasaki Shikibu deixou uma herança vasta à Literatura Mundial.
Retirada de: http://womenandphilosophyproject.blogspot.pt/2013/03/murasaki-shikibu.html




Afirmações Célebres de Murasaki Shikibu:



"O mundo sabe que não; mas a ti, Outono, tenho de te confessar: o vento ao anoitecer apunhala profundamente o meu coração "


"Nenhuma arte ou aprendizagem deve ser continuada sem entusiasmo... E a aprendizagem de qualquer arte irá certamente recompensar mais ou menos de forma generosa o esforço feito em estudá-la"


"Bem, nós nunca esperávamos isto! Todos dizem: «Ninguém gostava dela. Todos eles disseram que ela era pretensiosa, estranha, de difícil abordagem, espinhosa, também gostava de seus contos, altiva, propensa a versificar, desdenhosa, rabugenta, e arrogante. Mas quando você a encontra, ela é estranhamente mansa, uma pessoa completamente diferente! Que vergonha! Será que eles realmente olham para mim como uma coisa maçante, eu me pergunto? Mas eu sou o que eu sou. "


"Em assuntos de arte a modéstia não é uma virtude"


"É inútil falar com aqueles que não entendem nada e que são problemáticos em falar com outros que criticam a partir de um sentimento de superioridade. As pessoas unilaterais são especialmente problemáticas. Poucas são versadas em muitas artes e a maioria agarra-se estreitamente à sua própria opinião. "




Notas-extra - Além das dúvidas em torno das balizas cronológicas que delimitaram a vida desta personalidade que tentamos aqui biografar, também ressalvamos que o seu nome original (ou de nascimento) é-nos totalmente desconhecido. Os investigadores acreditam que Murasaki é o nome derivado duma heroína do seu romance, enquanto que o apelido Shikibu reflecte a posição ou título de seu pai no "ministério" dos rituais. No entanto, foram estes os dois nomes que lhe assegurariam uma identidade na História. Relativamente à sua família, denotamos ainda uma ligação emparentada, embora seguramente distanciada e remota, ao clã poderoso dos Fujiwara.  



Referências Consultadas:



quarta-feira, 20 de maio de 2015

Ladislau, o rei santo da Hungria


Um cenário atribulado no início da sua vida


Filho do príncipe Bela e de Riquilda, Ladislau nasceu na Polónia, por volta do ano de 1046. Naquela altura, a conjuntura não era nada promissora visto que os conflitos internos pelo poder eram frequentes e minavam a estabilidade. Nos seus primeiros anos de vida, Ladislau testemunhara a rivalidade feroz que o seu pai Bela mantinha com o seu tio e rei da Hungria - André I. 
A disputa bélica pelo trono magiar até parecia ter ficado apaziguada aquando da promessa de André que, sendo o soberano em exercício, estaria disposto em transmitir, por herança, o ofício régio ao seu irmão Bela. Contudo, o nascimento de Salomão, primeiro filho do rei André, em 1053, inverteu este processo de entendimento, pois o líder magiar logo procurou defender os interesses do seu filho numa eventual sucessão, postura que decerto irritou Bela. O recurso às armas voltou então a verificar-se. Em 1060, dá-se uma dura batalha junto ao rio Tisza, na qual o soberano André é derrotado pelo príncipe Bela. Apesar da fuga, o rei húngaro tinha sofrido ferimentos que lhe seriam fatais e, assim sendo, viria a perecer em Moson nesse mesmo ano. 
Como a monarquia húngara era electiva, Bela (pai de Ladislau) seria então convidado a suceder na liderança do reino, até porque Salomão (filho do rei André I) era ainda demasiado jovem para assumir tais responsabilidades. Todavia, o reinado de Bela seria curto e terminaria logo em 1063, após o derrube inesperado do suporte de madeira do seu trono, acidente que lhe causaria diversos ferimentos que seriam também suficientes para ditar a sua morte. Coincidindo com o ano do falecimento daquele rei, chegariam igualmente as forças de apoio germânicas lideradas por Salomão que retornava agora para reclamar os seus direitos. Os três filhos de Bela - Géza, Ladislau e Lampert tiveram de procurar refúgio por algum tempo fora do reino. Contudo, em 1064, este trio de príncipes regressou com um exército polaco e conseguiu então firmar um acordo com o seu primo e novo rei Salomão que lhes cedeu uma porção territorial no nordeste do reino húngaro.  
Durante este processo, Ladislau não hesitou em reconhecer a legitimidade real de Salomão, até porque nunca aceitara bem o facto do seu pai (Bela) ter sido responsável directo pela morte do seu tio - o rei André I.
Apesar de algumas façanhas militares (sobretudo contra invasores cumanos, pechenegues e bizantinos), o rei Salomão acabaria por revelar uma conduta déspota, sanguinária e cruel, o que causou indignação popular. A nobreza húngara apresta-se à rebelião para defender os seus direitos, não se revendo na gestão autoritária do filho de André. Entretanto, o mal-estar e a desconfiança de Salomão também visará os seus próprios primos, não hesitando em planear o assassinato destes, embora os seus intentos tivessem saído frustrados. A rivalidade interna acentuava-se então vertiginosamente. No campo diplomático, o titular do reino da Hungria conta com o apoio dum aliado de peso ao qual está disposto a prestar vassalagem - o Sacro Império Romano Germânico. Todavia, os filhos de Bela não se deixam ultrapassar neste cômputo e conseguem obter o auxílio de polacos, russos e ainda do Papa Gregório VII (1073-1085) que mantinha um braço-de-ferro com as instâncias imperiais alemãs por causa da querela das investiduras. 
A guerra travada entre as duas facções culminaria na batalha decisiva de Mogyoród (1074), a qual seria vencida pelos irmãos Géza e Ladislau que, no pós-batalha, poupariam a vida a Salomão. Enquanto irmão mais velho, Géza seria coroado como novo rei, porém só governaria por três anos, tendo morrido em 1077. Abriam-se as portas do poder para Ladislau...





Imagem nº 1 - A Batalha de Mogyoród (1074) terminará com o reinado autoritário de Salomão, filho do rei André I, abrindo em simultâneo as portas do poder real para Géza e Ladislau, filhos do rei Bela. 
 Gravura da Chronicon Pictum (século XIV).




Ladislau I, o modelo de rei-cavaleiro (1077-1095)


Após a morte de Géza, os nobres húngaros voltaram a reunir-se para determinar quem seria o sucessor, e a escolha recairia sobre Ladislau. A sua sobriedade, sentido de justiça e elevada conduta moral eram virtudes apreciadas por parte da assembleia de barões influentes. Mesmo assim, Ladislau só aceitou a coroa após inúmeras pressões nesse sentido, visto que considerava ainda o seu primo Salomão (ainda vivo!) como herdeiro legítimo ao trono.
Chegado ao poder em 1077, Ladislau promoveu o crescimento do Cristianismo, tendência que se espelhou no decurso do seu reinado através da construção de várias igrejas e mosteiros (podemos aqui destacar a criação da célebre basílica de Nossa Senhora de Waradin). Foram ainda fundadas duas dioceses - a de Várad e a de Zagreb. Redefiniu igualmente os deveres que deveriam nortear os bispos e demais dignidades eclesiásticas. Ladislau sabia articular a sua hábil acção tanto nos assuntos laicos como nas temáticas eclesiásticas, o que lhe granjearia respeito por parte das mais diversas esferas da sociedade. Na sua vida privada, o soberano jejuava constantemente e orava por largas horas, o que confirmava a sua sólida formação cristã, talvez herdada por via da educação maternal
No campo da política interna, privilegiou a pacificação total do seu território, devolvendo harmonia ao reino após vários anos de tensão. Elaborou leis rígidas sobre furtos e assassínios, e demonstrou ainda solidariedade para com os órfãos e mais carenciados.
Ao nível da diplomacia no exterior, Ladislau continuava a reconhecer o Sacro Império Romano Germânico como principal inimigo do seu reino, e por isso, não hesitará em reforçar a aliança com o Papa Gregório VII e com Rodolfo da Suábia, adversário directo do imperador Henrique IV. Após ter ficado viúvo, Ladislau contrairia um segundo matrimónio com Adelaide, filha de Rodolfo, da qual terá algumas filhas, entre elas - Santa Piroska da Hungria (também conhecida como Irene).
Ladislau sempre procurou manter uma convivência sensata com o seu primo Salomão. Concedeu-lhe uma pensão proporcional ao seu nascimento privilegiado, e enviou ainda altos prelados ou homens de Estado que o tentavam chamar à razão e aos caminhos da fé cristã. O monarca húngaro estava inclusive disposto a devolver-lhe o trono, caso ele imprimisse uma postura bem mais assertiva e equilibrada. Mas Salomão não tinha mudado, e por isso, não tardaria em envolver-se em conspirações para destronar o rei santo. Contudo, os seus planos foram descobertos e Ladislau mandou-o encerrar numa praça forte, mas não por muito tempo. De acordo com uma lenda então narrada, Ladislau queria trasladar e exumar os restos mortais do antigo rei magiar Estêvão (este governara entre os anos 1000 e 1038; seria mesmo considerado o primeiro grande promotor do Cristianismo na Hungria), porém os seus operários não conseguiam sequer abrir o túmulo de pedra. Uma monja do convento de Kökénysomyló terá aconselhado o rei a libertar Salomão e a devolver-lhe todos os seus bens, para que as intervenções acabassem por ser bem sucedidas. Foi o que efectivamente aconteceu. Salomão foi libertado e morreria poucos anos depois (talvez em 1087), desconhecendo-se os detalhes das suas últimas vivências. De acordo com uma narração lendária (embora não fundamentada do ponto de vista científico), ele teria possivelmente seguido uma vida solitária em regiões florestais, acabando por abraçar o Cristianismo e demonstrando ainda arrependimento pelos seus anteriores desmandos. Quanto às contrariedades em torno do túmulo real de Estêvão, foram finalmente contornadas, tornando assim possível o transporte das suas relíquias, o que se traduziu numa crescente veneração à sua figura. Segundo se julga, foi encontrada ainda a sua mão direita que se achava desaparecida no reino, a qual seria colocada no novo mosteiro de Szentjobb que havia sido fundado para o efeito. Muitos populares passaram a relatar milagres que seriam da autoria de Estêvão, pelo que o rei Ladislau tentou influenciar a sua canonização bem como a de seu filho - o príncipe Emerico (ou Emérico), e ainda de outros três bispos (Gerardo Sagredo, Bystrík e Buldus), vítimas dum terrível levantamento pagão ocorrido em 1046. Todos os processos conheceram luz verde da Santa Sé no ano de 1083. Graças a estas cinco canonizações, a Hungria consolidava assim a fé cristã e reforçava ainda mais a estreita ligação com a Santa Sé - aliás, estas foram as metas (religiosas e políticas) que Ladislau pretenderia almejar no seu reinado. Neste caso concreto, é de salientar ainda a magnanimidade do monarca húngaro que não hesitou em apoiar este intenso culto em torno de São Estevão, o qual outrora teria presumivelmente mandado cegar Vazul, avô de Ladislau, nos inícios da década de 1030.
Apesar da sua índole moderada e piedosa, Ladislau teve que enfrentar alguns ataques provenientes do exterior, nomeadamente por parte de pechenegues e cumanos, tribos bárbaras que continuavam a semear o pavor nas zonas fronteiriças nas décadas de 1070, 1080 e 1090. Bem sucedido nas batalhas, o soberano magiar, caracterizado pela sua alta estatura e robustez física, foi prontamente visto como um defensor do mundo cristão e em particular do reino húngaro, sendo ainda admirado pela sua benevolência para com os invasores pagãos, pois preferia que estes fossem cristianizados em vez de chacinados. A partir do reinado de Ladislau, o estado magiar experimentará agora alguma acalmia face aos eventuais perigos oriundos do exterior, cenário que se manterá até 1241, ano da aterradora invasão mongol.
No ano de 1091, a morte do derradeiro rei da Croácia - Dmitar Zvonimir, casado com Helena (irmã de Ladislau), permitiu ao soberano magiar ocupar grande parte daquela região bem como da Dalmácia, proporcionando assim a expansão dos seus domínios. Preocupado com a cristianização destas novas áreas, estabeleceria a já mencionada sede episcopal de Zagreb.
Ladislau falecerá no dia 30 de Julho de 1095, deixando para trás 18 anos prósperos de reinado. Segundo rumores talvez circulados postumamente, teria sido convidado, por altura da Páscoa desse mesmo ano, para liderar o projecto da Primeira Cruzada, contudo é pouco provável que tal tivesse acontecido, visto que o seu falecimento ocorreria meses antes do Concílio de Clermont, onde o Sumo Pontífice Urbano II convocaria toda a Cristandade para aquilo que seria o início das peregrinações armadas rumo à Ásia Menor, de modo a liberar a Terra Santa do jugo muçulmano.
Em jeito de balanço do seu governo, é indesmentível que Ladislau terá assumido, com sucesso, o protótipo ou modelo de "monarca cristão", tal como já havia sido evidenciado no passado pelo reputado imperador Carlos Magno (742-814). Não só promoveu o rápido desenvolvimento do Cristianismo na Hungria (dando continuidade à missão que já tinha sido iniciada pelo rei santo Estêvão), como ainda recorreu à conversão ou à acção bélica para tentar extinguir o paganismo. Ladislau procurou ainda incutir virtudes morais na sua sociedade, preocupando-se com a estabilidade e integridade do seu estado.
Muito devido à popularidade e legado que havia assim deixado, este rei magiar passaria a ser venerado, e em breve, muitos cidadãos húngaros e polacos começaram a atribuir-lhe milagres supostamente realizados por sua intercessão. No ano de 1192 (quase um século depois da sua morte), Ladislau seria canonizado pelo Papa Celestino III, após solicitação do rei húngaro da altura - Bela III.
Actualmente, o culto de São Ladislau permanece activo na Hungria (onde reinou) e na Polónia (onde nasceu), sendo patrono de inúmeras igrejas. O dia da sua festividade é 27 de Junho.




King St. Ladislaus.jpg

Imagem nº 2 - Relicário medieval do rei santo Ladislau I na Catedral de Győr.




A knight riding a horse and taking a lance

Imagem nº 3 - Ladislau em perseguição a um guerreiro cumano que levava consigo uma menina como refém. Segundo a lenda, o rei teria conseguido libertá-la das suas garras.
Mural da Igreja of Székelyderzs (Roménia)





       Imagem nº 4 - Estátua do Rei Ladislau I em Püspökszentlászló (Hungria)
Retirada do Wikipédia




Nota-Extra: Ladislau foi sucedido no poder pelo seu sobrinho Colomán (ou Colomano), filho de Géza.


Referências Consultadas:


terça-feira, 5 de maio de 2015

A Queda dum Colosso Futebolístico em Superga

A história também se constrói em torno de notáveis instituições que marcaram uma página de ouro no Desporto Mundial. O Torino Football Club faz seguramente parte da lista restrita de clubes de futebol que ainda hoje se podem dar ao luxo de afirmar que já tiveram ao seu dispor uma das melhores equipas de todos os tempos. Esta colectividade desportiva italiana só não prolongou por mais tempo os seus feitos incríveis, porque uma tragédia se abateria sobre os seus jogadores que até então tinham recebido o elogioso epíteto de "invencíveis".
O Torino Football Club foi fundado em 1906 na cidade de Turim. O seu nascimento deveu-se, em muito, à dissidência de alguns adeptos que até então apoiavam a Juventus, o principal clube daquela urbe. Como prova flagrante desta ocorrência, temos conhecimento de que o fundador do Torino, o empreendedor suíço Alfred Dick, tinha abandonado a presidência da Juventus para viabilizar a criação deste novo projecto desportivo. Não foi seguramente em vão! O Torino ainda hoje existe, e ostenta no seu palmarés: 7 Campeonatos de Itália, 5 Taças de Itália e 1 Copa Mitropa (dados actualizados para o ano de 2015). 
Este clube, cujo logotipo oficial privilegia a representação dum touro, conheceria os seus tempos áureos na década de 1940, onde conquistariam 5 dos seus 7 campeonatos. As épocas de 1942–43, 1945–46, 1946–47, 1947–48 e 1948–49 trouxeram glória ao Torino que, na altura, contava com a base da poderosa selecção italiana. Nessa temível equipa pontificavam atletas de elevada categoria tais como Valentino Mazzola (capitão, goleador da equipa e ainda um dos melhores da sua geração), Aldo Ballarin, Danilo Martelli, Mario Rigamonti, Guglielmo Gabetto, Ezio Loik, entre outros. As goleadas aos adversários sucediam-se, e a equipa granjeava méritos atrás de méritos dentro das quatro linhas. Apenas o Céu parecia ser o limite para estes jogadores que perfumavam com classe os campos de futebol, levando assim multidões ao delírio. Contudo, uma trágica e inesperada ocorrência colocaria um ponto final em todo este clima de progresso e euforia.
No dia 27 de Fevereiro de 1949, a selecção italiana (com seis jogadores do Torino no onze inicial) derrotou a portuguesa por 4-1 num particular realizado em Génova. Os capitães de Portugal, Francisco Ferreira (atleta do Sport Lisboa e Benfica), e de Itália, Valentino Mazzola (a estrela do Torino FC), desenvolveram mesmo uma grande amizade aquando deste encontro desportivo. Neste contexto de mútua harmonia, o Torino seria convidado a participar posteriormente num jogo amigável em Portugal, onde defrontaria o Benfica, clube que pretendia homenagear o seu célebre jogador Francisco Ferreira. Entre avanços e recuos, a data do jogo foi definida para o dia 3 de Maio, e os italianos aterrarão em Lisboa a 1 de Maio.
A partida realizou-se no Jamor e contou com uma assistência total de 40 mil pessoas. O jogo foi emocionante, terminando a vitória por sorrir à equipa portuguesa nuns renhidos 4-3. Houve ainda tempo para confraternização entre ambas as equipas no Parque Mayer, o que evidenciava um bom relacionamento entre todos os intervenientes.
Todavia, a viagem de regresso assumiria um desfecho dramático. No dia 4 de Maio, a aeronave Fiat G.212, que transportava a comitiva do Torino de regresso a casa, embateria estrondosamente contra uma das torres da Basílica de Superga (arredores de Turim), causando a morte dos 31 tripulantes (18 jogadores, 5 dirigentes/técnicos, 1 organizador, 3 jornalistas e 4 tripulantes). Acredita-se que a fraca visibilidade, motivada pelo forte nevoeiro, terá estado por detrás do acidente fatal. A equipa dos magníficos resultados, o Grande Torino (como era assim apelidado) conhecia o fim da sua hegemonia da forma mais cruel e ingrata.
No dia do funeral, mais de 500 mil pessoas encheram as ruas de Turim para prestar a sua última homenagem aos jogadores atraiçoados pelo destino bem como aos restantes membros que seguiam na aeronave.
O Torino foi imediatamente proclamado pela Federação Italiana como o campeão da temporada de 1948-1949. Era oficialmente o seu pentacampeonato (recordamos que as épocas de 1943/44 e de 1944/45 não foram disputadas devido à Segunda Guerra Mundial, e por isso, são omitidas da sequência). A equipa recorreu às camadas jovens para se apresentar em campo nas últimas quatro jornadas, gesto que também foi imitado, em jeito de fair-play, pelas restantes equipas da sua liga.  
O clube dos "touros" só voltaria a ser campeão na época de 1975/1976, curiosamente o seu último campeonato alcançado (designado especificamente em Itália como "scudetto"). Como registo de mera curiosidade, a sua primeira liga foi conquistada na temporada de 1927-1928.
Onde teria ido esta equipa do Torino se não tivesse sofrido o maior dos azares naquele voo fatídico?





Imagem nº 1 - O Grande Torino - a equipa de futebol que "reinou" em Itália no decurso da década de 1940, e que assistira a um final trágico no dia 4 de Maio de 1949.





Imagem nº 2 - O embate da aeronave na Basílica de Superga (4 de Maio de 1949) causou a morte de todos aqueles que integravam a delegação do Torino FC que havia previamente participado num jogo amigável com o Benfica em Portugal.





Imagem nº 3 - O Funeral ou o Último Adeus prestado às vítimas, momento que motivou a comparência de milhares de pessoas.





Imagem nº 4 - Memorial com o nome das vítimas do trágico acidente de Superga.



Nomes das 31 vítimas do desastre - Valerio Bacigalupo, Aldo Ballarin, Dino Ballarin, Emile Bongiorni, Eusebio Castigliano, Rubens Fadini, Guglielmo Gabetto, Ruggero Grava, Giuseppe Grezar, Ezio Loik, Virgilio Maroso, Danilo Martelli, Valentino Mazzola, Romeo Menti, Piero Operto, Franco Ossola, Mario Rigamonti, Giulio Schubert (18 jogadores do Torino FC); Arnaldo Agnisetta, Ippolito Civalleri, Egri Erbstein, Leslie Lievesley (treinador)e Ottavio Corina  (5 técnicos/funcionários do Torino FC); Andrea Bonaiuti (1 organizador) Renato Casalbore, Renato Tosatti, Luigi Cavallero (3 jornalistas); Pierluigi Meroni, Celestino D 'Inca, Cesare Biancardi, Antonio Pangrazi (4 membros da tripulação)



Nota-extra - Francisco Ferreira, jogador homenageado pelo Benfica naquela partida amigável, guardaria remorsos da posterior tragédia para sempre. O atleta que até tinha sido alvo de cobiça do Torino que o desejava contratar (embora esse interesse tivesse ficado sem efeito com tudo o que acontecera entretanto), tentou aliviar a sua consciência enviando 50 contos às famílias das vítimas, e colocou ainda na sua sala pessoal de troféus uma imagem da equipa sensacional do Torino num quadro preto.


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Referências Consultadas:


terça-feira, 28 de abril de 2015

Egill Skallagrímsson, o poeta-guerreiro viking

Os vikings eram um povo essencialmente talhado para a arte militar, revelando igualmente um conhecimento invulgar ao nível da navegação marítima (o seu barco Drakkar/Dracar constituía um avanço inovador). Todavia, nesta sociedade de tendência belicista, denotamos a existência especial dum pequeno grupo de poetas-guerreiros: os célebres escaldos. Estes costumavam integrar a corte dos reis escandinavos ao longo da Idade Média.
A maior parte esmagadora destas composições poéticas nórdicas assentava na exaltação ou glorificação dos seus soberanos que até então se tinham evidenciado em batalhas travadas ou noutros feitos prestigiantes dignos de serem recordados para a posterioridade. Em termos característicos, a poesia escáldica albergava um número elevado de estrofes (seguindo a métrica dróttkvætt) com refrão em determinados intervalos, e pautava-se ainda pela aliteração e inclusão de figuras retóricas, uma série de perífrases e metáforas que, muitas vezes,  dificultavam a sua interpretação. Num âmbito cronológico mais preciso, podemos afirmar que esta modalidade poética foi especialmente observada em terras vikings entre os séculos IX e XIII.
Além da arte do verso, os escaldos compunham igualmente crónicas, sagas e outros testemunhos históricos, reportando assim as ocorrências mais marcantes da sua era.
Uma das personalidades que mais se evidenciou na vertente da poesia foi Egill Skallagrímsson, natural de Borg (Islândia) e cuja extensão de vida foi balizada entre os anos de 910 e 990 d. C.. Os seus versos bem como os relatos da sua vida aventurosa foram preservados na "Saga de Egil" composta habilmente por Snorri Sturluson no século XIII.  Ao contrário de muitos outros escaldos, Egill não serviria directamente a qualquer rei nórdico, e até chegaria ao ponto de se tornar fugitivo no decurso do reinado atribulado de Eric I (ou Érico) da Noruega, contudo não deixava de partilhar a mesma tipologia redactorial que marcou a cultura escandinava naqueles tempos. Sabe-se ainda que o seu primeiro poema teria sido escrito quando possuía somente três anos de idade, o que revelava, desde cedo, a sua predisposição para a escrita.
Egill revelava um temperamento bastante difícil, era portador dum perfil ousado e vingativo, pairando em cima dele a suspeita de alguns homicídios entretanto ocorridos. Na sua juventude irreverente, chegará ao ponto de matar o filho do rei Eric I da Noruega, acontecimento que o tornou alvo duma perseguição feroz. Mas Egill revelava igualmente atributos guerreiros excepcionais, derrotando em escaramuças isoladas alguns dos seus acérrimos perseguidores. Além disso, lançou uma maldição aos titulares da coroa norueguesa através duma inscrição gravada num poste em runas mágicas, constando aí a seguinte afirmação:



"Aqui cravo este poste-niðingr e declaro este nið contra o rei Eric e a rainha Gunnhildr. Eu proclamo este nið aos espíritos da terra ali, e à terra mesma, que todos se sintam perdidos, que não se sustentem ou encontrem seu lugar, não até que o rei Eric e  Gunnhildr escapem da terra".

(Notas Adicionais - este ritual de maldição envolveu ainda a utilização duma cabeça de cavalo; refira-se também que a palavra nið nos remete, neste caso, para a injúria ou amaldiçoamento logicamente destinados a um potencial inimigo).



Em abono da verdade, o rei Eric também carregava um passado repleto de sombras e atrocidades que jamais lhe granjeariam qualquer resquício de popularidade. Na Noruega, exerceria uma autoridade déspota e, para reforçar a sua obsessão pelo poder, não hesitará em matar quase todos os seus irmãos, excepto Haakon que se refugiaria na Inglaterra. Daí ter recebido o apelido de "Machado Sangrento" ("Bloodaxe"), o qual atesta o fratricídio até então promovido. A sua mulher - a rainha Gunnhildr (ou Gunhilda) não escaparia sequer à reputação de bruxa, embora seja hoje discutível o seu envolvimento em actos de feitiçaria. Todavia, ocorrerá uma reviravolta inesperada no cenário político. O seu irmão Haakon regressaria às origens para reclamar o trono, e com o apoio da nobreza norueguesa (cansada dos abusos régios e da tirania verificada), forçaria Eric a programar a sua própria fuga para as ilhas britânicas. Tornar-se-ia aí rei da Nortúmbria.
Curiosamente, e no âmbito duma viagem realizada por volta do ano de 948, o nosso poeta-guerreiro islandês Egill Skallagrímsson, então um dos principais detractores do ex-soberano da Noruega, naufragaria ao largo da costa da Nortúmbria (no Nordeste da Grã-Bretanha), episódio que o obrigou a apresentar-se diante da corte de Eric instalada agora naquele estado. Sem grande surpresa, seria imediatamente detido e sentenciado à pena de morte. Neste preciso momento, Egill parecia não ter qualquer hipótese de escapar ao destino traçado até porque Eric não era, nem de perto, um homem misericordioso ou generoso. Todavia, o cativo serviu-se dos seus dotes poéticos e, na noite de véspera da execução, compôs um longo poema de louvor (designado Höfuthlausn; "O Resgate da Cabeça") que seria dedicado ao seu inimigo mortal desde então. Apesar da sua faceta frívola, Eric - o agora governante da Nortúmbria deixou impressionar-se pela recitação dos versos elogiosos de Egill que rematavam uma métrica e rima exemplares, e por conseguinte, optou por anular a decisão anterior, procedendo à libertação do seu prisioneiro. Este episódio revela-nos o verdadeiro impacto duma composição poética que foi determinante para que duas personalidades com um historial repleto de ódio e violência, não alimentassem ainda mais a sua sede mútua de vingança que sempre os norteara.
Outro notável poema de louvor da autoria de Egill intitulou-se Arinbjarnarkvitha (“Lay of Arinbjörn") e foi dedicado, em específico, ao escaldo e seu grande amigo Arinbjørn herse.
Redigiu ainda um poema de teor sentimental - o Sonatorrek - onde lamentava profundamente a morte recente de dois filhos seus (Böðvar e Gunnar), recordava igualmente o falecimento dos seus pais, e acreditava que estaria a ser castigado por Odin (principal deus da mitologia nórdica), e por isso, chega a entrar em "conflito" com este nos seus sábios versos. Contudo, Egill Skallagrímsson encerrará este extenso poema num estado de resignação, conciliação e tranquilidade totais, não deixando de reconhecer e agradecer o dom poético que Odin lhe tinha confiado. Dentro deste contexto, não é de estranhar que integrasse o grupo de berserkers mais afamados de sempre, onde se incluíam os guerreiros nórdicos mais ferozes que haviam jurado fidelidade àquela divindade viking.
Ao longo do seu historial bélico, é importante recordar que Egill terá provavelmente participado na batalha de Brunanburh ocorrida talvez em 937, servindo as hostes vitoriosas do rei de Inglaterra - Athelstan. Também este soberano anglo-saxão foi alvo dum panegírico do poeta islandês - Aðalsteinsdrápa (o "elogio de Athelstan").
Nos últimos anos da sua vida, Egill regressou à Islândia, onde se envolveu, de certo modo, na política local. Teria alcançado os 80 anos de vida, antes de adoecer com gravidade. Suspeita-se que, no seu último acto de violência, terá assassinado o seu servo que o tinha ajudado a enterrar o seu tesouro em prata, de modo a evitar que o mesmo não o viesse a espoliar mais tarde.
De acordo com Christina von Nolcken, especialista em Literatura Medieval, Egill era extremamente talentoso e versado para a escrita, tendo provavelmente convivido com outros poetas do seu tempo e encetado, de algum modo, um esforço tremendo para desenvolver capacidades intelectuais tão invulgares no século X. Simbolizava praticamente o protótipo dos escaldos que conciliavam as suas acções combativas com o peculiar dom do verso.




Sonatorrek
(Excertos em inglês do poema de Egill Skallagrímsson)


My mouth strains
To move the tongue,
To weigh and wing
The choice word:
Not easy to breathe
Odin's inspiration
In my heart's hinterland,
Little hope there.

My sorrow the source
Of the sluggard stream
Mind-meandering,
This heavy word-mead,
Poet's power
Gold-praised, that
Odin from ogres tore
In ancient time. [ . . .]

Could my sword stroke take
Vengeance on the sea-surge,
Bitter ale brewer
None can bend or break,
Could my hand kill
The crushing wave,
With god and goddess
I should grapple.

But I've no strength to subdue
The slayer of my son
Nor the boldness to beat
Down my boy's killer:
Obvious to all,
An old man, unaided,
Helpless, unhappy,
Can hold out no hope.

The rough storm has robbed me
Of my best riches,
It's cruel to recall
The loss of that kinsman,
The safeguard, the shield
Of the house has sailed
Out in death's darkness
To a dearer place. [ . . .]

Forgive his fate
And forget I will not,
Odin not Egil
Enjoys him for ever,
He has stolen my son,
The sapling growth
From my wife's womb,
The warrior-seed.

The spear-god shared
Spoil with me,
My oath was to Odin,
He gave me aid:
Now that maker of mystic
Runes only mocks me,
Voids all my victories,
That breaker of vows.

I'll make offerings to Odin,
Though not in eagerness,
I'll make my soul's sacrifice,
Not suffer silently:
Though this friend has failed me,
Fellow of gods,
To his credit he comforts me
With compensation.

That wolf-killer, that warrior
God, well seasoned in war
Bestowed a bounty
Not to be bettered:
To my art he added
One other gift,
A heart that held
Not craft only: hatred!

The end is all.
Even now
High on the headland
Hel stands and waits,
Life fades, I must fall
And face my own end
Not in misery and morning,
But with a man's heart.






Imagem nº 1 - Egill Skallagrímsson (910-990 d. C.), o poeta-guerreiro ou escaldo que imprimiu brilhantismo na poesia nórdica.
Manuscrito do Séc. XVII, extraído a partir de:
https://en.wikipedia.org/wiki/Egill_Skallagr%C3%ADmsson





Referências Consultadas: