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segunda-feira, 21 de julho de 2014

Para uma reabilitação da Idade Média

Como é tradicionalmente aceite, a Idade Média estende-se desde a queda de Roma em 476 d. C. às mãos dos Hérulos (e mais tarde, dos Ostrogodos) até 1453, ano da conquista de Constantinopla (e do restante Império Bizantino) por parte dos turcos otomanos. Trata-se duma era que se prolongou por um milénio repleto de vivências e acontecimentos.
Não me parece gratificante ou sensato referir que o Período Medieval se circunscreveu somente à trilogia negra: guerras, pestes e fome. É evidente que houve várias batalhas sangrentas, e ninguém se esquecerá da razia demográfica causada pela temível Peste Negra (1348). Efectivamente, a "medicina" disponível naquele tempo estava longe de ser eficaz. A superstição, a ignorância, o analfabetismo, a profunda fé religiosa, as relações feudais e a vida dura nos campos também traçaram o perfil do homem medieval integrado numa sociedade hierarquizada (nobreza e clero: classes privilegiadas, povo livre mas com uma vida bastante limitada em termos de direitos).
Todavia, esta era não deve ser catalogada como a Idade das Trevas, pois é uma consideração negativista fruto do senso comum e deveras parcial, visto que nesta época também ocorreram avanços que não podem ser ignorados:

  1. O surgimento das primeiras nacionalidades europeias (Portugal, França, Inglaterra...).
  2. O aparecimento das línguas vernáculas (é o caso do português medieval).
  3. São erguidas as primeiras grandes Universidades, nomeadamente as de Paris, Oxford, Cambridge, Montpellier, Salamanca, Nápoles, Roma e Coimbra. Também foram criadas escolas monásticas e catedráticas. 
  4. Reconstituição da vida urbana e revitalização do comércio.
  5. A criação de inúmeras e grandiosas catedrais (por exemplo: a Catedral de Notre Dame), isto para além de imponentes castelos. 
  6. Ascensão da Banca. 
  7. A realização de várias cópias e traduções de textos antigos que permitirão avanços em múltiplas áreas: Astronomia, Matemática, Filosofia...
  8. Introdução de moinhos eólicos e hidráulicos, isto é, a vento e água.
  9. Colocação de Relógios Mecânicos.
  10. Desenvolvimento da Arte Gótica.
  11. Estabelecimento do Direito Canónico.
  12. Modernização dos estratagemas e mecanismos de assédio militares. 
  13. Afirmação do Cristianismo e surgimento do Islamismo pela mão do profeta Maomé. 
  14. Avanços nos conhecimentos de navegação.  
  15. Destaque para os trovadores laicos com as suas composições poéticas.

Neste período, viveram igualmente grandes figuras que marcaram a história da Humanidade: Carlos Magno, Joana d'Arc, Dante Alighieri, Petrarca, Giotto, Roger Bacon, Tomás de Aquino, São Francisco de Assis, Alcuíno, Godofredo Bulhão, Saladino, Frederico Barbarossa, Gengis Khan, Luís IX, Justiniano, Papas Gregório VII e Inocêncio III, Santo António, Marco Polo, Leif Eriksson, Isidoro de Sevilha, Bento de Núrsia, Boécio, entre muitos outros.
Condenada pelos iluministas, mas reavivada pelos movimentos do Nacionalismo e Romantismo, a Idade Média não é digna de ser epigrafada sobre o signo da obscuridade e ignorância. O seu epitáfio, lavrado por cada historiador, deverá espelhar o legado e o cariz peculiar daqueles tempos.




Imagem nº 1 - Na Idade Média, vários textos foram copiados e traduzidos por monges que tinham acesso à cultura disponível nas bibliotecas monásticas.
Retirada de:



Referências Consultadas:

domingo, 20 de julho de 2014

Prisciliano de Ávila, Herege ou Mártir?

Prisciliano figura seguramente numa curta lista de personagens históricas ancestrais que ainda hoje são recordadas no Noroeste Peninsular. 
Nascido por volta de 340 d. C. na zona que corresponderia à Galécia (Noroeste da Península Ibérica), pouco se sabe sobre os anos iniciais da sua vida. É provável que desde cedo se procurasse inteirar dos textos sagrados, começando a formular a sua própria interpretação daquilo que deveria ser a prática cristã. 
Em termos religiosos, Prisciliano e seus fiéis seguidores defendiam que:

  • Deus emanou uma série de seres divinos, entre os quais se incluem os anjos e as almas dos homens.
  • O corpo de Cristo era espiritual e tinha apenas a aparência da carne (docetismo); 
  • A matéria foi criada pelo demónio para aprisionar os filhos de Deus. 
  • As três pessoas da Trindade são iguais e eternas.
  • O ascetismo puro era o caminho a seguir, assente na pobreza e humildade.
  • A dança na liturgia, juntando homens e mulheres, deveria ser implementada.
  • Alguns dos apócrifos proibidos eram tolerados.
  • A idolatria de Deuses pagãos deveria ser repudiada, embora a sua doutrina tenha sido acusada mais tarde de misturar práticas pagãs enraizadas na região pouco romanizada onde ele pregava.
  • A existência de dois mundos: um do Bem e outro do Mal.
  • O repúdio da ignorância humana no campo espiritual.
  • Existia uma relação curiosa entre as partes do corpo e os signos do Zodíaco, e entre as almas e os nomes dos patriarcas. A vertente astral está muito presente na visão priscilianista.
  • O papel e contributo de mulheres e escravos (ambos discriminados naqueles tempos), que assistiam às reuniões de leitura, deveriam ser valorizados.


Relativamente à organização da Igreja (tolerada a partir do Édito de Milão promulgado pelo Imperador Constantino no ano de 313 d.C.), Prisciliano condenava as relações próximas desta com o Império Romano, mas também a corrupção, a opulência e a ganância que afectariam já uma boa parte da hierarquia.
As suas pregações iniciam-se em 379, começando a atrair a admiração de várias classes populares do Noroeste Peninsular que se rendiam aos seus ideais. Torna-se bispo de Ávila, por volta dos anos de 381-382. O seu inegável sucesso repercutiu-se num mau estar já que as suas teorias incomodaram vários responsáveis da Igreja. Acabaria por ser rapidamente excomungado, e o imperador romano Graciano, pressionado, estava prestes a ordenar o seu banimento (o mesmo se aplicaria aos seus seguidores).
Em 382, Prisciliano deslocou-se a Roma para se defender das acusações que agora recaíam sobre si, contudo não foi atendido. Mas em Milão, consegue convencer o magister officiorum para que anule o decreto imperial. 
Todavia, a sua situação não ficaria resolvida, até porque Máximo, o novo imperador romano do Ocidente (responsável pelo assassinato de Graciano), estreitou ligações com a Igreja que estava interessada em acabar com os movimentos considerados dissidentes. No concílio de Bordéus, o Priscilianismo (a doutrina de Prisciliano) é considerada uma heresia, e Urbica, uma das suas discípulas, é mesmo lapidada por uma multidão em fúria.
Prisciliano tenta defender-se novamente e ruma, desta feita, a Tréveris (na Germânia Superior), onde estaria a corte imperial de Máximo, contudo é aí acusado da prática de diversos rituais mágicos (danças nocturnas, uso de ervas abortivas e prática da astrologia cabalística). Sujeito a uma tortura impiedosa, o pregador acabou por confessar estas acusações que lhe eram feitas. 
Em 385, foi condenado à morte por decapitação juntamente com vários seguidores seus: Felicíssimo, Armênio, Eucrócia, Latroniano, Aurélio e Asarino. 
Foram os primeiros hereges a serem justiçados pela Igreja Católica através do recurso a uma instituição secular, contudo também é justo mencionar que o Papa Sirício (384-399) e os notáveis Ambrósio de Milão e Martinho de Tours protestaram, em vão, contra a execução.
Prisciliano tinha falecido, mas as suas teorias permaneceriam na região da Galécia, pelo menos, até ao século VI d. C. 
Há autores que suspeitam que os restos mortais de Prisciliano, ainda hoje relembrado com orgulho pelos galegos, estarão na tumba venerada de São Tiago de Compostela (em vez do apóstolo que afinal poderá não jazer aí), embora não existam ainda provas científicas a esse respeito. 




Imagem nº 1 - Retrato de Prisciliano.


Herege ou Mártir?

Não conhecemos a fundo o legado e a vida pormenorizada de Prisciliano, e por isso, alertamos, desde já, que a nossa leitura será, desde logo, condicionada, no sentido em que nos basearemos apenas nos dados que recolhemos a partir da nossa investigação. 
Parece ser, pelo menos, óbvio que este pregador efectuou interpretações teológicas arriscadas, suficientes para serem consideradas como práticas desviantes ao Catolicismo (não confundir com Cristianismo), contudo não é menos verdade de que o seu ideal de pobreza (assente nas práticas primitivas) não terá sido bem acolhido por alguns círculos poderosos da Igreja do século IV.
A sua influência gnosticista não lhe granjeou igualmente muitas simpatias no topo da hierarquia católica. A sua doutrina foi mesmo criticada por Santo Agostinho.
Mesmo assim, não se pode colocar em causa a devoção cristã deste defensor do estilo ascético que, com ênfase e convicção, pregava incessantemente junto das comunidades do Noroeste Peninsular, embora alguns dos seus ensinamentos fossem, no mínimo, dúbios ou polémicos. Por isso mesmo, é notório que a sua condenação à morte esteve longe de ser consensual.
Na nossa visão, embora não seja certo um historiador julgar os acontecimentos, a execução de Prisciliano constituiu um grave erro por duas razões. Em primeiro lugar, porque os ensinamentos de Jesus Cristo jamais aceitariam o derramamento de sangue, e em segundo, a execução de Prisciliano acabou por ter o efeito inverso, já que a sua morte (o primeiro herege a ser condenado) tornou-o ainda mais conhecido bem como as suas ideias que ainda mereceram grande admiração popular nos dois séculos seguintes.




Imagem nº 2 - A Decapitação de Prisciliano em 385.


sábado, 19 de julho de 2014

Frederico Barbarossa, o líder germânico carismático

Vida Inicial e a sua Ascensão ao Poder


Frederico Barbarossa nasceu por volta do ano de 1122. Pertencia à influente casa senhorial dos Hohenstaufen. O seu apelido deriva da barba ruiva que pautava a sua fisionomia. 
No ano de 1147, torna-se duque da Suábia, e participa ao lado do seu tio e imperador Conrado III na malograda Segunda Cruzada (1147-1149) que se circunscreverá ao cerco falhado de Damasco. Mesmo assim, Frederico terá começado a dar provas do seu valor neste palco de guerra tão exigente e impiedoso, ganhando mesmo a confiança do Imperador. Não seria a última vez que batalharia no longínquo Oriente, pois é certo que haveria de voltar.
Com a morte de Conrado, será eleito pelos restantes príncipes germânicos como o novo imperador do Sacro Império Romano Germânico, cargo que desempenhará entre 1152 e 1190, totalizando assim um longo reinado de 38 anos.
Frederico tinha como mentores Carlos Magno e Otto I que governaram grandes impérios, e por isso, ambicionava igualmente colocar em prática planos expansionistas. Logo de início procurou pacificar e estabelecer a ordem na Germânia, fazendo concessões aos nobres de forma a evitar o seu descontentamento.



Imagem nº 1 - Retrato de Frederico Barbarossa, imperador germânico.



Campanhas na Itália

Frederico I nunca escondeu o desejo de garantir o domínio sobre Roma e outras grandes cidades italianas, tentando igualmente subjugar a Santa Sé.
O pretexto para a primeira invasão terá sido a instabilidade que se vivia naquela altura, com Arnoldo de Brescia a iniciar um movimento, talvez assente no Cristianismo Primitivo (onde a pobreza deveria ser o signo da Igreja), que terá incomodado bastante o Papa da altura - Adriano IV (1154-1159). Este último solicitou o auxílio do Imperador de forma a conseguir impor ordem.
Em 1155, Frederico entrou triunfantemente em Roma, enquanto Arnoldo seria capturado, julgado e depois executado (não escapou à condenação na fogueira!).
Talvez em jeito de recompensa pelos serviços prestados, o Papa Adriano IV coroou logo depois Frederico como rei de Itália e imperador da Germânia (título que já detinha, embora carecesse ainda desta formalidade), cerimónia que decorreu em Pavia. Depois de travar mais algumas rebeliões naquela região, traduzidas em milhares de mortes, acabaria por regressar à Germânia.
Entretanto, o mesmo sumo pontífice, procurando suprir a ausência do Imperador, viu em Guilherme I da Sicília um poderoso aliado para exercer assim o seu domínio. Contudo, Adriano decidiu oferecer terras, que supostamente estariam prometidas a Frederico, ao seu novo protector. Para além disso, a Santa Sé encarava o Sacro Império Romano-Germânico como um feudo seu e defendia que Frederico o teria recebido apenas como um presente pela acção que tinha promovido.
Esta ordem de factos despoletou fúria e revolta em Frederico que iniciou assim uma segunda expedição rumo à Itália em 1158. As suas tropas conquistaram Milão que se revoltou perante a sua chegada. Para além disso, e através da Dieta de Roncaglia, o Imperador voltava a insistir em impor o seu poder em toda aquela região. No ano de 1160, a localidade de Crema, aliada aos revoltosos de Milão, é igualmente visada pelas forças imperais que a cercam, durante aproximadamente seis meses, acabando por ser conquistada e incendiada. De forma a forçar a entrada nesta terra rebelde, as forças imperais utilizaram torres móveis, procuraram minar as muralhas da cidade, cavaram túneis para penetrar no seu interior, e recorreram ainda ao uso de aríetes para abalroar os portões de acesso e muros.
Contudo, o sucessor de Adriano IV (falece em 1159), o Papa Alexandre III (1159-1183) acabaria por não simpatizar com Frederico, sendo que este último apoiou o anti-papa Vítor IV.
Alexandre era um homem enérgico, com um espírito fortemente reformista, defendendo ao máximo a autonomia da Igreja face ao poder laico, não aceitando qualquer forma de intromissão ou ingerência. Os seus ideais eram portanto considerados uma afronta aos interesses imperiais, mas desta feita, o novo líder da Igreja Católica era uma personalidade bastante determinada e com uma grande visão política e religiosa daqueles tempos.
Alexandre não hesitaria em excomungar o imperador Frederico, e o seu aliado, o anti-papa Vítor IV. Para além disso, procura reunir apoios para enfrentar o seu principal inimigo que evidentemente reagiria.
Entretanto Frederico, trava nova rebelião em Milão em 1162, sendo que a cidade acabou impiedosamente arrasada. Muitas outras cidades do Norte da Itália também se renderam pacificamente ao Imperador, temendo um destino idêntico. Regressará depois à Germânia para resolver alguns conflitos internos.
Em 1163, lança a sua terceira campanha em solo italiano, procurando tomar o estado normando da Sicília, aliada na altura da Santa Sé, mas não obtém qualquer sucesso perante a resistência duma forte liga que foi formada para travar os seus intentos.
Contudo, Frederico, voltaria pois, em 1166, a empreender uma nova invasão de forma a colocar o novo anti-Papa Pascoal III (que sucedeu ao já falecido Vítor IV) no trono de São Pedro. Para além disso, não lhe agradaram as notícias de que o Papa Alexandre III teria conseguido uma aliança com o Imperador Bizantino Manuel I.
A primeira grande batalha é travada em Monte Porzio (29 de Maio de 1167). Dum lado estão as forças da Comuna de Roma, estimadas em 10 mil homens, mas muito mal preparadas e organizadas em termos militares. Do outro, estão apenas cerca de 1 600 efectivos imperiais, embora bem treinados e disciplinados (mesmo sem a presença do Imperador que estava ocupado no cerco de Ancona). A cavalaria germânica varreu definitivamente a infantaria romana nesta batalha. A quantidade não faria a diferença, mas sim a qualidade das tropas envolvidas. Ao saber deste enorme sucesso, Frederico volta a entrar vitorioso em Roma e acede a uma nova coroação assegurada agora pelo seu preferido - o anti-Papa Pascoal III. Todavia, a difusão duma terrível praga (provavelmente malária) fez com que vitimasse vários soldados que integravam os contingentes germânicos, e Frederico foi mesmo obrigado a abandonar a campanha, quando se começava a temer o pior.
Na Germânia, o imperador consegue impor a sua autoridade na Boémia, Polónia e Hungria, revelando novamente as suas inovadoras capacidades políticas e militares.
A sul dos Alpes, os sentimentos anti-germânicos faziam sentir-se cada vez mais na Lombardia e na restante região do Norte da Itália, pois as incursões cruéis de Frederico deixaram irremediavelmente diversas marcas psicológicas. Em 1169, a cidade-estado de Milão volta a sublevar-se. Os interesses imperiais são novamente desafiados, e Frederico lançará a sua última incursão no Norte de Itália, mas começa por fracassar em Alessandria (1175), cuja cidade não consegue tomar pela via do cerco. O pior estava para acontecer na Batalha de Legnano (29 de Maio de 1176), quando as forças germânicas, constituídas por 3 mil combatentes, foram derrotadas pela liga lombarda. O choque entre os dois exércitos foi violento, e a carnificina tornou-se logo numa evidência. As forças pró-romanas terão surpreendido implacavelmente a retaguarda de Frederico. O imperador germânico terá mesmo caído do cavalo, enquanto os seus guardas e o elemento portador da bandeira imperial tombaram em combate. Julgava-se que o soberano teria falecido, mas a verdade é que conseguiu escapar com vida, e apesar dos ferimentos sofridos, apareceu pouco dias depois às portas de Pavia.
Há evidentes méritos do Papa Alexandre III que não hesitou em unir lombardos, venezianos, bizantinos e até sicilianos de forma a derrotar o poderio militar que o seu adversário revelava. Por seu turno, as cidades-estado italianas não desejavam abrir mão da sua autonomia nem pagar pesados impostos ao imperador.
Terminavam assim as ambições de Frederico no Norte de Itália, tendo sido forçado a assinar a Paz de Veneza (1177), na qual reconheceu Alexandre III como Papa, bem como o seu estado soberano. Abandonava agora esta região e retornaria exausto ao seu Império, o qual também vivia conflitos internos motivado pelas ambições de muitos barões. A disciplina e a instauração da ordem imperial passou a ser o principal objectivo de Frederico na década que se seguiu. Aproveitou ainda para castigar Henrique, o Leão (duque da Saxónia e Baviera) que não o auxiliou nesta derradeira e malograda campanha.




Imagem nº 2 - A batalha de Legnano culminou com o fim da política expansionista de Frederico no Norte de Itália.
Quadro da autoria de Massimo d'Azeglio - 1798-1866
(Retirado do Wikipédia)





Terceira Cruzada


No ano de 1187, Jerusalém havia caído às mãos do sultão aiúbida Saladino que já tinha igualmente conquistado inúmeros territórios no Levante. Este acontecimento motivou um choque tremendo na Cristandade. A tradição refere mesmo que Urbano III (1185-1187), o Papa da altura, morreu de choque ao ter conhecimento da queda da Cidade Santa.
Em 1188, Frederico toma o seu voto de cruzada em Mainz e organiza um exército que, segundo os cronistas da altura, atingiria os 100 mil homens. O número estimado até poderá ser exagerado, mas é certo de que se trataria duma vasta força para lutar num cenário, cujas exigências e sacrifícios já eram bem conhecidos pelo imperador desde a sua participação na Segunda Cruzada.
A primeira batalha no Oriente acontece em Konya (Iconium) a 18 de Maio de 1190. Aproveitando-se da sua superioridade numérica, Frederico derrota os turcos liderados pelo sultão Qubt al-Din. Apesar das dificuldades iniciais, o imperador tomou a vanguarda do exército, reorganizando-o, de forma a evitar qualquer dissabor. A cavalaria germânica voltaria a causar estragos no inimigo.
O sucesso de Frederico e da sua poderosíssima armada causou uma grande preocupação em Saladino e demais emires que temiam a chegada deste reputado soberano.
Todavia, a 16 de Junho, o imperador alemão faleceria quando atravessava o rio Saleph, provavelmente afogado (ou até vítima em simultâneo dum ataque cardíaco). A notícia deste acontecimento foi bem recebia pelas forças muçulmanas que agora poderiam respirar de alívio. A armada germânica acabou por se desintegrar - a maior parte parece ter desertado e regressado ao Império, outros foram atacados e mortos pelos turcos que lançavam constantes emboscadas, e só uma força de 5 mil homens, comandada por Frederico VI da Suábia (filho de Frederico Barbarossa) é que alcançou Acre, onde se juntaram às outras forças que seriam comandadas por Ricardo Coração de Leão, rei de Inglaterra, e Filipe Augusto, rei de França.
Nunca saberemos o que teria acontecido se o imperador não tivesse conhecido uma morte tão inesperada, apenas podemos especular de que talvez se teriam enfrentado os dois maiores estrategas daquele tempo: Saladino e Frederico.




Imagem nº 3 - O imperador Frederico Barbarossa assegura a dianteira do exército germânico, impondo uma derrota aos turcos de Konya.
Retirada de: http://www.akg-images.co.uk/archive/Barbarossa%E2%80%99s-Victory-at-the-Battle-of-Iconium.-2UMDHUDL7DL6.html, (o Quadro é da autoria de: Hermann Wislicenus - 1825–1899).




Imagem nº 4 - O resgate do corpo do imperador após o seu afogamento no rio Saleph.



O Perfil

Frederico foi, para muitos, a figura história mais conceituada do século XII. O seu carácter autoritário não lhe permitiria tolerar as insurreicções ocorridas no Norte de Itália ou Germânia, as quais eram abafadas com mão de ferro. Usufruiu da oportunidade de dirigir o maior exército que existia naquele tempo, de forma a alimentar a sua finalidade expansionista.
Em termos religiosos, seria uma cristão devoto, embora ambicionasse imitar, como já tínhamos mencionado, o modelo de Carlos Magno. 
No seu reinado, mandou erguer palácios e outros edifícios públicos de nomeada. 
Na vertente belicista, Frederico era conhecedor experiente dos mais diversos estratagemas utilizados num cerco ou numa batalha a campo aberto. O seu envolvimento nas batalhas era intenso, arriscando mesmo a sua vida no combate ao inimigo. 




Imagem nº 5 - Estátua de Frederico I em Kyffhaeuser.





Referências Consultadas:


sexta-feira, 18 de julho de 2014

Sobre as origens toponímicas de Arcozelo

Arcozelo é uma freguesia do concelho de Vila Nova de Gaia com quase 15 mil habitantes. Ostenta o estatuto de vila desde 1987, e é conhecida por ser o lugar de repouso de Santa Maria Adelaide (o seu corpo está exposto numa capelinha onde é adorada pelos devotos), à qual a comunidade atribui diversos milagres.
Compreende nos seus limites litorais o lugar da Aguda, conhecido pela sua praia de qualidade e por uma actividade predominantemente pesqueira. 
No que diz respeito às origens do nome de Arcozelo, não é fácil extrair grandes conclusões. Talvez derive da palavra latina arcu celus que deverá significar arco pequeno.
É claro que esta conclusão é muito vaga. Na nossa opinião, trata-se duma designação bastante antiga (parece que a designação de Arcozellus já existia na documentação, pelo menos, desde os séculos XI-XII), e leva-nos a pensar que terá existido, em tempos mais remotos, uma estrutura, mesmo não sendo esta de elevadas dimensões, que se pautasse pelo primado do arco. Por exemplo, poderia ter existido uma pequena ponte, em forma de arco (técnica bastante adoptada pelos romanos), que nos tempos mais ancestrais, assegurava a passagem por aquele espaço, talvez por cima da Ribeira do Espírito Santo, onde perduram alguns amontoados nas suas margens, para além de inúmeras árvores (carvalhos, amieiros, salgueiros e vides).
Evidentemente, também não descartamos a possibilidade de se ter tratado de outra estrutura, possuidora dum arco que a caracterizava à vista das comunidades antigas e medievais. Poderia existir igualmente uma fortificação antiga (por exemplo: uma torre de vigilância assinalada com um arco), da qual hoje já não há memória...
O que é certo é que esta temática ainda é merecedora de inúmeras reflexões.




Imagem nº 1 - Uma pequena ponte em forma de arco, esta situada em Vila Pouca de Aguiar, mas que no passado poderia também ter existido uma semelhante em Arcozelo.



Referências Consultadas:

Hermerico, o primeiro rei dos Suevos na Galécia (409-438)

Sobre esta personalidade histórica existem poucos dados. Pelo que pudemos apurar, seria um líder determinado e implacável no campo de batalha. Foi responsável por ter guiado o seu povo desde o Reno até à zona da Galécia (Noroeste da Hispânia) por volta do ano de 409 d. C. 
Este povo "bárbaro" era conhecido pela sua cultura guerreira, tendo causado depredações terríveis ao longo do seu processo de migração.
Em 410 d. C., Hermerico assina um pacto ou foedus com Honório, Imperador de Roma, de forma a que a Galécia se tornasse num reino autónomo, embora tivesse que prestar vassalagem à dignidade imperial. Travou ainda violentos combates com os vândalos e alanos, outros povos bárbaros que na altura tinham chegado também à Península Ibérica
Este rei dos suevos procurou submeter a população nativa hispano-romana que vivia naquela região peninsular. Houve mesmo registo de confrontos. 
É ainda mencionado que seria pagão, não nutrindo qualquer afeição pelo cristianismo, nem ariano nem católico.
No ano de 438, e depois de alguns anos de enfermidade, Hermerico toma a decisão original de abdicar da coroa em favor do seu filho Réquila que seguiu uma política expansionista rumo à Lusitânia e Bética, tendo aumentado consideravelmente os domínios do estado suevo. 
Hermerico terá aparentemente falecido em 441 d. C., isto é, três anos depois da sua resignação, não se conhecendo o lugar onde teria passado os derradeiros dias da sua existência.




Imagem nº 1 - Hermerico, o primeiro rei dos Suevos na Galécia.



Imagem nº 2 - Moeda de ouro sueva do séc. V.



Imagem nº 3 - O Reino dos Suevos no Noroeste Peninsular, e cuja capital seria Braga (antiga Bracara Augusta).

Santa Tegra

Imagem nº 4 - Uma residência sueva que integrava os domínios da Galécia.


Referências Consultadas:




Nota Extra:

1 - Aires de Amorim, na sua obra "Esmoriz e a sua História", defende que a designação desta freguesia do concelho de Ovar provinha do nome dum cavaleiro dos tempos Reconquista Cristã de seu nome Ermerico. Apesar de nunca termos detectado a existência deste nobre, consideramos a teoria plausível, embora não possamos descartar de todo que a origem nominal da terra esteja igualmente conectada com esta personalidade histórica, mais antiga, que liderou a migração dos suevos e que acabamos de retratar neste pretenso artigo. O mesmo se poderá dizer doutras terras com designação semelhante à de Esmoriz.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

O bizarro Sínodo do Cadáver e a obsessão do Papa Estêvão VI

Um dos momentos mais inacreditáveis da História da Humanidade aconteceu no pontificado do Papa Estêvão VI, cuja eleição foi apoiada pela família poderosa de Spoleto. O seu curto pontificado estendeu-se entre Maio de 896 e Agosto de 897, ou seja, durou pouco mais de um ano. Estêvão não era um homem com vocação e aptidão suficientes para merecer a honra de representar a Cristandade. 
Como prova dessa realidade, encontramos imediatamente menção sobre o repugnante Sínodo do Cadáver (também conhecido como Julgamento do Cadáver) que constitui uma das histórias mais absurdas daqueles tempos mais obscuros.
Com o apoio do rei italiano Lamberto II de Spoleto (governa entre 896-898), Estêvão decidiu julgar Formoso (891-896), um dos Papas que lhe tinha antecedido, o problema é que este último já havia falecido há 8 ou 9 meses... Mesmo assim, nada demoveu o novo sumo pontífice de desrespeitar o descanso dum dos seus antecessores, ordenando então que o seu túmulo fosse aberto de forma a extrair o corpo mumificado, sendo o mesmo presente no Sínodo realizado em Fevereiro de 897.
Estêvão, que presidia o julgamento, acusou o desafortunado Formoso (cujo corpo foi colocado no trono) de perjúrio, ambição desmedida e de ter acedido ao Papado de forma ilegal (recorde-se que Formoso chegou a ser excomungado pelo Papa João VIII que liderou a Igreja entre 872 e 882). Como é evidente, o acusado não proferiu nenhuma palavra em sua defesa. Aliás, Estêvão chegou ao ponto de questionar várias vezes o falecido que se encontrava reduzido a um prudente silêncio.
Formoso foi considerado culpado no final da sessão: os seus actos foram declarados nulos, as suas vestes papais foram despidas e três dedos da sua mão direita (os quais utilizava para benzer) foram impiedosamente cortados. Os seus restos mortais foram lançados ao rio Tibre, sendo que alguns destes terão sido encontrados na localidade de Portus, onde havia sido bispo e na qual o povo lhe garantiu um enterramento provisório. Mais tarde, as "sobras" do seu corpo terão sido transferidas dignamente para a Basílica do Vaticano onde já jaziam outros papas. A sua memória foi efectivamente reabilitada pelos papas Romano (exerce o seu ofício entre Agosto e Novembro de 897), Teodoro II (foi Papa por apenas 20 dias entre Novembro e Dezembro de 897) e João IX (lidera a Igreja entre 898-900). 
Provavelmente, Formoso foi igualmente vítima do poderio e da influência da Casa de Spoleto que nunca digeriu bem o seu pontificado, aliás este episódio parece ser mesmo resultado duma luta entre facções que reivindicavam maior protagonismo em Roma. O Papa Formoso seguia uma política tendencialmente pró-carolíngia e tinha convidado Arnolfo de Caríntia (Imperador do Sacro-Império Romano Germânico) a tomar a Coroa de Itália. Por seu turno, a família de Spoleto nunca terá perdoado a decisão tomada por este Papa, aproveitando talvez a eleição do inapto Estêvão para descredibilizar Formoso.
Em relação ao Papa Estêvão VI, que nunca se alheou da ingerência dos partidos políticos civis, a verdade é que a vida lhe reservaria, poucos meses depois, um fim ainda mais triste, visto que cairia no descrédito e isolamento totais, sendo detido e depois estrangulado. Parece que a ocorrência dum abalo sísmico que causou sérios estragos na basílica onde se tinha realizado o inqualificável sínodo, foi interpretado pelo povo como um presságio divino contra a ultrajante acção de Estêvão, o que poderá ter contribuído igualmente para o seu rápido declínio nos tempos imediatamente posteriores ao julgamento. Aliás, naquela era excessivamente supersticiosa, qualquer acção boa ou má que se sucedesse era encarada como um indiscutível sinal do agrado ou repúdio de Deus.
Foi sucedido pelo Papa Romano que no seu curtíssimo pontificado começou o trabalho de reabilitação do Papa Formoso cuja memória tinha sido tão mal tratada pelo seu antecessor.



Imagem nº 1 - No decurso do Sínodo, o Papa Estêvão VI lançou várias acusações e impropérios contra Formoso, cujo corpo, em plena decomposição, estava colocado na cadeira.
O Quadro é da autoria de Jean Paul Laurens (1870)



Referências Consultadas:


Notas Extra:

1- Spoleto também conhecida como Espoleto. 
2- Entre os pontificados de Formoso (891-896) e de Estêvão VI (896-897), houve ainda o de Bonifácio VI que, imagine-se, só durou 2 semanas.

Afonso de Portugal, Grão-Mestre da Ordem do Hospital

Afonso de Portugal (ou Fernando Afonso) terá nascido por volta de 1140, sendo filho ilegítimo de D. Afonso Henriques (1º rei de Portugal) e Châmoa Gomes (monja de Varão). Entre 1169-1172/73, será alferes-mor, isto é, responsável pelo comando dos exércitos do reino. Dentro deste contexto, terá alegadamente participado nas campanhas desastrosas de Badajoz (1169-1170) e na defesa bem conseguida de Santarém (1184). De acordo com alguns autores, é ainda possível que tenha participado na Terceira Cruzada (1189-1192) que resultaria na conquista do Chipre, de São João de Acre e de Jaffa. Sabemos ainda que, em 1198, aparece como mestre do Hospital da Hispânia, o que reforça a ideia dum eventual retorno ao espaço ibérico, caso tenha efectivamente actuado no evento anterior. Todavia, voltará de novo ao Oriente, tornando-se no 11º Grão-Mestre da Ordem do Hospital (1202/1203-1206) e participando na Quarta Cruzada (1202-1204) que culminará com o saque de Constantinopla. Procurou ainda empreender uma reforma dos estatutos nas sessões realizadas em Margat. Devido à sua conduta autoritária e inflexível, ganhou muitos inimigos que o forçaram a sair da Ordem dos Hospitalários em 1206. Regressaria a Portugal, onde faleceria muito em breve (1207), provavelmente envenenado em circunstâncias pouco claras. 
Pode ler-se no seu epitáfio:



“Quem quer que sejas tu, sujeito à morte, lê e chora. Sou o que tu serás, já fui o que tu és. Peço-te que rezes por mim"


Imagem nº 1 - Afonso de Portugal, o 11º Grão-Mestre da Ordem do Hospital, um combatente activo no fenómeno das Cruzadas Medievais.


Referências Consultadas:


  • BARROCA, Mário Jorge - Epigrafia Medieval Portuguesa (862-1422).  Vol. II, tomo 1, doc. 259. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000,
  • BRANCO, Maria João Violante - D.Sancho I. Lisboa: Círculo de Leitores, 2006.
  • DAILLIEZ, Laurent - Essai Historique sur l’Ordre Souverain de Saint Jean de Jérusalem, de Rhodes et de Malte, au Portugal (XII-XV Siècles), in Arquivo do Centro Cultural Português, vol. I, Paris, Fundação Calouste Gulbenkian, 1969.
  • MATTOSO, José -D. Afonso Henriques. Lisboa: Círculo de Leitores, 2006.