Este site foi criado com o intuito de divulgar os feitos mais marcantes no decurso da história mundial

domingo, 12 de março de 2017

Ilha da Páscoa e a sua História esculpida pelo Mistério


Contexto Geográfico, Administrativo e Climático

A Ilha da Páscoa, assim baptizada posteriormente pelos navegadores europeus (aquando da sua descoberta), situa-se no Oceano Pacífico, mantendo um distanciamento de mais de 3700 km face à costa do Chile, nação que detém hoje o seu domínio administrativo. 
Considerada igualmente uma ilha da Polinésia Oriental, possui uma limitada área de 163,6 km², residindo no seu território apenas 5 800 habitantes (segundo dados estatísticos de 2012), sendo que a maior parte esmagadora destes vive na capital Hanga Roa. 
Do ponto de vista económico, a Ilha da Páscoa denota sérios problemas de auto-suficiência. Por um lado, é de realçar o seu isolamento geográfico, o que não favorece o intercâmbio comercial e o crescimento económico. Além disso, a ilha de pendor vulcânico é ainda um alvo vulnerável dos climas intempestivos – embora seja quente na generalidade do ano, acaba por ser visada por intensas rajadas de vento e aragens álgidas que não só evitam o desenvolvimento promissor de determinados frutos (como por ex: o coco – muito presente nas restantes ilhas da Polinésia), como fazem com que o Oceano, então frio no seu redor, não propicie a consubstanciação de recifes de coral, cenário que, por seu turno, não viabiliza a presença abundante de peixes na área marítima envolvente. Por outro lado, a água da chuva infiltra-se facilmente no solo vulcânico da ilha, o que torna difícil o seu aproveitamento por parte dos habitantes.
Hoje, a pequena ilha depende naturalmente do apoio proveniente do Chile, mas também do próprio turismo, pois a sua história invulgar desperta em qualquer mortal uma curiosidade que se apodera do espírito, incitando-o à aventura e à redescoberta de uma pequena terra que outrora fora alvo de um culto singular, traduzido na criação de elegantes estátuas – os moais – cuja interpretação histórica ainda não gerou sequer consenso entre os investigadores, adensando assim o mistério em torno da sua construção. 





Imagem nº 1 – Os “moais” – gigantescas esculturas – são o principal cartão-de-visita da Ilha da Páscoa.
Fotografia da autoria de Marko Stavric Photography / Getty Images





Mapa nº 1 - A Ilha da Páscoa situa-se a meio do Oceano Pacífico (parte sul), estando a uma distância enorme da costa chilena. A sua denominação deve-se ao facto do explorador holandês Jacob Roggeveen ter descoberto a ilha num domingo de Páscoa (5 de Abril de 1722). Na ilha, existem três vulcões importantes (Rano Aroi, Rano Kau, Rano Raraku), embora nenhum deles tenha entrado em erupção, desde que se implantou a presença humana.




O Advento dos Rapanui

À semelhança da colonização medieval verificada no Havai, ilha igualmente isolada no Oceano Pacífico (embora situada mais a norte e numa área ainda mais central do oceano) e sobre a qual havíamos já dedicado um artigo, também não existem muitas informações precisas em torno do povoamento primitivo da Ilha da Páscoa, embora subsistam teorias que não deixaremos de apresentar aqui.
Dentro deste contexto, debate-se se a ilha teria sido, numa primeira fase, ocupada entre os séculos IV e V, contudo esta primeira proposta cronológica de ocupação indígena está longe de ser partilhada por todos os investigadores e historiadores.
Mais credíveis parecem ser os estudos que apontam para uma presença humana na Praia de Anakena que seria anterior ao ano de 900 d. C. – esta teoria é reforçada por datações radio-carbónicas extraídas através de amostras de carvão e ossos de golfinhos – que serviriam de alimento para seres humanos. Ainda a reforçar esta linha de ideias, subsiste o argumento de que as restantes ilhas da Polinésia Oriental (Ilhas Cook, Ilhas da Sociedade, Ilhas Marquesas, Austrais, Tuamotu, Havai, Nova Zelândia e Pitcairn) haviam sido colonizadas entre 600 e 800 d. C. 
Na pior das eventualidades, e caso esta última teoria (embora a rotulemos como muito válida) não se tenha verificado em termos práticos, podemos, pelo menos, inferir que a ilha da Páscoa teria sido colonizada, o mais tardar, até ao ano de 1200 d. C.
Os novos ocupantes da ilha seguiriam os padrões generalizados da cultura polinésia, utilizando inclusive dialectos associados. Parece estar portanto descartada a hipótese dos primeiros colonizadores da ilha serem provenientes de uma civilização indígena avançada da América do Sul. Os testes de ADN realizados em 12 esqueletos antigos que se achavam enterrados na ilha confirmam que os seus portadores de outrora detinham uma “mandíbula oscilante”, característica bastante comum entre as sociedades polinésias. Por isso, os primeiros indígenas que arribariam à Ilha da Páscoa seriam muito provavelmente oriundos de outras ilhas da Polinésia, embora aqueles tivessem, ainda assim, que empreender uma larga e penosa viagem em alto mar, dado o inequívoco isolamento geográfico daquele pequeno espaço insular. Aliás, tal como no caso histórico do Havai, é de vincar uma vez mais a audácia dos navegadores polinésios que, através das suas embarcações frágeis, não hesitaram em desafiar novamente o vasto oceano que era até então pouco conhecido. 
Exposto isto, o povo nativo que vivia na Ilha da Páscoa, antes da chegada dos navegadores europeus no século XVIII, ficaria conhecido pela designação de Rapanui (ou Rapa Nui).
Esta comunidade primitiva detinha o seu próprio dialecto (embora, como disséramos, não muito desconectado da tradição expressionista das tribos polinésias), destacando-se aqui o seu sistema glífico – designado de Rongorongo - o qual poderá ter constituído uma versão ancestral da língua rapanui. Todavia, a sua decifração ainda hoje permanece como um mistério por desvendar. Alguns eruditos, baseando-se em relatos orais contemporâneos  dos anciões rapanui, julgam que aquelas escrituras poderiam estar associadas a hinos religiosos, façanhas e relatos de personagens importantes, e ainda, a genealogias históricas. No entanto, a sua interpretação está longe de ser acessível, até mesmo para os sábios e especialistas que se têm debruçado, em particular, sobre este ponto em concreto. Devemos ainda realçar que estes glifos poderiam ser gravados em objectos de madeira ou até sobre as próprias pedras e rochas que ali jaziam.
Por outro lado, registamos também a presença de gravações rupestres incrustadas sobre as rochas, plasmando desenhos de peixes, aves, tartarugas, embarcações, figuras humanas com grandes olhos, o homem-pássaro, o deus Makemake, etc. Supostamente, existiram ainda pinturas murais similares dentro das habitações dos rapanui mais abastados ou influentes.
Em termos de estrutura social, o ariki era o rei da tribo, embora este estatuto também pudesse designar a rainha, os príncipes e até os próprios nobres. Esta elite detinha um elevado poder político e reivindicava ainda uma vocação mágica e sobrenatural - a mana - que fazia crescer os frutos e os animais na terra e no mar, permitindo a prosperidade e estabilidade da comunidade. A hierarquia real obedeceria aos critérios de primogenitura. Nos tempos áureos dos rapanui, é provável que tivessem existido - chefes militares, polícias (embora rudimentares), professores, sacerdotes, construtores de casas, escultores, agricultores, pescadores, pequenos artesãos, etc. 
No plano religioso e mitológico, os ilhéus prestariam culto a variados deuses, seguindo assim uma vocação politeísta, tal como era apanágio de muitas civilizações polinésias e ameríndias.  De acordo com as suas antigas histórias, encontramos referência a Hotu Matu'a, personagem mítica (ou soberano lendário) que os rapanui julgam ter sido o primeiro colonizador da Ilha da Páscoa. Também o culto de Tangata manu (assunção mitológica do homem-pássaro) fora visível, atribuindo-se a sua iniciativa ao deus supremo e criador da humanidade - Makemake. 
Do ponto de vista económico, já elencámos algumas das lacunas que fariam a ilha padecer dos recursos necessários. Ainda assim, o povo rapanui introduziu plantações de batata-doce e porongo (cabaça) na ilha, cenário que poderá ter sido provocado por esporádicos contactos encetados com tribos da América do Sul. A terem existido tais permutas civilizacionais, é provável que as mesmas tivessem decorrido entre os anos de 1200 e 1300.
Os autóctones cultivariam ainda inhame, taro, banana e cana-de-açúcar. As galinhas, talvez trazidas pelos primeiros colonos, seriam o seu único animal doméstico. Recorreriam a instrumentos modestos como arpões, anzóis, enxós de pedra e limas de coral para assegurar a sua sobrevivência num ambiente geográfico e climático pouco convidativo. Adoptaram alguns sistemas de irrigação e poços de compostagem, e procuraram empilhar pedregulhos de forma a barrar as recorrentes rajadas de vento que prejudicavam os intentos agrícolas. Além disso, também se dedicavam à caça de aves, à recolha de moluscos e à própria pesca (nomeadamente do atum), embora estas operações fossem, muitas vezes, inglórias, dada a reduzida biodiversidade no panorama insular.





Imagem nº 2 - A presença de petroglifos (sinais esboçados nas rochas) e o respectivo culto ao homem-pássaro jazente nos ilhéus observados mesmo junto à costa da Ilha da Páscoa. O deus Makemake era a figura suprema da religião rapanui, embora existissem outras divindades e heróis venerados. 
Foto da autoria de Robin Atherton




O expoente máximo da arte rapanui – os "moais"

Como qualquer civilização, a comunidade rapanui desenvolveu as suas próprias expressões culturais. Através de cânticos em coro e objectos de som rudimentares, recriaram a sua própria criatividade musical. Apesar de serem uma sociedade indígena, lograram ainda confeccionar mantilhas de penas, tecidos de casca, enxós, etc. 
No entanto, a expressão por excelência da sua arte prende-se com a sua vocação para a escultura. Ao todo, existem hoje na pequena Ilha da Páscoa 887 moais (outros asseguram que até poderão ser mais do que 900!), estátuas altivas de madeira ou formatadas em pedra/rocha que visam retratar alegadas figuras humanas ou deidades. Julga-se que terão sido maioritariamente erguidas entre 1250 e 1500 d. C. (poderão existir algumas excepções de moais mais antigos), embora a sua simbologia seja ainda hoje motivo de debates entre os profissionais da história e da arqueologia.
De acordo com os especialistas, é provável que os Rapanui tivessem erigido tais monumentos de forma a homenagearem os seus líderes mortos. Repare-se que as esculturas foram erguidas de costas para o mar, encontrando-se viradas para o interior da ilha onde ficavam as aldeias. Esta disposição poderá indiciar um apelo aos senhores ancestrais de Rapa Nui para que zelassem pela protecção do seu povo face às inúmeras adversidades. 
Outra explicação possível radica na possibilidade dos moais terem servido como pára-raios da ilha, visto que a incidência de chuvas e trovoadas seria considerável. O pukao, espécie de chapéu, feito a partir de uma pedra vulcânica avermelhada e porosa, presente nas estátuas mais próximas à costa, teria servido como condutor de electricidade, ajudando a preservar aquelas esculturas.
Por outro lado, perduram ainda moais com presumível conotação religiosa, estando associados a construções cerimoniais ou funerárias (“ahu”). O caso mais flagrante na ilha parece prender-se com o centro ritual de Vinapu, onde as estruturas parecem obedecer a um formato semelhante a variadas construções incaicas situadas em Cusco. Alguns investigadores esboçaram mesmo a possibilidade de um contacto entre aquela civilização ameríndia e os nativos da Ilha da Páscoa, talvez ainda no reinado de Túpac Yupanqui (imperador inca que governou entre 1471 e 1493).
Como casos mais particulares encontramos também os moais de Ahu Akivi que presumivelmente seguiriam uma orientação astronómica e que haviam sido erguidos durante o século XVI.
Segundo o historiador Rainer Sousa, é possível que alguns moais tivessem servido ainda "para demarcar terras ou vincar a liderança política de algum líder que tenha vivido na ilha".
Em termos de dimensões, os moais compreenderiam uma altura média de 4,5 metros, embora algumas estátuas tenham atingido excepcionalmente os 10 metros! No que diz respeito ao peso estandarte, este rondaria as 5 toneladas, mas poderiam existir casos de moais que pesassem bem mais do que 10 toneladas (pelo menos, conhecemos o caso de um moai que atingiria o peso de 27 toneladas!). Aliás, no que diz respeito ao peso, os números poderiam ser completamente variáveis.
Em jeito de curiosidade, os moais Ahu Tongariki são os mais conhecidos da ilha, visto que assumem uma localização relevante junto à costa. Ao todo, são 15 estátuas erguidas, o que revela o esforço do empreendimento indígena. Apesar de terem sido em parte derrubados por conflitos civis entre os nativos e por um tsunami posterior (já no século XX), a verdade é que foram reabilitados durante a década de 1990.






Imagem nº 3 - Os moais Ahu Tongariki: 15 estátuas gigantes viradas para o interior da ilha, estando de costas para o mar. 





Imagem nº 4 - Os moais impressionam pela sua grandeza e comprovam os dons escultóricos do povo rapanui.
Foto da autoria de Frank Kehren






Imagem nº 5 - Um moai que alberga no seu cimo um pukao - espécie de cilindro avermelhado. Não se sabe ao certo qual seria o seu significado. Seria uma espécie de chapéu, cocar, peruca ou turbante que os indígenas mais eminentes da tribo utilizariam para se evidenciarem socialmente? 
Alegadamente, o pukao era feito a partir de pedras extraídas da cratera ou do cone de escória de Puna Pau, e o seu processo de talhamento poderia levar dois ou três meses.





Imagem nº 6 - Os moais encontram-se dispersos pela ilha, tanto junto ao litoral como no seu interior. Muitos apelidam, mais tarde, a Ilha da Páscoa como a "Ilha das Estátuas". 





O declínio do povo Rapanui

Quando os europeus arribaram à ilha no século XVIII, a tribo Rapanui parecia viver num estado bastante precário, encontrando-se num inequívoco retrocesso social. A ilha estava, cada vez mais, depauperada de recursos, tornando assim mais crítica a sua auto-sustentabilidade. 
A sobre-exploração da ilha, motivada pela limitação de bens essenciais e por uma população em expressão crescente (visível em séculos precedentes), poderá ter originado uma grave crise económica e até mesmo conflitos internos. Esta teoria é, pelo menos, adoptada por Jared Diamond na sua obra “Collapse” (2005). De acordo com esta linha de raciocínio, a desflorestação da ilha (devido à necessidade constante de madeira) e o condicionamento em torno das fontes de alimento (a biodiversidade era reduzida e as cultivações seriam precárias devido ao clima vigente) podem explicar a decadência dos Rapa Nui. Além disso, este povo tinha despendido tantas energias e materiais ao erguer os seus célebres “moais”. 
O desmatamento excessivo provocou ainda a erosão do solo e a ausência de madeira para a construção de novas habitações bem como de pequenos barcos que seriam utilizados na pesca.
Também algumas plantas insulares teriam desaparecido. Das 48 que supostamente existiriam outrora, apenas passariam a restar 22, aquando da chegada europeia. De acordo com relatos ancestrais, teria inclusive ali existido uma das maiores palmeiras do mundo – a “Palmeira Rapa Nui”, a qual não resistiria talvez à exacerbada exploração tribal. 
Esta realidade seria assim presenciada por Jacob Roggeveen, o primeiro europeu a chegar, embora que acidentalmente, à Ilha da Páscoa a 5 de Abril de 1722. O navegador holandês teria permanecido na ilha durante alguns dias, estimando que a população nativa rondaria entre os 2 e os 3 mil habitantes (embora este número terá sido bem superior nos séculos anteriores). Em 1770, seria a vez do espanhol Felipe González de Ahedo arribar ao território, demonstrando a sua intenção de anexar a ilha aos domínios espanhóis. Também o inglês James Cook e o francês Jean-François de Galaup se deparariam com a ilha em 1774 e 1786 respectivamente. 
Os séculos XVIII e XIX revelar-se-iam ainda mais nefastos para estes nativos. Tal como já se havia sucedido com as sociedades ameríndias, os contactos com os europeus e com os seus súbditos colonizadores da América traduziram-se em vários dissabores. Por um lado, os rapanui foram vítimas de algumas doenças trazidas pelos europeus (como por exemplo, a temível varíola), enquanto que, por outro, passaram a ser um alvo vulnerável por parte de todos aqueles que se dedicavam ao tráfico esclavagista. Além disso, é provável que entre os séculos XVII e XVIII tivessem rebentado conflitos internos entre a própria tribo Rapanui, devido à falta de recursos para satisfazer as suas necessidades. A violenta guerra travada entre os vários clãs ocasionou mesmo a destruição de vários moais, os quais seriam reconstruídos ou reparados mais tarde. Em tempos passados, adoptaram-se também práticas de sacrifícios humanos e canibalismo, de forma a agradar ao deus supremo Makemake.
A ilha acabaria por ser anexada pelo Chile em 1888 através da iniciativa do comandante Policarpo Toro Hurtado. Aquando desta efeméride, apenas viveriam ali pouco mais de uma centena de nativos (101 ou 111, de acordo com testemunhos cronológicos ligeiramente separados), um número alarmante que confirmava o declínio demográfico, social e económico dos rapanui. Na altura, as autoridades chilenas firmariam um acordo com Atamu Tekena, o líder da tribo. Em troca da sua autonomia, os ilhéus estariam agora mais a salvo de eventuais ataques por parte de esclavagistas europeus e americanos (sobretudo peruanos). Em 1966, os habitantes da ilha passaram a ter finalmente direito à cidadania chilena. Actualmente, e apesar das adversidades registadas ao longo dos últimos cinco séculos e do facto da maior parte dos habitantes se expressar hoje em espanhol, a verdade é que cerca de 60% da população residente na Ilha da Páscoa (recorde-se que, ao todo, são mais de 5 mil os habitantes da ilha) é descendente daquele povo aborígene, cujas tradições se mantêm ainda vivas, motivando o entusiasmo de todos aqueles que tencionam conhecer a produção cultural original patente naquele território. E claro, os seus moais embelezam ainda mais o seu legado, perpetuando-o para a eternidade.






Imagem nº 7 - Teatralização recente que visava imitar as tradições da comunidade rapanui.
Direitos da Foto - OREALC/UNESCO Santiago / Foter / CC BY-NC-SA





Imagem nº 8 - Uma sessão de dança tradicional rapanui. Este povo sempre manifestou um orgulho especial pelo seu passado, pelas suas tradições e pelos seus antigos líderes.




Referências Consultadas:

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

A "Idade de Ouro Georgiana" espelhada por três vultos literários


Contexto


O reino medieval da Geórgia foi fundado no ano de 1008 por Bagrate III, então um dos responsáveis pela fundação da Catedral de Bagrati em Kutaisi (hoje Património Mundial da UNESCO). Durante os séculos XI e XII, o novo estado monárquico, então independente, irá conhecer a sua Idade de Ouro. A partir de épocas distintas, o rei David IV (governou entre 1089-1125) e a rainha Tamara (foi figura central entre 1184-1213) lograram elevar os feitos políticos, militares e económicos georgianos até ao apogeu. De facto, o reino alcançou, no seu expoente máximo, largas dimensões territoriais que aglutinavam o sul da actual Ucrânia, determinadas províncias do norte do Irão, e ainda possessões religiosas na Terra Santa e na Grécia. 
O povo georgiano, à semelhança de hoje, sempre fora fiel ao credo cristão, mais concretamente à vertente ortodoxa. Naturalmente, foi promovida, desde cedo, a criação de igrejas e mosteiros que se disseminariam rapidamente pela região. A arte sacra também conheceu um aprimoramento original, traduzida na implementação de novos moldes arquitectónicos e ainda na produção original de peças religiosas (nomeadamente relicários e trípticos) e de pinturas murais que revestiam as paredes dos templos.
No entanto, as invasões implacáveis dos mongóis, no decurso do século XIII, originariam a queda deste reino até então profícuo. Também a entrada em cena dos turcos nos séculos posteriores trariam mais instabilidade à região do Cáucaso e ao próprio povo georgiano. A queda de Constantinopla em 1453 significara ainda o desaparecimento definitivo do Império Bizantino, até então o tradicional aliado da causa georgiana. Ainda assim, o enclave cristão resistiria, mesmo com elevados custos humanos e materiais, às terríveis depredações turcas e iranianas que se fariam sentir a partir do final da Idade Média.
No entanto, é essencial realçar que os três principais vultos literários que nos propusemos a abordar enquadram-se cronologicamente na Idade de Ouro Georgiana que vigorou com esplendor antes da terrífica expansão mongol.





Mapa nº 1 - O reino georgiano e os seus respectivos estados vassalos entre 1184 e 1230. Foi durante esta altura que aquele estado cristão atingira a sua maior expressão territorial.
Retirado do Wikipédia




Kintsvisi Monastery By Abramia.JPG

Imagem nº 2 - O Mosteiro Ortodoxo de Kintsvisi remonta historicamente ao século XIII, embora incorporasse uma velha igreja (hoje em ruínas) que seria datada do século X.
Créditos da Fotografia - Abramia Giorgi 





Imagem nº 3 - Tríptico de Khakhuli consagrado à Virgem Maria ("Theotokos"). A peça tem a particularidade de congregar esmaltes bizantinos e georgianos datados de entre os séculos VIII e XII.
"Goldschmiedekunst und Toreutin in den Museen Georgiens", Aurora Leningrad, 1986




Demétrio I, o rei-poeta que venerou a Virgem Maria

Demétrio nasceu por volta de 1093. Era filho de um dos reis mais carismáticos da história da Geórgia - David IV, o Construtor. Este último reinara, como já disséramos, entre 1089 e 1125, tendo sido responsável por triunfos decisivos obtidos diante dos turcos seljúcidas, além de ter promovido a emancipação de uma cultura cristã numa Geórgia que, no seu tempo, viria a ser unificada.
De facto, o então príncipe Demétrio lutara a lado de seu pai David IV na célebre batalha de Didgori (ano de 1121), empreendimento bélico que ditaria o início da Idade de Ouro Georgiana e que importa então conhecer através de uma narração detalhada. De facto, as crónicas não deixam de citar o feito miraculoso do exército cristão que teria nas suas fileiras, cerca de 55 mil soldados, um número considerável, é certo, mas bastante inferior àquele que era apresentado pelo seu oponente.
Efectivamente, do outro lado, estava Ilghazi (governador artúquido de Mardin) com um exército turco que integraria, segundo as fontes medievais, mais de 100 mil homens, podendo até ter mesmo chegado aos 200 mil, de acordo com outras contagens propostas. A expedição seljúcida seria justificada pelo ressurgimento de alguns confrontos na região que importunariam os interesses árabes. Antes da batalha de Didgori, as autoridades islamitas controlavam já há quase quatro séculos a cidade de Tbilisi que, apesar de pagar recentemente um tributo considerável ao rei David IV, poderia ser agora o alvo principal dos georgianos que procuravam reunificar definitivamente o seu reino, incorporando uma notável urbe que havia sido fundada no século V pelo então soberano Vakhtang I Gorgasali da Ibéria. Cenário esse que o então mandatado oficial militar turco Ilghazi procurava, a todo o custo, evitar através de uma expedição invasora e claramente punitiva.
Ambas as forças se reencontram a 12 de Agosto de 1121. Os georgianos sabem que estão em inferioridade numérica, e procuram imediatamente recorrer a um movimento ardiloso. Simulam o envio de um pequeno destacamento de homens para uma suposta abordagem diplomática que deveria abrir uma ronda negociativa. Mas tal não passaria de uma manobra engendrada para iludir o adversário. Por detrás das colinas de Didgori (localizada a 40 km da ainda possessão "muçulmana" de Tbilisi), o exército do rei David IV e do príncipe Demétrio aproveitaria aquele curto espaço de tempo para tentar cercar rapidamente o inimigo. O cerco não será total, mas ainda assim o suficiente para infernizar o adversário. Quando o grupo de falsos diplomatas chegou ao local, depois de ter esgotado alguns minutos no referido trajecto (os quais foram valiosos para dar tempo às aspirações tácticas das forças cristãs), não hesitou em sacar das suas espadas para atacar, de surpresa, os comandantes turcos que os aguardavam para um primeiro contacto pacífico. Não foi um golpe limpo, certamente, mas o rei David sabia que teria de causar o pânico e a desorganização num exército que lhe era bem superior. Só assim seria possível o triunfo! Após aquele ataque inesperado, as forças seljúcidas não souberam conter a disciplina táctica.
As forças do rei georgiano e do seu príncipe herdeiro logo se lançaram sobre a retaguarda, e depois, sobre os flancos do adversário turco. Ilghazi sente-se perdido, não conhece o terreno. É ferido tal como o seu filho em combate, mas ambos conseguem escapar a tempo. O exército turco fica assim sem o seu líder, e a desorganização será a partir de agora total. Ao invés disso, os vários destacamentos georgianos mantêm alguma frieza e tiram partido da anarquia verificada no lado oponente. Ainda assim, a vitória não terá um preço fácil - a batalha campal irá durar três horas - milhares perecerão de ambos os lados, mas sem dúvida que a maior parte esmagadora serão turcos que tombariam em batalha diante da cavalaria ou dos arqueiros cristãos, outros acabariam mortos enquanto tentavam fugir. Muitos turcos foram ainda capturados nos dias seguintes à batalha.
A vitória em Didgori permitiu aos georgianos eliminar a ameaça turca durante os próximos tempos, e mais do que isso, proporcionou, no ano seguinte (1122), a reconquista cristã de Tbilisi que se converteria na capital do reino medieval da Geórgia.
Em termos comparativos, a batalha de Didgori foi tão nevrálgica para o rumo histórico da Geórgia, como a conquista de Lisboa (alguns anos depois, em 1147) seria para as ambições do reino medieval português. Aliás, Afonso Henriques de Portugal e David IV da Geórgia foram os primeiros notáveis arquitectos dos seus respectivos reinos, mesmo que os seus territórios se encontrassem separados fisicamente por uma distância enorme. 
Com a morte de David IV em 1125, Demétrio sobe ao trono. O seu reinado irá conhecer uma duração de cerca de 30 anos, mas não será repleto de êxitos políticos tal como fora o de seu pai. Exceptuando uma investida bem-sucedida (mas sem grandes efeitos práticos) sobre a cidade de Ganja (actualmente, a segunda maior cidade do Azerbaijão), a verdade é que Demétrio não terá vida fácil, sobretudo na corte. Na década de 1130, surgiria mesmo uma conspiração planeada por alguns aristocratas que o tentaram derrubar para entregar o poder ao seu meio-irmão Vakhtang. O rei foi avisado a tempo desta movimentação e não hesitou em punir os revoltosos. 
No ano de 1154, seria a vez do seu filho mais velho, David V, forçá-lo a abdicar do trono. Demétrio teve que abraçar a vida de monge no cenóbio de David Gareja onde recebeu o nome monástico de Damião (Damianus). Contudo, David faleceria seis meses depois, o que obrigou o rei a reassumir os destinos do reino até 1156, ano em que abdica a favor de um outro filho seu - George III (este reinou entre 1156-1184 e seria o pai da célebre e futura rainha Tamara). Demétrio regressa ao mosteiro, onde terá morrido entre 1156 e 1158. Seria sepultado no Mosteiro de Gelati, fundado pelo seu pai David IV em 1106 e onde repousam alguns dos reis georgianos medievais.
Apesar de não ter imprimido uma autoridade consensual ou indiscutível, Demétrio I soube, pelo menos, manter intacto o legado de seu pai, preservando a organização feudal e estimulando os sectores económico e cultural.
Em termos de produção literária, Demétrio escreveu poemas de natureza religiosa, quando se encontrava enclausurado no mosteiro David Gareja, onde vivera então os seus dias derradeiros. Um deles, consagrado à Virgem Maria, tornou-se num autêntico hino, o qual procuraremos traduzir de seguida.
Esta sua devoção pelo cristianismo oriental fez com que fosse considerado santo pela Igreja Ortodoxa, sendo o seu dia festivo anual celebrado a 23 de Maio.






Imagem nº 4 - David IV, rei da Geórgia entre 1089 e 1125, foi responsável pela emancipação da nacionalidade georgiana na Idade Média. Seria o pai de Demétrio, rei-poeta.
Créditos - Wikipédia





Imagem nº 5 - A vitória na batalha de Didgori, travada em 1121, permitiu ao rei David IV e ao seu príncipe herdeiro Demétrio inaugurar um novo caminho que levaria à reconquista cristã de Tbilisi (esta viria a ser a nova capital do reino) e à reunificação da identidade georgiana.
Quadro da autoria de Augusto Ferrer-Dalmau




Demetre I (Matskhvarishi).jpg

Imagem nº 6 - Fresco do Mosteiro Matskhvarishi em Svaneti que ilustra a coroação do rei Demétrio I que sucederia a seu pai David IV, o Construtor.
Pintura mural da autoria de Michael Maglakeli




Hino do rei Demétrio I consagrado à Virgem Maria
(Tradução da nossa autoria a partir de uma versão inglesa da sua epopeia)


Vós sois uma vinha recentemente florescida.
Jovem, bonita, crescendo no Éden,
(Um álamo perfumado rebentando no Paraíso.)
(Que Deus vos adorne, ninguém é mais digno de louvor.)
Vós mesmo sois o sol, refulgindo brilhantemente.





Imagem nº 7 - Mosteiro Ortodoxo David Gareja, local onde o rei Demétrio I viveu os seus derradeiros dias, tendo composto poesia de teor religioso. O soberano viria a ser depois sepultado no Mosteiro de Gelati.




Shota Rustaveli, o poeta que cantou a epopeia georgiana


Natural de Rustavi (região de Meskheti), Shota Rustaveli teria nascido por volta de 1160-1165. Infelizmente, os dados existentes voltam a ser escassos para determinar com exactidão o seu percurso biográfico. Conhecemos, por isso, melhor a sua obra do que a sua vida. 
No entanto, terá sido um ministro ou estadista (exercendo até o papel de tesoureiro) que esteve ao lado da conceituada rainha Tamara, uma das governantes mais emblemáticas da História da Geórgia que assumiria o poder entre 1184 e 1213. 
De acordo com alguns rumores veiculados, embora não cientificamente comprovados, Rustaveli poderia ter recebido a sua formação nas academias medievais georgianas de Gelati e Ikalto, tendo registado ainda uma passagem posterior pelo Império Bizantino, onde poderá ter estudado as obras mais sonantes da filosofia helénica. Os seus principais trabalhos deverão ter sido compostos entre a década de 1180 e o ano de 1207. Terá alegadamente falecido por volta de 1220, podendo ter passado os seus últimos dias como monge do Mosteiro da Cruz em Jerusalém (de vocação ortodoxa e, ao que se julga, fundado tradicionalmente por georgianos). Apesar de não nos ser possível confirmar cientificamente este seu retiro espiritual, a verdade é que o referido cenóbio integra inclusive um retrato mural pintado do poeta em questão, situação que pode alimentar ainda a tese de que Rustaveli poderá ter sido patrocinador daquele templo cristão sito então na Cidade Santa. Além disso, existem outros estudiosos que colocam em cima a possibilidade (embora esta nos pareça ainda mais difícil de ser comprovada) de Shota Rustaveli ter sido também um notável pintor, tendo alegadamente esboçado alguns dos frescos do mencionado Mosteiro da Cruz.
Em termos literários, a sua principal obra "O Cavaleiro na Pele de Pantera" apresenta-nos um longo poema épico que enaltece, de certa forma, os feitos georgianos da sua era. O contexto não deixava efectivamente de ser inspirador a todos os níveis. Com a rainha Tamara, esta então venerada pelo autor da epopeia, o reino da Geórgia atingiria as máximas dimensões territoriais, frustrando qualquer investida inimiga proveniente do exterior. A ciência medieval progrediria também ali. As caravanas georgianas já chegariam inclusive ao sultanato aiúbida do Egipto, ao principado de Kiev e até ao Império Bizantino, o que revela um claro crescimento económico e comercial. Muitos mosteiros e igrejas foram erguidos durante este período que favorecia igualmente a produção artística. Tal como Luís Vaz de Camões cantara, mais tarde, e com um talento magistral, os feitos dos Portugueses nos Descobrimentos em "Os Lusíadas", Shota Rustaveli haveria de formular, ainda que alguns séculos antes, a sua epopeia para eternizar as proezas medievais georgianas.
A sua vasta obra contém personagens alegóricas ou "virtuais" (e inúmeras metáforas), embora as características de muitas destas nos remetam para personalidades reais do seu tempo. Por exemplo, a personagem da princesa "Tinatin" nasceria a partir do protótipo da rainha Tamara. De acordo com Donald Rayfield, autor de uma obra que incide sobre a literatura medieval georgiana, "Tinatin" solicitara ao seu amado general e cavaleiro "Avtandil" para que este prestasse auxílio ao príncipe indiano "Tariel", encontrado então sob um pranto de lágrimas e vestindo uma pele de pantera negra, a recuperar a sua apaixonada "Nestan-Darejan" que havia sido capturada por usurpadores. Após inúmeras aventuras, naturais e sobrenaturais, o amor e os ideais de cavalaria triunfam, permitindo a ambos os casais alegóricos a prossecução dos respectivos matrimónios e a consequente instauração de governos/reinos profícuos.
Sobre a bela princesa "Tinatin", o poeta georgiano chega então a escrever o seguinte - "radiante como o sol nascente, nascida para iluminar o mundo à sua volta, tão justa que o mais leve dos seus sentimentos faria um homem perder a cabeça; seriam necessárias dez mil léguas e a sabedoria dos sábios para expressar o elogio da filha do rei" (recorde-se que o rei George III havia abdicado em favor da sua filha Tamara, pelo que esta mantém muitas semelhanças com a personagem que acabamos de citar).
Em jeito de balanço, Shota Rustaveli considera, ao longo dos seus versos, as nobres condutas de cavalaria, os sentimentos de amor e amizade, a valentia e a sorte. Valoriza a harmonia, a lealdade e a sinceridade em plena corte, chegando até a defender a igualdade de tratamento entre homens e mulheres, um tema que ainda hoje é actual, mas que para a altura em questão seria considerada certamente uma visão ousada. Recorda ainda alguns heróis, cuja valentia e generosidade não poderá ser esquecida. E ao contrário do que muitos possam pensar, a sua obra não se restringe apenas à Geórgia, fazendo igualmente figurar as regiões da Arábia, China e Índia, o que revela a sua ímpar criatividade.




Um excerto do prólogo
(Tradução da nossa autoria a partir de uma versão inglesa da sua epopeia)


Ao derramarmos lágrimas de sangue, nós louvamos a rainha Tamara
Cujos louvores eu, não mal-escolhido, tenho narrado adiante!
Para a tinta, usei um lago de esguichos, para a pena, um flexível cristal!
Quem quer que escute, uma lança dentada perfurará o seu coração!




Um excerto do epílogo
(Tradução da nossa autoria a partir de uma versão inglesa da sua epopeia)


Deus dos georgianos, David, cujo sol é seu servidor,
E aqui eu escrevi esta poesia para o seu uso,
Aquele que governa no Este e no Oeste
Para queimar os infiéis, e agradar aos devotos.



(Nota-Extra - David Soslan era o rei consorte da rainha Tamara, sendo que ambos foram assim contemplados pela poesia de Shota Rustaveli, embora o corpo da obra albergue então as referidas personagens fictícias mas cuja associação discreta a determinadas personalidades reais não terá sido certamente acidental. No último verso que citamos do epílogo, está bem patente o fanatismo religioso que, na época, se vislumbrava)





Imagem nº 8 - Fresco no Mosteiro da Cruz em Jerusalém que retrata o poeta e pintor georgiano Shota Rustaveli.
Créditos - Wikipédia





Imagem nº 9 - Shota Rustaveli viveu possivelmente entre 1160/65 e 1220, tendo engrandecido os feitos do povo georgianos durante a sua era dourada. Como registo adicional de curiosidade, o prémio mais alto da actual República Independente da Geórgia nos campos da arte e literatura é designado como "Prémio Nacional Shota Rustaveli".
Retrato da autoria de Irakli Toidze (1902-1985)





Imagem nº 10 - Shota Rustaveli apresenta o seu poema épico à rainha Tamara, cuja beleza, inteligência e habilidades diplomáticas atraíram a admiração de vários poetas e escritores orientais.
Quadro do pintor húngaro Mihály Zichy (1826-1907)




Ioane Shavteli, o poeta dos panegíricos 


Este é talvez o erudito menos conhecido de entre os três que nos propusemos a abordar neste artigo. Por isso mesmo, as informações a seu respeito são muito escassas. Sabe-se que terá vivido entre os finais do século XII e os inícios do século XIII.
Desconhecem-se factos mais concretos sobre a sua existência. Teorias entretanto propostas procuram incutir-lhe alguma filiação clerical (os seus poemas assumiam uma tendência patrística - isto é, visavam a filosofia cristã) ou até mesmo uma determinada proximidade para com a rainha Tamara (1184-1213), podendo inclusive ter acompanhado esta nos seus diversos empreendimentos militares ou diplomáticos.
Ioane Shavteli deixou-nos poemas essencialmente laudatórios, e apesar de não citar directamente os nomes das duas personalidades então glorificadas pelos seus versos, tudo indica de que se tratem então de sinceras homenagens prestadas aos dois soberanos mais notáveis da Geórgia Medieval - ao rei David IV, o Construtor (1089-1125) e à rainha Tamara (1184-1213), cujas virtudes cristãs seriam então enobrecidas. 
Em relação aos versos presumivelmente dedicados ao rei David IV, reconhece os seus feitos militares para o renascimento georgiano. Apesar de não referir o seu nome, o poeta Ioane Shavteli faz alusão ao seu homónimo bíblico (trata-se muito provavelmente do profeta e rei de Israel - David), recordando o combate deste contra os antigos "pagãos", papel que supostamente seria também atribuído ao rei georgiano, então conquistador de Tbilisi. Aliás, não podemos deixar de relevar que a Dinastia Bagrationi, então no poder da Geórgia Medieval, sempre reivindicara ser originária do círculo familiar daquela figura carismática então engrandecida nos textos sagrados cristãos e judaicos.
Em relação à rainha Tamara, o escritor georgiano enaltece a sua beleza e a vontade de fazer o bem de uma forma simples e discreta. A esta dedicou então, inúmeras estrofes, sendo que procuramos destacar uma em concreto:




Tu és o olho dos cegos, a tutora dos jovens, o pão para os esfomeados, o abrigo para os sem-lar.
"Pai" para os órfãos, protectora das viúvas, destinada a cobrir os desnudados,
Um esteio de força para os idosos, desgastados pelo trabalho, com que se pode contar.
Tu distribuis sabedoria entre nós, divulgadora da graça, tu nos mostras a profundidade das palavras escritas!






Imagem nº 11 - A Rainha Tamara (1184-1213; em inglês - "Queen Tamar") foi fonte de inspiração para os vultos culturais do seu tempo. Embora sem mencionar o seu nome, o poeta georgiano Ioane Shavteli eternizou até à exaustão as suas qualidades humanas.




Nota adicional - Um quarto poeta georgiano foi, por exemplo, Chakhrukhadze. Talvez não tão importante como os anteriores, também dedicou várias odes à rainha Tamara. Viveu entre os séculos XII e XIII. Terá sido ainda secretário daquela soberana amada pelo seu povo.



Referências Consultadas

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Abu Imrane Almertuli, o poeta sufi de Mértola


Quantas coisas digo que não faço

quantas voltas sem me decidir a pôr meu pé em terra.



Critico os meus olhos e não se convencem;

aconselho minha alma, não aceita os meus conselhos.



Ai quantas coisas se desculpam, dizem:

“talvez mais tarde”. Quantas se demoram.



Em quantas coisas confio

que terei longa vida, e me atraso.

Mas a morte não se atrasa.

Todos os dias brada entre nós



o pregoeiro da caravana: “Alto!”

Depois de setenta e nove anos,

deverei esperar uma vida longa? (…)



Poema da autoria de Abu Imrane Almertuli
Tradução de Elias Terès Sàdaba (espanhol) e Garcia Domingues (português)



Estes são talvez os versos mais conhecidos de Abu Imrane Almertuli, um poeta e místico sufi que havia vivido, durante o século XII, em Mértola, junto às margens do Rio Guadiana. Infelizmente, não encontrámos muitos elementos biográficos a seu respeito. Apenas sabemos que a sua morte respeita duas propostas cronológicas, isto é, terá ocorrido entre 1194-1195 ou somente se terá verificado em 1207. Julga-se ainda que terá chegado a privar, em algum momento, com Al-Uryani, mestre sufi de Loulé (este tinha ainda fama de taumaturgo), e até com o califa almóada Ya'qub al-Mansur. De acordo com António Borges Coelho, este último teria-lhe enviado ainda um mensageiro que deveria proceder à oferta de uma determinada quantia, gesto que Abu Imrane Almertuli terá declinado respeitosamente, retorquindo diante do estafeta - "O teu senhor tem mais necessidade desse dinheiro do que eu. Toma cem dinares de proveniência lícita. Diz-lhe que, para a sua manutenção pessoal, gaste só deste dinheiro e obterá a vitória".
Através deste pequeno relato, é possível extrairmos mais algumas ideias. O biografado não viveria em condições desafogadas, pelo que terá suscitado alguma sensibilidade da parte do poderoso califa que o visitara e que viria a ser reconhecido pelo seu percurso militar irrepreensível na Península Ibérica. Ya'qub al-Mansur foi, por exemplo, o grande vencedor da batalha de Alarcos em 1195, isto depois de ter recuperado muitas praças aos cristãos.
Esta situação económica individual presumivelmente desfavorável também encontra eco no estilo religioso adoptado por Abu Imrane Almertuli. O sufismo era uma corrente mística e contemplativa do Islão, estando muito associada à humildade espiritual e a uma pobreza inequívoca no plano material. Os sufis tentavam desenvolver uma relação íntima, sincera, directa e contínua com Deus, utilizando inúmeras práticas espirituais ensinadas pelo Profeta Maomé, orações e jejuns. Estes movimentos poderiam igualmente incluir rituais de música, dança e cânticos.
No que diz respeito ao poema citado, é possível retirarmos alguns apontamentos sobre o pensamento do autor. Tal como Omar Khayyam (notável polímata persa que viveu entre 1048-1131), também Abu Imrane Almertuli se debruça sobre temáticas existencialistas, procurando abordar o sentido da vida e da morte. Através destes versos, o poeta sufi de Mértola critica o desperdício de tempo por parte dos seres humanos que invariavelmente adiam para mais tarde as acções que haviam planeado para serem concretizadas num determinado momento a brevíssimo prazo. Para Abu Imrane, a morte está sempre omnipresente, sobretudo numa época onde a esperança média de vida era bem inferior à actual. Por conseguinte, seria então aconselhável ou recomendável não deixar para amanhã aquilo que de importante se poderia fazer hoje. Efectivamente, esta é ainda uma visão muito actual nas sociedades contemporâneas e que se encontra revestida de um sentido lógico. O tempo não pára, pelo que não devemos acomodarmo-nos à sombra dos ponteiros do relógio, ou inundar as valiosas horas que temos pela frente com acções fúteis e inconsequentes. 
O poema incorpora igualmente metáforas e ainda imagens secularmente inscritas na tradição cultural árabe. A caravana corresponde ao percurso colectivo de todos os seres humanos ao longo das suas vidas. Refere-se às suas escolhas e aos seus rumos. Por seu turno, o pregoeiro personifica a morte porque só ele pode fazer parar a caravana (ou esse percurso), visando o ser humano que a "integra".
Estamos perante um dos versos mais bem elaborados do período cultural do al-Andalus, o qual nos remete para reflexões profundas.





Imagem nº 1 - O Sufismo foi uma das expressões religiosas contemplativas do Islão. Os seus mestres preconizavam uma veneração incondicional a Deus, distanciando-se de qualquer tentação material.
Abu Imrane Almertuli também integrou esta corrente, além de se ter dedicado à poesia, tal como fizera, embora com dimensão universal, Maulana Rumi.




Nota-Extra - Al-Uryani, mestre sufi de Loulé, foi um dos principais tutores de Ibn al-Arabi em Sevilha. De acordo com António Borges Coelho, também Ibn al-Arabi, vulto que viria a adquirir um notável carisma intelectual no seio do al-Andalus (com provas dadas na poesia, filosofia e mística sufi), terá chegado, um dia, e no âmbito de um "episódio concreto", a procurar conselhos espirituais ou teológicos junto de Abu Imrane Almertuli. 



Referências Consultadas:

  • COELHO, António Borges - Portugal na Espanha Árabe. Vol. IV. Lisboa: Seara Nova, 1975.
  • COELHO, António Borges - Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Andalus. Lisboa: Instituto Camões/Colecção Lazúli, 1999.
  • https://distractos.wordpress.com/2014/06/10/este-deserto-this-desert/, (Artigo da autoria de António Sá, consultado em 26/01/2017).

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Abdalá Ibne Uázir, o derradeiro poeta e governador muçulmano de Alcácer do Sal

A história do al-Andalus não foi apenas construída por prodigiosos vultos, mas também por pequenos poetas que não deixariam de expressar, através dos seus versos, os sentimentos e as vivências que fizeram parte da sua existência.
Abdalá Ibne Uázir (também denominado como Abdallah ibn Wazir) é certamente um desses exemplos. Infelizmente, não logramos reunir muitas informações sobre a sua vida, mas ainda assim compilámos alguns elementos biográficos.
De acordo com o especialista em estudos islâmicos, António Borges, o biografado pertenceria à família dos Banu Uázir de Beja. No auge da sua carreira, terá desempenhado as funções de alcaide (estatuto equiparável ao de governador) na praça muçulmana de Alcácer do Sal (al-Qasr).
Em 1217, Abdalá Ibne Uázir é surpreendido pela chegada das tropas de D. Afonso II (embora o rei português não tivesse estado presente no empreendimento militar) que são engrossadas por um importante exército de cruzados (sendo que estes, na sua maioria, seriam combatentes germânicos e flamengos que estavam integrados na campanha da Quinta Cruzada que deveria rumar ao Egipto). Apesar de quatro soberanos muçulmanos (provenientes de Sevilha, Córdoba, Jaén e Badajoz) terem vindo em auxílio do governador islâmico de Alcácer, a verdade é que estes foram derrotados pelos cristãos numa batalha travada no exterior. Os muçulmanos que resistiam a partir da guarnição da praça não tiveram outra hipótese senão apresentarem a sua rendição diante dos novos invasores. Confrontado com a nova realidade, Abdalá Ibne Uázir simulou uma conversão ao cristianismo, de forma a tentar ludibriar os novos ocupantes da cidade. Pouco tempo depois, e logo que teve oportunidade, conseguiu fugir para o Garbe Muçulmano.
Pelo que apuramos, este oficial administrativo não se inteirou apenas da gestão financeira, política, judicial e militar da sua praça, como parece também ter velado pela cultura a nível local. Abdalá Ibne Uázir não era um governante ignorante que não sabia ler ou escrever, como acontecia recorrentemente na distendida Idade Média. O analfabetismo atingia números assombrosos, sendo transversal ao povo e até à própria nobreza. Apenas as pessoas ligadas ao clero (independentemente do credo professado) e alguns profissionais liberais (caso dos magistrados) detinham alguns conhecimentos linguísticos porque tal seria fundamental para o exercício das suas funções.
Abdalá Ibne Uázir era portanto uma feliz excepção à regra, uma personalidade digna de integrar uma minoria de intelectuais da sua época, mesmo que a sua obra literária não tivesse sido uma das mais marcantes do al-Andalus.
O alcaide foi efectivamente um poeta. Os seus versos visavam, em especial, a realidade envolvente. Aliás, a crítica social e política do seu tempo estão implícitos ao longo da sua obra. Mas num dos seus poemas, Abdalá mostra-nos também um lado mais humanista, e inclusive amigo dos animais, visto que chegara a confessar a sua tristeza pelo facto de o seu cão de caça ter morrido durante uma caçada nas florestas de Alcácer.
Infelizmente, não temos mais dados a reportar sobre a sua vida. Contudo, conseguimos encontrar um pequeno poema da sua autoria onde nos é revelado um pouco da sua tendência para a sátira social.
Até porque a poesia não se refugia apenas nos enclaves sentimentais do amor, da tristeza ou da amizade, assumindo-se igualmente como uma ferramenta capaz de denunciar vícios e abrir novos caminhos mais luminosos para as sociedades que lhe são contemporâneas!



"Não desesperes"

Não desesperes de chegar a califa
Pois Ibne Amr foi nomeado inspector das alfândegas.
Desgraçada época em que se fazem coisas 
Como esta:
Colocar altos cargos nas mãos de um limpador
De esgotos.



Versos da autoria de Abdalá Ibne Uázir
(Poema compilado e preservado pelo historiador Ibne Saide Al-Magribi)
Posteriormente traduzido por Teres Sàdaba (espanhol) e Garcia Domingues (português)





Imagem nº 1 - A Poesia e a Música constituíram partes integrantes do dinamismo evidenciado por alguns centros culturais do al-Andalus.



Referências Consultadas:

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Duas visões distintas sobre a Reforma Manuelina dos Forais

D. Manuel I foi um dos reis mais carismáticos da História de Portugal. Durante o seu reinado, estabelecido entre 1495 e 1521, os navegadores portugueses descobririam o caminho marítimo para a Índia, arribariam ao Brasil, e também atingiriam as Molucas no Extremo Oriente. Esboçava-se assim uma primeira pintura daquilo que viria a ser um império grandioso que aglutinaria possessões nos continentes africano, americano e asiático. Seria igualmente no seu tempo que se verificariam as primeiras grandes transformações no âmbito religioso. Em 1496, o monarca português assinaria um decreto que ordenava a expulsão dos judeus e muçulmanos que não se convertessem à fé católica. O cenário de implementação futura da Inquisição em Portugal começava então a ganhar forma. 
Por outro lado, o soberano assumiu um papel notável na promoção da cultura, tendo criado novos planos educativos e bolsas de estudo. No seu tempo, desenvolveram-se diversas áreas, muitas delas inspiradas pelas directrizes do Renascimento, nomeadamente: a cartografia, a matemática, a astronomia, a literatura, o teatro, a música, a pintura, a arquitectura (nasce aqui o "estilo manuelino"), a filosofia, a iluminura, a ourivesaria, etc. 
De facto, no seu tempo, pontificaram notáveis nomes da cultura portuguesa, a saber: Pedro Nunes, Abraão Zacuto, Simão Álvares do Renascimento, Damião de Góis, Sá de Miranda, Garcia da Orta, Bernardim Ribeiro, Garcia de Resende, Gil Vicente, Nuno Gonçalves, Grão Vasco, Duarte Barbosa, Gaspar Correia, Duarte Pacheco Pereira, António Galvão, João de Barros, Tomé Pires, entre outros.
Portugal congregava assim os seus feitos e as novidades provenientes dos Descobrimentos com as tendências artísticas renascentistas em voga. Culturalmente, Portugal entrava assim numa nova era. 
No entanto, os planos de acção de D. Manuel I incluiriam uma visão bem mais alargada, alcançando rapidamente outros sectores. Dentro deste contexto, o Venturoso seria um verdadeiro reformador no panorama administrativo. A primeira reforma (e talvez mesmo a mais importante) a arrancar foi a dos forais. Tal não é de estranhar, visto que, antes de Maio de 1496, já tinha sido criada uma comissão para esse efeito. A 22 de Novembro de 1497, o monarca promulgaria uma carta régia a respeito desta reforma. A mencionada comissão seria então composta por Rui Boto (chanceler-mor), João Fogaça (Desembargador), Fernão de Pina (filho de Rui de Pina, cronista-mor do reino). 
Este empreendimento de grande fôlego prolongar-se-ia por todo o reinado de D. Manuel I. Aliás, Fernão de Pina só abandonaria este trabalho em 1522 para substituir o seu pai no cargo de cronista-mor do reino. 
Esta comissão reunia-se regularmente e tinha por objectivo a modernização e a uniformização dos propósitos inerentes à  administração local. Neste cômputo, encontramos, por exemplo, antigos textos que deveriam sofrer reformulações por três razões que passamos a enunciar: 


1- Em vários documentos medievais encontrávamos referências a diversos sistemas monetários já abandonados e,  por isso, era imperioso proceder às consequentes actualizações. O rei desejava ainda criar um sistema único de pesos e medidas. 

2- Muitos eram os textos elaborados em latim (o que poderia originar más leituras e interpretações), pelo que se exigia a implementação do português vigente naquela época.

3- Vigoravam ainda outros diplomas cujas disposições eram já tão antigas que já não correspondiam à realidade política, económica e social dos finais do século XV. 


Fernão de Pina, figura que assumiria um papel relevante neste processo, iria então colocar mãos à obra. Ele consultaria os documentos que regulavam a vida dos municípios e visitaria a maioria das localidades visadas com a finalidade de ouvir os povos e realizar inquirições. A morosidade do processo levou D. Manuel a dar ordens para que Fernão de Pina não visitasse todos os lugares. O monarca português estaria já algo impaciente até porque estava ansioso por completar esta reforma tão vasta e complexa. Aliás, esta mesma reforma reforçaria o seu poder, visto que os forais novos se transformaram exclusivamente em pautas alfandegárias, perdendo assim o carácter político e diferenciador, base do poder local. 
Até 1520, foram reformados 589 forais e ainda se retiraram diversas informações para muitas terras que não seriam incluídas na reforma dos forais novos. 
Em jeito de análise final, o historiador João Paulo Oliveira Costa, autor de um monografia sobre D. Manuel I, enalteceu a política do Venturoso em relação a este prisma, afirmando que a reforma se pautaria pela adequação dos textos antigos (relativos aos municípios e à legislação em geral) aos tempos modernos. Defende ainda que esta iniciativa se traduziu num claro progresso administrativo, fazendo cessar inúmeras disposições retrógradas que ainda regiam a realidade de variados concelhos desde há alguns séculos para "cá"!
No entanto, a reforma manuelina não gerou opiniões unânimes no seio dos profissionais da história, isto é, encontramos igualmente historiadores que duvidaram da sua eficácia prática. Um desses historiadores é Luís Miguel Duarte, que num artigo intitulado Os "Forais Novos": uma reforma falhada?, detecta muitas deficiências em todo este processo reformador. A partir da análise efectuada aos forais, ele argumenta que os textos diplomáticos, jurídicos e administrativos são muito imperfeitos. Lamenta ainda que se tenham incorporado direitos patrimoniais e obrigações contratuais nos próprios forais,  algo que terá gerado confusão entre direito público e privado. Mas pior ainda no meio disto tudo é que as relações que deviam ser do foro do direito privado, tornaram-se públicas. No seu entender, a reforma dos pesos e medidas foi um total fracasso. Assim, o investigador vianense alega que a tão desejada uniformização não se verificou na prática. Por outro lado, são ainda criticados os forais (sobretudo aqueles que foram atribuídos pela primeira vez a uma localidade) que se resumem apenas a contratos de exploração (temos aqui supostamente os exemplos de Maia e Penafiel) ou a respostas a capítulos especiais dos povos em cortes (caso de Vila do Conde). A visão que Luís Miguel Duarte então nos fornece sobre os forais novos não é a mais positiva, ressalvando que estes deixaram imensos problemas e lacunas  por resolver. Aliás, aquele historiador chega ainda a afirmar que esta reforma em vez de acabar com numerosos e longos litígios, acabou por ter o efeito contrário, isto é, reacenderam-se novas disputas e dúvidas que ficariam à espera das decisões dos tribunais ou das novas inquirições que se viessem a realizar. Na óptica deste erudito vianense, estes documentos seriam também juridicamente toscos, inacabados e contraditórios, embora razoáveis no levantamento dos principais direitos a pagar pelas povoações. 
Por isso, ao apresentarmos duas versões algo contraditórias entre historiadores reputados, chegamos à conclusão de que muito ainda existe para estudar e descobrir em relação à reforma manuelina dos forais novos e ao seu impacto na sociedade daquele tempo.





Imagem nº 1 - Foral Manuelino de Monsaraz, datado de 1512.



Referências Consultadas:


  • COSTA, João Paulo Oliveira – D. Manuel I. Mem Martins: Círculo de Leitores, 2005, pág.133,ISBN:972-42-3440-1 3
  • DUARTE, Luís Miguel – Os “Forais novos”: uma reforma falhada? in Revista Portuguesa de História, tomo 36, vol.I, Coimbra: Universidade de Coimbra, 2002/2003, p. 391-400.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Segredos Históricos do Havai "Medieval"


Descrição Histórica Pós-Descobrimentos

O Havai é um arquipélago que se localiza no meio do Oceano Pacífico, sendo actualmente domínio integrante dos Estados Unidos da América. Geograficamente, o Havai encontra-se completamente distanciado face a qualquer área continental e, por isso, o seu isolamento terá sido natural ao longo de sucessivos milénios. É constituído por oito ilhas principais e numerosos ilhéus, atóis e recifes. Deste grupo, destacam-se, pela sua aceitável dimensão territorial e pela respectiva ocupação populacional, a Grande Ilha do Havai e as ilhas de Maui e Oʻahu. O arquipélago alberga ainda alguns vulcões.
Os europeus avistaram, pela primeira vez, as ilhas no decurso do século XVI, embora sem procederem, desde logo, a uma efectiva colonização e exploração dos lugares citados, talvez desencorajados pela sua localização adversa. Terá sido o caso do navegador espanhol Juan Gaetan que, em 1542, se deparou com o arquipélago, aquando de uma das suas viagens de reconhecimento pelo Oceano Pacífico. Muitos lhe atribuiriam, mais tarde, a “descoberta” do Havai. Por outro lado, também o afamado explorador inglês James Cook desembarcaria naquele território em 18 de janeiro de 1778. Segundo rezam as crónicas, este navegador viria a ser ali assassinado, no ano seguinte, por um grupo de indígenas enfurecidos. 
Efectivamente, o principiar de contactos com os “haole” (palavra havaiana que significa “forasteiros” ou “outsiders”) significou gradualmente o início de uma nova era.
No início do século XIX, mais concretamente em 1810, o arquipélago experimentou o advento de uma monarquia nativa, muito devido ao esforço guerreiro do líder indígena Kamehameha I que se prontificou a unificar todo o arquipélago, combatendo as tribos que ousavam afrontar a sua hegemonia. Para isso, contou com o privilegiado recurso a armas e canhões de origem europeia. Mais tarde, em 1894, o Havai tornar-se-ia ainda numa república independente, embora por pouco tempo, visto que quatro anos depois, em 1898, o arquipélago foi invadido por forças norte-americanas que o submeteriam definitivamente no ano de 1900 (embora o Havai só tenha alcançado o estatuto de estado norte-americano em 1959). Foi a partir daí que, além dos próprios nativos (de origem ancestral polinésia), se instalaram também no arquipélago massas populacionais de ascendência europeia bem como inúmeras vagas de imigrantes asiáticos, consubstanciando um cenário multi-cultural. 
A 7 de Dezembro de 1941, a base naval norte-americana de Pearl Harbor, aí localizada, foi arrasada por um feroz ataque aéreo japonês, facto que ocasionou a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. 
Estes foram então os traços históricos mais importantes do Havai relativos aos últimos séculos. No entanto, este artigo visará em específico o Havai na era dos Pré-Descobrimentos e daqui nascerão certas interrogações - como é que um arquipélago situado no meio do Oceano Pacífico, completamente isolado, já se achava ocupado por tribos? De onde provinham estas? Que práticas sociais e culturais adoptaram? Questões essas que procuraremos responder em seguida. 





Mapa nº 1 - A constituição do Arquipélago do Hawai.
Retirado de: http://www.infoplease.com/atlas/state/hawaii.html  (Magellan Geographix)





Mapa nº 2- O Arquipélago do Havai situa-se na zona central do Oceano Pacífico.
Retirado do Wikipédia




A Lenda dos “Menehune”

A mitologia havaiana remete-nos para a crença de uma presença bastante remota no arquipélago. De acordo com esta sequência de ideias, teria existido uma fixação populacional muito anterior à chegada das primeiras tribos polinésias (estas arribariam ao Havai no final da Antiguidade ou no decurso da Idade Média, isto sob a perspectiva cronológica europeia). 
Dentro deste contexto, é sobejamente conhecida a lenda dos “Menehune”, isto é, de uma pequena comunidade que teria vivido de forma recôndita, durante vários séculos, em florestas densas ou vales escondidos das ilhas do Havai. Aos seus indivíduos, era curiosamente atribuída uma reduzida estatura física, muitas vezes, comparada com situações de nanismo. Os “Menehune” adoravam alimentar-se de bananas bem como de peixe extraído do mar e dos rios. De acordo com a mitologia, privilegiavam o artesanato, mas também teriam sido responsáveis pela criação de templos, casas, ruas, canoas, viveiros de peixes… 
Segundo as narrações lendárias então veiculadas, a chegada das primeiras tribos polinésias teria forçado estes primitivos habitantes a procurarem outros refúgios mais ocultos ou praticamente inacessíveis no arquipélago, de forma a sobreviverem, por mais alguns séculos, ao assédio dos novos colonizadores. 
Num plano mais científico, a verdade é que não houve até hoje qualquer descoberta arqueológica que confirmasse a existência desta remota povoação bem como de qualquer outra que tivesse precedido as vagas migratórias oriundas da Polinésia. Aliás, a própria narração assume uma faceta fantasiosa, o que nos obriga a catalogar os “Menehune” como uma presumível invenção mitológica, talvez até influenciada mais tarde pelo contacto com a própria mitologia europeia.




Imagem nº 1 - A lenda versada sobre a suposta existência dos "Menehune" (então descritos como anões) animou alguns dos debates históricos. 




Os colonizadores da Polinésia

Durante inúmeros milénios, o arquipélago do Havai teria sido um paraíso natural desprovido de qualquer sintoma da presença humana. Praias e recantos florestais de enorme fascínio conservavam uma pureza até então intocável. Ali afluíam diversas aves que desfrutavam da serenidade ali concebida. 
A história só mudará quando um primeiro grupo migratório de indígenas decidiu abandonar as Ilhas Marquesas para se aventurar numa viagem rumo ao desconhecido. Através de canoas ou barquetas de dimensões frágeis, fizeram um percurso de quase quatro mil quilómetros no Oceano Pacífico. A fazer fé nos estudos actuais, estes aventureiros guiavam-se pela observação posicional das estrelas durante a noite e até pelo próprio sobrevoar das aves (se estas fossem observadas nos céus, seria um indício de que estariam próximos de alguma terra). 
Escusado será dizer que muitos terão provavelmente sucumbido à ferocidade das ondas, sobretudo nos dias mais adversos ou tempestuosos. Não obstante, é verdade que pouco ou nada sabemos sobre esta primeira ousada viagem indígena. A título de exemplo, não é possível avançar uma datação concreta (embora existam teorias que iremos expor já de seguida), nem sequer deslindar os motivos que levaram esta corajosa tribo a desafiar um oceano desconhecido. Sabemos sim, pela tradição histórica, que houve, mais tarde, uma segunda vaga migratória (talvez até mais importante), desta feita, oriunda das Ilhas Taiti. Novamente, é de enaltecer o heroísmo dos indígenas polinésios que, através dos seus modestos (ou até medíocres!) meios de navegação, alcançariam novamente o Havai. 
Também não descartamos a possibilidade destas expedições terem sido acidentalmente desviadas pelas tempestades para a zona central do Pacífico, quando os seus navegadores intentavam chegar a outras ilhas ou territórios da Polinésia. No entanto, e como já dissemos anteriormente, desconhecemos as motivações que estiveram por detrás das referidas viagens.
Em relação às cronologias propostas para estes acontecimentos, alguns autores situam as vagas migratórias para o extenso período cronológico situado entre os anos 300 e 800 d. C., porém a ocupação poderá ter sido mais tardia. De acordo com estudos recentes, baseados em experimentações de datação por radiocarbono de alguns artefactos, surgiu a hipótese de que o início da ocupação humana remontaria ao século XIII, mais precisamente aos anos estabelecidos entre 1219 e 1266. 
Independentemente das incontornáveis imprecisões cronológicas, não podemos negar a chegada destes novos colonizadores que logo introduziriam um sistema social semelhante àquele que se verificava nos seus territórios de origem. Desflorar aquele paraíso perdido fora o prémio merecido para quem se atrevera a desafiar quase inconscientemente um Oceano que poderia conceber ondas terríveis e que albergava nas suas águas profundas sérias armadilhas ou predadores temíveis (como por exemplo: tubarões ou baleias).





Imagem nº 2 - Os navegadores polinésios recorriam a largas canoas para encetar as suas viagens mais exigentes.




Características da colonização tribal: aspectos socioeconómicos 

As ilhas do Havai foram ocupadas gradualmente pelas tribos que então haviam instalado o seu domínio. Em breve, e como consequência natural do crescimento populacional verificado nos séculos posteriores, se registariam divergências e divisões entre os indígenas mais influentes. Aliás, é igualmente provável que a tribo proveniente do Taiti tivesse chocado já militarmente com os primeiros colonizadores indígenas, oriundos das Ilhas Marquesas, que ali se tinham instalado previamente.
Dentro deste contexto, as vindouras dinâmicas bélicas do arquipélago poderiam ditar que uma ilha estivesse sob o domínio de uma tribo, bem como também poderia acontecer o contrário – com uma ilha do arquipélago a reunir alguns grupos tribais rivais, sendo cada um destes regido pelo seu próprio chefe. Como é lógico, e apesar de estarmos perante suposições lógicas, a verdade é que escasseiam dados concretos sobre a evolução política e militar no arquipélago do Havai na era das Pré-Descobertas, mas parece-nos ser assertiva a tese da multiplicação demográfica da população, cenário que terá ocasionado o aumento do número de tribos, embora todas elas derivassem de uma matriz cultural polinésia. Aquando do primeiro contacto europeu, crê-se que a população total indígena no arquipélago seria de entre 200 mil a 1 milhão, número certamente bastante superior às centenas (ou poucos milhares) que outrora desembarcaram para abrir o primeiro capítulo da presença humana no Havai.
Exposto isto, iremos agora proceder à elaboração de uma síntese sobre a realidade socioeconómica que acompanhou a instalação e sobrevivência destas tribos durante sucessivos séculos. 
Os novos colonos que então se tornariam nativos das ilhas trouxeram consigo – as suas vestes, algumas plantas típicas da Polinésia e inclusive determinados animais. Fixariam as suas modestas habitações ao longo da costa ou até nos vales mais amplos. Desde cedo, se dedicariam à criação de gado. Sabe-se que domesticavam porcos, galinhas e cães. Além disso, alimentavam-se de bananas, taros, cocos e frutos do mar. Cultivavam batata-doce (curiosamente bastante enraizada na América do Sul) e também se dedicavam naturalmente à pesca. Criaram igualmente viveiros piscatórios junto a estuários e rios, demonstrando sérios conhecimentos na área da aquacultura. Utilizaram ainda canais para garantir a irrigação necessária para o cultivo do taro. 
Naturalmente, a sua chegada provocou um primeiro grande impacto no ecossistema existente. Os novos colonos, acompanhados então com os seus animais (porcos, cães, galinhas e ratos), colocaram em causa o equilíbrio natural, comprometendo a sobrevivência de muitas aves nativas, plantas e inclusive caracóis terrestres de considerável dimensão. 
Em termos de estrutura social, cada tribo viveria num sistema semelhante ao de castas. No topo, estaria naturalmente o seu chefe (“aliʻi”) que assumiria funções de liderança, sendo-lhe creditado algum poder divino (“mana”). Nessa acção de governação, poderia ser coadjuvado por outros chefes de menor importância. Seguiam-se depois os sacerdotes (“kahuna”) que conduziam as cerimónias religiosas de teor politeísta. Estes eram ainda vistos como curandeiros ou adivinhadores do futuro. Na sociedade tribal, também existiam grupos profissionais como carpinteiros, construtores navais, cantores, dançarinos e genealogistas. Os plebeus (“maka'āinana”) dedicavam-se à agricultura, à pesca e aos ofícios simples, tendo de garantir o seu sustento e o das suas próprias famílias, além de abastecer os chefes e os líderes espirituais. Por fim, na base desta pirâmide social tribal, se encontrariam os “kauwā”, isto é, todos aqueles cativos que tivessem quebrado as regras estabelecidas ou que tivessem sido capturados em conflitos então travados. Estes seriam escravizados pelos chefes, podendo ser usados para sacrifícios humanos nos templos. 
Num plano físico, cada aldeia tribal seria composta pelas habitações (“hale”), templos (“heiau”; albergavam ídolos lavrados em pedra ou madeira), residência do chefe tribal (“hale ali’i”; normalmente erguida em pedra), casa do tecelão (“hale ulana”), casa das canoas (“hale waʻa; sítio direccionado para o abrigo de embarcações de pesca bem como de canoas), entre outros espaços.
Por seu turno, a educação visava muito a aquisição das práticas religiosas (as crianças eram, muitas vezes, tuteladas pelos “kahuna”) bem como o culto da força (de forma a preparar os jovens para potenciais combates futuros).
Quanto ao sistema de organização económica, verificava-se um enquadramento parcialmente equiparável ao feudalismo então observado na Europa Medieval. A terra era vista como divina, e por isso, era propriedade dos deuses. Mas os “ali’i”, chefes tribais que reivindicavam conotações supra-naturais, assumiam o papel de gestores dessas terras, controlando assim os “makaʻāinana” (trabalhadores comuns – agricultores). Quando um chefe tribal falecia, havia a possibilidade das terras serem novamente redistribuídas pelo sucessor, e por isso, os exploradores de solo não tinham a sua fixação totalmente garantida ou estabilizada. Também o mesmo aconteceria, caso um líder indígena conquistasse terras a um inimigo, recompensando os seus guerreiros com novas porções de terra. No entanto, também em certas situações teria sido possível que alguns agricultores mantivessem as suas terras, caso prestassem obediência e tributo ao novo chefe. 
Com a multiplicação demográfica, terá ocorrido um desenvolvimento económico nos últimos séculos que antecederam os primeiros contactos europeus. Dentro deste contexto, surgiram novas profissões especializadas – construtores de casas, canoas e moinhos de pedra e até colectores de aves, sendo que estas seriam utilizadas para confeccionar os mantos de penas do “ali’i”. Em períodos de tréguas, passaria a ser possível a concretização de algum tipo de comércio estabelecido então entre as ilhas do vasto arquipélago.





Imagem nº 3 - Antigas habitações havaianas ("Hale")
Retirada de: www.surfingforlife.com




Uma religião politeísta de princípios rígidos

A religião havaiana era transversal aos hábitos, costumes, métodos, leis e formas de viver das tribos ali existentes. O sistema então criado radicava em inúmeros tabus que, durante séculos, foram preservados pelas comunidades indígenas. Em primeiro lugar, um homem e uma mulher não poderiam comer juntos, visto que a presença feminina poderia prejudicar o estado espiritual dos primeiros. Em segundo lugar, a pesca só poderia ser praticada em algumas épocas do ano. A sombra do “ali’i” não poderia ser tocada porque tal atitude seria interpretada como uma tentativa de usurpação do seu “mana” (poder divino).
Os sacrifícios humanos oferecidos aos deuses parecem ter sido uma realidade certa aquando da chegada da segunda vaga migratória proveniente do Taiti. Os chefes taitianos extremaram ainda mais este sistema, conferindo maior rigidez e impondo uma maior observação dos ditames espirituais.
Tal como muitas das civilizações que ainda estavam por descobrir pelos europeus, os havaianos da “Idade Média” professavam uma religião de pendor politeísta, estritamente conotada com as expressões da Natureza. Por exemplo, as forças naturais eram personificadas através dos principais deuses havaianos - Kū (Deus da Guerra), Kāne (Deus da Luz e da Vida), Kanaloa (Deus da Morte), Lono (Deus da Paz). Também eram conhecidas Pele (Deusa do Fogo) e a sua irmã Hiʻiaka (Deusa da Água).
As cerimónias honravam igualmente os momentos mais importantes da vida, nomeadamente o nascimento, a concepção, o atingir da idade adulta e a própria morte, além de ser requerida a intercessão ou bênção dos deuses nos futuros confrontos bélicos.
Como já mencionámos no tópico anterior, os “kahuna”, sacerdotes, assumiam o cumprimento dos serviços religiosos nos “heiau” (templos), onde se achavam diversos ídolos para adoração.




File:Jean-Pierre Norblin de La Gourdaine (after Louis Choris), Temple du Roi dans la baie Tiritatéa (c. 1816, published 1822).jpg

Imagem nº 4 - Um templo havaiano ("heiau") repleto de estatuetas e ídolos. Este situar-se-ia na baía de Tiritatéa e contaria com um patrocínio "régio". Daí ser conhecido como o "Templo do Rei".
Quadro da autoria Jean-Pierre Norblin de La Gourdaine/Louis Choris publicado entre 1816-1822





Imagem nº 5 -  A chegada dos primeiros estrangeiros a Kailua-Kona, uma ilha do Havai.
Retirada da Página do Wikipédia




O Surf como expressão social


Os antigos havaianos partilhavam sentimentos muito semelhantes sobre o seu favorito desporto oceânico, e inclusive cantavam poemas sobre os feitos de surf mais sublimes. Apesar dos surfistas modernos não estarem provavelmente a par desta história, o passatempo aquático do «boardsurfing» foi talvez desfrutado, desde cedo, na Idade Média, embora não seria até ao final da década de 1770 que qualquer «haole» (ou outsider) tivera a oportunidade de observar ao vivo este singular desporto de água havaiano” (in LUERAS, Leonard et LUERAS, Lorca - Surfing Hawaii: The Ultimate Guide to the World's Most Challenging Waves, p. 25-33; é citada aqui em particular a perspectiva de Paul Strauch) 


Os primórdios da existência do surf remetem-nos exactamente para a primitiva Polinésia, onde se verificaram as primeiras demonstrações. Jovens rapazes corajosos e até, por vezes, mulheres se aventuravam irracionalmente num mar em convulsão, enfrentando as perigosas ondas levantadas por poderosas forças da natureza. Os polinésios e os havaianos (estes descendentes dos primeiros) reuniam-se nas suas praias favoritas para assim se divertirem perante um sol radiante e para demonstrarem as suas infindáveis proezas perante as ondas. Muitos desafiavam a sua própria sobrevivência, sobretudo nas marés mais adversas ou tenebrosas. 
No entanto, o surf não era apenas um desporto que reivindicava bravura e adrenalina, mas espelhava igualmente toda uma expressão social. Os espectadores mais entusiásticos que assistiam às competições a partir da costa não se cansavam de aplaudir os aventureiros, não hesitando em organizar festas e até pequenas apostas em torno dos seus heróis ou dos seus “surfistas” favoritos. 
Até a religião chegava a ser envolvida nesta prática desportiva. Os “kahuna”, sacerdotes, poderiam, na qualidade de feiticeiros ou xamãs, rezar para que se reunissem boas condições para o surf. Aliás, os “kahuna” cantariam bem alto aos deuses do mar e chicoteariam as videiras da praia até que se propiciasse a ondulação desejada. De acordo com um estudo arqueológico da autoria de John Francis Gray Stokes (1876-1960), existiria um antigo “heaiu” (templo) na Baía de Kahaluu na costa Kona da Grande Ilha do Havai – este edifício religioso, conhecido como o templo de Kuemanu, destacou-se dos demais por ter sido utilizado particularmente pelos “surfistas indígenas” que aí fariam as suas orações de forma a interceder para que os poderes naturais favorecessem a prática do seu desporto preferido.  
Outro desporto de água que terá sido praticado foi o “choroee”, modalidade em que os havaianos recorreriam a pequenas canoas, remando perante as águas do Oceano. 
Ninguém sabe quem inventou o surf ou quem se lembrou de fazer a primeira prancha de madeira para se aventurar em águas sempre imprevisíveis. Podemos apenas adiantar que as diversas tribos polinésias do Centro e do Sul do Pacífico foram as primeiras grandes dinamizadoras, e até provavelmente as criadoras, mas não se sabe em que território ou ilha nasceu esta prática, visto que os relatos orais não esclarecem este enigma. No Havai, o surf, então uma prática que já provinha do período “medieval”, ganharia uma dimensão emblemática que hoje é confirmada através de eventos de elevado prestígio.
Aquando do contacto oficial por James Cook em 1778, os nativos havaianos já possuíam clubes de surf (“huis”) que eram patrocinados pela realeza, participando assim em provas desportivas. Ou seja, os próprios indígenas tinham dotado o seu desporto predilecto com uma adequada organização. 
Contudo, a afluência europeia ao arquipélago durante o século XIX (embora o Havai conservasse ainda a sua independência) não trouxe boas notícias. Em primeiro lugar, os europeus trouxeram do seu próprio continente várias doenças de elevada ou média gravidade, e por conseguinte, suficientes para causar um drástico decréscimo populacional. Por volta da década de 1880, só existiriam 40 mil indígenas a viver no arquipélago, número que contrasta com as centenas de milhares que chegaram a existir nos séculos anteriores à chegada de James Cook. Por causa de tamanha mortandade, o surf perderia assim vários praticantes. Mas um mal nunca vem só – a maior parte dos missionários cristãos, com práticas conservadoras, não encara com bons olhos este arrojado desporto e tentarão mesmo desencorajá-lo. O Surf vivera assim o seu período mais conturbado no Havai porque as tribos estavam a perder a sua influência tradicional. No entanto, havia uma luz ao fundo do túnel – vários estrangeiros, então curiosos, que afluíam ao arquipélago começaram a sentir fascínio por aquele desporto que acabavam de conhecer e decidiram também praticar ou divulgar esta sua nova "descoberta". Até Mark Twain, célebre escritor norte-americano que esteve no arquipélago por volta da década de 1860, se rendeu àquela prática desportiva, relatando inclusive a sua primeira experiência na modalidade que, apesar de tudo, não lhe correra assim tão bem. 
Mesmo com a realidade crítica verificada durante o século XIX, o Surf sobreviveu ao contacto europeu e à anexação norte-americana (esta verificou-se entre 1898-1900!), e mais do que um desporto mundial, é hoje expressão dos seus antepassados que, para conquistarem outrora a admiração dos seus seguidores e das respectivas "musas" das suas tribos, não pensavam duas vezes em avançar sobre as ondas mais assombrosas. Desejavam eles que as suas proezas fossem registadas em poemas cantados e nas memórias orais dos seus descendentes. E talvez esse facto seja hoje o grande tesouro histórico do Havai. 





Imagem nº 6 - A prática desportiva e social do Surf conhece raízes bastante antigas no Havai.
Ilustração datada de 1873 - Wallis McKay :  




Imagem nº 7 - Os indígenas recorriam a pranchas de madeira para desfrutar do seu desporto oceânico preferido. Foto datada para o ano de 1900 (autor - Frank Davey).




Imagem nº 8 – Memorial sobre o venerado surfista havaiano Eddie Aikau que morreu tragicamente no "alto mar" em 1978, quando procurava auxílio (tentou em vão nadar até ilha mais próxima em busca de ajuda) para os restantes tripulantes que tinham visto o seu barco a ser derrubado por ondas implacáveis.
Foto da autoria de Jeff Divine



Notas-Extra

1- James Cook atribuiu ao Havai a designação de “Ilhas Sandwich” de forma a homenagear um nobre inglês - John Montagu, 4º conde de Sandwich, e na altura, Primeiro Lord do Almirantado da Marinha Real Britânica.
2- Em termos de armamento utilizado pelas antigas tribos nos inúmeros combates, destaque para a presença de armas de mão de madeira, lanças, punhais de madeira, armas cortantes (afiadas com dentes de tubarão), armas de arremesso (com um peso ligado a uma corda), fundas para atirar pedras. Em tempos de tréguas, os guerreiros exercitavam artes marciais, lutas livres, danças e corridas, o que favorecia a sua condição física.
3- Optamos pela designação cronológica medieval, porque interpretamos esta era de acordo com a nossa visão histórica europeia, embora reconheçamos que o caso do Havai tenha assumido as suas próprias vicissitudes, visto que a sua evolução foi radicalmente distinta. Muitas vezes, aconselhamos o leitor a pesquisar pela terminologia (também comum) de "Havai Antigo".



Referências Consultadas: